O livro dos Salmos é a maior coletânea de poesia lírica de cunho religioso que existe.

Nesse livro, encontramos desabafos, confissões, conselhos, orações, agradecimentos, dúvidas e exaltações ao Deus altíssimo. É impressionante a quantidade de atributos que encontramos de Deus no livro dos Salmos!

Para quem aprecia este gênero literário e ama a Palavra de Deus, a Bíblia está repleta de poesias que mexerá com o seu intelecto e transformará o seu espírito. É um recurso literário muito bem explorado pelos autores bíblicos e ocupa uma porção considerável na bíblia:

“Um terço do Antigo Testamento foi escrito em forma poética, que se fosse impresso em sequência, teríamos um volume cuja extensão total excederia o Novo Testamento” (KAISER, 2009, p.83).

Mas o que é poesia?

Pode-se definir poesia como qualquer tipo de linguagem verbal ou escrita que é estruturada ritmicamente e destina-se a contar uma história, ou expressar qualquer tipo de emoção, ideia ou estado de ser. Segundo o dicionário, é a “arte de criar imagens, de expressar emoções em que se combinam sons, ritmos e significados”.

Robert Lowth (1829) ensinou que a utilidade é o objetivo final da poesia, e que o prazer é o meio pelo qual esse fim pode ser efetivamente cumprido. Nesse espírito ele declarou:

“Eu, portanto, estabeleço como uma máxima fundamental, que a poesia é útil, principalmente porque é agradável (…) os escritos do poeta são mais úteis do que os do filósofo, na medida em que são mais agradáveis” (LOWTH, 1829, p.11).

Dentre toda a extensão do livro, hoje vamos dedicar a nossa atenção ao salmo do capítulo 24.

Esse salmo é considerado real, ou seja, fala de um verdadeiro Rei que governa o mundo. Ele descreve a entrada do Senhor na cidade santa de Jerusalém e pode ter sido cantado quando o rei Davi levou a arca da aliança para Jerusalém: “Assim subindo, levavam Davi e todo o Israel a arca do Senhor, com júbilo, e ao som das trombetas.” (2 Samuel 6:15)

Pode-se dividi-lo em três passagens:

  • adoração a Deus como Criador e Soberano do mundo; (v. 1,2);
  • questionamento de qual seria a abordagem apropriada ao Senhor (v. 3-6);
  • antevisão do Rei da Glória (v. 7-10).

 

Salmo davídico

 Ao SENHOR Deus pertencem o mundo e tudo o que nele existe; a terra e todos os seres vivos que nela vivem são dele.

 O SENHOR construiu a terra sobre os mares e pôs os seus alicerces nas profundezas do oceano. (v.1,2)

Deus é o criador e sustentador do mundo. Ele o formou maravilhosamente somente com o poder das palavras proferidas por ele. Desde o quark, que é uma partícula localizada no interior do núcleo do átomo, ou seja, a menor coisa do universo, até o maior animal do mundo, que é a baleia azul, foi o Senhor Deus quem os criou e tudo pertence a ele. Os alicerces que segura a terra de nada adiantaria sem o alicerce maior, que é Deus, é ele quem sustenta todo o universo.

E claro, não poderia faltar a joia da sua criação: o homem. Deus moldou o homem através do barro com as suas próprias mãos. O universo, juntamente com as galáxias, as estrelas, as nebulosas, asteroides, cometas, radiações etc., foram formados por uma ordem de Deus. Mas o homem não. Deus o modelou e o criou, temos as digitais das mãos de Deus em nós! E pertencemos a ele, somos obras das suas poderosas mãos.

Como se sente ao pensar sobre isto? O mesmo Deus que criou a imensidão do universo, é o mesmo que nos formou. E não só isso. Nos fez feito a sua imagem e semelhança! Os animais irracionais não têm este privilégio.

É sempre bom lembrar em como fomos formados para render graças àquele que é digno de ser chamado Criador.

Quem tem o direito de subir o monte do SENHOR? Quem pode ficar no seu santo Templo?

Somente aquele que é correto no agir e limpo no pensar, que não adora ídolos, nem faz promessas falsas. (v.3,4)

No Salmo 15 também encontramos perguntas semelhantes a essas. O salmista, ao perguntar sobre o direto de subir ao monte do Senhor, está, na verdade, perguntando quem poderá fazer morada para sempre na presença de Deus. Não fala, especificamente, sobre ser apenas membro de uma igreja (o que é importante para todo cristão), mas vai muito além disso: está descrevendo o perfil de um verdadeiro adorador.

Ao questionar sobre isso, ele mesmo nos traz as respostas. Na verdade, ele nos descreve o perfil de um verdadeiro cristão:

  • Tem uma vida correta tanto no agir como no pensar: “pois estamos tendo o cuidado de fazer o que é correto, não apenas aos olhos do Senhor, mas também aos olhos dos homens.” (2 Coríntios 8:21)

Ter uma vida correta, para os que temem a Deus, não pode ser considerado uma obrigação; simplesmente, o seu caráter é transformado por Deus e ele não saberia viver de outra forma. Se antes levava uma vida desregrada, pela graça de Deus, leva uma vida guiada pelo Espírito Santo.

Quando agimos de maneira correta para com Deus, também o fazemos com outras pessoas, sejam elas cristãs ou não; quando o nosso comportamento é correto com o Senhor, mesmo sem perceber, o nosso comportamento também muda para com o nosso próximo. É uma consequência maravilhosa.

Quando agimos assim, os nossos pensamentos também passam a mudar e tudo o que pensamos será voltado para a glória de Deus.

  • Não se rende a idolatria: Por isso, meus amados irmãos, fujam da idolatria (1 Coríntios 10:14).

