FACULDADE DE SÃO BENTO DO RIO DE JANEIRO PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA ANTIGA E MEDIEVAL – RELIGIÃO E CULTURA TRABALHO DE CRISTIANISMO PRIMITIVO Disciplina: Cristianismo Primitivo Professor: Marcos Antônio Dias Aluno: Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho RIO DE JANEIRO SETEMBRO DE 2020 ÍNDICE 1.INTRODUÇÃO............................................................................................................03 2. O Cristianismo Primitivo............................................................................................04 3. O Primeiro Concílio Ecumênico de Nicéia.................................................................05 4. CONCLUSÃO.............................................................................................................06 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...........................................................................08 1. INTRODUÇÃO Religiões são alguns dos motores da Pré-História e da História humanas. Criadas por pessoas que, possuindo uma louvável carga filosófica, diziam estar em contato com o divino, mobilizavam e ainda mobilizam milhões de pessoas ao redor do globo, como se fossem ideologias com deuses (ou, a exemplo do cristianismo e do islã, ideologias com um único deus). Mas, quando e como surgiram, e o que as distingue umas das outras? Não há como afirmar, com cristaliza certeza, o tempo e a forma de seu aparecimento. A evidência arqueológica mais forte que possuímos, destarte e até o momento, é oriunda dos tempos pré-históricos, numa passagem que J.M. ROBERTS descreve em sua memorável obra “O Livro de Ouro da História do Mundo” (2005, p.p. 39 e 40) quando de um comentário sobre o Homo sapiens neandertalenses: “O crescimento do domínio sobre a natureza sugere a existência de linguagens complexas, embora alguns cientistas argumentem que os crânios sugiram que as partes do cérebro que lidam com a fala não são tão bem desenvolvidas quanto as outras. No entanto ele deve ter tido idéias muito avançadas - e, portanto, palavras com as quais se expressavam, porque também fez algo inteiramente novo: enterrava os seus mortos (...) Perto de Samarcanda, o corpo de uma criança Neandertal foi enterrado dentro de um anel de chifres de animais; outra sepultura, no Iraque, continha o corpo de um homem cercado de pilhas de flores silvestres e grama, colocadas ali antes do enterro”. Aqui, temos que ditos rituais comprovariam um conjunto de atos que, em sua totalidade, evidenciam a existência daquela que pode ser considerada uma, ou mais de uma, das religiões do período pré-histórico - embora, voltamos a dizer - não saibamos se foi a primeira, ou se foram as primeiras, bem como quais eram as divindades que seus seguidores cultuavam e os valores que cultivavam. Assim, na não presunção de idênticos deuses e valores, com o total desconhecimento acerca dos mesmos neste (bem como nos demais...) conjunto de atos pré-históricos, devemos diferenciar uns dos outros pelos rituais que praticavam. Em outras palavras: para cada gama de atitudes considerada em sua totalidade deve-se atribuir um significado religioso diferente, uma religião diversa. E tal premissa, fundamentada no argumento científico da não presunção ou ausência de provas sobre divindades e valores, se estende até o período ulterior e já com o Homo sapiens, ou Homem de cro-magnon, como protagonista - desde seu surgimento há cerca de 50.000 anos (ROBERTS, 2005, p. 44) - até o que viríamos a denominar “História”, aí incluído o cristianismo primitivo. 2. O CRISTIANISMO PRIMITIVO Todas as religiões possuem uma fase inicial, e, após, vão evoluindo. Em relação ao cristianismo, surgiu com Jesus Cristo, de cujo nascimento “Pode-se ter relativa segurança de que aconteceu em Nazaré, na Palestina, e menos certeza de quando foi, embora a data provável seja 6 a.C.” (ROBERTS, 2005, p. 225). Não podemos nos furtar ao fato de que, conforme consenso histórico sólido e pacífico, a vigência do cristianismo primitivo se deu, aproximadamente, por quase quatro séculos (I, II, III e começo do IV d.C.), desde a morte de Cristo, por volta de 30 d.C., até o Primeiro Concílio Ecumênico de Nicéia, realizado em 325 d.C. (GAARDER, Jostein, 2005, p. 165, e LINDBERG, Carter, 2008, p.p. 46-48). Por isso também é chamado de “Período Ante-Niceno”. Naquela época, o propagar dos Evangelhos se dava oralmente, no idioma