RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA DE ESTÁGIO EM PSICODIAGNÓSTICO INTERVENTIVO ONLINE: DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA ATUAÇÃO À DISTÂNCIA

 

RESUMO

 

Diante do cenário epidêmico que provocou impactos sociais com dimensões globais, ficou evidente a importância da aplicação de medidas de restrição da interação social visando diminuir a transmissão do vírus COVID-19. Tal cenário implicou na necessidade de adaptações em várias atividades profissionais, havendo priorização por possibilidades de atuação de forma remota. A mudança de contexto de atuação para a modalidade à distância, tornou viável a continuidade da prática de estágio como parte da formação em Psicologia, com a possibilidade de consolidar a aprendizagem teórico-prática, dado a necessidade do distanciamento social. Nesse ínterim, o presente artigo, visa documentar a prática de estágio em psicodiagnóstico interventivo na modalidade remota, explorando as possibilidades e dificuldades proporcionadas pela atuação à distância, considerando os aspectos éticos e legais da profissão. Ressalta-se que, a atuação à distância, foi norteada por modelos teóricos baseados em evidências, seguindo a linha teórica do psicodiagnóstico interventivo. A coleta de dados para a fundamentação da prática, foi realizada através da pesquisa bibliográfica, em dados secundários de acesso público. Foi possível observar os benefícios alcançados com a prática remota tanto para a formação dos psicólogos, quanto para os indivíduos submetidos ao processo psicodiagnóstico interventivo. Ficou evidente também, os avanços proporcionados pela prática remota e que, as transformações acontecidas no âmbito da Psicologia compreenderão a inovação tecnológica de forma definitiva, requerendo mobilizações acadêmicas envolvendo estudo e dedicação, de forma a preservar a conduta ética, disposta pelo Código de Ética do profissional de Psicologia.

 

Palavras-chave: Estágio remoto; avaliação psicológica; atendimento psicológico online.

 

REPORT OF AN INTERNSHIP EXPERIENCE IN ONLINE INTERVENTIONAL PSYCHODIAGNOSIS: CHALLENGES AND POSSIBILITIES OF ACTING AT A DISTANCE

ABSTRACT

 

Given the epidemic scenario that caused social impacts with global dimensions, it was evident the importance of applying measures to restrict social interaction in order to reduce the transmission of the COVID-19 virus. This scenario implied the need for adaptations in several professional activities, with priority given to remote working possibilities. The change of context of performance for the distance modality, made it feasible to continue the internship practice as part of the formation in Psychology, with the possibility of consolidating the theoretical-practical learning, given the need for social distance. Meanwhile, the present article aims at documenting the internship practice in interventional psychodiagnosis in the remote modality, exploring the possibilities and difficulties provided by distance learning, considering the ethical and legal aspects of the profession. It is worth mentioning that the distance practice was guided by evidence-based theoretical models, following the theoretical line of interventional psychodiagnosis. The data collection for the substantiation of the practice was carried out through bibliographic research in public access secondary data. It was possible to observe the benefits achieved with the remote practice both for the psychologists' training and for the individuals submitted to the interventional psychodiagnostic process. It was also evident, the advances provided by the remote practice and that, the transformations that took place in the Psychology field will definitely comprise the technological innovation, requiring academic mobilizations involving study and dedication, in order to preserve the ethical conduct, as provided by the Code of Ethics of the Psychology professional.

 

Keywords: Remote internship; psychological assessment; online psychological care.

 

1. INTRODUÇÃO

 

A pandemia de COVID-19 provocou mudanças significativas em diversos setores da sociedade, marcando a necessidade de mobilizações para minimizar os impactos da crise sanitária. A nova configuração social, resultado das medidas de distanciamento, fez com que o trabalho remoto ganhasse novas dimensões, inclusive no âmbito do exercício profissional e das práticas de estágio em Psicologia. Dado a necessidade de adaptações que compreendessem a viabilidade de atuação à distância, buscou-se adequação dos atendimentos psicológicos, inclusive aqueles realizados em meio acadêmico, visando a continuidade da prática na formação em Psicologia.

Os atendimentos foram realizados por estagiários da Clínica Escola de Psicologia em uma instituição de ensino superior, localizada na cidade de Belo Horizonte, Estado de Minas Gerais. Com o objetivo de promover integração entre a teoria e a pratica de avaliação psicológica, desenvolvida sob supervisão docente, conforme orienta as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em Psicologia (Ministério da Educação, 2019), as orientações dadas em supervisão buscaram norteamento nos aspectos éticos e legais para a realização do processo psicodiagnóstico.

