UM ESTUDO BIBLIOGRÁFICO E ANÁLISE DO FILME UM SONHO DE LIBERDADE  

 

Sabrina Andrade Rocha
Sheila Maria Pereira Fernandes


RESUMO. Esse estudo busca fazer uma revisão bibliográfica sobre o conceito de resiliência na psicologia e observar se é possível identificar essa característica de forma prática por meio do filme “Um sonho de liberdade”, 1994. O filme narra a trágica história de Andy Dufresne que simplesmente vê sua vida, ser modificada para o contexto mais trágico possível. Ele é condenado à prisão perpétua pelo assassinato de sua mulher e do amante em umas das penitenciárias mais temíveis do país. A resiliência é um fator fundamental para o bom desenvolvimento dos indivíduos de forma geral e consequentemente da sociedade. O objetivo desse estudo foi fazer uma revisão bibliográfica sobre o constructo de resiliência e observá-lo de forma prática através da análise do filme “Um sonho de liberdade”. Para a composição desse trabalho foi realizada uma pesquisa bibliográfica, de cunho qualitativo, usando os seguintes descritores: resiliência, psicologia, cinema. Como também a análise de conteúdo do filme. A trajetória do protagonista do filme Andy Dufresne encaixa-se perfeitamente na definição de um indivíduo resiliente. Para Barreira & Nakamura (2006) a resiliência e a auto eficácia operam como meio do indivíduo alcançar uma mais satisfatória qualidade de vida na superação das adversidades. A história do filme “Um sonho de Liberdade” (1994), pode ser considerada uma história de superação de obstáculos morais, físicos e principalmente psicológicos. É um relato de trágicos acontecimentos, no entanto, mais importante que isso é um filme sobre a resiliência humana em situações aparentemente sem esperanças e perspectivas.

Palavras-chave: resiliência, psicologia, cinema.
1. INTRODUÇÃO

Um novo conceito psicológico vem sendo observado em alguns indivíduos na atualidade: a resiliência. Esse conceito ou característica psicológica parece essencial para um desenvolvimento saudável e positivo do sujeito dentro das demandas e situações atuais da sociedade contemporânea. A resiliência é basicamente uma habilidade de vivenciar situações adversas (ou até mesmo trágicas) sem sofrer danos ou alterações, mantendo-se saudável.
 A relação entre o cinema e a psicologia, bem antiga, aliás, pode ser usada para observar o conceito de resiliência na prática, são inúmeros os filmes que retratam essa característica psicológica de forma direta ou indireta, nesse estudo foi escolhido o filme “Um sonho de Liberdade”.
A origem etimológica da palavra resiliência do latim significa voltar, recuar, romper ou encolher-se. Já na origem inglesa, resilient, refere-se à habilidade de uma rápida recuperação ou elasticidade (PINHEIRO, 2004).
O termo, que tem sua origem na física, significa basicamente a capacidade que um material possui de suportar energia de deformação sem deteriorar-se de maneira definitiva. A resiliência na psicologia é definida essencialmente como a habilidade que alguns indivíduos possuem de superar as adversidades da vida (TABOADA, 2006).
Desse modo, indivíduos resilientes possuem como qualidades, as habilidades de dar e receber, dentro das relações humanas, a responsabilidade, disciplina, tolerância ao sofrimento, entre outras várias (BARREIRA & NAKAMURA, 2006 apud ANGST, 2009).
Vigotski escreve em seu livro “A Psicologia da Arte” (1999) que: “a arte está para vida, assim como o vinho está para uva”. Desse modo, esta é capaz de ocasionar transformações no psiquismo do indivíduo, ela provoca ainda uma diferente organização psíquica, que proporciona a cada um a distinção da condição de indivíduo privativo ou exclusivo, a de gênero humano universal (BARROCO, 2014).
A relação entre cinema e resiliência, apesar de poucos estudos científicos a respeito, é bastante íntima, pois existem numerosas histórias no cinema que retratam esse conceito mesmo que indiretamente ou de forma não intencional.
Considera-se então, que o cinema como arte, pode ser um instrumento de mudanças e simbologias para o indivíduo. Podendo dessa forma, ser utilizado na psicologia de maneira positiva e útil na visualização de conceitos psicológicos. Sendo utilizado, portanto, nesse estudo para análise do constructo de resiliência de forma prática, através da análise do filme “Um Sonho de Liberdade”.
Esse estudo busca fazer uma revisão bibliográfica sobre o conceito de resiliência na psicologia e observar se é possível identificar essa característica de forma prática por meio do filme “Um sonho de liberdade”.
O filme narra a trágica história de Andy Dufresne que simplesmente vê sua vida, aparentemente perfeita, ser modificada para o contexto mais trágico possível. Ele é condenado à prisão perpétua pelo assassinato de sua mulher e do amante em umas das penitenciárias mais temíveis do país. Lá, ele sofre uma sucessão de abusos físicos e morais e curiosamente mantém-se, não inabalável, mas aparentemente estável e até esperançoso em meio a todo esse contexto.
O objetivo geral desse estudo é fazer uma revisão bibliográfica sobre o constructo de resiliência e observá-lo de forma prática por meio da análise do filme “Um sonho de liberdade”, 1994.
Nesse sentido, os objetivos específicos são de observar a resiliência presente na trajetória do personagem de Andy Dufresne, na prisão de Shawshank no filme “Um sonho de Liberdade” e correlacionar essa observação com o conceito científico da mesma.  
A justificativa pessoal desse estudo deve-se ao fato de que eu, particularmente, considero a resiliência uma característica essencial para um desenvolvimento saudável do indivíduo e possuo inúmeros familiares e amigos com histórias de resiliência, como também considero a minha. O cinema também é uma área do meu interesse pessoal, sendo verdadeiramente um prazer correlacioná-lo com temas da psicologia.
A justificativa acadêmica se estabelece no fato de que as pesquisas sobre resiliência na psicologia ainda são muito recentes e escassas, principalmente no Brasil. Como também são poucas as pesquisas científicas que exploram o cinema de maneira didática e prática para observar características psicológicas.  
Já a justificativa social, prende-se à questão de que a resiliência é um fator fundamental para o bom desenvolvimento dos indivíduos de forma geral e consequentemente da sociedade.
