Ubirajara Moraes Oliveira Filho

RESUMO

O principal objetivo deste estudo versa em analisar como a utilização de jogos e brincadeiras adaptadas podem ser empregadas para estimular as habilidades motoras em crianças com deficiência física. Para o desenvolvimento deste trabalho foram identificadas algumas classes que configuram as principais dificuldades que as crianças com deficiência física apresentam como as questões posturais, posicionamento corporal, locomoção, além de analisar as contribuições deste estudo para a evolução que as crianças podem alcançar no âmbito físico, emocional e social. Deste modo, este trabalho pautou-se em utilizar como estrutura metodológica a descritiva exploratória de caráter qualitativo.

Palavras-chave:Jogos e brincadeiras, deficientes físicos, atividade motora adaptada.

ABSTRACT

The main objective of this study is to analyze how the use of adapted games and games can be used to stimulate motor skills in children with physical disabilities. For the development of this work, we have identified some classes that configure the main difficulties that children with physical disabilities present such as postural issues, body positioning, locomotion, and analyze the contributions of these studies to the development that children can achieve in the physical, emotional and social. In this way, this work was based on using as descriptive exploratory methodological structure of qualitative character.

Keywords: Games and games, handicapped, adapted motor activity.

1 INTRODUÇÃO

A criança se utiliza das brincadeiras para se desenvolver, pois através de desafios elas passam a investigar e conhecer o ambiente a sua volta, adquirindo, assim, suas primeiras percepções de mundo, tornando a brincadeira, algo fundamental para o seu desenvolvimento e educação.

Deste modo, pela definição de Caillois (1990) tem-se que o jogo é uma atividade voluntária que promove o divertimento e a alegria, tratando de uma ocupação isolada que se realiza dentro dos limites de um determinado tempo e lugar.

Portanto, o momento da brincadeira da criança é um momento em que ela está se desenvolvendo, poiso processo de brincar as estimula tanto no tocante da sua percepção de mundo, quanto da sua capacidade de ação e reação com relação ao mundo adulto. É o que para Vigostsky (1991) corresponde ao estágio de desenvolvimento da criança e a mudança destes estágios dependerá das necessidades e dos incentivos que as crianças apresentam.

A brincadeira, para Leontiev (1991), é um agente de ação e nela observa-se o processo da atividade realizada e não o resultado alcançado, desta forma, uma ação lúdica traz em si duas características, a primeira, que faz referência ao objeto estabelecido e, a outra a uma operação, que será o meio que a realizará. Podendo, o participante, mudar as condições de realização da ação, entretanto no que tange o conteúdo e a sequência da ação, estas correspondem à realidade. A partir da desconexão entre a operação e a ação, que são as condições para a existência da ação, é que surge o imaginário.

Qualquer forma de brincadeira imaginária contém alguma regra de comportamento, parte daí a afirmação de Vigostsky (1991) que não existe brincadeira que não tem regra, e, portanto, um jogo com regras estruturadas também possui uma situação imaginária. Já Leontiev (1991) entende que quando a vitória tona-se um motivador no jogo, este deixa de ser uma brincadeira.

Destarte, o ato de brincar ou de jogar estimula e desenvolve alguns aspectos tais como: a criatividade, a memorização, a cooperação, a linguagem, a motricidade, sua capacidade de discriminar, julgar, tomar decisões e até mesmo aceitar críticas, deste modo, a criança passa a desenvolver-se socialmente e adquire o controle emocional, aprendendo a respeitar às regras estabelecidas.

Todos estes elementos elencados contribuem para o desenvolvimento da

criança, deste modo Kishimoto (2000) elenca ainda que:

Ao permitir a ação intencional (afetividade), a construção de representações mentais (cognição), a manipulação de objetos e desempenho de ações sensório-motoras (físico) e as trocas nas interações (social), o jogo contempla várias formas de representação da criança ou suas múltiplas inteligências, contribuindo para a aprendizagem e o desenvolvimento infantil.

