Desde o início de 2011, o mundo tem assistido horrorizado às atrocidades perpetradas pelo governo e por seus adversários rebeldes durante os combates da Guerra Civil da Síria. A falta de limites caracteriza o conflito, que é, até agora, um dos mais sangrentos confrontos armados do início de século XXI. Entretanto, um fator a mais tem apimentado as discussões sobre a tragédia: o uso, por parte do ditador Bashar Al-Assad, de armas químicas contra sua própria população civil. Sabendo que tais artefatos são banidos por tratados internacionais, e, portanto, ilegais, Assad atacou, há menos de dois meses, cerca de 1.400 pessoas com gases letais numa aparente tentativa de lançar a culpa sobre os rebeldes e angariar, assim, a simpatia da comunidade internacional. Só que a estratégia falhou e agora ficou provado que tais armas foram, de fato, usadas pelo governo de Damasco. O ocaso que no momento paira sobre o ditador revela todo o mau-senso da sociedade global. Afinal, até o uso dos artefatos químicos já haviam morrido, no decorrer dos combates e por uso de armamento convencional, cerca de 110 mil pessoas e as potências ocidentais - especialmente os EUA, o Reino Unido e a França - sempre relutavam em realizar uma intervenção militar no país. Agora que um número muito menor de pessoas foram assassinadas, embora de forma mais abjeta, os ocidentais ameaçam invadir a Síria. Por que somente agora? Os governos de Barack Obama e de seus aliados, no intuito de manter uma propaganda positiva perante os observadores mais ingênuos, em todos os momentos optam por fazer transparecer uma "capa de legalidade" sobre suas ações (ainda que, como se evidencia em outros casos, sejam flagrantemente antijurídicas e criminosas), mas em dito caso sempre souberam que jamais se configuraria qualquer das duas situações que, em regra e de acordo com o Direito Internacional, permitem a invasão de um Estado soberano - a autodefesa e a autorização do Conselho de Segurança da ONU - pois a Rússia, que vende armas aos sírios e tem poder de veto no conselho, sempre viria a bloquear qualquer resolução que admitisse o uso de força militar contra Assad. Estavam os EUA, o Reino Unido, a França e seus demais aliados impedidos de agir na esfera legal, sob pena de enfrentarem a Rússia diplomatica e até militarmente, razão pela qual não fizeram nada, invocando a falsa imagem de legalidade para não terem de enfrentar a superpotência antagônica, o que, em suas concepções, vale mais que impedir um genocídio (atitude, diga-se, bastante hipócrita, uma vez que não exercem tal e suposto legalismo em lugares tão conturbados quanto). Agora que os planos de Assad fracassaram e o entregaram na questão do assassínio das 1.400 pessoas erradicadas por gases letais, manchando a imagem da Rússia e permitindo, de fato, uma intervenção externa, o Ocidente ainda quer fazer crer - volto a dizer - que estava disposto a conter o genocídio, mas que fora impedido pelos russos, obstaculizadores da medida. Mesmo que referida posição pusilânime e covarde tenha custado as vidas dos 110 mil cidadãos sírios mortos anteriormente ao uso dos gases venenosos, no momento os únicos determinantes da realização de eventual intervenção militar ocidental. E é aí que entra o grande mau-senso da sociedade global a que me referi no terceiro parágrafo: de início, o temor reverencial diante da Rússia (primeira potência nuclear do planeta, que jamais usaria suas bombas atômicas, vez que receberia idêntica resposta), mas, principalmente, a demonização exclusiva de armamentos que, ao longo da História e ainda que de um modo mais infame, sempre ocasionaram menos sofrimento que as armas convencionais. Os artefatos nucleares são a maior evidência, eis que, por exemplo, os bombardeios convencionais que os EUA lançaram sobre Tóquio durante a Segunda Guerra Mundial mataram muito mais pessoas que as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki. Armas químicas foram utilizadas inicialmente na Primeira Grande Guerra, e, após, tiveram seu uso proibido, mas a horrenda arte da guerra, como mais antiga tradição humana, continuou, o que prova que o problema não reside no tipo de armamento usado, mas na própria natureza belicista dos seres-humanos, que não conseguem conter sua agressividade. Portanto, Assad deve ser condenado mais pelos muitos milhares de cadáveres que produziu com balas de chumbo e bombas convencionais do que pelas 1.400 pessoas que, infelizmente e de forma sórdida, também assassinou ao lançar toxinas no ar. E o Ocidente não tem mais qualquer moral para fazer o que quer que seja. Será que daqui a 1.000 anos ainda estaremos fazendo guerras contra nossos semelhantes? Eu espero que os historiadores e arqueólogos do futuro nos vejam, sim, como bárbaros. E que seus governos tenham um mínimo de bom senso.