A hipótese desse estudo é de que a história do personagem de Andy Dufresne na prisão de Shawshank do filme “Um sonho de Liberdade” é marcada por diferentes situações em que está presente o conceito psicológico de resiliência.
Andy Dufresne, sem dúvidas passou por uma situação trágica. Ele que era um adulto jovem, bem sucedido, respeitado e bem casado simplesmente vê sua vida descontruída em todos os aspectos possíveis em apenas um momento. Andy percebe-se condenado por um crime que não cometeu, o assassinato da sua esposa e do amante, e ainda é enviado para cumprir prisão perpétua em uma das mais temíveis penitenciárias existentes.
Na prisão de Shawshank, Andy Dufresne percebe que a situação ainda terá mais agravantes, pois o ambiente é extremamente hostil e ele sofre ataques periodicamente, sendo inclusive, além de espancado, abusado sexualmente.
A vida de Andy tornou-se mais trágica do que ele nunca imaginaria. Mas diante de todos esses acontecimentos terríveis, e mesmo possuindo momentos de desânimo, ele consegue conservar sua essência e personalidade, claro que não intactas, mas de uma forma adaptável para aquele nefasto ambiente (UM SONHO DE LIBERDADE, 1994).
Para a elaboração desse trabalho foi feita uma revisão bibliográfica, de cunho qualitativo, usando os seguintes descritores: resiliência, psicologia, cinema. Além da análise do filme “Um sonho de liberdade” (1994), com o objetivo de visualizar o constructo de resiliência na prática.
Nas pesquisas qualitativas, principalmente nos casos em que não se possui um modelo teórico para análise, é comum observar um movimento entre observações, reflexões e interpretações à proporção que a análise tem andamento (GIL, 2002).
Para a coleta de dados foi realizada uma pesquisa bibliográfica, em que foram utilizados livros, encontrados na biblioteca Martinho Lutero no Iles Ulbra em Itumbiara-GO e também acervo pessoal adquirido para composição desse trabalho. Os artigos foram encontrados em sites como: scielo, pepsic e google acadêmico.
Não foi realizado um recorte temporal nesse estudo, apenas buscou-se encontrar livros e artigos relevantes para responder os objetivos.
Nesse estudo encontrar-se-á uma revisão bibliográfica sobre o conceito de resiliência e a análise do filme “Um sonho de Liberdade”, como também outros temas, sendo: psicologia e arte, a origem do cinema, psicologia e cinema e a resiliência nos filmes.

2. A ORIGEM DO TERMO RESILIÊNCIA

O termo resiliência, amplamente difundido na atualidade é recente e possui suas origens nas ciências exatas, posteriormente sendo adotado pelas ciências humanas e biológicas. Na sociedade contemporânea tornou-se não só uma característica desejável como indispensável para um bom desenvolvimento de um indivíduo ou comunidade.
Um fato vem sendo observado pela ciência: como indivíduos mesmo em um contexto de adversidade e perturbação, podem desenvolver-se de maneira favorável e equilibrar-se com as perspectivas sociais? Diante desse acontecimento nós descobrimos um novo constructo em elaboração: a resiliência. Nas ciências humanas, podemos estabelecer a princípio resiliência como a habilidade que alguns indivíduos possuem de superar as adversidades da vida (TABOADA, 2006).

O termo resiliência tem sua origem na Física e Engenharia, sendo um dos seus precursores o inglês Thomas Young. Nesta área, resiliência é a capacidade de um material para receber uma energia de deformação sem sofrê-la de modo permanente (TABOADA, 2006, p. 105).
Pinheiro (2004) aponta a origem etimológica da palavra resiliência, do latim resiliens que quer dizer saltar para trás, recuar, voltar, ou ainda encolher-se ou romper. Já pela origem inglesa, alude ao conceito de rápida recuperação e elasticidade. Ele formula ainda que a resiliência está implicada em pensamentos relativos à expectativa de sucesso e de ajustamento às normas sociais.
Os trabalhos científicos que abordam resiliência podem ser algumas vezes voltados para seu conceito e outras para a sua prática. Os precursores do termo resiliência na Psicologia são os termos invencibilidade ou invulnerabilidade, ainda bastante referidos na literatura (YUNES, 2003).
Partindo de uma definição em comum (resiliência como a capacidade do indivíduo de recuperar-se de / fazer frente à / lidar positivamente com a adversidade), os conceitos operacionais que versam sobre a resiliência são, quando presentes, distintos (TABOADA, 2006, p. 105).
Existem três diferentes enfoques para considerar a origem do termo resiliência: o médico, o físico e o psicológico. No ponto de vista médico, a resiliência seria a capacidade de um indivíduo de defender-se de uma doença ou infecção e realizar uma intervenção por si próprio ou com auxílio de alguns medicamentos. Já no ponto de vista físico, ela seria a capacidade de resistência de um material à tensão, à pressão e ao choque, capacidade esta que lhe possibilita retornar a sua forma inicial mesmo após ser forçado. No terceiro caso, o que mais nos interessa nesse estudo, a resiliência seria a habilidade de um indivíduo ou grupo, de resistirem a contextos adversos sem abandonar o equilíbrio do início, ou seja, a capacidade de se conformar e se harmonizar continuamente (TAVARES, 2001 apud PINHEIRO, 2004).
O fato é que o termo resiliência vem sendo utilizado cada vez mais e em diferentes contextos e comunidades, sendo considerado um conceito essencialmente importante. A psicologia, como ciência, também busca cada vez mais conhecê-lo e reconhecer sua relevância para um desenvolvimento do indivíduo e da coletividade.

A RESILIÊNCIA COMO CONCEITO PSICOLÓGICO

Percebe-se que a psicologia na contemporaneidade busca além de estudar e verificar demandas psicopatológicas relacionadas aos indivíduos, investigar questões que envolvam o bom desenvolvimento biopsicossocial do sujeito. Procurando assim, entender o que envolve tais processos adaptativos.
Na psicologia, estudos sobre resiliência são moderadamente recentes. Esse conceito vem sendo pesquisado há pelo menos 30 anos, no entanto, só vem sendo discutido em encontros internacionais há cinco anos. As primeiras pesquisas eram principalmente sobre esse constructo encontrado no comportamento de crianças (YUNES, 2003).
