* Artigo escrito e publicado em 2018.

O sistema político nas democracias presidencialistas é algo demasiado complexo. Tão complexo que uma minoria de eleitores se preocupa em ler os reais programas de governo dos candidatos ao posto máximo da nação, visto que se dá mais valor ao contato direto dos pretendentes com a população a um calhamaço de papel em que nem tudo o que está positivado será cumprido. Portanto, a estabilidade do vencedor no cargo é, em tese, garantia nos 04 anos seguintes à primeira eleição, independentemente de ele ter dito – ou omitido – determinadas propostas estritamente polêmicas (pois, no presidencialismo, mentira e omissão durante a eleição não são causa de impeachment, ao contrário dos crimes de responsabilidade, cometidos no exercício do cargo). Foi assim com Fernando Collor, que durante a campanha de 1989 omitiu que, se chegasse à Presidência da República, bloquearia os ativos da população depositados nos bancos. E parece ser o que ocorre com Jair Bolsonaro em relação ao, para nós distante, conflito árabe-israelense. Faço tal afirmação porque, depois de eleito, Bolsonaro anunciou que vai transferir nossa embaixada em Israel de Tel Aviv para a cidade sagrada de Jerusalém, ocupada pelos israelenses em seu lado ocidental desde o final da Guerra de Independência do Estado judeu (o Plano de Partilha da Palestina, de 1947, inicialmente previa Jerusalém sob controle internacional). Quanto ao lado oriental, foi anexado por Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967, completando, assim, a tomada da cidade em sua totalidade. Dita transferência, portanto, significa reconhecer a soberania indiscutível de Israel sobre toda a Jerusalém, que também é reivindicada, ao menos na porção Leste, pelos palestinos mais moderados. Entende-se o motivo de tamanha atitude. Na crise econômica gravíssima pela qual passa o Brasil, Bolsonaro espera atrair grandes investimentos dos judeus ortodoxos e sionistas mais radicais, como fazem os EUA, que têm uma economia em boa parte sustentada por eles. Para tanto, desafia os árabes (especialmente os palestinos), que, também, são nossos parceiros comerciais históricos. A pergunta que vem à lume é: vale a pena nos metermos naquele vespeiro? Não creio. Em primeiro lugar, cabe afirmar que o diplomata brasileiro Oswaldo Aranha foi o presidente da Primeira Assembléia-Geral Especial das Nações Unidas e da Segunda Assembléia-Geral Ordinária, ambas determinadoras das condições expressas no Plano de Partilha da Palestina, em 1947. Por dita condição, ele foi o principal fiador, entre as grandes potências, da criação do Estado de Israel, em 1948 (tanto que em Tel Aviv existe uma praça com o seu nome, homenageando-o). O Brasil, naquela ocasião e em virtude de tanto, assumiu papel fundamental, em consonância com os interesses judaicos ortodoxos e sionistas, na criação do Estado judeu no Oriente Médio, sendo um dos poucos casos em que não assumimos postura diplomática de neutralidade durante o século XX. Mas, naquela ocasião, ainda não havia a ameaça terrorista a países que, até então, não fossem potências mundiais e não mantivessem a neutralidade, como era o nosso caso. Ocorre que, em meados da década de 1960, a reação palestina autônoma – e não com o apoio de outros povos árabes - contra Israel começa a se intensificar, principalmente com a criação da OLP (Organização para a Libertação da Palestina). Entidade vista pelas grandes potências como terrorista, a OLP pretendia a destruição do Estado de Israel. Percebendo tal fato, o governo militar brasileiro do presidente Ernesto Geisel a reconhece, em 1975, como “representante legítima do povo palestino” (da mesma forma que a própria OLP se autodenominava), fazendo nosso país retornar ao centro do espectro político na presente questão (ou seja, se o Brasil foi preponderante na criação de Israel, e, em uma reação própria visando o equilíbrio, faz tal reconhecimento à OLP, houve a volta à neutralidade). Afinal, naquele momento já havia a ameaça terrorista rondando todos os países mais relevantes do mundo que até então apoiassem Israel contra os interesses palestinos, a exemplo do Brasil, em dita ocasião uma herdada potência emergente (embora o "Milagre Econômico Brasileiro" já tenha então cessado). Da mesma forma, apesar de, em seu governo, o ex-presidente Lula ter estado flagrantemente voltado à causa palestina, o fantasma do terror pode nos rondar novamente, e é isso o que Bolsonaro não entende. Parece que, por ser militar e, durante sua carreira, não ter tido uma guerra externa para lutar, está agora, ainda que inconscientemente, procurando-a com a transferência da embaixada para Jerusalém. No mais, desejo sorte ao futuro presidente, eis que não sou espírito de porco para querer que o governo seja um desastre só porque não votei nele (como o é a maior parte da extrema-esquerda, e como seria a extrema-direita se fosse um esquerdista a vencer a eleição). Todos estamos no mesmo barco, inclusive em relação à política externa, na qual, antes mesmo de ascender ao poder, Bolsonaro já começou verbalmente errando, mas cuja oportunidade de correção ainda é latente quando assumir a Presidência da República. É o que eu, profundamente, quero para ele e o Brasil. P.S. Apóio a criação do Estado Palestino na parte oriental de Jerusalém, na Cisjordânia e na Faixa de Gaza (e Israel tem, sim, o direito de existir), ou, de preferência, de um Estado binacional, no qual israelenses e palestinos venham a viver lado a lado e, finalmente, em paz