Todas as ciências conhecidas e praticadas pelos seres humanos já se encontraram num estágio embrionário, que fora materializado numa teórica e original ideia. Foi assim com a filosofia, com vários ramos da medicina, com as religiões e com alguns dos conhecimentos biológicos e matemáticos. E deste padrão também não escapa a nossa própria noção de História. Assim, cremos que, de início, cabe dissertar um pouco sobre a biografia daquele que é considerado o “pai” deste ramo do conhecimento: o grego Heródoto de Halicarnasso (485 a.C.-425 a.C.). Nascido na cidade de idêntico nome, fez toda a diferença quando escreveu a respeito da guerra entre a Grécia e a Pérsia, materializada pela invasão da primeira no século V a.C. Tal conto ficou conhecido como “As Histórias de Heródoto”, publicadas entre 450 a.C. e 430 a.C. e que acabaram divididas em nove livros. O próprio Heródoto, ao que consta, as leu publicamente em Atenas. Em dito épico, verificou-se um novo tipo de leitura, não mais caracterizada pela poesia - limitada a imaginação dos autores à verossimilhança e necessidade de um passado remoto e inalcançável - mas pautada pela razão e pela crítica, que revelavam a condição, e, por conseguinte, o comportamento humano, sempre de acordo com observações (“opsis”) e relatos testemunhais, todos julgados empiricamente. Heródoto de Halicarnasso, portanto, com sua obra “As Histórias de Heródoto”, elevou a “Historie” (“pesquisa”) à condição de ciência, daí nascendo o epíteto pelo qual passou a ser conhecido: “o pai da História”. Ocorre que, desde a época de suas publicações, Heródoto vinha sofrendo acusações de ser sua obra imprecisa e incorreta, de modo que, segundo os seus críticos, teria ele inflado artificialmente a importância das fontes consultadas e as reais idas aos locais dos acontecimentos. Entretanto, passou a ser mais respeitado pelos pesquisadores da contemporaneidade, que até hoje citam seu épico como um dos mais inigualáveis já escritos. Foi exilado, de Halicarnasso, por conta de uma fracassada tentativa de golpe na qual estava envolvido. E parece ter sido por ocasião do exílio que realizou as viagens pela Europa, Norte da África e Ásia Menor nas quais que obteve os fundamentos e as fontes que lhe propiciaram a escrita das “Histórias”: afinal, a respectiva leitura oferece descrições tão precisas dos ditos locais que só podem ter sido expressas por quem realmente esteve e viveu por lá. 3 Tecidas essas considerações, continuaremos esta breve dissertação abordando três subtemas distintos: a crescente exigência do logos em detrimento do mito nos séculos V e IV a.C, os limites do investimento herodotoeano na descrição do “outro” e o espaço reservado ao testemunho e ao olhar.

1. A CRESCENTE EXIGÊNCIA DO LOGOS EM DETRIMENTO DO MITO NOS SÉCULOS V E IV A.C. 

Como já observado, Heródoto de Halicarnasso é considerado “o pai da História” em virtude do fato de ter-lhe conferido o status de ciência - o que significa que, antes de sua obra, predominavam as narrativas do mito. Mas o que significa “mito” em todo este contexto? É lógico que, antes de Heródoto de Halicarnasso, havia memórias do passado recente, e mesmo de fatos pretéritos até então já distantes. Entretanto, ocorre que tais relatos, principalmente os mais remotos, em sua maioria eram, do modo mais tradicional, transmitidos de maneira oral, de geração em geração. Desta forma, pela contínua passagem do tempo e consequente possibilidade de impressionar os destinatários das mensagens - numa natural deturpação da realidade fática, possibilitada pela poesia ilimitada e em grande parte não escrita - tais narrativas diziam respeito a feitos extraordinários e excepcionais que teriam há muito (e há pouco...) ocorrido, mas que, ainda assim, deveriam inspirar as novas gerações a tê-los como modelos e segui-los, numa forma replicação de seu heroísmo (por isso, cremos que desses relatos também decorram as narrativas dos fantásticos seres da mitologia grega). Daí surgiu o mito. Mito este que encontra limites em Heródoto de Halicarnasso, eis que com ele a História viria a ser escrita e limitada por provas factuais, materializadas nos registros escritos e críveis, em substituição às antigas tradições orais, razão pela qual não podemos negar, como disse Aristóteles, que era epistemologicamente mais pobre que a poesia, embora não mais importante. Então, como Heródoto de Halicarnasso viveu no século V a.C., tendo sua escrita da História - e, especialmente, das “Histórias” - bem como os métodos a ela atinentes sido, em sua maior parte (e não unanimemente, conforme expresso na página dois) aceitos, passou-se a exigir, a partir de então, um logos para a credibilidade de um relato histórico, vale dizer, 4 uma descrição dotada de necessidade e verossimilhança, de razão, de técnica, de debate ou apuro científico, dentre outros significados. [...]