No Brasil, os primeiros estudos sobre resiliência foram por volta dos anos 1996 e 1998. Sendo que os primeiros estudos eram relacionados a crianças expostas a situações de risco, fatores de proteção e vulnerabilidade psicossocial e perfil do executivo. Atualmente, esses trabalhos englobam diversas áreas, como: espiritualidade, transtorno do déficit de atenção/ hiperatividade, trabalhadores de chão de fábrica de indústrias montadoras de veículos e autopeças e professores (ANGST, 2009).
Entre os primeiros autores que discutiram o conceito de resiliência, destaca-se Frederic Flach. No ano de 1966, ele afirmou que para que indivíduo seja resiliente ele precisa identificar a adversidade pela qual está sendo submetido, e perceber que se conseguir suporta-la por um período descobrirá sua razão e terá a habilidade de resolver essa questão de maneira positiva (ANGST, 2009).
Segundo Garcia (2001), encontram-se três tipos de resiliência: a emocional, a acadêmica e a social. A emocional é referente às experiências positivas que trazem a percepção de sentimentos de autoestima, autoeficácia e autonomia, dessa forma, preparam o indivíduo para enfrentar transformações e ajustamentos, possuindo um repertório de conhecimento para solucionar dificuldades. A resiliência acadêmica compreende a escola como local no qual as aptidões para solucionar problemas ou questões podem ser assimiladas com o auxílio dos agentes educacionais.  E a social engloba elementos relativos ao sentimento de pertencimento, supervisão de pais e amigos, relacionamentos íntimos, isto é, referências sociais que incentivem a preparação para solucionar problemas. Um aspecto importante sobre o qual a psicologia vem discutindo recentemente é sobre a natureza da resiliência.
Na literatura duas posições são rastreáveis. A primeira considera a resiliência como um fator de personalidade inata. Esta posição foi desenvolvida a partir dos trabalhos de Block & Block (1980, 1996) em que denominam ego-resiliência, um conjunto de características que refletem a independência e a força do caráter, bem como a adaptabilidade da operação em resposta a diferentes circunstâncias ambientais. Consideram que existe traço constitutivo de cada ser humano que pré-existe, antes da exposição a eventos dolorosos e que, desempenham um papel de detecção da personalidade resiliente (PEREZ, 2017, p. 13).
Percebe-se que a resiliência como conceito psicológico pode ser considerada então, um fator de personalidade inato ou ainda um grupo de atributos que refletem a força do sujeito frente a uma situação específica ou ainda na forma de viver de modo geral. Mas existem ainda outras formas de ver a resiliência na psicologia.
Seria a resiliência um componente, uma força, uma característica intrínseca da natureza humana, ou seja, inata, hereditária, constituída pelos nossos genes? Ou seria a resiliência construída socialmente, cabendo ao ambiente estimulá-la e desenvolvê-la? Como se dão as correlações entre os aspectos genéticos e ambientais na formação do indivíduo? “A ênfase em qualquer um dos polos, seja o genético, seja o ambiental, determinará uma tendência que pode ser de extrema importância na questão dos estudos sobre resiliência e sua utilização na definição de políticas públicas”5 (p.42) (TABOADA, 2006, p. 106).
Desse modo, ressalta-se que a resiliência, na psicologia, pode possuir alguns conceitos divergentes, alguns autores acreditam que ela seja uma característica de personalidade inata do indivíduo, enquanto outros autores acreditam que ela seja uma característica que pode desenvolver-se de maneira situacional.
O INDIVÍDUO E A RESILIÊNCIA
Pode-se dizer que uma característica psicológica a ser definida como essencial em um indivíduo na sociedade contemporânea é a resiliência. Essa coletividade tão dinâmica e cheia de modificações, chamada por Bauman (2001) de modernidade líquida, exige também certa agilidade e mais do que isso, reivindica do sujeito uma boa capacidade de adaptação e superação.
A resiliência e a autoeficácia operam como meio do indivíduo alcançar uma mais satisfatória qualidade de vida na superação das adversidades (BARREIRA & NAKAMURA, 2006).
Sendo que para Angst (2009) é essencial compreender ainda que o indivíduo não É resiliente, ele ESTÁ resiliente.   Entender também que a resiliência não é uma proteção absoluta, que representará que nenhuma adversidade afetará o indivíduo, fazendo dele impenetrável a todos os problemas.
Pessoas resilientes apresentam características básicas como: autoestima positiva, habilidades de dar e receber em relações humanas, disciplina, responsabilidade, receptividade, interesse, tolerância ao sofrimento e muitas outras. (BARREIRA & NAKAMURA, 2006 apud ANGST, 2009 p. 255).
De acordo com Flach (1991), o indivíduo resiliente possui a capacidade de reconhecer o sofrimento, verificar seu sentido e suportar isso até conseguir solucionar seus problemas de forma positiva.
A resiliência é ainda, a consequência da elaboração da ligação entre:  mente, corpo e ambiente. Ou seja, a relação conjunta entre os elementos psicológico-social-fisiológico. Quanto a aspectos psicológicos e genéticos, alguns estudos verificaram a relação entre inteligência e a prática de resiliência, e especialmente uma maior inteligência em pessoas resilientes (GJERD, BLOCO & BLOCK, 1986; MOFFITT, & STOUTHAMER-LOEBERS, 1993; TAYLOR, 1994 apud PEREZ, 2017).
O indivíduo atravessa vários acontecimentos em sua vida em que necessita demonstrar a resiliência, no entanto, não podemos dizer que a principal seria em um cenário de doença. Em uma situação de doença, a resiliência é a capacidade do sujeito em lidar com aquela enfermidade e também aceitar as insuficiências que ele possui nesse novo contexto, auxiliando na aceitação do tratamento e recompondo-se de maneira efetiva (BIANCHINI E DELL’AGLIO, 2006 apud ANGST, 2009).
La American Psychological Association (APA, 2004) reconoce los siguientes factores como los más importantes en la afirmación de la resiliencia personal a nivel general: 1. Tener relaciones de amor, cariño, apoyo, amor y confianza, dentro y fuera de la familia, que provean modelos a seguir y que ofrezcan estímulos y seguridad. 2. Capacidad para hacer planes realistas y seguir los pasos necesarios para llevarlos a cabo. 3. Tener una visión positiva de sí mismo y confianza en las propias fortalezas o habilidades. 4. Destreza en la comunicación y en la solución de problemas. 5. Capacidad para manejar sentimientos e impulsos flertes (RODRIGUEZ, 2011, p.27-28).
