* Artigo escrito e publicado em 2018.

Existem várias formas de se ler um relato, e duas das mais evidentes maneiras de fazê-lo são as interpretações metafórica e literal. A interpretação metafórica é aquela de sentido figurado, em que não há descrição do fato em si, mas a licença ao destinatário da mensagem para que se apodere da tarefa subjetiva de alcançá-lo conforme as ocultas entrelinhas do que lhe é transmitido, de acordo com o contexto envolvido. Já a interpretação literal enxerga objetivamente a situação, não admitindo que a mesma tenha ocorrido de forma diversa da apresentada na mensagem. Ditas formas de interpretação estão presentes em quase todas as obras literárias de autoria humana, principalmente nas Escrituras Sagradas, como o Alcorão entre os muçulmanos, as Sutras entre os budistas, e, entre os cristãos, a Bíblia - em especial nas passagens em que a mesma se refere à vida de Cristo, incluindo o relato que abaixo se segue, de interpretação metafórica e extraído do Evangelho Canônico de Mateus: “18, 21 Então Pedro se aproximou Dele e disse: ‘Senhor, quantas vezes devo perdoar a meu irmão, quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?’ 22 Respondeu Jesus: ‘Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.” A mensagem de Cristo, aqui, é a de que sempre se deve perdoar os pecados a nós infligidos, e não “setenta vezes sete”, uma vez que não há nexo lógico que venha impor justamente tal ou qualquer outro número como o máximo de perdões a serem concedidos, pois se assim fosse se cometeria inúmeras injustiças. A doutrina é cristalina no sentido de que Cristo, falando em parábolas - como era de seu costume - deu a entender que o perdão não se resume a uma quantidade máxima, mas, sim, a todas as circunstâncias em que o mesmo seja devido. O alto número de “setenta vezes sete” foi um modo de impressionar Pedro para que ele sempre perdoe, independentemente da quantidade de remissões antes concedidas, sob pena de grave falta diante do Cristo e do Pai. E quando não há menção, na Bíblia, a determinado período da vida de Cristo? Como saber o que Ele fez e onde estava durante referido período, que se estende desde sua infância, retratada em diminuta passagem no Evangelho Canônico de Mateus, até os cerca de 30- 33 anos de idade, quando – de acordo com o mesmo Evangelho - já é mostrado pregando nos desertos da Galiléia e da Judéia, onde ministrou Seus ensinamentos e praticou milagres? Obviamente, não cabe qualquer tipo de interpretação isolada sobre aquele tempo, eis que se trata de uma lacuna do texto sagrado. Assim, enquanto não surgem evidências arqueológicas mais consistentes, e levando-se em conta que a Bíblia, como já dito e em muitas de suas passagens, deve ser interpretada metaforicamente, e, em outras, tem de ser lida como um livro de História (mesmo que as referências à vida de Cristo tenham sido escritas séculos após Sua morte, já que, ao menos por enquanto, não há outra fonte), só nos resta localizar, nas Escrituras Sagradas Cristãs, os fatos que marcaram Sua vida e tentar adequá-los ao contexto da História conhecida e do ali descrito, como a seguinte passagem, também retratada no Evangelho de Mateus: “4, 1 Em seguida, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo demônio. 2 Jejuou quarenta dias e quarenta noites. Depois, teve fome. 3. O tentador aproximou-se dele e lhe disse: ‘Se és Filho de Deus, ordena que estas pedras se tornem pães.” Inicialmente, cabe afirmar que não acredito na existência do demônio. Para mim ele é, no máximo, uma figura lendária da mitologia cristã, que representa o mal de que somos capazes. Portanto, podemos dizer que a Bíblia a ele se refere no intuito de exortar-nos a, por meio da renúncia e conseqüente superação de obstáculos, seguir um caminho de moralidade e retidão. E, aqui, não é diferente. Então, no meu entender os números 1 e 3 de mencionada passagem são puramente metafóricos, já que descrevem a decisão que Cristo tomou de se isolar no deserto e a posterior tentação biológica de, ao ter fome após 40 dias jejuando, buscar alimento – e mesmo assim não o fazendo, vez que tal afetaria o condicionamento mental a que se propôs, e, por consequência, a missão que se atribuiu. Além do mais, creio que o número 2 deve ser interpretado literalmente, eis que, quando o texto sagrado fala em “jejum”, não há outra forma de lê-lo - trata-se de privação da ingestão de alimentos, ou de seu consumo em quantidades ínfimas, possível por longos períodos apenas aos que possuem grande poder interior. Agora, cabe a pergunta: onde Ele conseguiu tal condicionamento, especialmente se levarmos em conta um período tão longo de asceticismo (40 dias)? Para mim, a resposta pode estar não na Galiléia ou na Judéia, mas a milhares de quilômetros a Leste, por meio do contato com filosofias existentes muito antes de seu tempo - se Cristo possuía pensamento, discurso, consciência, visão, esforço, modo de vida e ação corretos, deve tê-los aprendido na Índia e posto-os em prática por meio do que é, somado àqueles, o oitavo caminho de escape do egoísmo e do desejo - a meditação budista, ensinada por Siddharta Gautama, o Buda, cerca de 05 séculos antes. Claro que não tenho como prová-lo. É só uma teoria. No entanto, consta que Cristo não possuía a cidadania romana, sendo somente um habitante do Império - do qual a Galiléia e a Judéia faziam parte - de modo a ser esta a razão pela qual podemos dizer que seu julgamento e crucifixão foram mais infames e humilhantes que o habitual (pois o Direito Romano da época diferenciava, no tratamento dispensado aos acusados, cidadãos de não-cidadãos romanos). E como encarou a situação? Estoicamente, como um verdadeiro herói. Só uma mente muito disciplinada e controlada poderia realizar tal feito. O passado é um tempo sobre o qual sempre questionaremos, especialmente a Antigüidade. Vendo do que, comprovadamente, foram capazes os dois maiores homens da História, temos a certeza de que ainda há muito a aprender a Seu respeito. Ambos foram heróicos e fascinantes, e, independentemente da presente teoria, são Seus valores que devemos seguir.