aramaico (EHRMAN, Bart D., 2012, p.p. 87- 90), até mesmo porque não havia como difundi-lo de forma escrita, vez que a maior parte da população visada era iletrada. Obs. a título de esclarecimento, pode-se afirmar que “concílios ecumênicos” são encontros aos quais os sacerdotes do cristianismo (mormente os bispos) são chamados para discutir a respeito de questões relativas à respectiva doutrina espiritual: são tentativas de uniformização dos conceitos, rituais e liturgias, embora, na Igreja Cristã Primitiva - aqui discutida - houvesse completa união eclesial entre as respectivas comunidades como uma única e inseparável Igreja Cristã (também e já dita “Católica” no século I d.C., em uma denominação utilizada, e pela primeira vez, pelo sacerdote Inácio de Antioquia - WOODHEAD, Linda [2004] Cambridge University Press - cujo significado, em grego, é “Universal”, ou seja, algo que abarca todos numa singular unidade, num único caminho que leva a Cristo), ainda que consideremos a existência de cinco principais centros de irradiação do cristianismo, que eram a própria Antioquia, Constantinopla, Jerusalém, Alexandria e Roma. Tal união é empiricamente provada por ocasião do Concílio de Jerusalém (que tratou, genericamente, sobre se os gentios convertidos deveriam seguir a Lei Mosaica, ou certos aspectos da mesma), no século I d.C., em “Atos dos Apóstolos”, que expressam a circunstâncias de as igrejas de Éfeso, Corinto e Antioquia, apesar de espacial e geograficamente distantes umas das outras, não serem autônomas ou independentes, mas pertencentes à mesma unidade eclesial. Portanto, não há como negar que, na Igreja Cristã Primitiva, existia consenso entre os fiéis, relativamente aos valores que lhes foram transmitidos pelo cristianismo, e união eclesial (dada a unidade da Igreja), mas dissenso conceitual entre os sacerdotes, envoltos em várias discussões doutrinárias que os mobilizavam individual e coletivamente, sendo a mais importante, no entender deste acadêmico, a “questão ariana”. Em que a mesma consistia? O termo “questão ariana” compreendia um leque de discussões afetas ao arianismo, e que provocava cisões na elite da Igreja Cristã Primitiva, a partir de tempos anteriores ao Concílio de Nicéia, até pouco após o Primeiro Concílio de Constantinopla, em 381 d.C. O vocábulo “arianismo” é um conceito propagado pelos sacerdotes fiéis ao presbítero cristão de Alexandria, Ário (em latim: Areius; em grego clássico: Αρειος; Líbia, 256 d.C. - Constantinopla, 336 d.C.), relativamente à relação entre “Deus Pai” e “Deus Filho”. Segundo tal premissa, não havia igualdade entre Deus e Cristo, que, mesmo sendo a mais nobre de todas as criaturas, ainda assim era subordinado ao Pai, que seria um deus único. Cristo, portanto, seria Seu filho, e não o próprio Deus em si, até mesmo porque o Pai se consubstanciaria num enorme mistério, que não se revelaria. Assim, com tal raciocínio, o pesquisador H.M. Gwatkin afirmou que “O Deus de Ário é desconhecido, cujo ser se acha oculto em eterno mistério” (“The Ariane Controversy in”). Por esta, dentre outras razões, os sacerdotes cristãos foram chamados ao Primeiro Concílio Ecumênico de Nicéia, no ano 325 d.C., historicamente logo após a outorga do Edito de Milão, que permitiu aos cristãos a total liberdade de religião em 313 d.C. 3. O PRIMEIRO CONCÍLIO ECUMÊNICO DE NICÉIA Organizado e convocado pelo Imperador Constantino I - talvez o maior incentivador do cristianismo em solo romano - foi decorrência dos supramencionados dissensos sacerdotais, assim como de consequentes conselhos de um sínodo liderado por Ósio de Córdoba (257 d.C. - 359 d.C.). O objetivo de dito sínodo tinha sido o de concretizar minuciosa investigação acerca da chamada “questão ariana” no leste grego do mundo greco-romano (CARROLL, 1987, p. 10). Para a maior parte dos sacerdotes, os ensinamentos transmitidos por Ário estavam eivados de heresia e repercutiam negativamente no processo de salvação das almas (WARE, 1991, p. 28). Desta maneira, em 325 d.C., os sacerdotes - especialmente os bispos - das províncias receberam convocação para comparecer a Nicéia, um local fisicamente alcançável, em especial para os representantes das localidades mais orientais do Império Romano. Tal reunião de sacerdotes ocorreu em Nicéia da Bitínia - atualmente situada em território turco, e cujo nome contemporâneo é Iznik - tendo sido o primeiro concílio ecumênico da Igreja (CHISHOLM, Hugh. [1911], Encyclopædia Britannica. A Dictionary of Arts, Sciences, Literature, and General information [em inglês] 11.