“Cartas a um jovem poeta”, de Rainer Maria Rilke, é uma obra que, pela sua beleza de sentimentos , pode ajudar o leitor a se conhecer melhor e descobrir o que procura em sua vida. Um dos temas abordados pelo autor é a árdua tarefa de encontrar a real vocação, no caso, para a escrita. Para Rilke, solidão e introspecção são essenciais na busca pela vocação, e esta existe somente quando percebemos que realmente precisamos realizar determinada atividade para viver.

Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever. Sobre tudo isto: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profunda. E, se ela for afirmativa, se o senhor for capaz de enfrentar essa pergunte grave com um forte e simples “Preciso”, então construa sua vida de acordo com tal necessidade (...) (RILKE, p. 25).


             De maneira simples, Rilke pretende como se conhecer profundamente e, a partir disto, encontrar a verdadeira vocação ou mesmo facilitar a escolha da profissão a ser seguida. Para o autor, devemos olhar para dentro de nós mesmos, a fim de descobrirmos o que queremos e esperamos de nossas vidas, sem nos preocupar com opiniões alheias, pois quando fazemos aquilo que gostamos ,  ficamos estampados em nossas atitudes e nas coisas que fazemos.

Não há meio pior de atrapalhar esse desenvolvimento do que olhar para fora e esperar que venha de fora uma resposta para questões que apenas seu sentimento íntimo talvez possa responder, na hora mais tranqüila. (RILKE, p.28).        

Além das dificuldades da vida profissional, nessa obra, Rilke trata da vida pessoal e das inquietações de Franz Kappus e estas podem ser comparadas à nossas. O ator ensina de maneira muito sutil e sem pretensões, como enfrentar as dificuldades e conhecer o próprio “eu” interior. Em uma das cartas, talvez a mais profunda delas, Rilke tem a difícil tarefa de explicar e ensinar o que é amar, em sua visão.

Amar também é bom: pois o amor é difícil. Ter amor, de uma pessoa por outra, talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada, a mais extrema, a derradeira prova e provação, o trabalho para o qual qualquer outro trabalho é apenas uma preparação. Por isso as pessoas jovens, iniciantes em tudo, ainda não podem amar: precisam aprender o amor. (RILKE, p.65). 

            Esta carta é uma das mais belas e que contém mais lições para nossa vida pessoal e nossas inquietações, pois o autor se aprofunda nas questões sentimentais de forma tocante, alcançando o interior do leitor. Para Rilke, o amor amadurece a pessoa, faz ela sentir-se mais importante para o mundo.


 O amor constitui uma oportunidade sublime para o individuo amadurecer, tornar-se algo, tornar-se um mundo, tornar-se um mundo para si mesmo por causa de uma outra pessoa; é uma grande exigência para o individuo, uma exigência irrestrita, algo que o destaca e o convoca para longe. Apenas neste sentido, como tarefa de trabalhar em si mesmos, as pessoas jovens deveriam fazer uso do amor que lhes é dado.(RILKE, p.65 e 66). 

              Apesar da beleza e das lições aprendidas por meio das cartas de Rilke, diferente de suas idéias, o amor é algo que independe da idade do individuo. Muitas vezes as pessoas pensam amar alguém, quando na verdade não amam. Porém, quando o amor acontece, não há idade, religião, cultura ou qualquer outro fator que possa mudar isso.

            Rilke faz uma comparação inusitada, porém muito sábia, quando compara o amor à morte, pois a inquietações do ser humano com relação às duas coisas são semelhantes.


 Quem observa com seriedade descobre que, assim como para a morte, que é difícil, também para o difícil amor não se reconheceu ainda nenhum esclarecimento, nenhuma solução, nem aceno, nem caminho. Para essas duas tarefas que carregamos e transmitimos secretamente sem esclarecer, nunca se achará uma regra comum baseada em um acordo. (RILKE, p. 68).             

            Por meio de suas cartas, Rilke consegue transmitir ao leitor lições muito importantes para a vida pessoal, profissional e as inquietações que todos temos com relação a diferentes assuntos que permeiam nossas vidas. É um livro engrandecedor, que faz o leitor conhecer um pouco mais de si mesmo e achar respostas para muitas dúvidas que antes o atormentavam. 

Referências. 

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GERALDI. João W. Concepções de linguagem e ensino de português. In. GERALDI.  João W ( org .) O texto na sala de aula – leitura e produção . SP. Ática, 2001, p.p. 40-47. 

GONCALVES FILHO. Antenor. Educação e literatura – o que você precisa saber sobre.  SP.  DP & A, 2000. 

GRAMSCI. Antonio. Literatura e vida nacional. SP. Cortez,1997. 

GUIMARÃES. Eduardo. Os limites do sentido: um estudo histórico e enunciativo da        linguagem. SP: RG Editora, 4ª. edição, 2010. 

____________________.. Semântica do Acontecimento. SP: RG Editora. 2ª. edição, 2005 

LAJOLO. Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. SP. Ática, 2000. 

RILKE. R. Maria. Cartas a um jovem poeta. SP: Ática. 2011