O método de resiliência abrange não somente o sujeito, deve sim ser considerado em vários contextos como: no convívio do casal, na família, na escola, no trabalho e até em organizações. De forma generalizada é executável dialogar sobre resiliência em vários esquemas (RICHARDSON, 2002 apud PEREZ, 2017).
Nos fatores fisiológicos pode-se afirmar então que nenhuma doença é igual para todos os indivíduos, sendo que ela pode causar comportamentos variados e diferentes em cada um (ANGST, 2009).
Assim sendo, percebe-se que o indivíduo resiliente é, descrevendo de forma sucinta, aquele que consegue manter-se equilibrado ou conservar-se saudável mesmo vivenciando situações de transtorno ou até mesmo calamidade. Ou também, aquele que consegue conservar-se o mais saudável possível em um contexto adverso.
PSICOLOGIA E ARTE
A ligação entre psicologia e arte sem dúvida merece ser aprofundada com atenção e devoção. Afinal, a psicologia como o estudo do comportamento ou da mente humana interessa-se também pela arte que é uma das representações mais íntimas da psique em todas as suas formas.
“A vida imita a arte”, frase atribuída ao filósofo Aristóteles (382-322 a. C), e mais tarde reformulada pelo ilustre escritor Oscar Wilde (1854-1900), “a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida”, é uma preposição útil para justificar o interesse da psicologia pela arte, pois a psicologia investiga o ser humano e também a vida sendo que consequentemente, interessa-se pela Arte. Vigotski elabora em seu livro “A Psicologia da Arte” (1999) que: “a arte está para vida, assim como o vinho está para uva”.
Para Vigotski (1999), a arte está em permanente relação com a realidade objetiva, compreensão que lhe permitia enxergar a potencialidade dessa elaboração humana para aqueles anos iniciais do século XX, nos quais a sociedade marchava para a construção da nova sociedade e de um novo homem comunista, objetivos que deveriam ser alcançados após a Revolução Russa de 1917 (BARROCO, 2014, p. 23).

De acordo com esse entendimento de uma íntima correlação entre a arte e a vida, considerando esta como produto nobre do trabalho humano, o autor desconsidera justificativas místicas e/ou religiosas relacionadas à arte. E afirma ainda que, ela não possui proveniência divina ou de outro gênero que não seja humano. Por esse motivo, os resultados dela só são capazes de serem realizados ou processados no próprio corpo do homem (BARROCO, 2014).
Com base nos mesmos princípios, Vigotski (1999) refuta a concepção da arte como contágio. Esta concepção, encontrada e defendida, por exemplo, por L. Tolstói (1828-1910) considera que a função máxima da arte é a de atingir as pessoas por meio do contágio daquilo que expressa, como, por exemplo, o medo e/ou a alegria (BARROCO, 2014, p. 23).
Baseado no que Tolstói pressupõe, Vigotski (1999) discute que a missão da arte está além do simples contágio, a arte modifica não apenas o humor instantâneo do sujeito, ela também interfere em sentimentos e outras aptidões do ser humano. Para Pablo Neruda (1904-1973), “a poesia tem comunicação secreta com os sofrimentos do homem”, ou seja, ele acredita que a poesia como uma manifestação da arte comunica-se com o íntimo do ser humano.
A arte tem a capacidade de provocar transformações no psiquismo do sujeito, ela ocasiona ainda um diferente arranjo psíquico, que proporciona a cada um a diferenciação da condição de indivíduo singular ou exclusivo, a de gênero humano universal (BARROCO, 2014).
Dessa forma, a arte pode ser percorrida como um resultado cultural, que faz intermédio entre o sujeito e o gênero humano. Isto é, quem produz a arte, nela imprime elaboradas atividades mentais, as quais podem ser apoderadas por outros seres humanos.
Vigotski (1999), então enfatiza a essencialidade de uma intrínseca relação entre a psicologia e arte, pois crê que a arte exterioriza a sociedade e demonstra na obra particularidades psicológicas complexas. E simultaneamente, oportuniza a apropriação dessas singularidades pelos indivíduos restantes.
É possível compreender que a essência social da arte carrega envolta a si a conexão com a psicologia, sendo que a coletividade e toda existência humana é constituída pelo homem nos seus relacionamentos coletivos. Dessa forma, ao se elaborar a arte e ao se apoderar dela, as atribuições psicológicas do indivíduo também são elaboradas e produzidas (BARROCO, 2014).
A associação entre a Arte e a Psicologia não é uma composição recente. Ela é antecedente até mesmo da psicologia como uma disciplina científica e pode-se dizer que na verdade, originalmente a Estética que se abriu para a Psicologia que viria (FRAYZE, 1994).
O desejo do homem de se desenvolver e se completar indica que ele é mais do que um indivíduo. Sente que só pode atingir a plenitude se se apoderar das experiências alheias que potencialmente lhe concernem, que poderiam ser dele. E o que um homem sente como potencialmente seu inclui tudo aquilo de que a humanidade, como um todo, é capaz. A arte é o meio indispensável para essa união do indivíduo como o todo; reflete a infinita capacidade humana para a associação, para a circulação de experiências e ideias (Fischer, 1976, p. 13).
A arte para a psicologia é primordial, pois pode então auxiliar o indivíduo a vivenciar outras realidades que não a dele, como também conhecer outras características e culturas. O sujeito sente-se ainda através da arte como um ser único, no entanto, ele também se constata pertencente a uma unidade que é o gênero humano.
A ORIGEM DO CINEMA
A origem do cinema modifica de forma permanente a história mundial. E traz o que antes era apenas imaginado aos olhos de milhares de pessoas, dessa forma modifica também os indivíduos e a sociedade.
O cinema surge no século XX e inaugura a era de predominância de imagens. Por volta de 1895 aparece, mas ainda não apresentava uma linguagem própria e encontrava-se atrelado a outras linhas culturais. Os projetores de filmes aparecem como mais uma invenção entre as várias do século XIX. Eles eram, inclusive, exibidos nos círculos de cientistas em palestras ilustradas ou exposições, ou ainda misturados com manifestações de diversão popular (MASCARELLO, 1994).