 

Vê-se aí a importância dos jogos para o desenvolvimento das crianças, e desse modo Kishimoto (2000), ainda infere que, para a criança com deficiência o jogo possibilita o aprendizado a partir do seu próprio ritmo e das suas capacidades e, também propicia a conexão com o mundo através de suas vivências, pois o ato de jogar, por ser uma atividade livre de pressões e avaliações, cria um ambiente de liberdade e favorável à aprendizagem.

Ao adquirir o conhecimento físico por intermédio da exploração do meio ambiente e da manipulação dos objetos, as crianças passam a estabelecer relações e a desenvolver o raciocínio lógico-matemático, e este é de suma importância para o desenvolvimento da sua capacidade de ler, escrever e calcular.

Desta forma, o espaço em que serão inseridos estes jogos e brincadeiras, precisará ser um ambiente propicio para o desenvolvimento destas atividades e adequado para o estimulo das crianças com deficiência, de modo a estimular e a explorar o seu potencial criativo.

Do exposto, verifica-se que uma criança com deficiência física e que possui déficit motor, ela não vivencia muitas possibilidades e até mesmo possui algumas dificuldades em participar de jogos e brincadeiras, pois o seu próprio corpo, as maioria das vezes, não funciona como um recurso inicial. Deste modo, é que a utilização do jogo é uma maneira dela vivenciarem que estão inseridas, e nesse processo, a utilização de um ambiente prazeroso, deve servir de estimulo ao pensamento destas crianças, permitindo que elas experimentem, toquem, expressem, de modo que possam se conhecer e conhecer ao outro.

O objetivo deste trabalho é estudar como o uso de brincadeiras e jogos adaptados a crianças com deficiência física podem estimular suas habilidades motoras. A revisão de literatura foi a abordagem utilizada para a realização deste estudo.

Assim sendo, espera-se que a utilização de brincadeiras e jogos que estejam adaptados às limitações das crianças com deficiência sirva como meio de melhorar o  

seu aprendizado e desenvolvimento de suas habilidades motoras.

 

AS BRINCADEIRAS E OS JOGOS PARA A CRIANÇA COM DEFICIÊNCIA FÍSICA

 

Para o desenvolvimento das brincadeiras e dos jogos para as crianças com deficiência física será necessário se pensar em algumas estratégias como a adaptação dessas atividades às condições das crianças, para isso necessita uma análise quanto as dificuldades,que podem ser relacionadas a postura ou ainda ao padrão motor, além de fazer a relação da atividade com a sua contribuição para o desenvolvimento delas.

Diante disso faz-se necessário elencar alguns aspectos que poderão servir como parâmetros para a construção das atividades, tais como:

A análise da postura das crianças;

O posicionamento corporal da criança no desenvolver da atividade;

A forma como a criança se locomove durante a execução da atividade;

A contribuição das atividades para o desenvolvimento da criança;

A análise da postura das crianças.

A dificuldade para uma criança com deficiência física encontra-se, principalmente, quanto a sua falta de mobilidade, diante da sua dificuldade de locomoção. Esta dificuldade gera para a criança a falta de liberdade e desta forma ela não possui independência para brincar e explorar o ambiente livremente.

Por este aspecto, Finnie (2000) argumenta sobre a importância da transferência de postura e que esta deverá assegurar uma experiência dinâmica para a criança de modo a oportunizar o seu processo de aprendizagem motora.

Para a realização de uma transferência, alguns pontos são importantes, deste modo, Ratliffe (2000) sugere que sejam considerados alguns em especial: o motivo de se mover a criança; quais as características da criança com relação ao seu peso, seu tônus muscular e como pode ajudar com a transferência; preocupações em movê-la, para crianças com casos de osteoporose ou convulsões; qual posição a criança será colocada; qual local a criança será transferida; qual posição assumirá; e, como usar os equipamentos que serão envolvidos no processo de transferência, no caso de: elevadores mecânicos, cadeiras de rodas, entre outros.

