* Artigo escrito e publicado em 2011.

O ano de 2011 será lembrado como o interstício dos protestos no mundo todo, mas especialmente nos países árabes. Ali, multidões destemidas ocasionaram a queda dos ditadores Zine El Abidine Ben Ali, da Tunísia, e Hosni Mubarak, do Egito. O líbio Muamar Kadhafi foi derrubado por rebeldes apoiados pela OTAN e o iemenita Ali Abdullah Saleh foi obrigado a assinar termo em que se compromete, num futuro próximo, a entregar o cargo em troca de imunidade. Entretanto, devido a características internas de cada uma daquelas nações - como, por exemplo, o fato de o poder no Egito ter sido assumido por uma junta militar que, a princípio, se declarava de transição, mas que, independentemente da primeira fase das eleições há dias realizada, pouco a pouco foi se perpetuando no comando do país – ainda não se pode dizer que qualquer delas viva em plena democracia. Nem elas e nem a maior parte dos membros da Liga Árabe. A Liga Árabe é uma organização regional fundada no Cairo em 1945 com o objetivo de fortalecer os laços econômicos, comerciais, culturais e religiosos entre os respectivos países, contando hoje com 22 membros, que são Tunísia, Egito, Líbia, Iêmen, Arábia Saudita, Iraque, Jordânia, Líbano, Sudão, Marrocos, Kuwait, Argélia, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Bahrein, Omã, Mauritânia, Somália, Palestina, Djibouti, Comores e Síria. Pois bem, a maior parte deles possui atrozes governos centrais, sendo o exemplo mais evidente a Arábia Saudita. Um dos países mais influentes da liga, a Arábia Saudita se constitui em uma monarquia absoluta, bem como numa teocracia wahhabita (onde, em síntese, há a mais fundamentalista aplicação da lei islâmica, a Sharia, embora desde o início da década de 1990 o governo negue seus vínculos com a herança wahhabi). Tal situação faz com que o regime saudita seja internacionalmente condenado por respeitadas organizações de defesa dos direitos humanos, eis que se constitui em um dos que mais aplicam a pena de morte por crimes que não o de homicídio, dentre outras atrocidades. Outros paísesmembros, como a Somália, estão destroçados pela intensa e sangrenta luta entre clãs rivais, que tentam preencher o vácuo de poder provocado pela ausência de reais e verdadeiras instituições. Até mesmo os mais desenvolvidos, como os Emirados Árabes Unidos e o Qatar, não são democracias. Inobstante tantos e aterradores fatos, a Liga Árabe, em decisão inédita, se considerou no direito de deliberar favoravelmente à aplicação de sanções contra um de seus membros fundadores, no qual os protestos têm sido mais violentamente reprimidos: a Síria de Bashar al-Assad. Inicialmente, convém dizer que tal posição é carregada de hipocrisia, uma vez que a maioria dos membros da liga não aplicam a si próprios o mesmo padrão moral ou de comportamento exigido do país sancionado. Afinal, como dito, também são regimes autocráticos. Pode-se argumentar que em nenhum dos protestos registrados no corrente ano houve uma repressão carregada de tamanho banho de sangue. É verdade, mas também se pode mostrar dados reveladores de que, ao longo de sua História, e não numa seqüência de protestos, grande parte dos mencionados sistemas matou e torturou bem mais que o governo de al-Assad. Todo o acima exposto torna completamente ilegítima a aplicação de sanções por parte da Liga Árabe, esvaziando sua credibilidade e dando ao chanceler sírio a chance de tachálas de “declaração de guerra econômica” ao seu país. Na verdade não se trata de uma “declaração de guerra econômica”, mas de uma guerra de propaganda dirigida às populações árabes, pois os ditadores da liga que ainda não foram ameaçados por protestos, e, por conseguinte, não caíram, temem ter o mesmo destino de Zine El Abidine Ben Ali, Hosni Mubarak, Muamar Kafafi ou Ali Abdullah Saleh. Bashar al-Assad, portanto, lhes deu a oportunidade perfeita de mostrar o quão “benevolentes” e “sábios” são ao condenálo. Assim, retardam novos protestos em seus próprios países, ganhando tempo para présufocá-los por meio de seus serviços de inteligência, evitando, então, o seu próprio ocaso. Não tenho, aqui e em absoluto, a intenção de defender o regime sírio, que é repugnante ao extremo. Mas tenho, sim, o escopo de mostrar como pode ir muito, muito longe a hipocrisia humana a fim de manter o próprio poder e privilégios. Ainda mais quando se trata de relações internacionais.