1. INTRODUÇÃO

A História é constituída de fatos e homens. E dela fazem parte justamente as entidades e pessoas cujas contribuições são intrínsecas às suas respectivas biografias, seja para o bem ou para o mal. Duas destas personificações são a República romana e aquele que se traduz num dos mais polêmicos líderes da Antiguidade, o político e militar Júlio César. Nascido no território da maior potência militar e política da Idade Antiga, Júlio César foi uma personalidade cujas ações desencadearam reações que transmutaram a cronologia daquela sociedade, bem como alteraram a História das demais civilizações que pelos romanos haviam sido conquistadas. Afinal, se certos povos se encontram sob o domínio de outros, os fatos e acontecimentos econômicos, políticos, religiosos e militares da metrópole repercutem nos territórios periféricos privados de soberania, dado o vínculo de submissão. É como lançar uma pedra em um lago: o impacto na água se irradia em todas as direções, de idêntico modo que alguma decisão específica de uma personagem histórica, por mais remota que seja sua época, influencia o futuro mais distante, positiva ou negativamente. Isso porque, como expresso no primeiro parágrafo, a história pessoal de cada um daqueles protagonistas, sejam entidades políticas, sejam pessoas em si, em algum momento, e por conta da realização de feitos únicos, se confundiu com a própria História da civilização humana. Isso se aplica à República romana e Júlio César, cujos contextos de existência são os tópicos centrais deste artigo. Claro que o presente trabalho não possui a pretensão de esgotar o aludido tema em um breve compêndio de apenas quatorze páginas. De acordo com ROBERTS, 2005, p. 15: “Não se trata de um resumo. Não se pode simplesmente condensar a História geral reduzindo páginas a parágrafos e parágrafos a frases. Quando se apresenta as principais linhas num espaço menor, os tópicos precisam ser distribuídos de modo diferente, às vezes em sequências diferentes. Como a vida de Júlio César se funde à História da sociedade romana, dominadora das relações intercivilizacionais ocidentais de sua época de auge e glória, o presente trabalho tratará, inicialmente, de fatos que antecederam sua vida desde o nascimento da República, a fim de posteriormente situá-la no contexto geral em que se passou, visto que é impossível argumentar sobre o dito líder sem entender o porquê de suas ações. 4 Os fatos expressos nas próximas páginas representam uma tentativa de descrever a História Geral de Roma até o assassinato de Júlio César na Tribuna do Senado, sempre seguindo a linha de raciocínio de vários historiadores, mas especialmente de J. M. ROBERTS.

2. O INÍCIO DA REPÚBLICA

Durante o passar dos séculos, e desde o início da História humana, por volta de 3.500 – 3.000 a.C., com a descoberta da escrita pelos sumérios, é fato que os conflitos de todas sociedades conhecidas foram resultado de uma conjugação de fatores. Mas também se sabe que a maior parte dos casos se consolidou em decorrência das próprias convulsões políticas internas e/ou externas, estas últimas, em sua imensa maioria, devido a guerras. E assim foi, inexoravelmente, com Roma. Apesar de considerada, de certo modo, “um Estado sucessor do helenismo” (ROBERTS, 2005, p. 215), sua História, de acordo com a historiografia mais amplamente aceita, se inicia bem antes da conquistas de Alexandre Magno: o marco inicial teria ocorrido “depois da expulsão dos reis etruscos, por volta de 510 a.C.” (ROBERTS, 2005, p. 215). Segundo ROBERTS, “Tratava-se de uma República” (...), “embora há muito o seu governo parecesse monárquico” (2005, p. 215). Os posicionamentos a respeito de sua duração ainda são objeto de debate, sendo que, para a maior parte dos estudiosos, “pode-se no máximo admitir que a República tenha durado cerca de 450 anos, até a metade do século I a.C.” (ROBERTS, 2005, p. 215). Englobava, portanto, o período de vida de Júlio César (100 – 44 a.C.). A questão é no que consistia aquela República, cuja forma e sistema de governo, junto ao helenismo, viria a influenciar sobremaneira as repúblicas modernas iluministas, como a França e os EUA, e que perdurou até o século I a.C. É o que se vê no próximo capítulo. [...]