1 FACULDADE DE SÃO BENTO DO RIO DE JANEIRO PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA ANTIGA E MEDIEVAL – RELIGIÃO E CULTURA CONTINUIDADES E RUPTURAS DA OBRA DE HERÓDOTO DIANTE DA TRADIÇÃO A CRESCENTE EXIGÊNCIA DE INTELIGIBILIDADE E A VISÃO SOBRE A FRAGILIDADE DA MEMÓRIA EM TUCÍDIDES REFLEXÃO ACERCA DOS RUMOS DA ANTIGA HISTORIOGRAFIA LATINA A PARTIR DO SÉCULO I A.C. Disciplina: Historiografia Greco-Romana Professor: Sérgio Antônio Câmara Aluno: Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho Rio de Janeiro Maio de 2020 2 ÍNDICE 1. INTRODUÇÃO...........................................................................................................03 2. CONTINUIDADES E RUPTURAS DA OBRA DE HERÓDOTO DIANTE DA TRADIÇÃO.....................................................................................................................03 3. A CRESCENTE EXIGÊNCIA DE INTELIGIBILIDADE E A VISÃO SOBRE A FRAGILIDADE DA MEMÓRIA EM TUCÍDIDES.......................................................05 4. REFLEXÃO ACERCA DOS RUMOS DA ANTIGA HISTORIOGRAFIA LATINA A PARTIR DO SÉCULO I A.C.......................................................................................07 4.1. SALÚSTIO...............................................................................................................08 4.2. TITO LÍVIO..............................................................................................................08 4.3. TÁCITO....................................................................................................................08 4.4. DIÃO CÁSSIO..........................................................................................................09 4.5. AMIANO MARCELINO..........................................................................................09 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................................10 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS............................................................................11 RESUMO Por meio da apresentação das continuidades e rupturas da obra de Heródoto diante da tradição, da narrativa da exigência de inteligibilidade e visão sobre a fragilidade da memória em Tucídides e de uma breve reflexão acerca dos rumos da historiografia latina a partir do século I a.C., o presente trabalho propõe investigar a historiografia grecoromana desde sua fundação e até o início da era cristã, quando grandes historiadores latinos se destacaram pela grandiosidade de seus escritos, num apanágio de nomes que se comparam aos mitos historiográficos de séculos antes, como Heródoto de Halicarnasso e o próprio Tucídides. PALAVRAS-CHAVE: HISTÓRIA; MEMÓRIA; HISTORIOGRAFIA; GRÉCIA; ROMA. 3 1. INTRODUÇÃO As questões propostas são demasiado interessantes. Afinal, trata-se da análise da obra de dois dos maiores historiadores de que se tem notícia: Heródoto de Halicarnasso, sobre cuja obra se fará uma síntese a respeito de suas respectivas continuidades e rupturas diante da tradição, e Tucídides, em relação ao qual se dissertará sobre a exigência da inteligibilidade e a visão sobre a fragilidade da memória, além de uma análise bem detalhada a respeito da antiga historiografia latina a partir do século I a.C. Tais escritos datam de milênio, razão pela qual é tão interessante sobre eles estudar e escrever, eis que se trata de documentos históricos importantíssimos para a compreensão do período da Antiguidade, incluindo o próprio nascimento da História, com Heródoto de Halicarnasso. É com este último que se iniciará esta exposição. 