Spartacus e a Terceira Guerra Servil 

Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho

*Artigo escrito e publicado em 2021

Ao nos depararmos com uma personagem histórica, em especial à sua retratação no cinema, tendemos a acreditar mais nos gloriosos contos cinematográficos que na análise histórica em si. E esse parece ser o caso quando se trata do gladiador e escravo trácio Spartacus (109 a.C. - 71 a.C.).

Integrante de uma tropa auxiliar do Exército romano, dela escapou e, sendo recapturado, foi reduzido à condição de escravo. Só que sua grande força física chamou a atenção de Lêntulus Batiatus, negociador de escravos, que logo o comprou e levou-o para sua escola de gladiadores, na Cápua. Ali, no meio de tantos outros, Spartacus era brutalmente treinado, para que viesse a proporcionar futuros espetáculos ao público romano no Coliseu, bem como noutros locais previamente firmados.

Spartacus, bem como seus colegas de escola, não se fizeram de rogados perante os maus-tratos. Apoderaram-se das longas facas de cozinha que havia na escola e dominaram a respectiva guarda, evadindo-se. Na fuga, depararam-se com bigas que carregavam espadas para aquilo que seria a continuação de seu treinamento, e livraram-se dos soldados enviados para recapturá-los. Teria, aí, início uma das maiores odisseias contra a escravidão oficial da República Romana, e que chegou a ter, no seu auge, cerca de 40 mil escravos fugidos sob a liderança do carismático Spartacus.

O Senado, preocupado com o fato de que a rebelião pudesse chegar à capital, Roma, enviou uma primeira expedição a fim de confrontá-los. Esta fora comandada por Gaius Claudius Glaber, e procurou aniquilar os amotinados no sopé de uma grande montanha (que, se não me engado, era o Monte Vesúvio). Só que o exército de escravos, na liderança de Spartacus, foi mais inteligente e promoveu um cerco no sopé do monte, ocasionando a estrondosa derrota das forças romanas e gravando, para sempre na História, táticas de combate que até hoje são apreciadas pelos estrategistas de guerra.

Uma segunda expedição, então, foi enviada pelos senadores. Seria chefiada por Públius Varinius, que, com a ajuda de Fúrio e Cossino, interceptaram Spartacus e seus liderados Alpes. Vendo que Spartacus se banhava num local chamado Salinas, os romanos o atacaram. Ocorre que a fúria dos escravos suplantou qualquer tentativa de prisão ou morte de Spartacus. Muitos de seus homens, por óbvio, foram mortos, mas não menos numerosas foram as baixas romanas, cujos comandantes se salvaram por pouco, mas tiveram toda a bagagem pilhada e recolhida pelos sublevados sobreviventes. Ali, após mais essa vitória, Spartacus estava enfadonho de tanta luta, e propôs aos amotinados que voltassem para suas respectivas terras, mais a saber, a Gália e a Trácia, local do nascimento do líder. Mas houve recusa por parte da maioria, que, contaminada por ranços pessoais contra a República Romana, preferiu continuar na luta, convencendo Spartacus a nela prosseguir, nesta que foi a denominada Terceira Guerra Servil da República Romana.

Tomando conhecimento de mais esta derrota, o Senado não perdeu tempo e, numa rápida aprovação, indicou para o comando da terceira expedição repressora o cônsul Lucius Gélius Publícola, acompanhado de Lêntulus. Aqui, depois de tanto tempo em campanha, e apesar dos apelos anteriores para que Spartacus insistisse na guerra, escravos germânicos contra ele se sublevaram, pelo que Publícola teve inicial vantagem, de modo que Lêntulus sitiou os rebeldes, matando vários deles. Só que, nesse ínterim, interveio Cassius, governador romano da Gália, que, ineptamente, desequilibrou o xadrez da guerra que, naquele momento, estava favorável à República Romana, possibilitando mais uma vitória aos amotinados de Spartacus, que foi ovacionado e cuja liderança não era mais questionada.