ª ed. Encyclopædia Britannica, Inc. - atualmente em domínio público), bem como a inicial pretensão de se atingir consenso doutrinário e litúrgico por meio da presença da representação organizada de sacerdotes de cada rincão da cristandade. Ao final, o Concílio declarou, definitivamente, que Cristo também era o Deus verdadeiro, simultaneamente ao Pai e oriundo da mesma substância, sendo que o argumento para tal resolução se baseava no fato de uma suposta e melhor compatibilidade entre a doutrina, a exposição bíblica do Filho e o que fora, em tempos, anteriores, ensinado pelos apóstolos (GONZÁLEZ, Justo L [1984], The Story of Christianity). Houve, portanto, a rejeição à teoria de Ário - que, voltamos a dizer, desde o início era, para muitos, considerada herética, e parece ter sido este o entendimento definitivo do Concílio. Por mera curiosidade e esmero acadêmico, também aqui se expressa outras decisões do Concílio, como a fixação da data dos festejos de Páscoa, a outorga da Lei Canônica em sua forma primitiva e o tecer da primeira parte do credo niceno. 4. CONCLUSÃO Ao revisar minuciosamente os acontecimentos, desde tempos imemoriais, verifica-se que a própria religião não é uma ciência exata. Pode-se constatá-lo desde a Pré-História, cujos sacerdotes eram e ainda são desconhecidos, até chegar ao cristianismo primitivo, e, posteriormente, à Idade Contemporânea. Não há certeza sobre se os rituais de morte descritos na primeira página deste breve compêndio se constituíam em uma ou mais religiões, embora, muito provavelmente, a resposta deva ser “sim”, e sua singularidade ou pluralidade dependa do deus, ou dos deuses, que eram cultuados e dos valores outrora cultivados. Com o cristianismo primitivo ocorreu o mesmo fenômeno, só que em efeito inverso: sabemos que a Igreja Cristã Primitiva era apenas uma pelo culto ao deus cristão e a Jesus Cristo, bem como pelos valores cultivados pelos fiéis, por eles praticados genericamente, não dependendo os mesmos das determinações outorgadas por um, ou por mais um grupo de sacerdotes, para sua regular colocação em prática - embora esses mesmos sacerdotes também exclamassem sua unidade eclesial, com discordâncias doutrinárias e litúrgicas (vide o próprio Ário). Daí a própria convocação ao Primeiro Concílio Ecumênico de Nicéia. Ora, se os próprios sacerdotes, por convocação do imperador Constantino I, compareceram à dita reunião, significa que estávamos diante de uma elite religiosa que se considerava una, uníssona na fé no Pai e no Filho, ecoando a máxima latina vox populi vox Dei (“a voz do povo é a voz de Deus”). Não haveria grandes rupturas doutrinárias desde então e até o Grande Cisma do ano 1054 d.C., que marcou a separação dos cristãos em católicos romanos e católicos ortodoxos. A unidade eclesial, depois de séculos, foi quebrada, o que viria a se repetir ainda mais com Martinho Lutero e sua reforma protestante, fragmentando mais uma vez o poder da Igreja Católica Romana. Mas não importa: os povos atingidos, em si, continuaram a depositar sua fé em Deus e Cristo, cultivando os valores que lhes foram transmitidos e reafirmando, assim, a unidade popular da religião, embora seus dirigentes, em geral, não mais o fossem. Confirmava-se, desta forma, o caráter uno e inseparável do cristianismo (apesar das diferenças formais entre as denominações), e proclamado pela Igreja Cristã Primitiva tantos séculos antes. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CARROLL, Warren (1 de março de 1987), The Building of Christendom, ISBN 978-0- 931888-24-3, Front Royal: Christendom College Press. CHISHOLM, Hugh. [1911], Encyclopædia Britannica. A Dictionary of Arts, Sciences, Literature, and General information [em inglês] 11.ª ed. Encyclopædia Britannica, Inc. - atualmente em domínio público. GAARDER, Jostein et al. O livro das Religiões. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, pág. 165. GONZÁLEZ, Justo L (1984), The Story of Christianity, ISBN 978-1-56563-522-7, 1, Peabody: Prince Press. H.M. Gwatkin. The Arian Controversy in. LINDBERG, Carter. Uma Breve História do Cristianismo. São Paulo, Loyola, 2008, págs. 46-48. ROBERTS, J. M. O Livro de Ouro da História do Mundo. Da Pré-História à Idade Contemporânea. Ediouro, 2005. WARE, Timothy (1991), The Orthodox Church, Penguin Adult