Quando o baiacu pintou o aratu.

                O manguezal, ou “mangar” para o nosso caboclo, é um dos mais ricos ambientes existentes em toda a biosfera terrestre. Dele, o homem retira uma grande quantidade de recursos naturais, principalmente para a sua alimentação. O mais conhecido é o caranguejo, apelidado de uçá pelos índios e que para os cientistas que estudam os animais – os zoologistas – é chamado de Ucides cordatus. Foi nesse ambiente que se passou esta história:

                Em um dos sete dias dedicados à criação do mundo, Deus tinha acabado de fazer o manguezal.Quase todos os seus moradores, quer sejam plantas quer sejam animais, já existiam prontos para crescerem, reproduzirem-se e evoluírem... Entre eles existiam dois seres que, por algum lapso “deus-comunal”, dizem uns, ou porque iria ter uma festa de carnaval – o suatá – dizem outros, não foram completados, por assim dizer. Faltavam-lhes alguns detalhes, como a coloração dos corpos. Eram o pequeno e saliente caranguejo aratu e o peixe de iguais atributos chamado baiacu.

                Ao encontrarem-se durante os intermináveis fluxos das marés, por entre as intrincadas raízes adventícias do mangueiro, travaram o seguinte diálogo:

                -- Baiacu, meu amigo. Vamos combinar uma coisa? – iniciou a conversa o caranguejo, agitando as suas quelas, que nós, humanos, chamamos de “unhas”, mas que na verdade são os apêndices pressores que todos os crustáceos têm.

                -- Que coisa? – retrucou o baiacu, fazendo aquele biquinho de peixe beijador.

                -- Como nós dois estamos descoloridos, não temos graça nenhuma. Ninguém olha pra nós, não é? – disse desolado o aratu, do alto da raiz que metade estava fora, metade dentro da água.

                -- É mesmo. – observou o baiacu, indagando em seguida:

                -- Como faremos?         

                -- A maré está subindo. Tu me pintas primeiro. Depois eu te pinto – organizou o aratu, preocupado com o espaço-tempo necessário para o baiacu efetuar tal tarefa.

                -- Tá bom – concordou o baiacu.

                O aratu, que vivia empoleirado nas raízes do mangueiro e que tinha a mania de roer a casca que lhes dava suporte, descobriu assim a cor vermelha e dela se agradou. (A casca ferida do mangueiro toma a cor vermelha, daí o manguezal que tem muito mangueiro, ser chamado de mangue vermelho. Também esta cor é devida ao alto teor de uma substância chamada tanino, largamente empregada na curtição de couro e na indústria de tinta). Assim, o aratu resolveu que era com esta tinta que queria ser pintado pelo baiacu. E assim foi feito.

                Começa o trabalho. Cuidadosamente e concentradamente, o baiacu, como um gênio do Renascimento que só iria acontecer milhões de anos mais tarde, pintava, executando repetidos e certeiros saltos fora d’água, o até então incolor aratu. A maré continuava a subir. Quando finalmente o baiacu concluía a tarefa, faltava pouco para a água atingir o seu repetido clímax diário.

                -- Rápido. Chega mais perto que a maré já vai começar a baixar! – gritou agoniado o aratu para o baiacu. O peixe tinha acabado e agora era a vez dele ser pintado. O baiacu se aproximou. O aratu, em rápidas e extravagantes pinceladas, como um artista da Pós-Modernidade – que também só iria acontecer milhões de anos mais tarde – fazia o pincel roçar na lama molhada do chão do manguezal, lambuzando o corpo do peixe com listras verticais. “Era um artista pós-moderno!”, pensava profeticamente o pequeno caranguejo.

                A maré vazava rapidamente e logo o pequeno peixe ficou fora do alcance do caranguejo. O aratu contente e feliz com a sua nova vestimenta. O baiacu, entretanto, ao se olhar no espelho abriu a boca de espanto e o seu corpo tufou como uma bola de seringa, de tanta raiva que ficou. Raiva tão grande no aratu, que até hoje é visto rondando as raízes do mangueiro e no menor descuido do caranguejo, agarra-o através de certeiro salto e em seguida, devorando-o rapidamente.