A obra “Pinóquio às avessas” de Rubem Alves, pela editora Papirus, traz importantíssimas reflexões em relação aos processos de ensino e aprendizagem. Remota-nos, ainda que implicitamente, aos dizeres de Paulo Freire: “A educação não pode ser um depósito de informações do professor sobre o aluno. (...) Ensinar não é transmitir conhecimentos, conteúdos.” (FREIRE, 1987).

Educar sem aprisionar, engaiolar. Proporcionar ao aluno – sujeito de todo o processo de ensino-aprendizagem – um ambiente de interação e construção do conhecimento, para formar cidadãos, conscientes de seu papel na sociedade, realizados em todos os âmbitos de sua vivência e desenvolvimento. Educar para formar pessoas. Este precisa ser o cerne de toda abordagem e método de ensino.

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Contudo, percebe-se em muitas abordagens, experiências e tentativas, uma deturpação dos princípios de se educar, valorizando o conteúdo sobre a pessoa, o mérito por repetição sobre o direito de aprender; impedindo o aluno de ser feliz.

Parece esta uma questão infundada, própria de utópicos estudantes que sonham em formar-se educadores, sem ter os pés no chão, racionais no âmago. Entretanto, tudo o que foi dito não passa da mais dura e crua verdade.

“Sou o intervalo entre meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim”. Esta é a frase de Fernando Pessoa usada por Rubem Alves para explicar sua obra. E esta obra, aparentemente infantil, nada mais é do que um livro de crianças escrito para os adultos. Um livro para conduzir o pensar, de modo que se reflita sobre a abordagem de ensino-aprendizagem que ainda vigora e permeia os corredores de nossas escolas. Um ensino tradicional, que nada se compara ao que de fato significa este termo, preservar o que é bom, que traz consigo uma história.

O livro vai questionar certos posicionamentos que todos encontramos em algum momento de nossas vidas e que até, infelizmente, podemos tê-los repetido. Por anos ouvimos e nos gloriamos com pensamentos como “só por meio da escola a criança pode se tornar uma pessoa de verdade". Mas o fato de frequentar a escola não é o suficiente para garantir um futuro feliz às crianças. Muitos pais dizem aos filhos que na escola aprenderão tudo sobre a vida e o que mais quiserem saber. Em sua obra, Rubem Alves quebra os paradigmas e nos levar ao questionamento.

A intertextualidade que “Pinóquio às avessas” estabelece com o original “Pinóquio” de Carlo Collodi (1883) centra-se no fato do personagem principal ter sido feito de madeira e depois de adquirir sentimentos e conhecimentos a fada ter o tornado “gente”. Já em “Pinóquio às avessas”, a reflexão se dá sobre as pessoas nascem “gente”, e viram “bonecos” nas mãos do sistema escolar.

A pergunta do pai a Felipe, o protagonista da história, gera os pontos de reflexão desejados pelo autor: “O que você quer ser quando crescer?”. Entretanto, no desenrolar da narrativa percebe-se a dicotomia que se lança. É correta esta pergunta, ou mais correto deveria ser uma partisse do próprio Felipe: “Pai, o que você vai me deixar ser quando eu crescer?” Por mais que um bom pai dê uma boa resposta, infelizmente, sabemos que, implicitamente, o desejo é que o filho seja como a maioria, um boneco do capitalismo que, embora manipulado, gera lucro.

A escola que antes era sonho de um paraíso, onde todas as perguntas seriam respondidas, onde se poderia saber tudo sobre a vida, torna-se uma ilusão, uma falsa realidade. Há questionamentos, há o que se ensinar e o que se aprender, mas há também a descoberta feita por Felipe: todo conhecimento adquirido na escola serve, apenas, para passar no vestibular. Com isso, o ensino tradicional, de transmissão bancária, é criticado por desconsiderar que todos os seres humanos precisam agir aos estímulos do ambiente para, então, serem capazes de desenvolver as próprias habilidades; é a constante interação do aluno em meio ao processo educativo, que o permite construir e organizar o próprio conhecimento.

A crítica se dá também ao fato de que as dúvidas e questionamentos de uma criança não podem ser reduzidas às "necessidades do vestibular". Uma criança estuda para crescer e se fortalecer como cidadão, não como um boneco repetitivo e manipulado. Rubem Alves critica a falta de sensibilidade do sistema educacional ao negar aos estudantes o direito a realizarem seus sonhos ao crescerem.

Continuando sua descoberta na escola, a partir de seu sonho-pesadelo, Felipe vê-se circundado por exemplos da realidade de pássaros. É interessante esta contribuição do autor! O pássaro observado numa gaiola é capaz de comer, beber, pular, banhar-se e cantar; podemos até dizer que aquele pássaro é feliz. Mas não passa de uma ilusão, pois ele não é capaz de atingir seu objetivo mais sublime, galgar voo e rasgar o céu, livre e realizado. O mesmo acontece num sistema de ensino bancário e não construtivista: o aluno não está apenas preso; está engaiolado, envolto na ilusão de que é livre, feliz, quando na verdade está impedido de cumprir seu papel fundamental: alçar voos maiores.