Os primeiros 20 anos, (de 1895 a 1915), do cinema podem ser descritos como uma metamorfose constante. Diferencialmente da imobilidade que particularizou o cinema hollywoodiano clássico, entre os anos de 1915 e 1950 (início da televisão). Esse primeiro cinema presenciou uma sucessão de reorganizações em produção, distribuição e exibição (MASCARELLO, 1994).
Os filmes são uma continuação na tradição das projeções de lanterna mágica, nas quais, já desde o século XVII, um apresentador mostrava ao público imagens coloridas projetadas numa tela, através do foco de luz gerado pela chama de querosene, com acompanhamento de vozes, música e efeitos sonoros. Muitas placas de lanterna mágica possuíam pequenas engrenagens que permitiam movimento nas imagens projetadas. O uso de mais de um foco de luz nas apresentações mais sofisticadas permitia ainda que, com a manipulação dos obturadores, se produzisse o apagar e o surgir de imagens ou sua fusão. O cinema tem sua origem também em práticas de representação visual pictórica, tais como os panoramas e os dioramas, bem como nos "brinquedos ópticos" do século XIX, como o taumatrópio (1825), o fenaquistiscópio (1832) e o zootrópio (1833) (MASCARELLO, 1994, p. 18).
As exibições iniciais de filmes com a utilização de um mecanismo intermitente ocorreram em 1893, quando Thomas A. Edison patenteou nos EUA o seu quinetoscópio. Em 28 de dezembro de 1895, os irmãos Louis e Auguste Lumière, promoveram em Paris a célebre demonstração pública e remunerada de seu cinematógrafo.
O cinema surge então para além de encantar, informar, auxiliar e muitas vezes até incluir uma parcela da sociedade no mundo do imaginário. Realizando assim a função da arte de fazer sentirmo-nos únicos e também parte da pluralidade da humanidade.
CINEMA E PSICOLOGIA
A relação entre cinema e psicologia é ampla e pode-se dizer também que é encantadora e rica. Ela pode ser observada em filmes desde o surgimento de ambos. O cinema versa sobre psicologia desde seus primórdios com várias temáticas desde psicopatologias, um exemplo claro é o filme “Um corpo que cai” (1958) que demonstra uma fobia à altura do personagem principal, até como no caso desse estudo na observação de um conceito psicológico, a resiliência no filme “Um sonho de Liberdade” (1994).
No começo do século XX, dois acontecimentos ocorrem quase que simultaneamente e alteram a história mundial de forma definitiva. Primeiramente, um evento relacionado às artes, a criação do Cinema em 1895, sendo promovida a primeira sessão pelos irmãos Lumière através do cinematógrafo. O segundo acontecimento é a Psicologia, em sua linha experimental de Wilhelm Wundt e com os primeiros delineamentos da psicanálise, feitos Sigmund Freud (CARVALHO, 2015).
Apocryphal or not, the era of film had begun, and this new medium’s impact on behavior seemed ripe for research. Some 20 years after Lumière’s film, a Harvard psychologist named Hugo Munsterberg challenged researchers to figure out the depth of,  and reason for, cinema’s influence: “For the first time the psychologist can observe the starting of an entirely new esthetic development, a new form of true beauty in the turmoil of a technical age, created by its very technique and yet more than any other art destined to overcome outer nature by the free and joyful play of the mind,” Munsterberg wrote in The Photoplay: A Psychological Study, considered by many to be the first important behavioral look at film (JAFFE, 2007, p. 1).
O vínculo entre cinema e psicologia constitui-se como conteúdo de reflexão de vários teóricos, desde o aparecimento do cinematógrafo. O cinema sempre reforçou essa ligação com temáticas relacionadas à psicologia (NOVA, 2009).
O cinema mexeu com o imaginário da sociedade, não foi por uma casualidade que se tornou conhecida a história de uma das primeiras projeções públicas de um filme, por volta de 1895, em que um trem se movimentando na tela, provoca medo na população que assistia ao filme, pois esta causa a impressão de movimento. Com esse exemplo, pode-se pensar sobre um dos objetivos do cinema que é produzir uma ilusão que faz com que os indivíduos vivenciem o filme como algo real.
De acordo com Betton (1987) desde os primórdios do cinema, buscou-se uma representação cada vez mais verídica e integral da realidade. A imagem cinematográfica gera um sentimento de realismo, e é guarnecida de todos os aspectos da realidade.
Uma das particularidades fundamentais da linguagem do cinema é a sua universalidade, que faz com que ele consiga contornar as adversidades relacionadas ao idioma. Segundo Louis Delluc apud Aumont (2012), “O cinema anda por toda parte”, e às vezes nem precisa de traduções.
O cinema manifesta linguagens que possibilitam a movimentação de conhecimentos sob diversas temáticas, de forma transdisciplinar e multicultural. Dessa forma, compõe-se em um objeto essencial de estudo de aspectos relacionados à sociedade. Compreende-se, portanto, que o cinema e a arte de forma geral possuem intenso potencial na elaboração de efeitos no indivíduo, podendo questionar e investigar assuntos dos mais variados campos do saber (MARTINS, 2016).
O cinema adquiriu ainda lugar relevante na investigação dos mais diversos tipos de fenômenos. É certo que ele consegue lidar com concepções de realidade que possibilitam ultrapassar realismos simples, ele abre local para o questionamento de constituições imaginárias incumbidas da formação de processos registrados na cultura.
Um filme é uma criatura muito especial, muito específica, nascida das mesmas vontades antigas que levaram nossos antepassados a narrar uma caçada ao mamute nas paredes das cavernas de Lascaux ou criar miniaturas com cenas das vidas dos santos. Num filme está um impulso ao mesmo tempo mais primitivo que o da leitura e mais tecnologicamente sofisticado que o do teatro (BAHIANA, 2012, P.16).
Pode-se dizer que o cinema faz-se simultaneamente um professor e intérprete de diferentes realidades ou contextos e supera a desigualdade inflexível entre o procedimento de indagação e o método de criação dos fenômenos culturais (MARTINS, 2016).
