José Luiz MARQUES*

Mestre em Educação

PUC-CAMPINAS

RESUMO : Este trabalho discute a Literatura na escola como possibilidade de educação e levanta alguns pontos sobre como ela pode contribuir na formação do leitor enquanto cidadão que lê e compreende o mundo em que vive.

Palavras-chave: Literatura, Educação, Conhecimento

Introdução.

Paradoxalmente podemos dizer que a Literatura, seja no Ensino Fundamental, seja no nível Médio, pode educar e humanizar, embora esteja soçobrando diante do currículo escolar fragmentado da escola e não servindo para muita coisa, talvez apenas como um objeto propulsor de atividades de leitura e escrita das criançase, no caso dos adolescentes,como maisuma disciplina para se ensinar e se estudar para exames vestibulares bastante concorridos, porque aqueles menos concorridos nem mesmo a consideram como objeto indispensável do conhecimento

* Graduado em Letras e em Pedagogia, especialista em Literatura Brasileira e Mestre em Educação pela PUC-Campinas. Atua como professor nos cursos de Pedagogia e Letras da FAM – Faculdade de Americana, no curso de Pedagogia da UNOPEC- Indaiatuba.Coordena e participa dos Programasde Formação Continuada de Professores da Rede Oficial de Ensino do Estado de São Paulo – TEIA DO SABER e LER PARA APRENDER- desde 2003, em Americana-SP. Autor de vários artigos sobre leitura, literatura e formação de professores

Ao nos conformarmos em resumir a Literatura a meros estudos sobre a história literária com predominância de elementos da vida do autor e das feições externas da obra sobre a essência desta mesma obra, fazemos o caminho que segue a mão da Literatura como utilidade, desconsiderando, sobremaneira, uma desuas especificidades maiores, se não a mais significativa : a de educar.

Literatura e Educação.

Para abordarmos a Literatura como um objeto educativo, seja a Infantil, seja a ensinada em níveis de ensino mais avançados, é preciso termos em vista e levarmos em conta o que poderíamos chamar de contrapontos da Literatura. Entre as muitas especificidades de sentido desse termo, todas oriundas da música, destacamos o que conceitua Aulete (1983): Arte de juntar uma ou mais partes melódicas a um canto dado.

Consideremos a Literatura em si como a melodia, enquanto a Educação,as Ciências Sociais, a História, a Geografia, a Matemática, a Física e tantas outras formas do saber como contrapontos dos mais complexos que, à semelhança das melhores composições de Bach, em momento algum atravancam o desenrolar das melodias, por mais fartos e belos que sejam.

Não é nossa intenção chegarmos ao exagero de afirmar que a fruição plena de um texto literário depende do conhecimento maior e da valorização adequada de seus contrapontos ; tendo a Literatura, em especial a Literatura Infantil, como objeto de trabalho e de reflexão durante os últimos anos de nossa formação , sabemos que, em essência, ela nãopodeperderparaoleitor uma de suas maioresqualidades e o maior de seus apelos : despertar prazer, se possível estético, mas necessariamente prazer.

Quando falamos em Literatura prendemo-nos a escolhas. Evidentemente as escolhas que fazemos é que vão determinar se ela pode ou não educar.

Na perspectiva de um trabalho sobre o que é educável em Literatura e sem a intenção de formar uma oposição entre semiologia e análise sociológica, é preciso queadotemos um estudo de textos literários que se entrecruzem a categorias próximas de fenômenos sociais e, por extensão, de fenômenos educacionais.

Literatura funcional. Que corresponde em literatura, ao racionalismo arquitetônico? Por certo a literatura segundo um plano, isto é, a literatura " funcional " , de acordo com uma orientação social preestabelecida. É estranho que na arquitetura, o racionalismo seja aclamado e justificado, mas não nas demais artes. Deve residir ai um equivoco. Será que só a arquitetura tem finalidades práticas?