2. CONTINUIDADES E RUPTURAS DA OBRA DE HERÓDOTO DIANTE DA TRADIÇÃO Primeiramente, cabe perguntar quem foi Heródoto. Nascido em Halicarnasso, em 485 a.C., destacou-se no mundo literário quando escreveu o clássico “As Histórias de Heródoto”, sobre o conflito surgido entre a Grécia e a Pérsia, no século V a.C. Dita obra foi publicada entre 450 a.C. e 430 a.C. (DE HALICARNASSO, 2006). Ocorre que, até o advento dos escritos de Heródoto de Halicarnasso e, especialmente, de suas “Histórias”, restava dominante uma antiga forma de leitura historiográfica, caracterizada pela poesia de transmissibilidade oral, cuja forma de descrição de fatos remotos, e, até então e por isso, impossíveis de comprovação, era limitada apenas pela necessidade e verossimilhança dos acontecimentos em evidência, de acordo com a imaginação do autor. Daí o nascimento dos mitos e heróis, cujo passado deveria ser seguido. Heródoto de Halicarnasso redefiniu esta tradição. Lendo seus épicos, embora perceba-se que ele não rompeu completamente com a poesia (DE HALICARNASSO, 2006), há a verificação de que os mesmos são, em sua maior parte, críticos e permeados pela razão, de acordo com a observação in loco, realizada por ele quando esteve exilado em outras partes do mundo, conforme descrição de Larcher, abaixo transcrita: "Foi com isto em vista que empreendeu suas viagens, que percorreu a Grécia inteira, o Épiro, a Macedônia, a Trácia; e, segundo seu próprio testemunho, não se pode duvidar que tenha passado da Trácia aos Citas, para além de Íster e do Boristeno. 4 Por toda parte, observou com olhar curioso os sítios, as distâncias dos lugares, as produções dos países, os usos, os costumes, a religião dos povos; fuçou em seus arquivos e em suas inscrições os fatos importantes, a seqüência dos reis, as genealogias dos personagens ilustres; e por toda parte ligou-se aos homens mais instruídos, e dedicou-se a consultá-los em todas as ocasiões. Talvez tenha se contentado nesta primeira viagem em visitar a Grécia, e que, em seguida rumou para o Egito, passando daí para a Ásia na Cólcida, à Cítia, à Trácia, à Macedônia, retornando a Grécia pelo Épiro". (LARCHER, 2006, p. 10). Tais assertivas, nas obras de Heródoto de Halicarnasso, principalmente nas “Histórias”, são corroboradas por críveis relatos testemunhais, aos quais ele também dava muito valor no momento de colhê-los e escrevê-los. De todo esse raciocínio científico, consubstanciado na soma de observação e fontes testemunhais verossímeis, nasceu o epíteto de “pai da História”, alcunha que delineava um, ainda que parcial, rompimento com a tradição poética. Parcial, mas não total, conforme se verifica da seguinte afirmação: “O próprio Heródoto na introdução de seu livro, segundo Larcher [2006] tentou meio que construir uma explicação romanceada de sua obra” (VILAR, 2013). Então, pode-se considerar que Heródoto de Halicarnasso, ao mesmo tempo que rompeu com a tradição, a ela deu parcial continuidade. E, ainda assim, estava longe de ser uma unanimidade. Desde suas publicações, em especial das “Histórias”, muitos de seus críticos- defensores da tradição oral e poética numa sociedade em que mitos e heróis eram exemplos a serem seguidos na visão circularizante da História, que viria, posteriormente, a ser alcunhada de “Mestra da Vida” - consideravam que ele havia manipulado a dimensão das fontes consultadas, bem como as interpretações decorrentes das idas aos lugares dos acontecimentos, tendo, mesmo, sido considerado por seus detratores como “pai das mentiras” ou “grande mentiroso” (VILAR, 2013). A fama dúbia de Heródoto, decorrente da insatisfação de seus críticos pelo fato de não ter ele se curvado ao modo de transmissibilidade puramente oral, ora rompendo, ora acolhendo a forma poética e romanceada de narração escrita dos fatos - mas, vale dizer, dando predominância ao cientificismo, que em sua obra prevalecia sobre a poesia - 5 permaneceu até a contemporaneidade, quando seus escritos, principalmente as “Histórias de Heródoto”, passaram a ser citadas como alguns dos épicos mais importantes da Antiguidade, moldando nossa visão do antigo mundo grego. Mas a obra de Heródoto de Halicarnasso ocasionou críticas também na própria Antiguidade, como as provenientes de Tucídides, sobre quem se passa a dissertar agora. 3. A CRESCENTE EXIGÊNCIA DE INTELIGIBILIDADE E A VISÃO DA MEMÓRIA EM TUCÍDIDES Tucídides (460 a.C.