O filósofo e psicanalista Slavoj Zizek é atualmente um dos maiores defensores do uso do cinema como ferramenta privilegiada de investigação e campo de análise dos mais variados processos inscritos na cultura, como também produz críticas aos modos de produzi-la e às respectivas manifestações ideológicas: “Você pode detectar o que se passa no nível mais profundo, o mais radical de nossas identidades simbólicas e como nós nos experimentamos a nós mesmos. Cinema ainda é a maneira mais fácil, assim como eram os sonhos para Freud, de encontrar o caminho real para o inconsciente” (MARTINS, 2016, p. 56).
De acordo com Niemiec (2012), filmes ultrapassam todas as questões culturais relacionadas à religião, linguagem, processos relacionados à crença e até mesmo limites geográficos.
 Assim, pode-se afirmar que a linguagem é a nossa maneira de comunicar ideias e emoções, sendo que ela possui certos símbolos, normas e traços que lhe atribuem um sentido. Normas parecidas com as da linguagem são encontradas no cinema, porém sem a restrição a uma nação ou população. Os filmes estão além de uma representação da coletividade, eles nos instruem sobre nossa humanidade (NIEMIEC, 2012).
O cinema, portanto, melhor do que qualquer outro meio de comunicação como arte possui a capacidade de simbolizar as especificidades da psique humana. Reproduzindo assim, emoções, pensamentos, razões, instintos e seus respectivos impactos no comportamento.
2.6 A RESILIÊNCIA NOS FILMES
Sem dúvida há relação entre cinema e resiliência, apesar de poucos estudos científicos a respeito. Cabe ressaltar que é bastante íntima essa referência, pois existem numerosos filmes que retratam esse conceito mesmo que indiretamente ou de forma não intencional.
Filmes relacionados a temas como: superação, desafios, lutas ou a denominada “volta por cima” são comuns e costumam encantar e atrair o público. Talvez toda essa atenção seja devido à possibilidade de o espectador extrair para si alguns desses conceitos relacionados à resiliência, que inúmeras vezes se fazem necessário no nosso cotidiano.
É importante retomar o conceito de resiliência para verificar de fato, se ela está presente nessas narrativas. A resiliência, retratada de maneira sucinta, é a habilidade que alguns indivíduos possuem de superar as adversidades da vida (TABOADA, 2006).
Podemos enumerar facilmente filmes com histórias relacionadas à resiliência, desde os primórdios do cinema como é o caso de “Viver” (1952) e outras histórias contemporâneas como “O lado bom da vida” (2012).
Observa-se também que as narrativas cinematográficas, que possuem algum conceito de resiliência, geralmente concentram-se em um personagem específico e segue sua trajetória diante de obstáculos e adversidades. Um exemplo claro disso seria o filme “Forrest Gump”, 1994. Esse filme inclusive é do mesmo ano que o filme principal mencionado nesse trabalho: “Um sonho de Liberdade”.
Nesses dois filmes é nítida a trajetória de adversidades dos personagens principais e também visíveis traços de resiliência nas personalidades tanto de “Forrest Gump”, quanto do protagonista de “Um sonho de liberdade”, Andy Dufresne.
Considera-se então, que o cinema pode ser um instrumento de mudanças e simbologias para o indivíduo. Podendo dessa forma, ser utilizado na psicologia de maneira positiva e útil na visualização de conceitos psicológicos. Ele pode ainda ser utilizado como um meio de intervenção e promover alguma mudança nos comportamentos do indivíduo.
3. SINOPSE DO FILME
No ano de 1946, Andy Dufresne era um próspero e jovem banqueiro, que vê sua vida drasticamente transformada após ser condenado por um crime que não cometeu, o assassinato de sua mulher e do amante. Ele é então enviado para a prisão Estadual de Shawshank, que é considerada temível para qualquer detento. Nessa penitenciária, Andy irá cumprir uma sentença de prisão perpétua. Lá ele conhece figuras bastante controversas, como Warden Norton um agente penitenciário desonesto e desumano que se utiliza da bíblia como instrumento de controle e também o Capitão Byron Hadley que faz questão de tratar os internos da pior maneira possível. Andy conhece ainda Ellis Boyd Redding, um preso com mais de 20 anos na penitenciária e que possui um sistema de mercado negro em Shawshank, que se torna praticamente seu único amigo nesse ambiente tão hostil e sem perspectivas (ADOROCINEMA, 2018).
O filme "Um sonho de liberdade" é baseado no livro de Stephen King "Rita Hayworth and the Shawshank redemption" (O GLOBO, 2018).
3.1 O AUTOR
O autor norte-americano, Stephen Edwin King, nasceu em Portland, em 21 de setembro de 1947. Quando criança gostava de ler quadrinhos de terror e suspense, circunstância que alimentou seu afeto pelo gênero e o estabeleceu como um dos autores mais significativos nessa categoria (STEPHEN KING, 2018).
Mesmo que suas habilidades destaquem-se no gênero do terror/suspense, King é autor de alguns trabalhos bastante renomados em outros estilos de literatura, que ganharam maior destaque ainda ao tornarem-se filmes como: “Conta Comigo”, “Um Sonho de Liberdade” (obras extraídas do livro “As quatro Estações”), “Christine”, “Lembranças de um Verão” e “À Espera de um Milagre” (STEPHEN KING, 2018).
A série da FOX, “The Dead Zone”, foi originada a partir de seu livro com o mesmo título. O autor também já redigiu roteiros para algumas séries como a célebre, Arquivo X. Quando criança, por ser um leitor assíduo de quadrinhos de terror e suspense, já formulava os seus próprios trabalhos baseados em filmes e os transcrevia com o auxílio do irmão David. Ele vendia suas histórias aos amigos, porém, devido à reprovação desse comportamento pelos professores, teve que parar.
King cursou Inglês na Universidade do Maine, dos anos de 1966 a 1971. Lá era autor de uma coluna no jornal estudantil chamada "King's Garbage Truck". Conheceu sua esposa Tabitha Spruce na universidade e se casaram em 1971.
