JOSÉ RIBEIRO DOS SANTOS[1] 

A morte sempre foi um desafio ao homem, algo que ele gostaria de ter vencido, porém, como faz parte do ciclo vital torna-se impossível evita-la. Sabe se que a morte é direito do homem. “O morrer pertence à vida, assim como o nascer. Para andar, primeiro levantamos o pé e, depois, o baixamos ao chão [...] Algum dia saberemos que a morte não pode roubar nada do que nossa alma tiver conquistado, porque suas conquistas se identificam com a própria vida”, assim se expressou o poeta indiano Tagore, ao incorporar a morte como parte integrante da vida e não como ‘intrusa indesejável’. Partindo da noção de ‘dilema’ como ‘situação embaraçosa com duas ou mais saídas difíceis ou penosas, está implícita nesse conceito a ‘angústia’ do antagonismo entre a possibilidade de escolha e a ‘impotência’; qual será a sua escolha? Não há vida sem morte, e aí temos questões centrais, quais sejam, a da ‘finitude’ e a da ‘transitoriedade da existência’. Inevitavelmente, cada vida humana chega a seu ‘final’. A morte representa para vocês humanos, algo sombrio, temido, pavoroso, é um medo universal. Em geral, vocês seres humanos não sabem lidar com a morte.

 Ser fria e calculista não é nada fácil sou eu! A morte. Embora eu seja o oposto da vida, poucas pessoas sabem que eu não as mato por que quero e sim, porque fui designada para isso. Assim como você, que esta sempre correndo,trabalhando, se divertindo. O meu trabalho é este, matar. Um serviço interminável cansativo, estressante, sem contar que tenho que prestar contas dos números de vítimas de dia e noite, e quando não alcanço a meta sou severamente punida. 

Eu sou alta, esbelta, magra, atraente, inteligente, olhos de um amarelo penetrante e ao contrario do que muitos pensam, eu não uso foice para mata-los e sim uma grande faca de dois gumes cortante bem afiada. 

        Não conheço o medo, sou astuta, ousada, invencível e a mais corajosa das mortes, mas um dia aconteceu algo terrível e tive que me esconder pra não morrer! Fugir para as montanhas rochosas. – o que aconteceu? – eu estava fugindo e pior com muito medo!!! –Ah eu preciso de ajuda e você tem que me ajudar. 

Veja: Eu estava a caminho da casa da minha penúltima vítima naquele dia, uma linda jovem de 18anos, alta, magra cabelos negros longos caracolados, seu rosto brilhava como as flores de uma manhã de primavera, olhos azuis como os céus, o sorriso espontâneo como entardecer do sol. Era natal, 25 de dezembro de 2002. 

Fui convidada para as festas e batucada. Enquanto todos bebiam, se divertiam, com amigos e familiares esta linda jovem radiante fazia planos para o futuro: formar, casar, ter filhos, casa, carro...!!! –Tão linda tão jovem! Quantas coisas ainda por fazer. Mal sabia ela que nesta mesma noite eu interromperia com todos os seus sonhos, eu a matarei. Levaria sua alma comigo esta noite. 

        Bem como todos sabem, existe sempre uma desculpa para a morte. Apreciei minha presa, (linda jovem), face angelical, mas não podia passar daquela noite, ela deveria morrer, eu confesso que por uma fração de segundo pensei em fraquejar, para vê-la em breve. Talvez a levasse quando tivesse realizado algum dos seus inúmeros sonhos entendem? Mas não sou eu que decide quem morre e quem vive. Eu sou apenas e tão somente um instrumento para tal, não tenho poder de decisão, talvez você não acredite, mas eu sou tão limitada quanto você. 

Eu sou a morte número 05 e acredite cedo ou tarde você irá me conhecer. Pois bem! Ainda naquela noite de Natal, observando a minha vítima em quanto às horas, os minutos os segundos os milésimos de segundos foram passando e eu cai em um dilema ético: por que levá-la? E porque não levá-la? Devo ou não devo leva-la? E se devo como e quando leva-la? 

Continuei esperando, esperando para ver o que iria acontecer... Esperando um pouco mais... Talvez a espera de um milagre! Já estava tudo traçado, não podia mudar, você entende? Eu não faço as regras, droga. Apenas as cumpro ordens, você sabia que eu tenho que prestar contas a um ser maior que eu? E era a vez dela. Isso deveria ser normal e corriqueiro para nós [as mortes]. 

  Foi então que chegou a grande hora! E quando chega à hora, nem mesmo eu posso adiar. Cravei minha grande faca de dois gumes penetrantes em seu delicado corpinho que penetrou em suas carnes com facilidade, atingindo em cheio o seu sistema nervoso central, em seu cérebro parte dele instalou de imediato um coagulo com o rompimento de uns vasos importantes. Com muita dor ela gritava, e lutava conta me. –Ah! Meu Deus, por favor, eu não quero morrer, ajude-me, não deixe morrer, por favor. 

- veja só ela não queria descer à sepultura, ela não queria morrer, não estava aceitando a morte. Com os olhos banhados de lagrimas, a linda jovem, implorava, suplicava, gemia...- tarde de + e diante de sua agonia, um grupo de jovens na tentativa de anima - lá falou: “não se preocupe jovem, a morte não existe”. 

O que? A morte não existe? Como assim eu não existo? EI!!!. Eu estou aqui e bem viva se quer saber. E disse mais, que as pessoas são apenas transportadas para outra dimensão e que elas continuam vivas! Ela apenas iria para outra dimensão juntar-se aos outro ente queridos. 

Ah não, isso já é de mais. Que eu não as mato? Segundo esses mesmos rapazes eles relataram que o morrer é viver. Por isso fugi para as montanhas, vim para cá. Estou assustado. Como assim o morrer é viver? Do que esses jovens estão falando?  Ora eu sou a morte. É claro que eu as mato. Entretanto eu estou confuso com a afirmação daqueles jovens. Então quer dizer que para as pessoas viverem elas terão que morrerem? Mas se não estão vivas como irão morrer para viver?

Eu não entendo, por isso preciso da sua ajuda! E se isso for verdade? Mas o que é a verdade? E se as pessoas descobrem?  É o fim estou perdido, sinto que vou morrer. O que farei agora? Ah! Você precisa me ajudar. Ou do contrario morrerei. 

Por favor, ajude-me, mas não divulgue o meu paradeiro, pois o próximo poderá ser você. 

 

[1]Mestrando em Ciências da Educação pela Universidad Politécnica y Artística Del Paraguay. Especialista em Urgência e Emergência com ênfase em APH, pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, Especialista em Docência do Ensino Médio, Técnico e Superior pela Faculdade Associada Brasil. Bacharel em Enfermagem pela Universidade Paulista- UNIP. Licenciado em Biologia pelo Centro Universitário Claretiano. Atualmente é Palestrante, professor dos cursos da Pós-Graduação da Faculdade Associada Brasil nas áreas de Educação e Saúde, professor técnico/pedagógico da Escola G12 Educacional CEENPRO. E-mail: [email protected]