O presente texto, tem por intento, desenvolver uma reflexão teológica sobre Deus a partir da obra literária A Cabana, escrita por William P. Young. Para tanto, antes de qualquer coisa, destacamos como pontos importantes em nossa reflexão dois elementos que irão nos ajudar a desenvolver nosso pensamento acerca de Deus a partir daquilo que se lê nesta obra. São eles: o caráter literário e a experiência de vida do autor.

Assim, todas as considerações feitas aqui, buscarão respeitar estes dois elementos que apontam na análise do tema, tanto uma delimitação quanto uma abertura de novos prismas. Dito isto, nossa apreciação da obra terá como objetivo, identificar qual a imagem de Deus apresentada pelo autor e como ela pode ser pensada no discurso teológico.

A Cabana, narra a história de Mackenzie Allen Phillips que tem a sua filha mais nova (Missy) sequestrada durante um passeio de férias e supostamente assassinada. Depois deste acontecido, Mack e toda sua família passa por um momento difícil e, ele de forma especial, começa a isolar-se de Deus e de sua família. Depois de alguns anos, em um determinado dia, ele recebe um convite de “Deus” para retornar a cabana. E lá começa sua grande jornada. Todo o enredo desenvolve-se em torno desse encontro. O eixo central da história está no paradoxo entre quem Deus realmente é, e como o homem o vê.

O paradoxo aqui apresentado é o reflexo da dificuldade que a humanidade tem de pensar sobre Deus devido a sua limitação de criatura. Mesmo o homem sendo capaz de interagir e expressar-se de forma racional, ainda assim, encontra-se prisioneiro da sua linguagem, pois nem sempre consegue traduzir aquilo que vive e sente, nem sempre consegue encontrar os fundamentos necessários para compreender sua realidade existencial. Sua vida vai construindo-se aos poucos e de forma relacional situada num tempo e num espaço e, é dentro deste processo complexo que o homem vai construindo sua história. Ou seja, “o ser humano faz de si próprio norma e medida e experimenta o mundo como ordenado em direção a ele, disponível para ele e por isso sob sua responsabilidade em cada caso concreto”.

Contudo, quando o homem depara-se com a realidade do transcendente, ele percebe-se limitado, ameaçado e na maioria das vezes, sua resposta a esta realidade é construir um mundo de fantasias que a sociedade tem o prazer de legitimar. É dentro deste contexto que o conhecimento de Deus é gestado. Em diversos modos, lugares e tempos, Deus não só é experienciado como também é transmitido, sendo em alguns casos de forma positiva, em outros de forma negativa.

No caso aqui refletido, vemos nos diálogos de Mackenzie com Deus, com Jesus e com Saraiyu os seus estereótipos chocarem-se constantemente com aquilo que ele encontrava no comportamento de Deus Trindade ao passo que suas conversas avançavam. Podemos afirmar que os seus traumas familiares e os condicionamentos religiosos não resignificados o impediam de fazer uma experiencial real e de amor com Deus.

Ao ler a Cabana, nós percebemos o esforço de Young em demonstrar que o encontro com Deus só é possível numa relação livre, consciente e de amor. Ele nos faz perceber também que a suspenção de valores e juízos facilita o nosso encontro com Deus, nos faz deixar ver quem Ele realmente é. Fazer um encontro com Deus é permitir que ele assuma nossa história e caminhe conosco. Trazendo essa ideia para nossa teologia católica lembramos da Dei Verbum, n.2 que diz: “Aprouve Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade (cf. Ef 1,9), segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina (cf. Ef 2,18; 2Pd 1,4).