Quando começou a escrever romances, uma das suas ideias iniciais foi sobre uma jovem que possuía poderes psíquicos, mas depois ele desconsiderou o projeto. Sua mulher recuperou esses manuscritos do lixo e o estimulou a retomar a ideia. Depois de recuperar o romance e terminá-lo, King o nomeou de “Carrie” e enviou a Doubleday.  Recebeu apenas dois mil e quinhentos dólares antecipados, sendo pouco até mesmo para aquela época, no entanto subsequentemente recebeu mais de 200 mil dólares em direitos autorais. Seu livro foi publicado apenas um pouco antes de sua mãe falecer devido a um câncer no útero, no entanto, o livro foi lido para ela por sua tia Emrine. Durante esse período, ele teve graves problemas relacionados a álcool, sendo alcoólatra por mais de dez anos. Mais tarde ele admitiu que apoiou a construção do protagonista do livro “O Iluminado”, Jack Torrance, em si mesmo. Em meados dos anos 80, após receber auxílio de sua família e amigos, ele conseguiu superar os problemas com álcool e outros tipos de drogas (STEPHEN KING, 2018).
No ano de 1999, o autor sofreu um grave acidente. Ele foi atropelado por um condutor distraído, enquanto caminhava próximo a sua casa no Estado do Maine. Teve fraturas múltiplas e traumatismo craniano, após três cirurgias e alguns meses depois ele se recuperou bem.
Os livros de Stephen King já venderam quase 400 milhões de cópias e foram publicados em mais de 40 países. Grande parte de seus livros foram adaptadas ao cinema e ele é atualmente um dos escritores mais traduzidos mundialmente (STEPHEN KING, 2018).
3.2 A RESILIÊNCIA PRESENTE NO PERSONAGEM ANDY DUFRESNE
O filme “Um sonho de liberdade” encaixa-se na categoria de filmes denominados como drama. No entanto, ele ultrapassa essa classificação e conta uma história que versa também sobre esperança, amizade e principalmente sobre resiliência (UM SONHO DE LIBERDADE, 1994).
Retomando o conceito de resiliência na psicologia, ela é basicamente a capacidade que um indivíduo possui de ultrapassar uma situação adversa sem sofrer maiores danos ou prejuízos, pode ser ainda a habilidade de conseguir reconstituir-se após um acontecimento trágico ou grave (TABOADA, 2006).
O protagonista do filme “Um sonho de liberdade”, Andy Dufresne sem dúvidas passou por uma situação trágica. Ele que era um adulto jovem, bem sucedido, respeitado e bem casado simplesmente vê sua vida descontruída em todos os aspectos possíveis em apenas um momento. Andy percebe-se condenado por um crime que não cometeu, o assassinato da sua esposa e do amante e ainda é enviado para cumprir prisão perpétua em uma das mais temíveis penitenciárias existentes (UM SONHO DE LIBERDADE, 1994).
Na prisão de Shawshank, Andy Dufresne percebe que a situação ainda terá mais agravantes, pois o ambiente além de extremamente hostil conta com a direção de Warden Norton, um homem no mínimo cruel, que costuma controlar os internos com o uso da Bíblia e desenvolve uma preferência por humilhar e subjugar Andy. Ele também sofre ataques por parte de presos, sendo inclusive, além de espancado, abusado sexualmente.
A vida de Andy tornou-se mais trágica do que ele nunca imaginaria. Mas diante de todos esses acontecimentos terríveis, e mesmo possuindo momentos de desânimo, ele consegue conservar sua essência e personalidade, claro que não intactas, mas de uma forma adaptável para aquele nefasto ambiente (UM SONHO DE LIBERDADE, 1994).
Dufresne encaixa-se perfeitamente na definição de um indivíduo resiliente. Para Barreira & Nakamura (2006) a resiliência e a autoeficácia operam como meio do indivíduo alcançar uma mais satisfatória qualidade de vida na superação das adversidades. É essencial observar que a resiliência não é uma proteção absoluta, que representará que nenhuma adversidade afetará o indivíduo, fazendo dela impenetrável a todos os problemas. No entanto, ela é uma forma de manter-se da melhor maneira possível mesmo dentro da pior situação imaginável.
Observa-se ainda fatores que proporcionaram uma melhor resiliência do personagem como a amizade com o personagem Ellis e a esperança que Andy disse sempre cultivar dentro de si, apesar das adversidades.
UMA HISTÓRIA DE SUPERAÇÃO
Durante quase 20 anos que passou em Shawshank, Andy sofreu abusos sexuais e agressões, intercalados com muitas idas para a solitária e injustiças por meio dos guardas e da direção do presídio. Não podemos dizer que ele se manteve inabalável, no entanto, dentro daquela terrível situação ele conseguiu conservar-se da melhor maneira possível, é essa característica psicológica que chamamos de resiliência.
Quando dizemos que ele conservou-se da melhor maneira possível, podemos visualizar a forma como ele lidava com os outros presos, fazendo amizade (algumas bem duradouras, como no caso de Ellis) e sempre oferecendo ajuda, mesmo possuindo uma personalidade mais introspectiva. Além disso, Andy auxiliou muitos guardas da penitenciária com assuntos relacionados a imposto de renda e investimentos, podendo assim fazer bons relacionamentos com eles e evitando manter-se ocioso. Assessorou também o diretor da prisão com suas finanças, muitas vezes ilícitas. Ele ainda mandava cartas periodicamente para o congresso requisitando verbas para a biblioteca prisional, que acabou por reconstruir totalmente ao receber uma boa quantidade de doações de livros (UM SONHO DE LIBERDADE, 1994).
Em certo momento do filme, tem-se ainda a confirmação da inocência do personagem principal por meio do relato de um outro preso, ou seja, Andy realmente foi preso e passou por toda essa situação de violência e abuso sem ter cometido nenhum crime. Ao relatar o fato para o diretor do presídio ele é jogado na solitária e o preso que testemunhou a confissão do real assassino é morto a tiros por um guarda (UM SONHO DE LIBERDADE, 1994).
Em meio a todo esse cenário, em um momento no qual Andy parece realmente ter se abatido, devido a todas aquelas circunstâncias trágicas e injustas, descobre-se que ele conseguiu fugir da cadeia (com um plano de quase 20 anos) e “fazer justiça” denunciando todos os abusos e práticas ilegais realizadas pelo diretor e os guardas de Shawshank. Uma reviravolta que remete à história do livro “O Conde de Monte Cristo” (1845) que foi adicionado à biblioteca da prisão por ele mesmo.
