1 FACULDADE DE SÃO BENTO DO RIO DE JANEIRO PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA ANTIGA E MEDIEVAL – RELIGIÃO E CULTURA BREVE DISSERTAÇÃO ACERCA DA NOVIDADE DA ESCRITA DA HISTÓRIA EM HERÓDOTO Disciplina: Historiografia Greco-Romana Professor: Sérgio Antônio Câmara Aluno: Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho Rio de Janeiro Maio de 2020 2 Todas as ciências conhecidas e praticadas pelos seres humanos já se encontraram num estágio embrionário, que fora materializado numa teórica e original ideia. Foi assim com a filosofia, com vários ramos da medicina, com as religiões e com alguns dos conhecimentos biológicos e matemáticos. E deste padrão também não escapa a nossa própria noção de História. Assim, cremos que, de início, cabe dissertar um pouco sobre a biografia daquele que é considerado o “pai” deste ramo do conhecimento: o grego Heródoto de Halicarnasso (485 a.C.-425 a.C.). Nascido na cidade de idêntico nome, fez toda a diferença quando escreveu a respeito da guerra entre a Grécia e a Pérsia, materializada pela invasão da primeira no século V a.C. Tal conto ficou conhecido como “As Histórias de Heródoto”, publicadas entre 450 a.C. e 430 a.C. e que acabaram divididas em nove livros. O próprio Heródoto, ao que consta, as leu publicamente em Atenas. Em dito épico, verificou-se um novo tipo de leitura, não mais caracterizada pela poesia - limitada a imaginação dos autores à verossimilhança e necessidade de um passado remoto e inalcançável - mas pautada pela razão e pela crítica, que revelavam a condição, e, por conseguinte, o comportamento humano, sempre de acordo com observações (“opsis”) e relatos testemunhais, todos julgados empiricamente. Heródoto de Halicarnasso, portanto, com sua obra “As Histórias de Heródoto”, elevou a “Historie” (“pesquisa”) à condição de ciência, daí nascendo o epíteto pelo qual passou a ser conhecido: “o pai da História”. Ocorre que, desde a época de suas publicações, Heródoto vinha sofrendo acusações de ser sua obra imprecisa e incorreta, de modo que, segundo os seus críticos, teria ele inflado artificialmente a importância das fontes consultadas e as reais idas aos locais dos acontecimentos. Entretanto, passou a ser mais respeitado pelos pesquisadores da contemporaneidade, que até hoje citam seu épico como um dos mais inigualáveis já escritos. Foi exilado, de Halicarnasso, por conta de uma fracassada tentativa de golpe na qual estava envolvido. E parece ter sido por ocasião do exílio que realizou as viagens pela Europa, Norte da África e Ásia Menor nas quais que obteve os fundamentos e as fontes que lhe propiciaram a escrita das “Histórias”: afinal, a respectiva leitura oferece descrições tão precisas dos ditos locais que só podem ter sido expressas por quem realmente esteve e viveu por lá. 3 Tecidas essas considerações, continuaremos esta breve dissertação abordando três subtemas distintos: a crescente exigência do logos em detrimento do mito nos séculos V e IV a.C, os limites do investimento herodotoeano na descrição do “outro” e o espaço reservado ao testemunho e ao olhar. 1. A CRESCENTE EXIGÊNCIA DO LOGOS EM DETRIMENTO DO MITO NOS SÉCULOS V E IV A.C. Como já observado, Heródoto de Halicarnasso é considerado “o pai da História” em virtude do fato de ter-lhe conferido o status de ciência - o que significa que, antes de sua obra, predominavam as narrativas do mito. Mas o que significa “mito” em todo este contexto? É lógico que, antes de Heródoto de Halicarnasso, havia memórias do passado recente, e mesmo de fatos pretéritos até então já distantes. Entretanto, ocorre que tais relatos, principalmente os mais remotos, em sua maioria eram, do modo mais tradicional, transmitidos de maneira oral, de geração em geração. Desta forma, pela contínua passagem do tempo e consequente possibilidade de impressionar os destinatários das mensagens - numa natural deturpação da realidade fática, possibilitada pela poesia ilimitada e em grande parte não escrita - tais narrativas diziam respeito a feitos extraordinários e excepcionais que teriam há muito (e há pouco...) ocorrido, mas que, ainda assim, deveriam inspirar as novas gerações a tê-los como modelos e segui-los, numa forma replicação de seu heroísmo (por isso, cremos que desses relatos também decorram as narrativas dos fantásticos seres da mitologia grega). Daí surgiu o mito. Mito este que encontra limites em Heródoto de Halicarnasso, eis que com ele a História viria a ser escrita e limitada por provas factuais, materializadas nos registros escritos e críveis, em substituição às antigas tradições orais, razão pela qual não podemos negar, como disse Aristóteles, que era epistemologicamente mais pobre que a poesia, embora não mais importante. Então, como Heródoto de Halicarnasso viveu no século V a.C., tendo sua escrita da História - e, especialmente, das “Histórias” - bem como os métodos a ela atinentes sido, em sua maior parte (e não unanimemente, conforme expresso na página dois) aceitos, passou-se a exigir, a partir de então, um logos para a credibilidade de um relato histórico, vale dizer, 4 uma descrição dotada de necessidade e verossimilhança, de razão, de técnica, de debate ou apuro científico, dentre outros significados. 