* Artigo escrito e publicado em 2017.

A exploração do espaço é motivo de fascinação para muita gente. Muitos gostariam de estar lá, mas poucos se interessam em saber detalhes a respeito do primeiro programa espacial tripulado dos EUA, que desenvolveu a tecnologia inicial para que, entre 1969 e 1972, as espaçonaves Apollo conseguissem levar à Lua os 12 únicos seres-humanos a estarem lá: o Projeto Mercury. Iniciado em 1958 e tendo enviado ao espaço, desde 1959, várias missões não tripuladas de testes em meio à tensão provocada pelo sucesso do vôo orbital da cachorrinha Laika (a bordo do Sputnik 2, em 1957, de modo que foi ela o primeiro ser vivo a sair da Terra), o Mercury lançou ao cosmo, inicialmente, três missões tripuladas por primatas (Little Joe 2, com o macaco Sam em 1959 e lançada a 85 km de altitude; Little Joe 1B, ocupada pela macaca Miss Sam em 1960, e enviada a uma altura de 14 km; e Mercury-Redstone 2, em 1961 e cujo ocupante da cápsula era o chimpanzé Ham, em um vôo sub-orbital). Ocorre que, em abril de 1961, o projeto americano foi ainda mais pressionado e acelerado com o espanto ocasionado pelo lançamento do cosmonauta Yuri Gagárin no interior da Vostok 1, tornando-o a primeira pessoa a entrar em órbita, o que ceifou as esperanças americanas de serem os EUA os primeiros a alcançar o espaço em missões tripuladas por humanos. Assim, o Projeto Mercury passou a ter o objetivo de suplantar tais conquistas por meio do futuro e eventual envio de mais animais ao espaço e de astronautas americanos à Lua, que até então nunca havia sido alcançada por ninguém. E tal objetivo passou a ser trilhado pelo lançamento da cápsula da missão Freedom 7, com o americano Alan Shepard a bordo – que se tornou o primeiro americano a ir ao espaço, em uma manobra sub-orbital de cerca de 15 minutos impulsionada por foguete Redstone – poucos dias depois da façanha de Gagárin. Mais tarde, no mesmo ano de 1961, foi a vez de Virgil Ivan “Gus” Grisson embarcar rumo às estrelas, agora dentro da cápsula da missão Liberty Bell 7, também movida por um Redstone em um idêntico vôo sub-orbital (no final de 1961, em continuidade aos experimentos anteriores, os EUA enviaram ao espaço o chimpanzé Enos, que completou duas órbitas na cápsula da Mecury-Atlas 5). Grisson viria a falecer em 27 de janeiro de 1967, juntamente com os astronautas Ed White e Roger Chaffee, num acidente ocorrido em solo durante uma manobra de testes de uma espaçonave em Cabo Canaveral, razão pela qual tal manobra passou a ser conhecida como Apollo 1, em merecida homenagem aos falecidos, vez que o programa de idêntico nome, naquela época, já tinha sido iniciado. Foi o primeiro desastre fatal de todos os programas espaciais dos EUA. Após a viagem de Grisson, em 1962 foi enviada em um vôo orbital a cápsula da Friendship 7, sustentada por um foguete Atlas e pilotada pelo astronauta John Glenn, que passou a ser o terceiro americano a alcançar o cosmo e o primeiro a entrar em órbita. Glenn voltaria ao espaço exterior também na década de 1980, quando os EUA iniciaram seu programa de ônibus espaciais, e nem mesmo o fato de na ocasião já ser sexagenário o impediu de realizar dita façanha. Fica, aqui, a nossa homenagem. Ainda em 1962, houve o lançamento das cápsulas da Aurora 7 e da Sigma 7, operadas, respectivamente, pelos astronautas Scott Carpenter e Walter Schirra, ambas também se utilizando de foguetes Atlas para impulso. Por fim, em 1963, Gordon Cooper sobe a bordo da cápsula da missão Faith 7 – identicamente impulsionada por um Atlas – e torna-se o último astronauta do Projeto Mercury a ir ao espaço. Seu temperamento brincalhão e o fato de ter sido o primeiro serhumano a dormir no cosmo, bem como de ter quebrado o recorde de permanência no espaço, com dezenas de órbitas completadas – mais que todos os seus antecessores juntos – merecem destaque. Ditos astronautas foram os primeiros 06 americanos a saírem da Terra. Mas houve um sétimo astronauta do Projeto Mercury que, naquela época, não pôde embarcar por problemas de saúde: Donald Slayton. Como compensação, lhe foi dado um cargo na NASA em que era ele quem decidia quais astronautas embarcariam em quais espaçonaves. E, quando foi anunciado que a cápsula da Apollo 18 iria se acoplar com a da missão Soyuz 19, em julho de 1975, ele escolheu a si próprio para ocupar o comando do lado americano, especialmente quando a espaçonave da Soyuz seria chefiada por Alexei Leonov, primeiro ser-humano a caminhar no espaço. Nessa missão de acoplagem houve um certo degelo entre as superpotências. Não só o Projeto Mercury, mas também o Gemini (que se concentraria em desenvolver ainda mais a tecnologia de vôos espaciais até então conseguida, em especial manobras de acoplagem, e que, ao revés das naves com um único assento das missões Mercury, tinha módulos com lugares para 02 astronautas) e o Apollo (que teve como principal consequência a conquista da Lua), merecem o nosso mais profundo respeito e admiração. Eles representam não só a capacidade humana de remover obstáculos, mas o nosso indomável espírito de bravura e superação, permitindo que o homem começasse a conquistar cada vez mais o universo que nos cerca.