A História é constituída, e tecida, por indivíduos excepcionais, que foram capazes de compô-la e recompô-la conforme os recursos de suas respectivas épocas, e, assim, dela fazerem parte para toda a posteridade. E dessa regra não escapa o próprio e famoso historiador grego Tucídides (460 a.C.-400 a.C.). Nascido em Atenas, uma de suas obras mais notórias foi a “História da Guerra do Peloponeso”, descritiva daquele que é considerado o maior e mais relevante conflito armado da História da Grécia Antiga. Composta de oito partes, nela Tucídides narra o embate entre Atenas e Esparta, acontecido no século V a.C., com grande concisão e riqueza de detalhes. Tanto que, mais ao Ocidente e posteriormente, dito clássico foi versado para a língua inglesa pelo filósofo britânico Thomas Hobbes. E é justamente aquela tradução para o inglês que lhe confirmou a condição de clássico da Antiguidade, tantos séculos após narradas as ocorrências ali descritas. Uma das características fundamentais da “História da Guerra do Peloponeso” é o fato de, mesmo sendo natural de uma das partes em conflito, Tucídides sempre procurar transmitir os acontecimentos com distanciamento e imparcialidade, o que foi enormemente facilitado por ter atuado nas respectivas batalhas como guerreiro, e, consequentemente, observador. Configurava-se, desta forma, uma das condições que Heródoto de Halicarnasso (485 a.C.-425 a.C.) - considerado o “pai” da História - dava por essenciais à descrição de um relato histórico: a observação pessoal, a “opsis” (o outro requisito são os relatos testemunhais, que devem ser tomados pelo historiador sempre com empirismo e razão crítica). Com sua atuação “in loco”, Tucídides teve todas as condições de fazer um minucioso relato dos acontecimentos então ocorridos, bem como de suas causas, como de fato teriam sido, e não, necessariamente, como gostaria que fossem, tendo em vista sua condição de ateniense. Tal condição se manteve firme, ainda que o final do conflito tenha sido desfavorável a Atenas. Isso fez com que viesse a ser considerado, junto a Heródoto de Halicarnasso - e, também, a Xenofonte (430 a.C.-355 a.C.), autor de “Helênicas”, também sobre a Guerra do Peloponeso - como um dos precursores da história na condição de ciência. E mais: Tucídides era tão imparcial, e tinha tão forte personalidade, que chegou a negar o direcionamento dos deuses em seus escritos, gerando, por conseguinte, o seu exílio de Atenas. 3 Seu foco geral, ademais, se dava sobre muitas das guerras ocorridas entre as “pólis” gregas, fazendo com que tenha sido considerado, na esteira das relações internacionais durante o século XX, um dos pioneiros da cultura realista. No seu livro “Como se Deve Escrever a História”, Luciano de Samósata (c. 125- c. 181) expressa, em síntese, que os historiadores devem francos e verdadeiros, não submetidos a quaisquer poderes, e, portanto, independentes. E Tucídides, considerado por muitos o maior historiador grego (até mais que Heródoto de Halicarnasso) foi exatamente assim, motivo pelo qual é também considerado o pioneiro destes fundamentos historiográficos. Sua reputação sobreviveu às intempéries dos milênios vindouros como referência de rigor historicista, sendo a perfectibilidade de seus escritos admirada até os dias atuais. Tecidas essas considerações, cabe a célebre pergunta: na festejada narrativa há algum outro requisito, por Tucídides, de apuração da verdade real, além daqueles próprios e originados de Heródoto de Halicarnasso (“opsis” e testemunhos)? Pode-se afirmar que sim, eis que Tucídides impunha a si mesmo uma exigência metodológica com os fatos (“erga”) e os discursos (“lógoi”). É verdade que a historiografia antiga, como há muito bem colocado, é quase como que uma sintetização da história das guerras, estando a curiosidade pelo assunto, entre os poetas, já presente desde, ao menos, a “Ilíada”. Assim como podemos admitir que, alternando-se entre os fatos (“erga”) e os discursos (“lógoi”), Tucídides, ao mesmo tempo que limitava a credibilidade das evidências de que dispunha, impondo-se rígida exigência metodológica, aprofundava as possibilidades daquele e dos demais referenciais épicos, submetendo-o à sua própria rigidez