O estágio no contexto de atuação em psicodiagnóstico interventivo, trata-se de um componente curricular do curso de Psicologia, que propõe uma articulação de saberes conceituais, bem como os procedimentos e atitudes concernentes aos atendimentos psicológicos de avaliação, realizados por estagiários do curso de Psicologia. O ensino e a supervisão da prática em psicodiagnóstico, trata-se de uma preparação para o exercício profissional. Por isso [...] “cabe ao supervisor explicar antecipadamente como a supervisão costuma ocorrer, dando abertura para que o supervisionando se manifeste a respeito.” (HUTZ et al., 2016, p. 82).

O psicodiagnóstico interventivo caracteriza-se como um instrumento clínico que, segundo Milani, Tomael e Greinert (2014), se configura como um processo de investigação diagnóstica que busca a compreensão global do sujeito, realizando simultaneamente, intervenções que visam a promoção de bem estar do indivíduo submetido ao processo. Conforme aponta Paulo (2009), o paciente em processo psicodiagnóstico tem a possibilidade de diminuir seu sofrimento mental através do manejo das técnicas psicoterápicas, que inclui a escuta e intervenções que são realizadas durante a avaliação, por meio da utilização de entrevistas, testes entre outros procedimentos.

Os serviços psicológicos prestados por meios tecnológicos de informação e comunicação, foram regulamentados pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) na resolução Nº 11, de 11 de maio de 2018, autorizando a realização de atendimentos psicológicos e outros serviços através dos recursos disponíveis, cabendo ao profissional resguardar a coerência e fundamentação na ciência, na legislação e nos parâmetros éticos da profissão.

Além de autorizar o atendimento nos recursos técnicos adequados, a Resolução Nº 11/2018 do CFP, também dispõe sobre a supervisão técnica dos serviços prestados nos mais diversos contextos de atuação. O atendimento online realizado no estágio, portanto, foi mediado pela possibilidade de trocas e aprendizados proporcionados pela supervisão docente à distância. A supervisão possibilitou garantir a devida orientação para com o escopo profissional e a postura ética dos estagiários diante dos dados sigilosos dos pacientes envolvidos no processo, favorecendo a instrução para a utilização dos meios tecnológicos, considerando os imperativos éticos da prática remota.

 

2. DESENVOLVIMENTO

2.1 O processo de psicodiagnóstico interventivo

O psicodiagnóstico é um instrumento desenvolvido no âmbito clínico, que se inicia a partir de uma demanda e desenvolve-se por meio de um determinado foco para avaliação, visando a compreensão das vivências do indivíduo e de suas dificuldades. (PAULO, 2006). Segundo Hutz et al., (2016), o processo psicodiagnóstico trata-se de um procedimento que compreende qualquer tipo de avaliação, fundamentada em teoria psicológica, com a finalidade de investigação e intervenção, gerando indicações terapêuticas, bem como encaminhamentos adequados. Embora o uso de testes se faça presente muitas vezes enquanto procedimento de avaliação, não é a sua realização que determina o procedimento do psicodiagnóstico interventivo, havendo outras técnicas envolvidas no processo, que servirão de subsídio para a compreensão da situação avaliada.

A avaliação da demanda do indivíduo submetido ao processo psicodiagnóstico, indica qual aspecto avaliativo deve ser priorizado em cada caso, situando o objetivo do procedimento, a partir dessa reflexão inicial e, não necessariamente, priorizando-se encaixar o paciente em uma patologia. Diagnosticar o sujeito envolvido no processo, segundo Hutz et al., (2016), torna-se, portanto, um procedimento secundário, sendo a prioridade, identificar as forças e fraquezas do indivíduo, com o objetivo de entender o momento o qual ele vivencia.

Além de envolver investigação diagnóstica, o psicodiagnóstico interventivo inclui simultaneamente, intervenções que ocorrem durante os atendimentos. Tais intervenções têm o potencial de evocar mudanças e promover o bem estar do paciente. Os efeitos terapêuticos, são proporcionados desde a entrevista inicial, com a escuta da queixa, o acolhimento e o manejo de técnicas e instrumentos psicológicos de testagem, em virtude dos estímulos que os instrumentos evocam no indivíduo, bem como os mecanismos psicológicos dispostos. (MILANI; TOMAEL; GREINERT, 2014).

