O FIGURANTE E O PROTAGONISTA

No chão frio do armazém abandonado. Dormia aí. Cortava as caixas usadas – já muito amolecidas pelo cacimbo – para destas fazer papelões que lhe serviam de cama. Quando papelões não houvesse, os jornais em cujas páginas se escreviam histórias as quais não sabia interpretar muito bem, embrulhados, amorteciam a dureza do velho pneu que servia de almofada. Às vezes, a parte do jornal que lhe calhava à cabeça era a necrológica. Outras vezes, calhava-lhe a secção dos faits divers.

Dois sonhos ajudavam-no a atravessar a distância que parecia infindável de todas as noites. No primeiro, sonhava acordado. No segundo, sonhava a dormitar. Dormitava, porque as circunstâncias não permitiam dormir.

Tinha cerca de dez anos Samanhonga. Era órfão da vida, da felicidade, da família, mas nunca de horizontes. Os sonhos eram-lhe fiéis, quando se recordava do pai, que havia morrido no rio Luachimo, quando se atirou para salvar alguém, afogou-se na forte correnteza que arrastava centenas de histórias para o fim. Houve pessoas que lhe contaram que o pai fora assassinado por contrabandistas de diamantes na Lunda Norte. A mãe tinha-o abandonado muito antes de o pai desaparecer, quando decidiu ir viver para o vizinho Congo Democrático com outro marido. Houve pessoas que lhe contaram que acabara por morrer de causas que se desconhecem.

Para se sustentar, engraxava sapatos, lavava carros de funcionários de banco e, não poucas vezes, limpava os fundos do Museu Nacional do Dundo.

Chamavam-no «mwana», que, em tchókwe, significa menino ou menina, também criança.

Mesmo quando a vida lhe era madrasta, quando se sentia enteado da sorte, mwana Samanhonga nunca deixava de estudar e de ouvir, em surdina, conselhos dirigidos a filhos cujos pais estavam já cansados de se lamentar. Muitas vezes, ouvia de pais alheios:

«Deitas fora a comida, Chicola, tu não sabes o que passam as pessoas no Centro de Refugiados do Lóvua».

Mwana, do pouco que ganhava, guardava para reinvestir nos seus estudos. Mas os seus colegas, que também eram pré-adolescentes, gastavam tudo e – no dia seguinte – já não tinham nada. Trabalhavam tanto, mas depositavam o dinheiro em saco roto.

«Tu és mão-de-vaca, avarento! Gasta-me este dinheiro, amanhã a vida segue». Estas eram algumas das muitas frases de efeito que ouvia. «A vida é muito curta para ter sonhos compridos».

Passado uns tempos, mwata Katyavala, funcionário sénior do Museu, chamou-o e mandou-o limpar algumas portas e janelas da parte de fora do Museu Nacional. O mwata, designativo que define uma pessoa idónea, mais-velha, ajudava-o algumas vezes com alimentação em forma de ração, alguns tostões, conselhos e alguns ensinamentos. «Filho, quem não tem pai nem mãe, sempre que estiver na rua, que oiça os conselhos desaproveitados dos pais dos outros. Quando ouvires alguma mãe a repreender um filho, esbracejando, gritando, aproveita e alimenta-te daquelas palavras».

Mal Samanhonga começou a limpar as janelas e toda aquela vidraça, em direcção às quais luziam diamantes cujos brilhos facilmente eram confundidos com aquele olhar estrelado e imaculado, lembrou-se de alguns sonhos que teria ainda que sonhar e de outros tantos que um dia se tornariam tão verdadeiros como os pequenos e poucos relâmpagos de alegria que teve na vida. No dia que se seguiu, tendo adentrado para higienizar outros compartimentos, tomou contacto com outras peças que valiam tanto quanto os diamantes que aí residiam fazia anos. Foi a sua primeira de muitas vezes, nunca tinha visto de tão perto o interior de um museu. Era interessante. Misterioso. Mítico. Tudo! Depois de terminar, correu para contar o que vira aos amigos.

«Eu vi um diamante bem ao centro, limpinho e muito, muito, muito brilhante! Grande! Olhei para a máscara mwana pwó, não sei se não foi ela que olhava para mim, sentia isto. Vi as flechas, as armas, os minerais, vi casas antigas».

E nisto, uma voz resignada ecoou entre os amigos, que mais não eram senão parceiros de vida cuja orfandade lhes batera a porta de casa, coincidentemente. «Mas o que é que isto nos interessa?».

«Vamos comer! Isso vai mudar a nossa vida?». Sentenciou outra voz tremida de fome.

Os sonhos eram – para alguns – as únicas janelas a partir das quais podiam espreitar um futuro brilhante, talvez tão brilhante como os diamantes no Museu Nacional do Dundo. Ainda que o brilho fosse falseado, ainda que o diamante fosse como pedaços de vidro ornamentado na cabeça dos colegas, ainda que essa janela, para muitos, fosse miragem, os sonhos eram de favor. Para sonhar, bastava estar acordado.