Vemos então que, Mackenzie no diálogo com Deus (seja o Pai, o Filho ou o Espírito Santo) vai aos poucos superando os seus traumas e trabalhando os arquétipos que ele traz consigo e, na medida que isto acontece, se constrói uma relação de confiança e de amor. A forma como Mack se relaciona com Deus Pai é diferente da forma como ele se relaciona com Deus Filho e com Deus Espírito Santo, pois como já dissemos, sua imagem de Deus vai sendo reformulada ao passo que ele deixa-se encontrar. Um dado importante a ser ressaltado aqui é o fator da aceitação de si mesmo para se chegar a aceitação de Deus, pois analisando o caminho que Mack fez até chegar a Deus, ele primeiro precisou ir de encontro consigo mesmo, precisou aceitar-se e perdoar-se, para assim, acolher o amor de Deus e levá-lo ao extremo chegando a perdoar o assassino de sua filha. Analisando o encontro de Mack com Deus Trindade na cabana, podemos dizer que Young quis partilhar conosco a imagem de um Deus que é amor e que respeita nossa liberdade, de um Deus que nos acolhe e deseja nos fazer participantes de sua criação. Dito isto, falaremos sobre a relação de Mack com cada uma das pessoas da Trindade, ressaltando algumas imagens e símbolos interessantes que Young utiliza. 

Deus Pai é representado no texto como mulher negra e como homem já de idade madura, no entanto, sabemos que Deus sendo infinito e eterno, não pode ser representado nem entendido de forma perfeita a partir de nossa linguagem humana, porém nossa intenção ao dizer isto, não é criticar ao autor por fazer tal comparação, pelo contrário, percebemos mais uma vez o seu esforço em afirmar que Deus não é alheio a nossa realidade, nem é uma pura abstração, Ele é real e assume nossa história para assim redimi-la. Trazendo isto para uma reflexão teológica, podemos também dizer que, “hoje, mais do que provar a existência de um Deus abstrato, como se fez no passado através das lógicas de teodiceia, somos desafiados a apresentar à humanidade o rosto do Deus que pode ser “experimentado” e encontrado na história da salvação”.

Ver Deus como mulher negra ou como homem já de idade madura, ou como Aquele que vê e escuta o sofrimento do seu povo e vai ao seu encontro para ajudá-lo (Ex 3, 7-8), é saber que Deus não é apenas uma ideia, mas é uma presença real capaz de nos dar sentido à vida. Quando Young, apresenta Deus Pai por meio dessas imagens, talvez sua intenção seja apenas nos dizer que é preciso superarmos nossos pré-conceitos sobre Deus e deixarmos Deus ser Deus. Disto, vemos que ele faz uma crítica as religiões e ao homem em particular, quando buscam rotular a imagem de Deus para atingirem seus interesses próprios (Religião), quando limitam o diálogo com Deus a interesses, ora buscando um Deus que seja vingativo, ora buscando um Deus que seja misericordioso (relação pessoal).

Contudo, diferente do autor, nós reconhecemos que mesmo limitada, a religião nos ajuda a fazemos nosso encontro com Deus, cabe a nós no caminhar da fé, aprendermos a purificar a partir deste processo, a imagem de Deus que vamos construindo. Caminhar por meio da fé, este é o nosso desafio. Young mostra-nos um Deus que pode ser para nós uma mãe (mulher, um Pai (homem), um Deus negro (superando não só o racismo, mas toda forma de preconceito), um Deu que ama e acolhe a todos sem distinção ou discriminação. Contudo, sem a adesão a Ele, pode também pode tornar-se nada. A fé é condição essencial nesse processo e o interessante aqui é, mesmo o autor não sendo adepto a pratica religiosa enquanto pertença a uma instituição, põe também a fé como condição essencial nesse encontro, e isto, fica explicito no texto quando ele afirma a necessidade de Mack em superar seus traumas e perceber que Deus está ao seu lado e que é preciso de sua parte confiar, acreditar e permitir que Ele o ajude.

Ao pensar no desafio de acolher a Deus como Ele é, e não como queremos que ele seja, olhemos também para a imagem de Deus Filho que é demonstrada como um homem do Oriente Médio. Aqui já percebemos mais uma vez a quebra de paradigma sobre a imagem de Jesus formulada pela nossa sociedade e por nossas instituições religiosas, mas não vamos nos deter a este detalhe, queremos apenas destacar alguns elementos importantes do diálogo de Mack com Jesus.