(Gramsci, 1978, p.31)

Valorações estéticas à parte, reconhecimento dos níveis de filosofias, aspirações e cosmovisões , cordelistas e Guimarães Rosa, Márcio de Souza e Machado de Assis, Rubem Fonseca e Osman Lins, Clarice Lispector e Fernando Gabeira, bem como Lobato e Quintana , Ruth Rocha e Ziraldo , Viriato Correa eMoacyr Scliar,todos ocupam seus espaços na Literatura, usufruindo cada qual o que tenha podido dos contrapontos que a aproximam como arte dos domínios das demais formas do saber, dos domínios das disciplinas presentes ou não no currículo escolar.

Sabemos, entretanto, que o trabalho de se educar por meio da Literatura é árduo e deve ser persistente, porque a disparidade existente entre o conhecimento empírico e o conhecimento cultural é também um grande obstáculo a ser rompido tanto por quem aprende como por quem ensina.

Quase todo o progresso intelectual do homem contemporâneo se baseia nas aquisições culturais que ele incorpora as suas vivências, ou em outras palavras, a própria cosmovisão que cada um de nós organiza nessa era tecnológica e de concepções fragmentadas assenta-se muito mais naquilo que lemos, que vemos e ouvimos e muito menos naquilo que vivemos direta e pessoalmente. Daí inferirmos, por exemplo,no caminho de educar pelaLiteratura por meio daquele contato secreto e íntimo do sujeito leitor com os textos que lê. (Lajolo, 1994 p. 7)

Evidentemente, outro grande obstáculo para um estudo mais aprofundado de textos literários que se entrecruzam e que compõem um estudo interdisciplinar é o currículo escolar fragmentado. Esse obstáculo acaba por tentar transformar nosso discurso em uma teoria muito distante da prática escolar utilitarista realizada hoje em grande parte das salas de aula.do ensino Fundamental e Médio.

Para não contaminarmos nosso trabalho com a orientação racional de que a educação institucionalizada como elemento integrador e promotor da vida social é assegurada pela escola, e esta nomeada como elemento promotor e locus social onde as capacidades cognitivas dos indivíduos emergem, evidentemente, por ser uma orientação circunscrita a um conjunto minoritário de pessoas que, não coincidentemente, ocupam lugares estratégicos de poder, evitamos aqui a idéia de que, em Literatura, a teoria é um produto de estudos intelectuais que pouco ou quase nada auxilia na prática dos educadores, pois vemos essa teoria , ainda que distante da prática, como elemento de análise e , portanto, capaz de transcender ou transformar , pelapráxis (Vasquez, 1988) , a prática.

Uma vez que não nos compete um estudo sobre a transcendência do currículo escolar fragmentado, apontamos aqui, então, a necessidade de umtrabalho com a Literatura , na escola ,como nuanceinterdisciplinar eque pode ser vista pela recuperação da memória do sujeito leitor a partir de possíveis e diferentes diálogos que ele possa manter com esses textos a fim de se perceber em uma ação em movimento e de se deslocar de seu papel de simples leitor , fazendo conexões múltiplas com outras formas do conhecimento e despertando para suas inquietações e para as inquietações do mundo contemporâneo.

Precisamos aprender a separar as perguntas intelectuais das existenciais. As primeiras conduzem o homem a respostas previsíveis , disciplinares, as segundas transcendemo homemeseus limites conceituais, exigem respostas interdisciplinares. (Fazenda, 2001,p.17)

O caráter social da Literatura.

Entre as aquisições do conhecimento pela via científica, pela via filosófica e pela via artística, nenhuma delas pode ser mais natural do que a advinda pela arte e, por extensão, pela arte literária, porque além de intuitiva, tem asua função social.

O cientista caminha entre as lacunas do saber: o móvel de sua iniciativa é o não-sabido, o não-comprovado. O filósofo, mais modestamente, não aspira a alcançar o saber, mas empenha-se, pela razão, na comprovação de alcançado. O artista-literato não precisa ter compromissos com a verdade factual, pode não lhe competir investigar as lacunas do saber, tampouco explorar verdades objetivas. Ainda, armado de mero conhecimento de primeiro grau – a intuição – que se tem ou não se tem - o artista pode arrimar sua criação até na inverdade, até na ignorância.

Paradoxalmente,a vitalidade e a influência social da Literatura muito tem a ver com a perda de sua própria identidade elitista ao se aproximar do público leitor comum, mas nem por isso contribui para que a ciência literária perca o seu sentido decarátersocial e , ao mesmo tempo,de obra de arte.