Um quarto fracasso não seria mais aceitável, para o orgulho da República, que, no seu entender, enviaria, para pôr um fim definitivo à revolta, naquele distante ano de 71 a.C., quem seria, dentre todos os anteriormente mandados, e os que poderiam sê-lo, o mais eminente de seus comandantes: Marcus Licínius Crassus (que também fora membro do Triunvirato), tendo este ido ao encontro de Spartacus na Romanha.

Ali, determinou ao seu subordinado Múmio que somente acompanhasse os movimentos do inimigo, sem atacá-lo ou admoestá-lo de qualquer modo. Só que, observando a oportunidade e objetivando a glória que uma eventual vitória deflagraria no nível pessoal,

Múmio, com suas tropas, avançou sobre Spartacus e seus comandados, tendo sido melancolicamente derrotado, o que despertou a fúria de Crassus pela insubordinação. Crassus, a fim de evitar mais desobediências, dividiu suas tropas em cinquenta dezenas de indivíduos contra-atacantes, de modo que, em caso de derrota, um em cada grupo de dez haveria de ser sorteado para sofrer a pena de morte, numa prática que há muito tempo havia sido abandonada pela própria República Romana, por ignominiosa, injusta e infame.

Assim, Crassus, que se arrependera da ordem de ajuda, feita por ele próprio, para que Túculo da Trácia e Pompeu da Hispânia o auxiliassem, e, desta maneira, temia ter de com eles dividir a glória de uma eventual vitória, se antecipou e lançou suas forças com ímpeto total em face de Spartacus e seus comandados, que foram impedidos de chegar a navios que os levariam à Sicília e, ali, viessem a conseguir a adesão de mais escravos, que se rebelariam e fortaleceriam sua causa. Spartacus e seus liderados recuaram de tal pretensão e se refugiaram no local chamado Península dos Régios. Como uma segunda parte dos rebeldes havia se sublevado em face de Spartacus e se exilado na Lucânia, e Crassus temia um avanço de Spartacus contra a capital, aproveitou-se da cisão interna e os atacou, a fim de enfraquecer o respectivo exército, mas tendo tais insurgentes, ainda assim, sido defendidos de surpresa por Spartacus e por ele sido salvos.

Então, iniciou-se uma perseguição contra Spartacus e seus seguidores, numa batalha em que um total aproximado de 12 mil homens, de ambos os lados, pereceram, naquela foi a mais terrível luta sob sua liderança. Dali, foi à Petélia, onde, novamente por suas habilidades e determinação, logrou infligir danos aos romanos, mas não sem, após, sofrer a incompreensão de seus seguidores, que desejavam seguir em luta, por orgulho e presunção.

Spartacus lançou-se contra as tropas de Crassus, pelo que foi mortalmente ferido, tendo seu corpo desaparecido, em meio às montanhas de cadáveres de romanos e revoltosos, e cujos escravos sobreviventes foram condenados, num total de cerca de 6 mil, à crucifixão na Via Ápia, a mais famosa de Roma, pena esta corroborada pelo Direito Romano a casos como estes. Crassus, ao crucificá-los, cumpriu nada mais do que mandavam as leis da República Romana, impondo um castigo que, no século seguinte e já sob a denominação de Roma como um Império, seria infligida a Cristo na Judeia.

O corpo de Spartacus nunca foi encontrado ou devidamente sepultado, e parece que Crassus também nunca se preocupou com isso. Como não conhecia exatamente seu rosto, pode-se dizer que presumiu sua morte, numa guerra da qual também estava, também, estafado. Bem diferente do grande filme clássico de 1960, em que Spartacus, interpretado por Kirk Douglas (1916-2020), aparece ao final entre os crucificados.

Cinema e realidade, por vezes, diferem muito em relação à História. Mas, como esta não é uma ciência exata, não se pode cravar, definitivamente e neste caso, o que houve com o corpo de Spartacus de forma incontestável. Talvez esteja aí a grande beleza entre as diferentes narrativas contadas pelos historiadores - ainda que as fontes sejam escassas - e a exposta pela sétima arte. Afinal, o debate é sempre encorajador, além de uma grande forma de refino intelectual. Daí nosso grande “viva” às ciências humanas.