A história do filme “Um sonho de Liberdade” (1994), pode ser considerada uma história de superação de obstáculos morais, físicos e principalmente psicológicos. É um relato de trágicos acontecimentos, no entanto, mais importante que isso é um filme sobre a resiliência humana em situações aparentemente sem esperanças e perspectivas.
Podemos, portanto, por meio da análise desse filme, realizar o objetivo desse trabalho de observar o constructo psicológico de resiliência de forma prática.
Foi possível observar que a resiliência é um conceito psicológico essencial para um bom desenvolvimento do indivíduo em todos os aspectos de sua vida, contribuindo até mesmo para a sua sobrevivência em situações extremas. A resiliência do personagem Andy Dufresne o “salvou” de todas as tragédias que ele viveu e lhe permitiu assim recomeçar.
4.  METODOLOGIA
Para a elaboração desse trabalho foi realizada uma revisão bibliográfica, de cunho qualitativo, usando os seguintes descritores: resiliência, psicologia, cinema. Além da análise do filme “Um sonho de liberdade” (1994), com o objetivo de visualizar o constructo de resiliência na prática. Não foi realizado corte temporal nesse estudo, apenas buscou-se encontrar livros e artigos que respondessem o objetivo do trabalho.
Nas pesquisas qualitativas, principalmente nos casos em que não se possui um modelo teórico para analise, é comum observar um movimento entre observações, reflexões e interpretações à proporção que a análise tem andamento (GIL, 2002).
Para a coleta de dados foi realizada uma pesquisa bibliográfica, em que foram utilizados livros, encontrados na biblioteca Martinho Lutero no Iles Ulbra em Itumbiara-GO e também no acervo pessoal adquirido para composição desse trabalho. Os artigos foram encontrados em sites como: scielo, pepsic e google acadêmico.
Uma pesquisa bibliográfica é elaborada a partir de um conteúdo já formulado, que se constitui essencialmente de livros e artigos científicos. Algumas pesquisas que sugerem a análise de vários posicionamentos através de uma questão costumam ser desenvolvidas quase que inteiramente por meio de origens bibliográficas (GIL, 2002).
Houve certa dificuldade em encontrar artigos e livros científicos sobre os temas de resiliência e cinema. Sendo que a grande maioria do material encontrado não correlacionava os dois assuntos.  
Dessa forma, foi feita uma pesquisa bibliográfica primeiramente sobre o constructo de resiliência, em seguida sobre questões relacionadas à psicologia/arte e psicologia/cinema e posteriormente foi elaborada uma ligação entre esses através da análise do filme “Um sonho de Liberdade”.
A análise de um filme trata-se, antes de mais nada de um exercício que decompõe elementos.  Posteriormente, depois do reconhecimento dos elementos é preciso descobrir a articulação entre eles. Ou seja, realizar uma reestruturação para observar como estes foram combinados em um filme especificamente. Não é uma questão de reconstruir um outro filme, apenas retornar ao filme, tendo em vista a conexão entre os elementos. Portanto, o filme é o início de sua decomposição e também o estágio final na reconstrução do filme (PENAFRIA, 2009).
Penafria (2009) apresenta algumas formas de realizar as análises de filmes, entre elas a análise textual, a análise de conteúdo e analise poética. Nesse trabalho foi utilizada a análise de conteúdo.
No caso do filme “Um sonho de Liberdade” (1994), foi feita uma análise de conteúdo com a finalidade de observar o constructo de resiliência.
A análise de conteúdo observa o filme como um relato e considera principalmente a temática do filme. Utilizando esse tipo de análise, em um primeiro momento identifica-se no filme sua temática, na sequência elabora-se um resumo da sua narrativa e por último a desconstrução do filme considerando o que ele versa sobre seu conteúdo (PENAFRIA, 2009).
Dessa forma, foi elaborada a análise do filme em forma de decomposição de sua história, visando observar a principal temática do filme “Um sonho de Liberdade”, que seria a trajetória de superação, esperança e principalmente de resiliência como proposto nesse estudo.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao decorrer desse estudo, foi possível conhecer o conceito psicológico de resiliência de forma bem ampla, fazendo algumas correlações sobre o indivíduo e a resiliência. Foi também elaborada uma analogia desse conceito com relação ao filme “Um sonho de liberdade”, 1994. Essa característica psicológica pode-se dizer até mesmo, constructo de personalidade, é um fator essencial para um bom progresso do sujeito na sociedade contemporânea e dessa maneira uma existência mais feliz e prazerosa.
Foi realizada nesse trabalho, uma pesquisa bibliográfica sobre o conceito de resiliência e a análise do filme “Um sonho de Liberdade”, como também outros temas, sendo: psicologia e arte, a origem do cinema, psicologia e cinema e a resiliência nos filmes. Foi elaborada ainda, uma ligação entre esses temas através da análise do filme.
Dessa forma, o objetivo geral desse estudo foi fazer uma revisão bibliográfica sobre o constructo de resiliência e observá-lo de forma prática através da análise do filme “Um sonho de liberdade”, 1994. Esse objetivo foi concluso com êxito, no entanto, como a resiliência é um conceito de certo modo recente na psicologia, propõem-se que sejam feitos mais estudos nessa área.
Nesse sentido, os objetivos específicos de observar a resiliência presente na trajetória do personagem de Andy Dufresne na prisão de Shawshank no filme “Um sonho de Liberdade” e correlacionar essa observação com o conceito científico da mesma, também foram concluídos dentro do trabalho.
A ligação entre cinema e psicologia é extremamente rica, e deve ser explorada de maneira ampla, principalmente na formação do graduando em psicologia. Através dela, é possível visualizar mais claramente tanto conceitos psicopatológicos, em filmes como: “Um Estranho no Ninho” (1976), “Cisne Negro” (2010), “Sybil” (1976); quanto conceitos psicológicos saudáveis, como é o caso desse trabalho que versou sobre a resiliência no filme “Um sonho de liberdade”, 1994.
Sugere-se ainda, que sejam feitos mais estudos sobre o constructo de resiliência e sua relação ao cinema, para que sejam realizadas cada vez mais elucidações e esclarecimentos, como também sejam levantados questionamentos nesse sentido. Cabe aqui salientar que houve certa dificuldade em encontrar artigos e livros que fizessem essa correspondência, mesmo existindo uma grande quantidade de filmes que abranjam essa temática de forma direta ou indireta.
6. REFERÊNCIAS
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