Por esse motivo, ainda que a avaliação implique na identificação de algum transtorno mental, o objetivo principal do psicodiagnóstico é fazer as indicações terapêuticas mais adequadas para o caso, assim como as intervenções realizadas durante o processo. Desta forma, o processo que auxilia no manejo das intervenções e compreensão das dificuldades, é denominado como psicodiagnóstico interventivo, uma vez que equivale à avaliação terapêutica e, caracteriza as intervenções como assinalamentos, interpretações, integração de dados, identificação de dificuldades e potencialidades, entre outros. (HUTZ et al., 2016).

A escolha das estratégias e dos instrumentos a serem empregados durante os atendimentos, permite promover experiências mutativas no paciente e deve ser fundamentado com finalidade e com o objetivo do psicodiagnóstico. Tanto no período compreendido pela realização da entrevista inicial, quanto no momento do manejo das técnicas e procedimentos utilizados ao longo do processo até a entrevista de devolução, podem ocorrer efeitos terapêuticos. (PAULO, 2006).

 

2.2 Descrição fundamentada das atividades realizadas

Através da utilização de técnicas metodologicamente pertinentes e eticamente respaldadas, foi oferecido atendimento psicológico gratuito, de forma online, para o público com idade a partir de dezoito anos, que demonstrou interesse no serviço mediante à inscrição. Priorizou-se os casos que demandavam intervenção imediata para o atendimento na modalidade de Psicodiagnóstico interventivo, fazendo a triagem dos casos menos urgentes para a modalidade de atendimento psicoterápico.

No contexto da educação à distância e adaptado à prática remota, o estágio configurou-se como uma possibilidade de consolidar a aprendizagem teórico-prática, dado a necessidade do distanciamento social. Desta forma, tanto os atendimentos psicológicos, quanto as supervisões, foram realizadas através de videoconferências.

A plataforma Zoom, utilizada para as supervisões coletivas, foi um software fornecido pela instituição de ensino, sendo um recurso com restrição de acesso, no qual somente os discentes e docente responsável pela supervisão poderiam acessá-lo. Já para a realização dos atendimentos, utilizou-se plataformas de videoconferência gratuitas, tais como o Google meet e Whatsapp, a depender da escolha de cada paciente. Utilizou-se também, o compartilhamento de dados em nuvem, restrito aos estagiários e professor responsável pela supervisão, para armazenamento de documentos pertinentes aos atendimentos, resguardando a confidencialidade do conteúdo, conforme preconiza o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP, 2005).

Para acessar o público interessado no serviço oferecido pela Clínica Escola de Psicologia, foi divulgado um link de inscrição através de um formulário da plataforma Google Forms, coletando o nome e dados para contato dos interessados com idade acima de dezoito anos. Mediante à inscrição, os interessados aguardavam em lista de espera, até que o docente responsável pela supervisão do estágio direcionasse os pacientes para receber o contato dos estagiários.

O Código de Ética Profissional do Psicólogo determina que, é vedado o compartilhamento de testes e instrumentos psicológicos que facilitem a disseminação de conteúdos que favoreçam o exercício ilegal da profissão (CFP, 2005). Nesse ínterim, por tratar-se de um contexto de atuação remoto, por psicólogos em formação, utilizou-se como recursos, instrumentos não privativos do psicólogo, com a função complementar na avaliação, com o intuito de levantar informações de forma auxiliar no contexto do psicodiagnóstico, fornecendo subsídio para compreensão e a interpretação dos casos.

Dentre os instrumentos psicológicos fornecidos para incluir na estrutura de avaliação dos casos, foram dispostos pelo docente responsável pela supervisão, recursos fundamentados na ética e na legislação profissional, tais como as escalas: Versão Brasileira do Questionário de Qualidade de Vida - SF-36; Escala transversal de Sintomas Nível 1 do DSM-V; Escala de Avaliação de Incapacidade da Organização Mundial da Saúde 2.0.

Além das escalas utilizadas na avaliação, outros instrumentos interventivos foram utilizados durante os atendimentos, tais como, incentivos verbais e não verbais, reflexão de sentimentos, observações diretas, interpretações, analogias, bem como perguntas fechadas e abertas.

O serviço prestado na modalidade de psicodiagnóstico interventivo, deu-se através de um processo de acolhimento que se iniciou a partir da investigação diagnóstica, com o intuito de explorar a demanda do sujeito através da sua queixa, expressada na entrevista inicial. Essa investigação diagnóstica, segundo Hutz et al., (2016), deve nortear-se no propósito de explicar as demandas do paciente para além do que ele consegue verbalizar de forma consciente.