Um sistema de ensino que apresenta o sujeito como tendo um papel insignificante na elaboração do conhecimento, além de, passivamente, receber as informações necessárias para passar no vestibular e poder repeti-las; como, sinteticamente, uma tabula rasa, passiva e omissa, que sairá da escola pronto e acabado, portando um diploma que lhe conceda força de hierarquização; é um sistema que tem apenas uma função: formar aqueles que, sem a necessidade de refletir, trarão a riqueza e manterão no topo da pirâmide a classe dominante que, ideologicamente os tornam bonecos de madeira, sem voz, sem vez, sem vida.

Rubem Alves rejeita a escola “formatada”, que ensina o que não faz sentido para a vida e que tem como principal objetivo preparar o aluno para passar no vestibular. Concepção de educação transmissiva, mercantilista, patrocinada pelos governos capitalistas que no final da história querem mesmo é preparar operários para as mais diferentes formas de gerar riquezas, não se preocupando com o lado individual de cada ser humano.  

É claro que o autor não procura negar a necessidade da disciplina e organização para o desenvolvimento. Todavia, procurou demonstrar porque as atividades escolares devem levar em conta, também, a capacidade do aluno desenvolver-se por si mesmo. Somente assim, as crianças e jovens poderão sobreviver em um mundo repleto de informações e mudanças.

Ele defende, uma educação menos rígida, menos “engaiolada”, ou seja que não se restrinja unicamente à sala de aula, que inicie dentro de casa, com pais responsáveis que não criem expectativas na criança de que a escola “sabe tudo”, porque o conhecimento não se encontra apenas na escola e sim em tudo que vivemos e fazemos.

A escola – e todo o seu sistema de ensino - tem que perceber que todo aluno já chega com uma bagagem ampla de conhecimento, não conhecimento matemático e regras gramaticais, mas conhecimentos adquiridos desde seu processo de crescimento. A escola, da forma que é ensinada hoje, transforma “crianças que brincam em adultos que trabalham” sem necessariamente se preocuparem com as diferenças de habilidades de cada ser humano.

Cabe à escola, usar esses conhecimentos a favor do aluno, de maneira que facilite seu aprendizado. Deve-se ainda usar a criatividade do aluno e o anseio da descoberta pelo novo, como forma de aprendizado também. Trabalhando com a realidade a qual o aluno está inserido, facilitando o conhecimento e o reconhecimento com o tema proposto a ser aprendido.

Em síntese, seria necessário que este livro pudesse usar do poder que lhe cabe, para nos ajudar a repensar nosso sistema educacional. Da escola engaioladora, que molda bonecos de madeira com o objetivo de lucrar, para uma escola de pessoas, formadora de cidadãos, onde o sujeito seja o principal elaborador do conhecimento, construindo-o e, assim, tornando-se cada vez mais capaz de ajudar a construir a sociedade da qual faz parte.

Uma escola de todos, com todos e para todos, da ilusão ao sonho, do sonho à realidade. Basta apenas que as gaiolas sejam abertas, que pelo toque da fada azul – o conhecimento construído – os bonecos se tornem seres humanos, e estes se tornem pássaros capazes de voar. O céu é o limite!

Ao ser questionado sobre o que queria ser quando crescer, Felipe respondeu: “Quando eu crescer, quero continuar a ser o que sou agora: Felipe!”. É nesta frase do livro que se resume, não só o livro de Rubem Alves, mas sua proposta para uma nova visão da escola, do aluno, do professor e da relação ensino-aprendizagem. Uma escola de pessoas que forma pessoas, com alunos que constroem seu conhecimento, com professores que respeitem e valorizem a bagagem de mundo dos alunos e uma relação que permita o engrandecimento de todos e, consequentemente, de toda a sociedade.

A leitura e reflexão do livro proporcionou-nos a oportunidade de ampliar, construir também o nosso conhecimento. Pudemos, com ele, entender esmiucidamente o que de fato é a abordagem tradicional e os pontos de suas concepções que merecem ser repensados, reavaliados e transformados.

A vida é uma constante caminhada e, passo a passo, construímos nosso futuro, alicerçados em nosso passado e apoiados pelo presente como nosso principal instrumento. Há sempre oportunidade de mudança e transformação. Ninguém está fadado ao definitivo. Portanto, ao estudar e questionar as abordagens vigentes, somos todos convidados – por nossa capacidade de superação – a transformar o que existe, é nossa mais complexa vocação: vir a ser.

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