* Prova escrita e publicada em 2020.

1) Analise a formação da cristandade feudal através de eixos estudados durante o curso como espiritualidade, vassalidade e sociedade de três ordens. As conquistas territoriais de Carlos Magno, aliadas aos interesses da Igreja Católica Romana, consolidaram uma grande, embora instável, sociedade teocrática - tão instável que, com o desaparecimento da mencionada personalidade, o respectivo território foi alvo de grandes invasões e a pretendida centralização veio a ser subitamente pulverizada, especialmente com o Tratado de Verdun, em 843, que partilhou o Império entre seus netos (CALAINHO, 2014, p. 64). Tais fatos, associados à diminuição da dominação régia sobre a terra quando esta era transferida aos vassalos - submetendo-a, assim, à transmissão por hereditariedade - e ao gigantismo territorial do Império Carolíngio, destroçou-o, dando vazão, do século X ao XI, à independência econômica e política dos proprietários de grandes extensões de terras (CALAINHO, 2014, p. 51). Desta forma, a autoridade monárquica foi sendo esvaziada, fazendo com que os soberanos viessem a se tornar apenas grandes suseranos. A vassalagem passou a ocorrer mais entre os referidos e mencionados senhores de terras, possuidores de sangue carolíngio, e não, tanto, entre os mesmos e os reis (CALAINHO, 2014, p. 56). Dita vassalagem era fiada na fidelidade pessoal, caracterizada num ritual de passagem composto por “Homenagem”, “Juramento de Fidelidade” e “Investidura”, em que os suseranos (proprietários mais abastados) transmitiam uma parcela de suas terras, chamada “feudo”, que viria a ser hereditário (com a repetição de idêntico ritual de passagem), aos vassalos, menos ricos (CALAINHO, 2014, p. 56-57). Com os feudos em suas mãos, os vassalos contraíam uma série de deveres, dentre os quais serviço militar e obrigações pecuniárias, a exemplo do recolhimento de tributos e alimentos àqueles numa economia que, desde a ruralização provocada pela Queda do Império Romano Ocidental, era essencialmente agrícola (CALAINHO, 2014, p. 58). Aos vassalos também era permitido possuir mais de um suserano, ou serem suseranos de um ou mais vassalos (CALAINHO, 2014, p. 56). O referido sistema era espiritualmente apoiado pela Igreja, o que foi fundamental na concepção da mentalidade medieval de que os homens possuíam um destino, imutável, determinado por Deus (CALAINHO, 2014, p. 52). CALAINHO nos dá a entender, especialmente, que “O cristianismo e a Igreja tiveram um papel fundamental nas estruturas mentais do homem medieval. Como vimos, a Igreja aliou-se ao reino franco, refletindo uma cristianização da sociedade, processo que não parou de crescer. A evangelização dos povos germânicos foi bem-sucedida, e a Igreja tornou-se uma grande proprietária no Ocidente, tendo vassalos, colonos e escravos, e, no século IX, suas terras compunham a terça parte das terras cultiváveis da Europa católica.” (CALAINHO, 2014, p. 52). Agora, devemos nos perguntar: ambos - o cristianismo e a Igreja Católica Romana - ou apenas esta última teve participação fundamental e destacada nas “estruturas mentais do homem medieval”? Crê-se que mais a Igreja. De início, a sociedade teocrática, cuja maior parte da população se dizia cristã, e que Carlos Magno havia fundado anteriormente à consolidação do feudalismo na Baixa Idade Média, politicamente incluiu a quase totalidade dos territórios que hoje formam os Países Baixos, a França, a Áustria, a Suíça, a Alemanha, a “Fronteira Espanhola”, a Itália Setentrional e áreas da Europa Central e Oriental que abrangiam a atual Hungria e o que já foi a Iugoslávia. Uma sociedade com aquelas extensões territoriais, ainda que com a Igreja como fiadora moral, só poderia ter sido forjada à força, ferro e fogo. Como nos informa ROBERTS quando menciona Carlos Magno: “Obviamente ele ainda era um tradicional rei-guerreiro franco; realizava conquistas e o seu interesse era a guerra (ROBERTS, 2005, p. 348). Em relação aos saxões, foram brutalmente convertidos ao cristianismo pelo exército carolíngio, de forma que “os que recusavam o batismo ou que mais tarde revertiam ao paganismo eram mortos. Existem estimativas aproximadas de que um quarto da população da Saxônia foi eliminado no processo de conversões forçadas” (HART, 2001, p. 544). HART também afirma que Carlos Magno não possuiu uma função tão decisiva na expansão do cristianismo, “Além de a conversão forçada dos saxões por Carlos Magno ser moralmente indefensável e também totalmente desnecessária. Os anglo-saxões da Inglaterra converteram-se ao cristianismo sem a necessidade de massacres...” (HART, 2001, p. 547-548). Tal fato forjou a mentalidade das populações europeias medievais para que, após a fragmentação do Império Carolíngio e já na Baixa Idade Média, sob o sistema feudal, o mesmo fosse controlado pela Igreja, cujas terras “compunham a terça parte das terras cultiváveis da Europa católica.” (CALAINHO, 2014, p. 52) e cujo papa “governou os seus próprios domínios como qualquer outro monarca” (ROBERTS, 2005, p. 348), em um modo de produção essencialmente agrícola, e que abrangia, além da vassalagem, também o escravismo. Estava firmada a mentalidade, predominante no Ocidente, de que os ditames da Igreja Católica Romana eram, sempre, os desígnios de Deus, de modo que os respectivos seguidores a confundiam com o próprio cristianismo. Esta realidade, aliada ao fato de a maior parte da população da Europa de então ser completamente iletrada, a fazia presa fácil do poder, sendo a maior evidência o próprio sistema feudal, cuja composição, de acordo com um dos mais destacados religiosos de Lyon, Agobardo (século IX), era a uma sociedade na qual “uns rezam, outros guerreiam e outros trabalham” (CALAINHO, 2014, p. 55), sintetizando o que a “Igreja pensava desta sociedade: os homens formavam um só povo de Deus, que os criou e os colocou cada um no seu devido lugar - clérigos, guerreiros e camponeses” (CALAINHO, 2014, p. 55). Ou seja, isso consolidava o que muitos historiadores consideram a chamada “Sociedade das Três Ordens” - aquela na qual havia a total estratificação social nos moldes acima descritos, a fim de perpetuar o injusto e opressivo sistema feudal, cujos fundamentos maiores eram sempre a palavra final da Igreja Católica Romana. Como se não bastasse, as terras eram poucas, gerando lutas. Para proteger as posses e os privilégios dos suseranos, encastelados, existiam os cavaleiros, corriqueiramente filhos de vassalos, que treinavam desde cedo para defender os primeiros em razão da fidelidade feudo-vassálica, sempre em vigor e referendada – novamente - pelos líderes do catolicismo romano. Tecidas estas considerações, e tendo em vista que a guerra e a escravidão não correspondem à real filosofia cristã, afirma-se que a Igreja moldou mais a mentalidade das populações europeias medievais que o cristianismo em si, manipulado para proteger os privilégios das elites econômicas e religiosas de então. [...]