Com relação à transferência de postura, o desenvolvimento das atividades durante as brincadeiras e os jogos, buscam promover nas crianças algumas mudanças, tais como: da posição sentados na cadeira de rodas para em pé e desta posição para a posição sentados no chão, sentados no chão para posição de joelhos, sentados no chão para a posição de W, da posição sentados no chão para em pé e desta posição para sentados na cadeira de rodas.

Deste modo e ainda com relação à transferência, Ratliffe (2000) fala que, antes da realização de qualquer processo, é necessário que, em caso de utilização de algum equipamento, este fique próximo; que seja solicitada ajuda de alguém, em caso de necessidade; conversar com a criança sobre qual será a movimentação, para que ela possa ajudar durante o processo; planejamento quanto a elevação ou a transferência, do início ao fim; deixar o ambiente livre de obstáculos; ter uma base de apoio que seja estável, para a realização do movimento; deixar a criança próxima ao seu corpo; mantê-la com as costas eretas; e a utilização das pernas para se levantar.

Braccialli; Manzini e Vilarta (2001), salientam ainda que as mudanças periódicas de postura, possibilitam às crianças experiências novas e, ainda evitam o aparecimento de deformidades e contraturas, possibilitando às crianças com deficiência experimentarem diferentes posturas de maneira adequada, de modo a torná-las independentes.

 

 

3 O POSICIONAMENTO CORPORAL DA CRIANÇA NO DESENVOLVER DA ATIVIDADE

 

Crianças que não podem andar ou sentar sozinhas acabam por não se socializarem através de brincadeiras e até mesmo aprender como as outras crianças, podendo passar sua vida inteira, deitadas ou sendo carregadas. Deste modo, Ratliffe (2000) aborda sobre os benefícios da postura adequada e da necessidade do posicionamento apropriado para as crianças com deficiência física.

Ratliffe (2000) aborda ainda que ao maximizar o potencial de aprendizado e cuidados com a criança, além da participação dela em atividades recreativas e de laser, com o posicionamento adequado, trará para ela, além de benefícios

funcionais, os benefícios fisiológicos, de maneira a promover uma melhora com relação ao funcionamento de sistemas de órgãos importantes, com respiratório, intestino, bexiga e até mesmo a integridade da pele.

Outro aspecto a se observar, com relação às crianças com deficiência física, é o que relata Andrade (2000), para esta criança, sentar-se com as pernas estendidas é uma atividade muito difícil, fazendo com que elas fiquem desequilibradas, e assumindo postura cifótica, isso se deve a tensão e ao encurtamento da musculatura da região posterior da coxa e coluna.

Desta forma, os diferentes meios de manipulação da criança, permitem que elas experimentem diferentes posicionamentos, diante desta observação é que Ratliffe (2000) expõe que a utilização da forma adequada de trabalhar a postura da criança reduz a os problemas relacionados aos movimentos anormais, relacionado ao tônus muscular atípico e, facilitando as respostas posturais, além de promover na criança, um aumento nas habilidades funcionais. Para isso, o posicionamento deve ocorrer em ambiente específico para a atividade proposta, de modo que, a posição não é um fim em si mesmo, pois a criança deve ser posicionada em um determinado lugar para exercer algum tipo de atividade.

Em se tratando da questão da locomoção, Ratliffe (2000) aborda que a estimulação das crianças,para que elas se locomovam, também contribui no processo de aprendizagem delas, além de ajudar quanto à coordenação das ações corporais na solução de problemas dessa ordem em diferentes contextos e, auxiliam também quanto à regulagem e dosagem do esforço de forma que este esteja compatível com o planejamento da atividade, possibilitando ainteração desta criança com outras pessoas.

Precisa-se ainda, analisar as diferentes formas de locomoção que se pode desenvolver pelas crianças de acordo com as sequelas motoras que elas apresentam, pois a forma escolhida de locomoção irá depender do seu grau de comprometimento motor, podendo ser de diversas maneiras além do uso de recursos como muleta e cadeira de rodas.