intelectual e científica. E como ele procedia? Primeiro, o comentado historiador procurava apartar-se do “modus operandi” dos poetas, que expressavam em suas obras exageradas mitificações, sem os requisitos essenciais do historicismo, a fim de estabelecer “modelos” heroicos para as gerações vindouras - modelos esses baseados na ideia do mito e que deveriam ser por elas seguidos (Tucídides, assim como Heródoto de Halicarnasso, e conforme veremos logo adiante, também não rompeu completamente com o mito, embora o aparte pessoal do “modus operandi” aqui descrito viesse a limitar, muito, a influência do mesmo sobre as suas obras). 4 Segundo, também se afastava dos logógrafos (historiadores gregos anteriores a ele próprio e a Heródoto de Halicarnasso, todos vivendo na Jônia e suas ilhas, exceto o grande Acusilau de Argos), “visando ao que é mais atraente para o auditório, de preferência ao que é verdadeiro”, de acordo com os métodos por ambos suscitado. Desta maneira, Tucídides investigava profundamente o passado, bem como o então presente. Tudo, absolutamente tudo o que passava por suas mãos não era dado imediatamente por verdadeiro, sendo tais fontes submetidas a acurados meios probatórios - como era com Heródoto de Halicarnasso (que, não obstante ser considerado o “pai” da História por ter escrito apuradas obras, como as “Histórias de Heródoto”, também não rompeu definitivamente com a poesia) - para, assim, reescrever a tradição de forma empírica. Como já acima dito, apesar de seus métodos de apuração serem os mais rigorosos até então registrados, Tucídides não rompe completamente o mito - o que, em certas ocasiões e excepcionalmente, suprime a “rígida exigência metodológica” que se impunha na alternância entre os fatos (“erga”) e os discursos (“lógoi”) - mas busca transcrevê-lo sob uma outra forma. Uma consequência clássica desta metodologia implica no fato de, em algumas ocasiões, suscitar Homero como maior evidência, e, noutras, rejeitá-lo, vez que ele, “sendo poeta, naturalmente embelezou para engrandecer”. E isso até mesmo porque, se Homero escreveu sobre aquilo que não presencialmente testemunhou, no parcial rompimento com o mito Tucídides afirma textualmente que presenciara os fatos por ele narrados, após rígida pesquisa que os englobava no contexto em que se inseriam, com grande exatidão ("akríbeia"). Entretanto, e como disse François Hartog, o historicismo é uma profissão de fé na autópsia, na prova, e que, justamente por isso, tornaria possível a investigação apenas da História Contemporânea. Aqui, François Hartog assume que a reprodução das palavras, tais como foram proferidas, é tarefa demasiado difícil, não importando se o historiador tenha-as ouvido presencialmente ou se aquelas foram ditas e ouvidas por outros que, conforme as circunstâncias, lhe tenham servido de fontes - raciocínio este que faz-nos pensar que a exatidão ("akríbeia") não poderia ser invocada por Tucídides, Heródoto de Halicarnasso ou quaisquer outros historiadores da Antiguidade, ainda que mantida a “rígida exigência metodológica” que se impunha na alternância entre os fatos (“erga”) e os discursos (“lógoi”). 5 Apesar das máximas de François Hartog acima descritas - de que não é possível a “akríbeia" em relação a fatos há muito acontecidos - confiamos na cientificidade dos fatos descritos por Tucídides. Inicialmente, porque os fatos que hoje nos parecem distantes eram, em boa parte, a ele contemporâneos, tendo Tucídides testemunhado um punhado destes, tanto que seu método é até hoje reverenciado e considerado uma aquisição (“ktêma”) perpétua. E, também, porque os leitores versados em grego, ou em qualquer dos idiomas para os quais seus escritos foram traduzidos, perceberão que o que Tucídides oferece é um fascinante conteúdo para contemplar as diferenças e semelhanças entre a História e a historiografia. Afinal, a grandiosidade da obra intelectual aqui discutida é de um enriquecimento único, independentemente de, em algumas poucas passagens, ter o autor recusado a alternância de seus próprios fatos (“erga”) e os discursos (“lógoi”), ou, na maior parte, tê-los acolhido. O que importa, aqui, é o conteúdo. E isso Tucídides tem de sobra. [...]