Paulo nos manda fugir de qualquer idolatria/paganismo. O apóstolo não fala para a deixarmos em algum canto do nosso coração; não fala para esconder a idolatria de Deus (mesmo porque isso seria impossível); não diz para dividirmos o nosso tempo com coisas ou pessoas que não o agradam. Ele é conciso em afirmar para que FUJAMOS de qualquer pessoa ou objeto que toma o lugar de Deus na nossa adoração.

É comum, quando se fala de outros deuses, pensarmos imediatamente em imagens católicas ou em deuses de culturas politeístas. Antes fosse só isso! Seria até mais fácil de removê-las de algum canto de nossa casa. O difícil é removê-los do nosso coração.

Temos que lembrar que tudo que ocupa o lugar de Deus em nossa vida, já é idolatria, é um tipo de deus. Seja o marido ou a esposa, dinheiro, sexo, trabalho, um apego emocional etc.; se colocamos essas coisas acima do Deus Altíssimo, estamos praticando este terrível pecado. Cuidado.

Peça para Deus te ajudar a não colocar nada acima dele no seu viver. Lembre-se que a glória pertence a ele e não a divide com ninguém.

  • Não age com falsidade: Guarde a sua língua do mal e os seus lábios da falsidade (Sl 34:13).

 A falsidade é uma das características dos que não temem a Deus. Agir dessa maneira com o próximo é um ato de covardia e inimizade, não somente com a pessoa afetada, mas também com o próprio Deus.

Quem se deixa levar por esse ato está, na verdade, dando lugar ao diabo, acaba se tornando um instrumento dele para coisas que não agradam a Deus.

Não faça promessas falsas, não espalhe notícias falsas, não seja fingido com o próximo, não dê lugar ao diabo. Os verdadeiros adoradores do Deus Altíssimo não agem assim! Não se rendem às pressões desse mundo; não faz o que as outras pessoas fazem para agradá-las, mesmo porque, o intuito principal da vida do cristão é agradar somente a Deus não importando em que circunstâncias se encontram.

Que ao usar a sua língua seja para proferir palavras de consolo, benção, admoestações bíblicas e louvor ao que é merecedor, o nosso Baluarte.

Para algumas pessoas pode parecer demasiado pesado, mas para quem sabe que estas são as atitudes certas que agradam ao Salvador, é leve. Difícil mesmo é levar a carga pesada do pecado que o diabo faz com que muitos carreguem com uma certa aparência de leveza. “Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve." (Mt 11:30)

O SENHOR Deus o abençoará, o salvará e o declarará inocente no julgamento.

São assim as pessoas que adoram o SENHOR, que prestam culto ao Deus de Jacó. (v.5,6)

Quem pratica o amor que Jesus ensinou, será salvo no dia do julgamento. O diabo poderá tentar culpá-lo de todas as formas, mas Deus o declarará justo diante dele, pois ele conhece os seus pelo sangue de Jesus. Ele sabe que lutaram contra todo tipo de pecado e em Jesus, saíram mais que vencedores.

Quem age de maneira diferente ao que o salmista declarou, não é um genuíno cristão e não podem permanecer na presença do Altíssimo. Deus não os suportaria.

Abram bem os portões, abram os portões antigos, e entrará o Rei da glória.

Quem é esse Rei da glória? É Deus, o SENHOR, forte e poderoso, o SENHOR, poderoso na batalha.

Abram bem os portões, abram os portões antigos, e entrará o Rei da glória.

Quem é esse Rei da glória? É Deus, o SENHOR Todo-Poderoso; ele é o Rei da glória. É Deus, o Senhor Todo-Poderoso; ele é o Rei da glória.” (v.7,8,9,10)

Aqui a chegada da Arca da Aliança é retratada para nós. As cidades dos tempos bíblicos eram cercadas por muros e portões para a proteção de possíveis invasões inimigas. Quando a arca chega em Jerusalém há um júbilo glorioso e ordenam para que os portões da cidade se abram porque tinha chegado aquele que daria beleza aquele lugar.

Há uma pergunta retórica nesses versos quando perguntam quem é o “Rei da Glória?”, a resposta é óbvia e vem logo em seguida: é Deus, o Deus de Israel que ampara e protege todo o povo; o Senhor forte e poderoso que não perde nenhuma batalha, por que temer?

Que se abram todos os portões! O da nossa mente e do nosso coração! Chegou quem faltava: O Senhor dos Exércitos! O poderoso nas batalhas, o que peleja em favor do seu povo, que traz consigo uma espada flamejante para aniquilar o diabo e os seus seguidores. A batalha da cruz já foi vencida pelo sangue que foi derramado, nos salvou e redimiu.

Quem mais poderia tal feitos senão o Rei da Glória?

Os versos são repetidos para dar ênfase no que está sendo declarado. O povo de Deus nunca se cansará de adorar o Rei Glorioso e de declarar que o Salvador de todos os povos. Assim será e tem que ser até esse mesmo Rei voltar com toda a sua glória.

Amém.

 

REFERÊNCIAS

 

LOWTH, Robert. Lectures on the Sacred Poetry of the Hebrews. (Translated from the original latin by G.Gregory F.A. S) A new edition with notes by Calvin E. Stowe.For Crocker & Brewster, And J. Leavitt, No.182, 1829.p.11.

KAISER, Walter C.; SILVA, Moisés. Introdução à Hermenêutica Bíblica (2ª edição). Cultura Cristã, 2009.p.83.

https://teologiabrasileira.com.br/poesia-hebraica-biblica-um-estudo-sobre-esticometria-sonoridade-e-gramatica/