Essa aproximação confirma de maneira concreta que a Literatura também é um produto social, do qual emerge e o qual espelha em suas representações e para elemuitas vezes, se volta como necessidade de(re)interpretá-lo e/ou , se possível,transformá-lo.

Sobre essa dicotomia, expressa-seCastanho (1989, p.p. 176–215 ) :

(...) se a arte, no âmbito escolar, inserir-se nas preocupações contemporâneas, nos problemas humanos de hoje, se a arte-educação constituir-se como uma tentativa de informar o real, terá condições para auxiliar os estudantes a tomarem uma posição diante da vida. (...) se se faz a ligação direta da arte com os demais aspectos da vida, é preciso ensinar os estudantes a decodificarem as mensagens, a terem a chave do mecanismo – único caminho para que ele se defenda e se posicione sem ingenuidade diante da cultura de massa.

Nesse sentido e acrescentando a ele o valor social da Literatura também explicitaGonçalves Filho (2000, p. 128) :

A literatura, parafraseando Nietzsche, serve para tudo e para nada, e talvez, para uma sociedade que parece tomar conta de todos os nossos sentidos e prazeres, para nada. A literatura se apresenta como uma instancia cultural que facilita a configuração, por parte de seu usuário, de variados tipos de reação, desde à alienação escandalosa, o refinamento intelectual à grosseria pedagógica em síntese , o mergulho na loucura ou ao repouso na sabedoria (...) isso é literatura enquanto sociedade, enquanto social, enquanto produção social.

A titulo de concordância com estes autores, afirmamos que não podemos, enquanto educadores e formadores de leitores na escola, nos furtar de reconhecer que a Literatura para as crianças e para os jovens é, também, uma forma de compreender o mundo e, portanto, de influenciar, no leitor, a escolha de sua opção política de vida.

Exemplificando, se as questões existenciais exigem respostas interdisciplinares, se a identificação do sujeito leitor com os textos literários pode suscitar nele possibilidades, inclusive, de se auto-analisar e analisar melhor a sociedade em que vive, podemos encontrar, então, nessa metodologia e/ounessa dicotomia , o que pode ser educável em Literatura.

Essa concepção de educação pela literatura nos faz afirmar que quem leu Os sertões, de Euclides da Cunha ou Manuelzão e Miguilim, de João Guimarães Rosa, A terra dos meninos pelados, de Graciliano Ramos ou Enquanto houver vida, viverei , de Julio Emilio Braz, Os meninos da rua da praia, de Sergio Capparelli ou O menino que aprendeu a ver, de Ruth Rocha e saiu de algum desses livros da mesma maneira em que entrou não se educou.

BIBLIOGRAFIA.

AULETE, Caudas. Dicionário contemporâneo da língua portuguesa. 3. ed. RJ: Delta, 1983.

CASTANHO, Maria Eugênia L. M. Arte-educação e intelectualidade da arte,(continuação)- Dissertação de Mestrado :Faculdade de Educação, UNICAMP, 1989.

FAZENDA, Ivani C.(org.).Interdisciplinaridade: dicionário em construção. São Paulo: Cortez, 2001.

FRANCASTEL, Pierre. Sociologia da arte II.RJ: Zahar Editora, 1967.

FREIRE, Paulo.A importância do ato de ler. SP: Cortez, 1982

GONCALVES FILHO, Antenor A. Educação e literatura: o que você precisa saber sobre. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.

GRAMSCI, Antonio. Literatura e vida nacional. Trad. e seleção de Carlos Nelson Coutinho, 2. ed, RJ: Civilização Brasileira S.A , 1978.

KHÉDE, Sonia S. (coord.).Os contrapontos da literatura. Petrópolis, RJ: Vozes, 1984

LAJOLO, Marisa.Do mundo da leitura para a leitura do mundo. 6. ed. São Paulo: Ática, 1994.

MELLO E SOUZA, Antonio Candido. Literatura e sociedade.8. ed.Queirós,Publifolha (Grandes nomes do pensamento brasileiro) , 2000.

VASQUEZ, Adolfo S. Filosofia da práxis. RJ: Paz e Terra, 1988