O primeiro, está ligado ao mistério da encarnação de Jesus, quando o autor apresenta Mackenzie mais livre, mais à vontade na conversa, e isto, é afirmado em uma de suas falas, ao dizer que o fato de Jesus ser homem facilita o diálogo, o torna mais próximo dele. Quando Jesus assume a realidade humana, nossa linguagem e modo de vida, passamos a ter um aporte maior para se chegar a Deus Pai. Tratando desta realidade de forma teológica, compreendemos que em Jesus, Deus Si revela de forma plena e completa (DV n. 2), contudo não somos capazes de acolher essa plenitude devido nossa finitude, mas em Jesus podemos nos tornar mais próximos de Deus Pai. Jesus ao se encarnar, eleva ao máximo a dignidade humana, e, tendo isto por consideração, podemos pensar que quanto mais humanos formos mais teremos possibilidades de estar mais próximos de Deus. Partindo deste pressuposto, ressaltamos como positivo, a preocupação de Young em demonstrar o esforço de Deus em fazer com que Mack acolha a si mesmo, se perdoe, se ame. Logo, a melhor forma do homem responde ao chamado de Deus, é aprender com Jesus a também tornar-se homem, mas bem sabemos que não é fácil tomar tal caminho, vemos muito bem colocada nesta obra literária, o sofrimento que é para o homem olhar para o seu interior e acolher a todas as fraquezas e deixar que em todo essa confusão a graça de Deus possa entrar e agir na sua vida.

A partir daqui podemos então citar Deus Espírito Santo que é apresentado no texto como uma mulher asiática (Sarayu), rica em qualidades, mulher envolvente, dinâmica, criativa. Ao falar do Espirito Santo, Young diferentemente do Pai e do Filho, atribuiu ao Espírito qualidades mais abstratas, mas mesmo assim usando elementos humanos. De forma discreta, podemos nos ariscar em afirmar que a atuação desta mulher asiática na história narrada nos faz enxergar o Espírito Santo como aquele que ajuda a humanidade a transcender sua existência, dinamizando assim sua vida.

Por fim, Young apresenta Deus Trindade a partir da relação de amor, da ideia de comunhão perfeita. Em vários momentos da história, Mack está abismado pela sintonia que há entre Deus, Jesus e Sarayu. Isto ao nosso ver, é uma forma do autor demonstrar a sua visão sobre Deus a partir da relação de amor. Trazendo está ideia para o discurso teológico podemos dizer que mesmo tendo cada “Pessoa” da Trindade uma missão, não há como separa-las, pois o amor faz com que cada uma esteja mergulhada na outra numa relação perfeita. Assim, quando estamos com Deus Pai, estaremos também com o Filho e com o Espírito Santo, estando com Deus Filho, estaremos também com o Pai e com o Espírito Santo, estando com Deus Espírito, estaremos também com o Pai e com o Filho.

Sem mais delongas, podemos ao fim desta reflexão, concluir que a leitura da obra nos leva a repensar a nossa imagem de Deus; Nos faz perguntar-nos se o Deus que propagamos e acreditamos é o mesmo que testemunhamos; Nos faz entender que para chegar a Deus precisamos primeiro alcançar a nossa humanidade; Nos faz entender que a experiência com Deus é antes de tudo uma experiência de amor e, por isso, deve ser livre, não imposta.

Podemos, ao fim dessa elucubração acerca de Deus, juntamente com Thomas Halík (2016, p. 73) afirmar que “a verdade sobre Deus, e Deus como a verdade das nossas vidas, são realidades sempre paradoxais. Só estão dentro de nós se não tentarmos ‘agarrar-nos a elas’ e possuí-las de forma triunfante”.