* Artigo escrito e publicado em 2010

O Manifesto Comunista de Karl Marx e Friederich Engels (1848), em sua introdução, expressa uma célebre constatação: “Um fantasma ronda a Europa: o fantasma do comunismo”. E este fantasma se revelou na Revolução Russa de 1917, quando os bolcheviques liderados por Vladimir Ilitch Ulianov – mais conhecido como Lênin - ali implantaram a primeira República socialista do mundo. À sua sangrenta tomada do poder sucedeu-se a guerra civil contra os então, mas não desistentes, derrotados, especialmente os simpatizantes do assassinado czar Nicolau Romanov, o que culminou, em 1922, na vitória dos marxistas e conseqüente criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Os métodos caracterizadores do combate à oposição durante a curta História da URSS ficaram patentes na forma com que Lênin lidava com as controvérsias dentro de seu próprio círculo de poder. Maquiavélico e centralizador, fazia da morte o destino certo dos insatisfeitos com a política oficial do Partido Comunista (inicialmente denominado “Partido Comunista de Todas as Rússias”), mesmo se tal oposição decorresse, por exemplo, de uma excessiva lealdade à ideologia marxista, como a manifesta discordância em relação à NPE – Nova Política Econômica, que continha elementos da economia capitalista a fim de estimular a produção para, então e futuramente, haver 100% de socialização. Não se levava em conta a lealdade doutrinária à teoria de Marx, mas apenas a cega obediência ao partido, ainda que os respectivos e derradeiros objetivos fossem idênticos ou similares. Apesar de eliminar seus adversários, Lênin teve feitos positivos, como o Tratado de BrestLitovsky, de paz em separado com a Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial. Entretanto, a natureza do regime que implantou mataria muito mais soviéticos que os quatro milhões de russos até então erradicados nos combates aos impérios centrais, já que para sua sucessão no Secretariado-Geral do Partido Comunista, e, por conseguinte, no comando da URSS, foi escolhido alguém que, nos tempos do terrorismo praticado contra o regime czarista ao alvorecer do novo século, bem como do conseqüente exílio prisional na Sibéria, era conhecido por Koba - o georgiano Josef Vissarionovitch Dzugashvilli. Sua nova alcunha, Stálin (do inglês “steel”, ou seja, “homem de aço”) mostrava bem a doentia personalidade daquele que nos anos seguintes dominaria a URSS, e ao qual muito poucos ousariam se opor. Stálin iniciou seu governo com o objetivo de transformar a URSS em uma potência mundial por meio da consolidação de seu poder pessoal, e não o contrário. Assim, impôs horrores extremos ao povo soviético. Horrores comparáveis, em extensão, apenas aos regimes de Hitler e de Mao Tsé-Tung, e tendo como alguns dos maiores exemplos os planos qüinqüenais, cujo escopo era o aprimoramento agrícola e industrial. As primeiras medidas de força dali decorrentes foram, após o fim da NPE, as coletivizações forçadas dos campos agrários do Oeste do país, com especial destaque para a Ucrânia, onde houve o sistemático extermínio dos kulaks, que eram pequenos e médios proprietários vistos como burgueses, a fim de que o Estado, por si só, aumentasse a produção. O que ocorreu foi o contrário, pois grandes safras de alimentos em uma nação cuja segurança alimentar dependia exclusivamente da produção agrícola foram perdidas, provocando fome endêmica em boa parte da URSS. Para compensar o desastre, parte da produção excedente, em vez de ser utilizada para alimentar o povo, foi vendida a outros países. Além do mais, os lucros obtidos por aqueles proprietários durante a NPE foram expropriados e empregados não somente no reerguimento agrícola (o que significava apenas recuperar um enorme prejuízo, e não um investimento), mas também na industrialização, que, naquele e nos seguintes planos qüinqüenais, foi concretizada por meio do trabalho semi-escravo de grande parte da população, eis que a não-obtenção das metas estabelecidas era crime punido com a morte, que, de qualquer forma, sempre chegava por meio da fome e da exaustão. As perdas humanas foram terríveis e na casa dos milhões. Tal foi o preço da industrialização da URSS. Não obstante os incontáveis óbitos em decorrência da semi-escravidão, Stálin aprimorou uma tradição do regime czarista, que era a condenação, por meio da mais selvagem repressão, de qualquer dissidência, ou de quem ele, em sua psicose objetivadora da manutenção individual do poder, imaginava fazer parte de alguma forma de oposição, qualificando-os de “inimigos do povo”, o que se deu, inicialmente, pela transformação da Tcheka (a primeira polícia política soviética, criada por Lênin) na GPU, e, posteriormente, na OGPU, mais tarde incorporada à NKVD (antecessora do KGB), que prestava contas somente a ele. Responsável pela vigilância de grande parte da população soviética, a NKVD fez com que muitos opositores, bem como pessoas apolíticas, fossem enviadas aos gulags - os tristemente famosos campos de trabalho forçado siberianos criados em 1918. Muitas vezes dita situação ocorria por meio de sangrentos expurgos nos mais altos escalões governamentais e demais setores pré-determinados. Houve a condenação à morte, em julgamentos forjados, de revolucionários que conviveram pessoalmente com Stálin, como Kamenev e Zinoviev, além do assassínio extrajudicial de Leon Trotsky, executado na Cidade do México. A paranóia de Stálin não conhecia