Sobre Jogos e Música Clássica Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho *Artigo escrito e publicado em 2021 Os Jogos Olímpicos de Verão sempre são uma oportunidade de celebrar a diversidade que compõe o nosso mundo. E, como propugna o espírito olímpico - bem como a disciplina e a ética própria dos atletas - devem ser disputados honestamente. Não é o caso, infelizmente, de todos os pretendentes a medalhas, vários dos quais são flagrados em exames antidoping. Em especial se a trapaça se torna uma política de Estado. É o que ocorre, numa habitualidade maior que a usual, com os atletas da Rússia, motivo pelo qual o país havia sido, de início, banido dos Jogos Olímpicos de Tóquio (realizados em 2021). Entretanto, os russos recorreram, e conseguiram ser aceitos aqueles que provaram estar livres do uso de substâncias dopantes - e, mesmo assim, sob a bandeira de seu comitê olímpico (e não da Rússia em si). Além do mais, no caso de receberem medalhas de ouro, também não puderam ouvir seu hino nacional, substituindo-o pelo “Concerto de Piano nº 01”, de Piotr Ilitch Tchaikovski (por sinal, uma belíssima escolha). Agora, cabe a célebre pergunta: se os russos admitidos a competir haviam sido todos testados e estavam limpos, por que não puderam celebrar as vitórias sob sua bandeira e hino nacionais? O COI (Comitê Olímpico Internacional) é altamente contraditório ao, de um lado, reconhecer o envolvimento ilícito do Estado russo na preparação de parte de seus atletas, e, de outro, punir os que competiram dentro das regras, com a triste imposição do não festejo de sua nacionalidade. Se o doping é comum em determinado país, que se teste todos os respectivos atletas e deixe competir apenas aqueles que provarem não trapacear. É uma forma de se punir o Estado transgressor e não castigar injustamente os que não se envolvem no ilícito, pois o momento de maior glória para um atleta não é, necessariamente, o primeiro lugar, mas, dele decorrente, a possibilidade de mostrar o amor por seu país. Imagine o leitor a seguinte situação: logo antes da Copa do Mundo da Fifa de 2022, provase que vários jogadores da seleção brasileira de futebol estão dopados. O Brasil é banido da Copa, recorre e consegue ser readmitido, mas somente com futebolistas que, convocados às pressas, provem estar limpos. Até aí, bastante justo. Mas, apesar disso, os honestos são obrigados a competir não em nome do Brasil, mas sob a denominação “Atletas da Confederação Brasileira de Futebol”, com a bandeira da confederação, e a, antes dos jogos, absterem-se de ouvir o Hino Nacional Brasileiro, alocando, em seu lugar, a ópera “o Guarani”, de Carlos Gomes (a mais famosa composição brasileira de música clássica, que, assim como o “Concerto de Piano nº 01”, também é linda ao extremo). Adoro o “Concerto de Piano nº 01” e “O Guarani”, mas, se fosse competidor, preferiria ouvir o meu hino nacional. Competir com a minha bandeira, e não a de qualquer outra entidade. É isso o que a hipocrisia e a maldade das organizações esportivas não permitem que o público saiba.