-400 a.C.) foi outro historiador grego, quase que totalmente contemporâneo a Heródoto de Halicarnasso. Com ele, naquela que é considerada a sua Magnum Opus - a “História da Guerra do Peloponeso” - fez a descrição do sangrento conflito acontecido entre Atenas e Esparta no século V a.C. A obra “História da Guerra do Peloponeso” possui um grande nível de inteligibilidade por uma circunstância singular. Para sua escrita, Tucídides recolheu as evidências ali descritas em virtude de sua atuação in loco a favor de Atenas, como guerreiro, e, por consequência, observador direto (opsis) e inquiridor de testemunhas, que, igualmente, haviam presenciado os respectivos fatos. Desta forma, igualou-se a Heródoto de Halicarnasso em “As Histórias de Heródoto” e outros relatos daquele mesmo autor. Entretanto, apesar de idêntico a seu colega no modo de apuração dos acontecidos e suas circunstâncias, Tucídides dele se diferencia por não aplicar, nem em um mínimo grau, a poesia em seus escritos. Seguia a lógica apuradora de Heródoto de Halicarnasso, mas, ao contrário deste, rompeu definitivamente com a tradição poética. Como afirma VILAR: “Tucídides desconsiderava Heródoto e Hecateu a quem também chamava de logógrafo. Para Tucídides como sera visto mais adiante, a história deveria ter um uso prático, didático e social, aplicável no momento, e não apenas ser um repositório de acontecimentos passados que eram pronunciados publicamente”. “Tucídides fora o primeiro a questionar o trabalho de Heródoto, o chamando de contador de histórias” (VILAR, 2013). Se o estudo da História deve ter um “uso prático, didático e social, aplicável no momento”, foi e é necessária a exclusão do romancismo em suas narrativas, em benefício de “frias” descrições. Assim, Tucídides relatou os acontecimentos que presenciou, e os 6 que investigou, com raciocínio cem por cento científico, bem como, inobstante sua condição de ateniense, com distanciamento e imparcialidade, o que lhe custou o exílio. Mas, em decorrência, e ao contrário de Heródoto de Halicarnasso, Tucídides não teve sua obra, ainda que parcialmente, marginalizada. Ao contrário, como disse no seu livro “Como se Deve Escrever a História”, Luciano de Samósata (c. 125-c. 181) expressou, em breve sintetização, que os historiadores devem ser francos e verdadeiros, não submetidos a quaisquer poderes, e, portanto, independentes. E, não se pode negar, essas eram óbvias características de Tucídides, tanto que, milênios adiante, parte de sua obra foi facilmente traduzida para o inglês pelo filósofo britânico Thomas Hobbes (1588 - 1679). Foi justamente o apreço pela ciência, pelo saber, pelo empiricamente comprovável, que fez Tucídides tanto questionar a memória humana, inclusive a sua própria, como observador direto, reconhecendo a sua fragilidade, eis que é ela a reconstituição de fatos pretéritos de modo limitado e parcial, de acordo com o conceito que determinada pessoa ou grupo entende como sendo o passado, e sem consciência crítica. Desta forma, tomava os testemunhos com mais rigor, o que fez com que, em sua obra, relatasse os fatos então passados em seu presente sem os teores fabulosos que, em um enorme percentual, precederam a ele, bem como ao próprio Heródoto de Halicarnasso: “Ele próprio assegura fazer uma seleção crítica dos relatórios orais, aproveitando-se além disso de ter vivido muitos dos acontecimentos como testemunha direta”. “Quanto às ações realizadas no curso desta guerra, evitei tomar as minhas informações do primeiro que chegou e de fiar-me das minhas impressões pessoais. Tanto com referência aos fatos dos quais eu mesmo fui testemunha coma àqueles que outros me relataram, procedi em todos os casos a efetuar verificações o mais escrupulosas possíveis” (“Historiografia Grega”, Wikipedia, disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Historiografia_grega#cite_ref-58). Por tais razões se diz que, enquanto Heródoto de Halicarnasso é considerado o “pai” da História, Tucídides é tido como o “pai” do rigor histórico. 