limites geográficos, ou, em se tratando de vidas humanas, numéricos. Fora os agentes oficiais, a NKVD estimulava na população a cultura da delação política como sinônimo de lealdade ao regime. Quem delatasse um amigo, parente ou mesmo os pais tinha menos chances de ser enviado a um gulag ou simplesmente morto, de modo que a subversão total das relações pessoais se tornou, de regra, a maior garantia individual de vida na URSS stalinista. Qualquer pretexto era motivo para a referida delação, fosse uma briga de vizinhos, discussões no círculo familiar ou discordâncias nas fábricas. O medo imperava e impunha o terror pessoal. As conseqüências, não somente para outros milhões, como para a existência formal do país, foram desastrosas. Em um dos mais famosos expurgos nas cúpulas do partido e das Forças Armadas (chamado de “O Grande Terror”, em 1937), Stálin matou muitos dos mais qualificados generais do Exército Vermelho, sob falsas acusações, dentre elas as de conspiração. Como conseqüência, ao invadir a URSS, em 1941, a Alemanha nazista encontrou os soviéticos à deriva no campo bélico, já que o hiato de comando ocasionado pelas mortes dos líderes militares havia sido fatal. Sem outra saída, Stálin apelou para que o povo lutasse a “Grande Guerra Patriótica” ao lado do Exército Vermelho, e aquele lhe obedeceu. Os nazistas foram derrotados e Stálin, indevidamente, atribuiu-se toda a glória da vitória, mesmo que ele não tenha sofrido um único arranhão e que a Segunda Guerra Mundial, que ele ajudou a iniciar quando, dias após Hitler e em parceria com ele, também invadiu a Polônia (no começo eram aliados e nele Stálin confiava, tanto que não esperava qualquer invasão, razão pela qual não teve qualquer cuidado ao matar seus generais), tenha custado as vidas de 27 milhões de soviéticos. Terminada a Segunda Guerra Mundial, o ditador soviético decidiu manter o Exército Vermelho nos países da Europa Oriental, principalmente naqueles cujos governos tinham sido aliados dos nazistas, como a Hungria, a Bulgária e a Romênia. Ali, na Cortina de Ferro (assim denominada por Churchill), até 1989 haveria a mera substituição da tirania nazista pela soviética, com a implantação de seu regime político e econômico, mantido por meio de fantoches como os alemães-orientais Walter Ulbrich e Erich Honecker, o búlgaro Todor Zhivkov e o romeno Nicolae Ceaucescu. Stálin morreu em 1953. Com ele terminaria o período mais negro da História da URSS. Seu sucessor, Nikita Kruschev, denunciou, no Congresso do Partido Comunista de 1956, os crimes do stalinismo - como se ele próprio não tivesse sido um stalinista - e iniciou um período de distensão interna. Na política exterior, contudo, sua mão-de-ferro foi sentida ao esmagar a rebelião húngara ocorrida no mesmo ano, ao construir o Muro de Berlim e na ocasião em que, por um triz, não entrou em guerra contra os EUA ao posicionar mísseis nucleares em Cuba. Derrubado pelo partido em 1964, foi substituído por Leonid Brejnev. Além do início da estagnação da economia, Brejnev imitou seu antecessor quando, em resposta a outra rebelião, invadiu a extinta Tchecoslováquia, em 1968 (a chamada “Primavera de Praga”), e, 11 anos mais tarde, enviou tropas ao Afeganistão. Morreu em 1982. Seus sucessores, Yuri Vladimirovitch Andropov e Konstantin Tchernenko, governaram por pouco tempo, até 1985, quando houve a ascenção de Mikhail Gorbachev, em cujas mãos o regime e o Muro de Berlim implodiram, pondo fim ao bloco marxista europeu oriental. Portanto, tiramos as seguintes conclusões: (a) a primeira revolução marxista do mundo, de fato, só poderia aflorar em um país cujos governantes, até então, haviam sido sangüinários autocratas (tendo como mais famoso exemplo Ivan, o Terrível). Afinal, o Manifesto Comunista estimulava a tomada do poder, pelo povo, como resposta aos desmandos da fome, da guerra e da ditadura, e a Rússia czarista, sob o domínio da família Romanov, possuía referidas características, que tiveram continuidade com os governos marxistas. Especialmente a ditadura; (b) logicamente, a continuidade do caráter onipotente do Estado não pode ser atribuída apenas ao Manifesto Comunista, uma vez que a tradição política russa sempre diferiu drasticamente das democracias ocidentais. Como não se muda toda uma milenar mentalidade governamental autocrática apenas com a subversão da ordem econômica, nada mais lógico que a contaminação, pelas táticas repressivas, do aparelho marxista que se seguiu, e em níveis bem mais aguçados (o que não significa que não haveria ditadura se o sistema socialista tivesse sido implantado, primeiramente, em um país que até então fosse uma democracia, pois tal doutrina é, por si só, opressora - apenas haveria um regime menos brutal, mas nunca democrático); (c) a transmissão da mentalidade governamental autocrática por influências de gerações passadas de déspotas pode ser constatada nos governos russos que se seguiram à Queda do Muro de Berlim e do regime marxista. Mesmo sendo um país capitalista, a Rússia ainda não é contemplada com uma verdadeira democracia, o que foi comprovado pelos constantes cerceamentos à liberdade de expressão e de oposição durante o governo Putin, com destaque para as guerras internas empreendidas na Chechênia. Como se não bastasse, em 2008 o governo Medvedev ordenou a invasão da Geórgia, em mais um violento capítulo das turbulentas relações de dominação pela Rússia, seja no regime czarista, no marxista ou agora.