Você tem que me ouvir                                                         

            “Há pessoas que acolhem tão bem suas tristezas”... Desvelam-se tanto por elas... Viciam-se de tal maneira nelas que, se passam um dia menos tristes, descobririam o tédio. [...] Antonio Maria, cronista

-Hoje eu estou muito triste. Preciso desabafar. Vou falar tudo que quero. Você tem que me ouvir, senão vou explodir. Já fiz tantas coisas em minha vida e agora não faço mais... E não conformo com isso. Todos dizem que é chegada a hora de descansar. Mas é terrível aceitar essa situação. Não suporto imaginar que nada posso...-Estou triste e nervosa sim, por quê? Está estranhando? Falo sim tudo o quero e penso, senão adoeço. Os outros... Ora os outros...                                                                                                   -Sou muito franca. É meu jeito de ser. Todos me sabem assim. Preciso falar de minhas dores. Agora.                                                  -É... Eu permaneci calada uma vida inteira, desabafando com meu travesseiro. E ele também era tão calado... Agora quero falar, preciso, não agüento mais. Essa situação está cada vez mais insuportável. Eu não quero esperar que o Alzheimer chegue para que eu consiga dizer tudo que sinto e ninguém entenda direito pense que são coisas de “minha imaginação.” Quero falar enquanto ainda estou lúcida.                                                                                           -Espere, fique aqui. Escute o que eu tenho a dizer. Quero falar e você tem que me ouvir. Por quê? Porque tem. Você tem que olhar por mim, eu não casei... E fui muito boa para você. Eu quero ser cuidada em minhas necessidades e quando eu morrer, que cuidem de “mamãe.” Avise a todos. (Mamãe é sua cuidadora. O “alemão” já é seu companheiro e quando ele distrai, ela fala o que é preciso falar.).                                                                                                    - O que preciso falar é para você. Por que não quer me ouvir? Não tem tempo? Não tem tempo pra quem já teve todo tempo do mundo para você? Desalmado...                                                                     Quem já não ouviu essas palavras ditas por alguém? Quem?             Que já não se cansou de ouvi-las?                                                  Quem nunca se irritou quando alguém as disse?                                  Quem não se condoeu?                                                                       Quem já não chorou baixinho, sem saber o que fazer com tal situação?                                                                                      Quem não explodiu junto, causando uma situação irreversível?        Quem... Quem já não teve vontade de sair correndo rumo ao nada, para delas fugir e de quem as fala?                                                  Ou se fechou no quarto, enquanto o outro falava do lado de fora, encostado na porta?Falando sem parar... Verdade, mentira?             Se não eu, você ou o outro... Mas algum de nós já esteve sim em meio a tal situação. Ou não?                                                            Quantas vezes desejamos ser surdos ou que o outro seja mudo. Quantas? Incontáveis vezes...                                                          Você nunca se sentiu assim?                                                              E quem de nós não foi aquele que, em algum momento da vida proferiu tais palavras?E machucou o outro, fazendo dele o fiel depositário de seus queixumes, de suas mazelas?                       Pense um pouco. Reflita. Reflitamos juntos...                                  Quando isso acontece, não nos preocupamos em saber se o outro está bem, se está disposto a nos ouvir, se quer nos ouvir, se está ou não com problemas e se esses problemas são ou não maiores que os nossos. Afinal... “Falo o que quero e daí”?                                     E daí, daí... É a vida... A nossa vida que nos faz assim.                      Será? Será mesmo? Ou é a desculpa que nos damos para falarmos de nós, do que pensamos ser o mais importante e que todos, indistintamente, devem estar sempre prontos e dispostos a ouvir, calando a própria voz, que também precisa e quer ter sua vez.      Mas o tempo vai passando e no turbilhão da vida, somos jogados de um lado para o outro, sem nos atermos a nada, só a nós mesmos, como se possível fosse não sê-lo.                                                         E assim, depois de algum tempo, nos percebemos falando sozinhos, sem ter a quem falar de nós, de nossa vida, se é que algum dia o tivemos... Percebemos que nunca deveríamos ter contado ao outro nossa história, nossas tristes experiências vividas... Que com isso nos expusemos ao ridículo, buscando consolo ao nosso sofrimento, tão nosso, só nosso. O desabafar, o falar demais não leva a nada. “Se você não for capaz de guardar os seus segredos, por que o outro deverá sê-lo, não é verdade?” Colocar a culpa de nossas desventuras nos outros e sair falando a quem se dispuser ouvir, ou forçando aquele que não se dispõe a isso, não aumenta, não diminui e sequer acaba com nada. Palavras jogadas ao vento.                   Por que nos fazermos vítimas? Por que ficarmos com tanto dó de nós mesmos, ao invés de lutar para sair da situação? Mas é tão difícil, não é? Tão difícil cuidar de nossa própria vida sem pedir que o outro nos ajude... Principalmente quando nos sentimos presos a sentimentos contraditórios, como se estivéssemos à beira de um precipício...                                                                                         As nossas histórias quando divididas com outras pessoas, vão mudando, pois no correr do tempo, não somos nós que as contamos, mas sim “alguém”, que dentro da nossa história, nos revela algo sobre a nossa vida. E a ela se misturam fantasias.          Eu conto a você, você conta ao outro, o outro conta ao outro e assim a fila aumenta cada vez mais.                                                             E aí, aí é chegada a hora de nos encararmos, de olharmos para nós mesmos e nos assumirmos, com nossos acertos e erros, segurando o leme de nossa vida em nossas mãos. É a hora de ouvirmos e de convidarmos nossa alma a se manifestar. Necessário se faz que deixemos de ser pêndulos oscilantes                                                   assim então nos damos conta, de que só podemos mostrar o que realmente somos e sentimos, na solidão, quando nos refugiamos em nós mesmos. É ela que nos acalma, que acarinha nosso coração e nos indica o que realmente dói e porque dói e como nos livramos dessa situação.                                                                                   É na solidão, nessa introspecção profunda, que sentimos a presença de Deus, daquele Deus que é fiel às suas promessas e a Ele nos entregamos e acreditamos.                                                              Nenhum ser humano que sofre está sozinho. Renold J. Blank

Heloisa