A História não é uma ciência exata. Embora a mesma seja dotada de substantividade, várias das ciências que a compõem - tais como a filosofia e a sociologia - não são. Ao contrário: consubstanciam-se em áreas do estudo nas quais predomina o abstrato, muitas vezes caracterizado pela subjetividade. E o mesmo ocorre em relação ao próprio conceito de História. Na atualidade, a definição de História se confunde com a geral concepção de um único movimento temporal retilíneo, cujo curso é determinado pelo ser humano, não obstante este estar sujeito aos percursos do acaso (ao revés das várias “Histórias” concebidas de modo não uniforme até pouco depois da metade do século XVIII, e que, para os referidos contemporâneos, eram ditadas pela vontade divina). Tal denominação é chancelada, de acordo com as circunstâncias, por filósofos, sociólogos, e, é claro, pelos próprios historiadores. Dentre estes pensadores, no nosso entender o mais capacitado é o alemão Reinhart Koselleck (1923-2006), cuja obra, numa visão mais geral, é voltada aos desdobramentos intelectuais eurocêntricos desde o século XVIII até a atualidade. Para ele, a partir do século XIX a História “se tornou onipotente, justíssima, onisciente, e, finalmente, nos tornamos responsáveis diante dela” (KOSELLECK, Reinhart. “A configuração do moderno conceito de história. O conceito de história”. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013, p. 217). Talvez por isso tenha sido, bem antes daquela mesma publicação, o principal teórico formulador da “História dos conceitos”. Junto a outros teóricos alemães, como Horst Günter e Odilo Engels, Koselleck nos informa se utilizar seu moderno conceito de História - que varia conforme o tempo e as sociedades em que é invocado - da inicial fusão dos pré-existentes termos “Historie” (que significa “razão” ou “conhecimento”) e “Gesbichte” (isto é, “ocorrências” ou “acontecimentos”). Da mesma forma, nos brinda com uma brilhante definição, a saber: “História” como um conceito surgido no século XVIII, a ser denominada de “uma última instância”, que “se transforma em agente do destino humano ou do progresso social” (KOSELLECK, Reinhart. “A configuração do moderno conceito de história. O conceito de história”. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013, p. 124), enfatizando, aqui e assim, a já mencionada ideia de um destino único na indefinida sequência de acontecimentos da linha temporal, moldada pela ação humana e ocorrência do acaso, naquilo que, filosoficamente, é por ele tido como o “resultado de um processo de teorização, descrição de uma experiência completa” (KOSELLECK, Reinhart. “A configuração do 3 moderno conceito de história. O conceito de história”. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013, p.p. 135-136). Dita posição é corroborada por Hanna Arendt (1906-1975), ao afirmar, como Koselleck e em uma idêntica contraposição a Aristóteles - para quem “o tempo parece ser o movimento da esfera, porque este movimento é o que mede os outros movimentos e mede também o tempo...e também o tempo parece ser uma espécie de círculo...pelo que dizer que as coisas geradas constituem um círculo, é dizer que há um círculo de tempo” (CATROGA, Fernando. “Ainda será a História Mestra da Vida?”) - que a vida individual, verdadeira construtora da História enquanto escrita como o somatório de feitos excepcionais ao longo do tempo, “distingue-se de todas as outras coisas pelo curso rectilíneo de seu movimento, que, por assim dizer, secciona transversalmente os movimentos circulares da vida biológica”, argumentação esta que “estamos a seguir”, no dizer acolhedor de Fernando Catroga (CATROGA, Fernando. “Ainda será a História Mestra da Vida?”), Além do mais, Hanna Arendt complementa ao afirmar que o moderno conceito de História - “essa ênfase moderna no tempo e na sequência temporal” (ARENDT, Hanna. “Conceito de História - Antigo e Moderno”, p. 97) - tem no moderno conceito de processo o mais importante marco conceituador e separador entre as épocas antigas e a modernidade, de modo que, em tal sequência temporal de acontecimentos, “Processos invisíveis engolfaram todas as coisas tangíveis e todas as entidades individuais visíveis para nós, degradando-as a funções de um processo global” (ARENDT, Hanna. “Conceito de História - Antigo e Moderno”, p.p. 95 e 96), universalizando-os, desta forma, em detrimento de suas individualidades. Nesta última reflexão, ousamos discordar da ilustre mestre. Embora haja, sim, uma ideia de generalização, o processo não seria constantemente construído e reconstruído