7 4. REFLEXÃO ACERCA DOS RUMOS DA ANTIGA HISTORIOGRAFIA LATINA A PARTIR DO SÉCULO I A.C. Inicialmente, cabe definir o que seja historiografia latina. São os relatos expressos em prosa, vale dizer, gênero literário escrito em parágrafos, nos quais se narrava o passado e o então presente com ênfase na sequência de fatos políticos, cujos parâmetros de composição eram definidos pela retórica (SEBASTIANI, 2006, p. 99). Em Roma, como na Grécia de outrora, o conhecimento era, na sua maior parte, transmitido oralmente, razão pela qual a retórica era tão valorizada, eis que se expressava na arte da eloquência e consequente poder de persuasão, exigindo do orador uma cultura geral muito bem adquirida (SCATOLIN, 2009, p. 150). Cabe afirmar que, em muitas ocasiões, o poder do discurso de grandes oradores foi utilizado para engrandecer o Estado Romano, unindo cidades e pessoas numa identidade patriótica que, dentre outros fatores, contribuiu para tornar Roma o maior Estado da Antiguidade (SCATOLIN, 2009, p. 153). Ou seja, a narrativa histórica era dever somente dos que possuíam o dom correto de transmiti-la, de modo a impressionar os ouvintes com situações mais fabulosas que a estreita conformidade entre o referido discurso e a realidade objetiva dos fatos. Como já acima demonstrado no descrito referente a Tucídides, de que a memória humana é frágil e falha, em Roma os relatos historiográficos eram pautados pelas impressões deixadas pelo recurso à retórica, num pleno exercício de manutenção da legitimidade do Estado Romano. Um dos principais utilizadores da retórica como fator de coesão de Roma foi o historiador, advogado e escritor Marco Túlio Cícero (106 a.C.-43 a.C.), eleito cônsul em 63 a.C. Portador de extensa biografia cuja grandiosidade requer um espaço maior que este compêndio, foi também foi um dos mais destacados escritores em prosa da Antiguidade. No entanto, apesar de sua eloquência e fabulosa intelectualidade, o cidadão considerado como primeiro historiador romano foi Quinto Fábio Pictor, nascido em 254 a.C. Passada a vida de Quinto Fábio Pictor, a partir do século I a.C. houve uma legião de grandes historiadores que se destacaram de todo o restante das produções latinas de antes desse período. Além de Marco Túlio Cícero, também vieram à lume diversos nomes, dentre os quais estiveram em evidência Salústio (86 a.C.-34 a.C.), Tito Lívio (59 a.C.-17 d.C.), Tácito (55 d.C.-120 d.C.), Dião Cássio (155 d.C.-229 d.C.) e Amiano Marcelino (325 d.C.-391 d.C.). 8 Passa-se, portanto, a tecer algumas breves considerações sobre cada um deles, que tiveram influência sobremaneira na intelectualidade historiográfica latina desde o século I a.C. 4.1. SALÚSTIO Era senador romano. Passados anos desde seu primeiro ano senado, resolveu tornar-se literato, atividade esta na qual escreveu a respeito do grandes acontecimentos da República Romana. Seus escritos mais famosos são Guerra de Jugurta , em que descreve o embate ocorrido entre a República Romana e a Numídia (MARTINS, 2009, p. 154) e Conjuração de Catilina, obra na qual narra acontecimentos singulares para a inteligibilidade do desenvolvimento da Guerra Civil, em que não estiveram ausentes as ações de Catilina, nobre e senador. 4.2. TITO LÍVIO Singular historiador, seu principal relato é Ab Urbe Condita, cuja abrangência temporal abrange o período que se estende desde a fundação de Roma até Augusto (MARTINS, 2009, p. 157). Nessa principal narrativa, o relato descreve desde a mencionada fundação, perpassando diversos acontecimentos desde então, culminando na Conspiração de Catilina (SEBASTIANI, 2007, p. 77). Aqui, pode-se perceber o quanto a narrativa, como ocorria na Grécia pretérita, se engrandeceu ao contar a mítica história da fundação da cidade, desde o violento ato que teria dado à luz Rômulo e Remo até o efetivo início de Roma como uma das grandes metrópoles da Antiguidade. 4.3. TÁCITO Foi um historiador romano, que, com sua oratória moralística a respeito do predominante tema da política, com grandes homens como protagonistas, conquistou multidões. Entre tais retratados está Júlio Agrícola, seu sogro, que era detentor de importantes cargos, e, por consequência, teve grande destaque no período de Domiciano. No entanto, não foram a biografia de Júlio Agrícola, ou, mesmo, “Diálogo de Oradores” suas mais famosas obras, e sim os “Anais”. Neles, Tácito narra as terríveis perseguições que o imperador Nero empreendia em face dos cristãos. Não obstante, cabe expressar que “Anais” somente chegou à posteridade graças a Mediceus Prior e Mediceus Alter, códices que possuem restos das obras de Tácito (KLAIN, 2010, p. 189-190). 