Tendo em vista que o perfil dos pacientes eram pessoas que buscavam pela gratuidade do serviço, houve um grande número de interessados. Por isso, priorizou-se casos com condições clínicas que demandavam maior necessidade de intervenção imediata, devido à presença de sintomas que indicassem tal necessidade. Desta forma, o manejo das técnicas durante os atendimentos realizados no estágio, foi precedida de uma avaliação do caso, realizada concomitante às intervenções terapêuticas.

Apesar da necessidade de utilização de recursos virtuais para realização do estágio, buscou-se garantir a segurança e o sigilo das informações dos indivíduos submetidos ao processo. Para realização dos atendimentos, os estagiários foram munidos das informações pertinentes à prática, por meio do respaldo teórico que as fundamenta, sendo instruídos previamente durante as supervisões coletivas online, anteriormente e posteriormente aos atendimentos, com reuniões semanais para acompanhamento dos casos.

A entrevista inicial, composta pela apresentação do estagiário responsável pela condução do processo, buscou explicar o papel do estagiário e do paciente, definindo as hipóteses e os objetivos do processo de avaliação. Posteriormente, realizou-se o levantamento dos dados relativos à sua história pessoal, social e familiar, além de outros dados como história patológica pregressa, compreendendo também, o exame do estado mental, realizado de acordo com as bases teóricas fornecidas pela supervisão docente. Em seguida, identificados os motivos da busca pelo serviço, buscou-se estabelecer o contrato terapêutico, explicitando quanto aos objetivos do processo psicodiagnóstico interventivo, bem como as regras para condução do atendimento.

As informações que foram coletadas ao longo da primeira sessão, em cada caso, foram registradas no prontuário e anamnese dos pacientes. Ao final de cada sessão, realizou-se o registro dos atendimentos, os quais constaram a súmula do atendimento, com as observações realizadas pelos estagiários e a postura terapêutica diante da utilização das técnicas e manejo das intervenções.

Após entrevista inicial, buscou-se definir as hipóteses e os objetivos do processo de cada paciente mediante à discussão em supervisão. A seleção dos instrumentos que seriam utilizados nas sessões posteriores, ocorreu junto ao docente, durante as supervisões coletivas. A aplicação dos instrumentos de avaliação forneceu recursos facilitadores da comunicação, com a utilização de escalas que foram utilizadas com o intuito de criar novos meios de exploração da queixa e avaliação da dinâmica da personalidade e, também, auxiliar no levantamento de hipóteses e conclusões de cada caso. 

Além das escalas utilizadas na avaliação, outros instrumentos interventivos foram utilizados durante os atendimentos, tais como, incentivos verbais e não verbais, reflexão de sentimentos, observações diretas, interpretações, analogias, bem como perguntas fechadas e abertas.

Posterior à administração de estratégias e instrumentos de avaliação, foi realizado a integração de informações coletadas durante os atendimentos, assim como a correção qualitativa das escalas utilizadas, definindo potencialidades e vulnerabilidades de cada paciente, relacionando os dados colhidos com as hipóteses iniciais e, comunicando os resultados ao paciente através da entrevista de devolução/devolutiva.

Na entrevista de devolução, buscou-se ampliar o conceito das vivências no momento atual do avaliando, estabelecendo uma relação entre os dados, formulando as conclusões, definindo potencialidades e vulnerabilidades do paciente, explicando também, quanto às indicações terapêuticas pertinentes ao seu caso.

Tendo em vista a experiência que a modalidade de psicodiagnóstico interventivo objetiva na formação dos estagiários, buscou-se fazer a triagem das demandas, selecionando os casos com queixas relativas ao processo para realizar a avaliação, com um número de sessões pré-determinado, ou encaminhando-os para a psicoterapia, visando dar continuidade aos atendimentos.

Dentre os tipos de demandas apresentadas pelos pacientes atendidos, foram expressas queixas como: reações emocionais intensas e desorganizadas atreladas ao contexto de isolamento social; problemas de cunho interpessoal e da dinâmica psicossocial associado à pandemia; piora na qualidade do sono; conflitos de dinâmica familiar; problemas de afetividade e comportamento relacionado ao contexto da pandemia; problemas emocionais relacionados à desesperança e redução de volição. Queixas subjacentes surgiram durante a condução do processo, enquanto consequências de outros fatores da dinâmica psíquica e história pessoal de cada paciente.