A contribuição das atividades para o desenvolvimento da criança.A aprendizagem de um padrão motor normal, para Bobath e Bobath (1990), se dá através da prática, da repetição e da adaptação. Desta forma, para uma habilidade ser aprendida precisará de repetição, desta forma, Davis (1997), adverte que o

processo de repetição não precisa ser exatamente igual, mas de forma variada, em diversas situações.

Quando o indivíduo, que está realizando o aprendizado, atribui algum tipo de significado a este processo é que irá ocorrer à assimilação da aprendizagem, deste modo Davis (1997), sugere ainda que está é uma maneira para a aprendizagem para os novos padrões motores.

Destarte, verifica-se que o desenvolvimento de atividades proporciona o aumento da aprendizagem da criança com deficiência física, além de propiciar um processo de interação com o meio, obtenção e organização de informações obtidas pela ação corporal, além do desempenho de tarefas e atividades significativas que a direcione a alguma meta estabelecida.

 

4 CONCLUSÃO

 

Ao se pensar na utilização de jogos e brincadeiras que estejam adaptados a realidade de crianças com algum tipo de deficiência física, percebe-se a importância destes para o aumento de desempenho e evolução destas crianças, pois partindo da compreensão da realidade delas, e adaptando o desenvolvimento das atividades à situação que elas se encontram, poderá facilitar quanto à identificação de qual o estimulo é mais adequado ao seu desenvolvimento físico, emocional e social.

Desta forma, entende-se a importância de desenvolver estes tipos de atividades, pois através de um simples jogo ou uma brincadeira inocente, conseguirá verificar o quanto a utilização destespoderá contribuir para o desenvolvimento sensório-motor desta criança.

Percebe-se aí, que ao se utilizar de atividades que colaboram com a estimulação, seja através de manuseio de objetos para ativação da sensibilidade tátil dessas crianças, seja através de algum esquema corporal, estará contribuindo tanto com a sua coordenação motora, como propiciando a melhora da noção espacial e,até mesmo vir a inibir padrões patológicos, torna-se algo importante que deveser desenvolvido e utilizado como meio de estimular as crianças com deficiência física.

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

ANDRADE, M. L. U. Fisioterapia e o trabalho fonoaudiólogo em linguagem ecomunicação na paralisia cerebral. In: Limongi, S. C. (org.) Paralisia cerebral: processoterapêutico, linguagem e cognição.Carapicuíba, Pró-fono, 2000.

 

BOBATH, B e BOBATH, K. Desenvolvimento motor dos diferentes tipos de paralisia. São Paulo, Manole, 1989.

 

BRACCIALLI, L. M. P.; MANZINI, E. J.; VILARTA, R. Influências do mobiliárioadaptado na performance do aluno com paralisia cerebral espástica:considerações sobrea literatura especializada.Revista Brasileira de Educação Especial, v. 7, n.1, p. 25-34,2001.

 

CAILLOIS, R. Os jogos e os homens: a máscara e a vertigem. Lisboa, Cotovia, 1990.

 

DAVIES, P. M. Recomeçando outra vez: reabilitação precoce após lesão cerebral traumática ou outra lesão cerebral severa. São Paulo, Manole, 1997.

 

FINNIE, N. R. O manuseio em casa da criança com paralisia cerebral. São Paulo,Manole, 2000.

 

KISHIMOTO, T. M. O jogo e a educação infantil. IN: Kishimoto, T. M. Jogo, brinquedo, brincadeira e a educação. São Paulo, Cortez, 2000.

 

LEONTIEV A.N. Psicologia e pedagogia: bases psicológicas da aprendizagem. SãoPaulo, Moraes, 1991.

 

RATLIFFE, K. T.Fisioterapia na clínica pediátrica: guia para a equipe defisioterapeutas. São Paulo, Santos; 2000.

 

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processospsicológicos superiores. São Paulo, Martins Fontes, 1991.