2. OS LIMITES DO INVESTIMENTO HERODOTOEANO NA DESCRIÇÃO DO OUTRO O conceito de “outro”, no que diz respeito à identificação que se faz dos demais povos - seja qual for o prisma a partir do qual se enxergue a questão - exige que venhamos a considerar cada momento histórico de acordo com os valores então em vigor, por meio de comprovações científicas a respeito de questões como identidade e etnicismo, em especial numa das épocas mais remotas da Antiguidade mediterrânea. Por meio de suas “Histórias”, temos que Heródoto de Halicarnasso sempre se propôs a descrever o que, sob seu método de pesquisa, seriam as relações entre os gregos e os não gregos (isto é, os “outros”, os “bárbaros”). Isso fica bem claro já pela leitura das três primeiras partes nas quais as “Histórias” são divididas. Se analisarmos a primeira parte (“Clio”), é bastante evidente que ela se constitui, digamos, num pré-requisito para que haja a desejada inteligibilidade da segunda e da terceira partes - “Euterpe” e “Tália”, respectivamente. Ali, em “Clio”, verifica-se, por um apurado sentido de História, a minuciosa narrativa de outros povos. Descrição essa na qual Heródoto de Halicarnasso procura manter uma máxima imparcialidade, ainda que sua condição seja a de grego, pois nas respectivas páginas relata os extraordinários feitos helênicos, bem como o dos povos ditos “bárbaros”, aproximando-se, tanto quanto possível, da imparcialidade que ainda hoje se exige de um historiador. Assim, expõe diferentes visões sobre os “outros”, os “bárbaros” (como exemplo, podemos afirmar que, em “Euterpe” e “Tália”, Heródoto de Halicarnasso faz uma descrição dos povos egípcios com o mesmo distanciamento expresso em “Clio”). Desta forma, como conclusão deste tópico, fica evidenciado que os limites herodotoeano à descrição do “outro” são a própria identidade e etnicismo gregos, refletindo os valores existentes em sua respectiva sociedade, que, equilibrados ao método e imparcialidade típicos de um verdadeiro historiador - principalmente ao tecer comparações não depreciativas, mas objetivas, como ocorreu quanto aos egípcios. É na empatia com os demais, especialmente se não pertencentes à etnicidade própria, que as diferenças aparecem, dando identidades individuais a determinadas 5 comunidades ou sociedades. E assim pensava Heródoto de Halicarnasso, ao nos informar a respeito de feitos excepcionais dos gregos, bem como dos “outros”. 3. O ESPAÇO RESERVADO AO TESTEMUNHO E AO OLHAR Por fim, reafirmamos por que, na obra de Heródoto de Halicarnasso, o olhar (ou observações - “opsis”) e o testemunho são tão importantes. Como mencionado, com ele a História passou do patamar de meros relatos de transmissibilidade, na grande maioria, orais e intergeracionais, a ciência, na sua maior parte escrita e cujas observações e relatos testemunhais são, por se constituírem na única forma de apuração real dos fatos de sua época, todos julgados cientificamente, em especial nas “Histórias” - o que não o livrou da alcunha de “mentiroso” por muitos de seus detratores, numa atitude que, felizmente, vem sendo revista pela contemporaneidade. Por causa dele, a sequência retilínea temporal de acontecimentos objetivos passou a ser inteligível, uma vez que fatos relevantes vieram a ser observados e expressamente escritos pelos historiadores, de acordo com seu método de apuração, fazendo com que pudéssemos vir a conhecer, ao menos em parte, o nosso passado. Passou-se a desenvolver uma visão crítica da realidade pretérita objetiva, com a simultaneidade harmônica entre observação, testemunhos - sempre pessoais a passíveis de reinterpretações, diga-se - e a consequente constatação, que jamais haveria se várias das circunstâncias mais relevantes que realmente existiram não tivessem sido devidamente apuradas. A História, produto da ação humana, mas também fruto do acaso e de todos os infortúnios que pode ele causar, veio a estar materialmente disponível às gerações posteriores, possibilitando a sua compreensão por meio do devido registro do passado, embora, e como já dito, os testemunhos sejam sempre subjetivos (e muitas vezes fragmentários e descontínuos - como, a par de nosso desenvolvimento tecnológico atual, o são até hoje). Sem Heródoto de Halicarnasso provavelmente surgiria outro, ou outros historiadores, que seriam considerados “pais” da História. E a maior evidência de que seu método de apuração restava correto reside no fato de que o eventual, ou eventuais, substitutos em caso de sua inexistência também acabariam por abraçá-lo nas obras que viessem e tecer, seja no aspecto objetivo (o olhar, as observações) ou subjetivo (relatos testemunhais). 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. CATROGA, Fernando. “Ainda Será a História Mestra da Vida?” 2. WOORTMANN, Klaas. “O Selvagem e a História. Heródoto e a Questão do Outro”. Rev. Antropol. Vol. 43, n.1, São Paulo, 2000. 3. SALDANHA, Nelson. “A História como Testemunho”. Síntese Nova Fase, Vol. 18, n. 53, 215-223, 1991.