pelos historiadores senão pelas obras de indivíduos que, literalmente, se destacaram pela sua excepcionalidade. Não cremos, assim, que tenha se dissociado “o concreto e o geral, a coisa ou o evento singulares e o significado universal” (ARENDT, Hanna. “Conceito de História - Antigo e Moderno”, p. 96): são justamente as excepcionalidades, que passam cronologicamente a existir ao longo de toda a sequência temporal, que dão sentido à universalidade. Afinal, na própria obra aqui discutida, Hanna Arendt expressa passagem na qual afirma que “as Historiografias grega e romana (...) dão ambas por assente que o significado ou, como o diriam os romanos, a lição de cada 4 evento, feito ou ocorrência revela-se em e por si mesma” (ARENDT, Hanna. “Conceito de História - Antigo e Moderno”, p. 96). Se as historiografias grega e romana davam ênfase aos fatos individuais, que revelam-se por si, é isso o que compõe a sequência temporal de acontecimentos, no que denominamos “História Universal”, sendo, desta maneira, o modo como hoje a reconstroem os historiadores. Desta maneira, não cremos na referida degradação das individualidades. Por fim, cabe debater um pouco sobre os regimes de historicidade de François Hartog, que, para dita proposta, inicialmente tentou compreender como certos povos autóctones da Oceania lidavam com o tempo, caracterizando, por consequência e juntamente com o antropólogo americano Marshall Sahlins, o conceito de “História” daquelas sociedades, que seria algo similar à obra de Homero - eis que naquela ilhas do Pacífico também existiam narrativas sobre o domínio do passado, bem como realezas similares aos heróis homéricos. É o que François Hartog denomina de “Antigo Regime de Historicidade”, no qual os indivíduos e feitos excepcionais suscitam uma posterior repetição. Ocorre que a chegada do “Regime Moderno de Historicidade” (voltamos a afirmar: de análise da sequência temporal) em 1789, com a Revolução Francesa, fez com que, nas épocas subsequentes, historiadores como Reinhart Koselleck o definissem como “uma lacuna crescente entre o campo de experiência e o horizonte de espera” (https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882015000200281), isto é, o futuro como ator principal, o que também se encontra presente na obra de Hanna Arendt. Já na década de 1980, prevalecia no Ocidente o sentimento de que não havia um futuro a vislumbrar, bem diferente do “amanhã indefinido”, moldado pelo progresso humano e que vigia desde o século XVIII. Havia em sério questionamento acerca dos tempos vindouros, razão pela qual François Hartog tentou fazê-lo sucumbir em prol do presente como categoria prevalente, o que se tornou um mandamento bastante difundido, “eliminando-se” o passado e o futuro. Por este motivo, ocorreu uma certa desmobilização de aparatos que buscavam uma cada vez mais nítida previsibilidade futurista, vez que ele sempre foi e será indecifrável, embora sujeito à interferência humana. Por exemplo, o 5 tempo real dos mercados, realçado pela velocidade dos computadores, é presentista, e não futurista. De acordo com François Hattog: “É isso que o conceito de regime de historicidade permite apreender, e conforme a categoria diretriz seja o passado, o futuro ou o presente, a ordem do tempo que dele decorre não é a mesma. Para mim, o regime de historicidade não era um instrumento para lançar-me em uma história do tempo, mas uma ferramenta heurística para tentar captar o que estava em jogo nas nossas relações com o tempo hoje. Regimes de Historicidade apareceu em 2003” (https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882015000200281). Registre-se que tal posicionamento custou a François Hartog acusações a respeito de uma suposta ausência de visão, ou visão de curto prazo. Das três esferas temporais, para os historiadores o passado sempre foi o objeto de estudo, no intuito de compreender o presente e, até certo ponto, planejar o futuro. Embora haja o presentismo de François Hartog, não há como negar que o futuro também está, como sempre estará, e de acordo com as obras de Reinhart Koselleck e Hanna Arendt, em evidência, especialmente no Regime Historicista Moderno. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. KOSELLECK, Reinhart. “A configuração do moderno conceito de história. O conceito de história”. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013. 2. CATROGA, Fernando. “Ainda será a História Mestra da Vida?” 3. ARENDT, Hanna. “Conceito de História - Antigo e Moderno”. 4. https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102- 01882015000200281.