9 Outras obras tacitianas de grande importância foram “Histórias”, cujo marco cronológico de tempo se localiza entre o falecimento de Nero e a morte de Domiciano, e que também só chegou até nós graças aos códices supramencionados, e “Germânia”, que narra a organização social dos povos do norte da Europa (KLAIN, 2010, p. 190). Tácito, além de historiador, foi também magistrado criminal (questor) a partir de 81 d.C., administrador da Justiça (pretor) sete anos após, e, em 97 d.C., magistrado supremo (cônsul). 4.4. DIÃO CÁSSIO Nascido em Nicéia, foi, além de historiador, também funcionário público. Por volta de 193 d.C. expressou, em um escrito, várias previsões sobre a ascenção de Severo ao trono romano, a ele enviando-as. Também escreveu “História de Roma”, com 80 volumes, num extasiante período de 22 anos para a dita elaboração. Tal obra nos presenteia com uma descrição dos fatos, referentes à fundação de Roma, diferente da que consta da obra de Tito Lívio (GOWING, 1990, p. 53), que teriam se sucedido desde tal desiderato até 229 d.C., ano de sua morte. De todos os volumes, os 37 primeiros restam somente partes fragmentadas. Do 38 ao 54, há a minuciosa descrição das relações políticas romanas de 65 a.C. até 12 a.C. Também estão quase que completos os volumes 56 a 60, cuja época de situo vai de 9 d.C. a 54 d.C. (GOWING, 1990, p. 54). 4.5. AMIANO MARCELINO Sua obra, que remanesce em 18 de 31 livros escritos (GONÇALVES, 2008, p. 95- 99), foi escrita durante o fim do Império Romano e narra as atribulações políticas da época, a partir da subida ao trono do imperador Nerva, em 96 d.C., até a queda do monarca Valente, numa continuação dos relatos de Tácito, exatamente de onde este havia cessado. Seus escritos são tão claros e objetivos quanto os de Salústio, com uma narrativa bastante minuciosa e detalhada, especialmente dos acontecimentos políticos de sua época. Não obstante tais características, a respectiva obra é bastante difundida, principalmente no que se refere ao fato de informar que o centro do poder residia na pessoa do imperador, cujas ações formariam a ordem cronológica dos respectivos escritos, da Corte e do Exército, sem uma ligação física, em si, com a própria cidade de Roma. Além do mais, de acordo com Amiano Marcelino prevalecia, para os cidadãos romanos, a memória do imperador como História de sua sociedade. 10 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS É fato que a História não é uma ciência exata. A acrescentar tal e ortodoxa afirmação, também é patente a mutabilidade da mesma como ciência humana, que evolui ao longo do tempo à medida que os idiomas e a escrita também evoluem. Quando, na Antiguidade grega, se notou a necessidade do fiel registro de um passado empírico que lhes desse identidade própria, surgiram figuras como Heródoto de Halicarnasso, e, em maior proporção, Tucídides. E dita evolução da História, como ciência, também passou a ocorrer em uma Roma tomada pela retórica, que dava valor tanto a relatos grandiloquentes não comprovados como, a posteriori, a narrativas com pretensão de maior rigor investigativo. Assim, milênios antes do Iluminismo do século XVIII, já se vislumbrava na ciência histórica uma das energias motrizes da intelectualidade, o que veio a sucumbir diante da obscuridade do pensamento único medieval e a ressurgir no caldeirão científico e otimista daquele mesmo século, numa máxima que perdura até os dias atuais: a busca da verdade - busca esta em que surgiu lá mesmo, nos rincões da Antiguidade, fazendo com que, até mesmo nisso, a Grécia e Roma fossem suas primogênitas e reais precursoras. 11 REFERÊNCIAS BIBIOGRÁFICAS CATROGA, Fernando. “Ainda Será a História Mestra da Vida?”. Estudos IberoAmericanos. PUCRS, Edição Especial, n. 2, p. 7-34, 2006 DE HALICARNASSO, Heródoto, História. Traduzido por Pierre Henri Larcher. Rio de Janeiro, W. M. Jackson, 1950 (Clássicos da Jackson - vol. XXIII e XXIV). Obra digitalizada para a Editora e-BooksBrasil em agosto de 2006. GOWING, Alain, "Dio's Name," CP 85.1 (1990). KLAIN Belchior, Ygor. 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