Foram atendidos ao todo, quatro pacientes na perspectiva do psicodiagnóstico interventivo, fazendo uma triagem das demandas pertinentes ao processo de psicoterapia e as demandas de Psicodiagnóstico. Realizou-se de três a sete sessões, de acordo com a necessidade do caso. Dos seis pacientes atendidos, três tiveram seus processos interrompidos devido a faltas sucessivas e, três pacientes concluíram o processo psicodiagnóstico até o seu encerramento, recebendo devolutivas da avaliação realizada ao longo do processo realizado, assim como indicações terapêuticas para continuidade em psicoterapia. 

Os três pacientes que concluíram o processo psicodiagnóstico, receberam indicações terapêuticas e foram encaminhados à psicoterapia após a devolutiva. Contudo, cabe ressaltar que, mesmo com a interrupção de processos devido à abstenção, os pacientes que tiveram os processos interrompidos expressaram satisfação diante dos atendimentos, constando-se mudanças ocorridas após acolhimento e intervenção breve no contexto do psicodiagnóstico, identificados tanto pelo feedback positivo durante as sessões com relação aos benefícios proporcionados pelo atendimento, assim como as mudanças observadas nos sinais e sintomas apresentados pelos pacientes durante as sessões.

Através da escuta e manejo das técnicas psicoterápicas, possibilitou-se aos pacientes, a expressão e elaboraração de questões importantes de suas vivências, uma vez que se abriu espaço para o reconhecimento e a validação de seus sentimentos. A relação terapêutica no processo avaliativo favoreceu não somente a cooperação dos pacientes diante dos atendimentos, mas também culminou em resultados favoráveis e disposição para dar continuidade aos atendimentos em psicoterapia.

 

3. CONCLUSÕES

A prática de estágio em Psicodiagnóstico interventivo possibilitou compreensão não somente da objetividade diagnóstica, mas também do processo avaliativo como um todo, indo além da classificação nosológica dos pacientes, proporcionando-os um procedimento interventivo capaz de promover acolhimento e contribuir para um maior entendimento de seus eventos privados.

Observando as limitações e possibilidades da prática de estágio, verificou-se que a possibilidade de oferecer um serviço psicológico de forma remota, foi um fator que pode ser visto como favorável, tanto para os estagiários, quanto para o público atendido. Devido à quebra da barreira geográfica, os pacientes se situavam em estados distintos e variados, possibilitando um amplo alcance do serviço.

Em função das limitações proporcionadas pela modalidade de atendimento online, houveram alguns percalços na prática, tais como a sujeição à qualidade de conexão da internet e potenciais interferências no entendimento auditivo, na compreensão dos movimentos, no rastreio de pistas não verbais, a disponibilidade de condições favoráveis ao atendimento, bem como a dificuldade de garantia de que tais condições seriam seguidas.

Ademais, observou-se que, durante a seleção dos interessados que se inscreveram no serviço, muitos apresentaram relutância em receber o primeiro atendimento, ainda que o interesse no serviço partisse de uma inscrição. Trabalhou-se com a hipótese de que essa hesitação, pouco se relaciona com a qualidade terapêutica das intervenções, supondo-se que a abstenção esteja atrelada com a baixa familiaridade com as ferramentas tecnológicas, a preferência pela modalidade de atendimento tradicional ou até mesmo, simétrico à possibilidade de que as inscrições tenham despertado a curiosidade de alguns que pouco interessavam-se em comprometer-se com o procedimento terapêutico.

Embora tenha-se percebido a viabilização do atendimento psicológico online, esse contexto de atuação suscita considerações que reflitam acerca de adaptações para continuar expandindo as possibilidades de atuação para além do cenário imposto pela pandemia. A atuação do psicólogo nesse contexto deve considerar os recursos digitais como mecanismos para estabelecer pontes até o paciente, na construção de um serviço psicológico adaptável, por meio de um setting terapêutico, ainda que virtual, propício para suplementar a ausência simbólica da prática física. (ULKOVSKI; SILVA; RIBEIRO, 2017).

Ficou evidente que as transformações acontecidas no âmbito da Psicologia, compreenderá a inovação tecnológica de forma definitiva, requerendo mobilizações envolvendo estudo e dedicação de forma a preservar a conduta ética, disposta pelo Código de Ética do profissional de Psicologia. As reflexões advindas desse novo contexto de atuação, fomentam pesquisas para fornecer informações que contribuam com o desenvolvimento de uma prática pautada em princípios éticos, capazes de superar as adversidades e otimizar a relação terapêutica, consolidando uma capacitação técnica e teórica fundamentada na ciência psicológica.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

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