* Artigo escrito e publicado em 2011.

Muitas vezes a imprensa internacional difunde informações demasiado alarmistas sobre várias e específicas situações. E tal parece ser o caso quando nos são transmitidas quaisquer notícias a respeito da Coréia do Norte. Criado logo após a Segunda Guerra Mundial e conseqüente divisão da Península Coreana para atender às demandas da nascente Guerra Fria, o país já surgiu como um virtual satélite sino-soviético. Seu primeiro líder foi Kim Il-Sung, que, com apoio logístico da URSS, militar da China e objetivando a reunificação sob o regime vermelho, ordenou a invasão da capitalista Coréia do Sul em 1950. Os EUA, com mandato da ONU, intervieram a fim de repelir a invasão. Com um grande número de baixas expulsaram as tropas norte-coreanas e chinesas do vizinho sulista e conseguiram um cessar-fogo que vigora desde 1953 (assim, como não há um tratado de paz, tecnicamente o estado de guerra entre as Coréias subsiste). A fronteira entre os dois países ficou, então, mantida no nível do paralelo 38º N. Logo após o fim da guerra, Kim Il-Sung elaborou, em 1955, a filosofia Juche, uma variação do marxismo-leninismo que julga ser a revolução o resultado da soma dos esforços de cada indivíduo no sentido de conseguir a independência nacional por meio da auto-suficiência, da extrema valoração das forças militares como o mais forte sustentáculo político (songun), do culto à personalidade, da preservação da tradicional cultura coreana e da homogeneidade racial. As massas seriam as legítimas donas da revolução. Entretanto, embora a Coréia do Norte tenha procurado, desde a década de 1960, a estrita aplicação do Juche - que passou a ser constitucionalmente a ideologia do Estado em 1977 - o mesmo nunca se concretizou na esfera econômica, vez que o país sempre recebeu ajuda da antiga URSS, tanto que a queda do bloco marxista liderado pela antiga superpotência foi um duríssimo golpe, que ocasionou a cessação dos intercâmbios comerciais em condições preferenciais e a conseqüente fome de proporções endêmicas que vitimou os norte-coreanos na década de 1990, bem como dificuldades de produção de energia. Tão terríveis fatos, obviamente, eram uma ameaça ao poder de Kim Il-Sung, morto em 1994, e de seu filho e sucessor Kim Jong-Il. Portanto, tiramos as seguintes conclusões: (a) independentemente da inexistência de um tratado de paz entre as duas Coréias, o Norte foi de fato derrotado pelo Sul e pelos EUA, pois seu objetivo de reunificação sob o regime marxista não se concretizou; (b) Kim Il-Sung fez eclodir a Guerra da Coréia contra todos os prognósticos indicadores da possível derrota, já que teria de enfrentar as forças dos EUA, porque ainda não havia teorizado a filosofia Juche. Se o tivesse feito nunca perpetraria a invasão, eis que o possível fracasso sob as tutelas da URSS e da China evidenciaria a violação, por ele próprio, dos preceitos de auto-suficiência e valoração de suas forças militares como sustentáculo político. O Juche seria invalidado e o culto à sua personalidade abolido, razões pelas quais seria prontamente derrubado; (c) como o Juche passou a ser, oficialmente, a ideologia estatal em 1977, o programa nuclear norte-coreano, existente desde o início da década seguinte, nada mais foi que um de seus desdobramentos, inicialmente realizado para concretizar a valoração das forças militares. Desde o fim da URSS, entretanto, serve também para conseguir a autosuficiência por meio das sucessivas e extorsivas chantagens atômicas feitas ao Ocidente, especialmente após a assinatura, em 1994, de um protocolo de intenções em que os EUA se comprometiam a fornecer ajuda econômica e energética em troca da cessação do dito programa. Já que a Coréia do Norte descumpriu o protocolo, podemos dizer que a imprensa mundial exagera ao demonizá-la: afinal, suas bombas atômicas servem apenas como moeda de troca para, arrancando dinheiro do Ocidente, ajudar a concretizar o Juche (dentro do já mencionado aspecto de obtenção da auto-suficiência) em um sistema absolutamente fechado ao mundo exterior, mantendo, assim, intacto o poder político da dinastia Kim, uma vez que o Norte têm fronteiras com a Rússia e com a China, seus tradicionais aliados (mas que, nos dias atuais, se aliam sobretudo aos EUA, tanto que servem de mediadores ao diálogo). Os inimigos geograficamente mais próximos da Coréia do Norte são, portanto, o Sul e o Japão, dois países escudados pelo arsenal nuclear dos EUA, o que faz com que, mesmo em caso de um novo conflito armado entre as Coréias por conta das recorrentes agressões de Kim Jong-Il ao Sul, (que servem apenas para reforçar o temor de que ele também seria capaz de utilizar armas nucleares) o Norte jamais venha a fazer uso de suas poucas bombas atômicas contra quem quer que seja, simplesmente porque dita atitude ocasionaria não só o fim de sua moeda de troca, mas também uma reação dos EUA com o mesmo tipo de armamento e em escala muito superior. Seria a aniquilação completa da família Kim. Haveria, sim, uma nova guerra convencional, com os EUA novamente lutando ao lado do Sul, ou, o que é mais improvável, do Japão. Por todo o acima exposto, Kim Jong-Il não representa qualquer ameaça atômica ao território dos EUA ou de outra grande potência, até mesmo porque suas bombas não podem ser convertidas em ogivas a serem instaladas nas dianteiras de seus mísseis Taepodong 1 e 2. Não vai provocar um apocalipse nuclear porque teme a morte e sabe jogar o delicado xadrez das relações internacionais. Seus blefes são malignamente geniais. Só o Ocidente é que não percebe.