Todos dispersaram-se, menos o pensamento de Samanhonga.

Se lhe faltassem cadernos, lápis ou outro material, trabalhava a dobrar para os conseguir. Se não os tivesse, havia professores que o expulsavam como a qualquer outro aluno com algum material em falta. Alguns dos professores da escola pública eram protagonistas, no lugar dos alunos. Tão protagonistas como alguns bancários cujos carros eram lavados aí na rua de trás. Tão protagonistas como a filha do director da justiça ou como o filho do secretário do gabinete do governador. Nem sempre mwata Katyavala o podia ajudar. Mas o mwana nunca faltava à escola. Sempre fora um aluno esforçado. Sabia que não era inteligente, que não era nem de perto um aluno dotado e com privilégios, sabia que não se sentava na fila da frente por temer que lhe reparassem os cações rasgados ou o uniforme cansado e encardido, então compensava com dedicação e disciplina. Era só isso que podia ser. Isso dependia dele.

Enquanto engraxava os sapatos, reservava as tarefas da escola, mas voltava a elas tão logo tivesse uma folga. Esta dupla jornada impedia-o de ser bom, só lhe restava ser disciplinado.

Às vezes, aparecia alguém de boa aparência e muito feliz, por qualquer razão, e, dando-lhe uma nota grande, não exigia o troco.

«Deixa estar, fica para ti, bebe um sumo e compra o que puderes». Ouvia o rapaz, agradecido. Corria e comprava o lápis, o compasso ou o caderno que lhe faltava.

À noite, ao relento, sobre papelão, pneus e jornais, deitava-se, encobria-se com uma manta curta. Ora encobria os pés e ao relento ficava a cabeça. Ora ao relento estavam os pés, quando se distraía ao encobrir a cabeça para proteger aqueles sonhos só seus. Esta matemática da vida ensinara a Samanhonga a razão de não se poder ter tudo, porque até os ponteiros do relógio corriam sempre cada um à velocidade própria. Para que coubesse todo na manta, encobrindo ambos os extremos, outra matemática, encolhia-se como se estivesse dividido em dois. Ali sonhava, ali sorria, sonhava e pensava no que queria ser. Queria ser tudo, tudo, os sonhos não se compravam, mas a vida apresentava-se-lhe como manta curta. Foi assim que aprendera a fazer concessões. O mwana notara que encolher os sonhos era o caminho para que as realizações encobrissem bem os pés ou a cabeça, os dois, agora, não. Talvez um dia pudesse encobrir os dois lados do corpo.  

«Um dia também terei uma família bwé fixe como esta, uma casa modesta, ajudar os meus amigos, viajar, um salário, trabalho, comida e um dia vou trabalhar naquele Museu Nacional. Ficarei a olhar para aquele diamante, aquela camanga, descobrir se é o brilho da lâmpada ou do diamante que atravessa o corredor da direita».

Sonhava todos os dias, ora com uma casa de quatro cómodos, ora com outra de seis, ora com quatro filhos, ora com três, ora com uma maravilhosa mulher, ora com uma mulher maravilhosa. Por mais que as dificuldades da vida, a fome, a falta dos pais e a falta de incentivo o obrigassem a desistir, nunca o fazia. Alguns professores perdoavam-no, por ir com os calções rotos ou muito mal apresentado. Foi reprovado algumas vezes, mas nem isto o fazia ceder.

O tempo é veloz, o tempo tem três ponteiros a três velocidades, os três passavam como o amarelar das folhas das mangueiras da cidade pela vida do mwana.

Mwana Samanhonga, agora já adolescente, cansado, farto de sofrer e, por esta razão, imbuído de uma rotina agora suicidária, desesperançava enquanto deprimia. Cedeu.

«Chega, não aguento mais, porquê?»

Nesse dia, quando até o sol, seu fiel companheiro, para si, não mais se predispunha em nascer cedo – e quando nascia, não brilhava – e as noites perdiam as estrelas, quando o céu nublava em cinza carregado sobre o armazém abandonado onde vivera por muitos anos, quando ia desistir de verdade, porque estava muito cansado, viu o seu nome numa lista entre três seleccionados para uma bolsa de estudo fora do país. Entre os seleccionados estava Bula Matadi, seu amigo e colega.

Afinal, o destino do mwana não corria como o ponteiro dos segundos e tampouco como o dos minutos como muitas vezes desejara. O ponteiro das horas é o mais lento, mas a sua grandeza é tamanha que cabem dentro de si os outros dois.

Era o mesmo ponteiro das horas que registava este início de um novo tempo.

Seguiram viagem, dias depois.

(Caberá a si, caro leitor, escolher o país para o qual gostaria que ele fosse)

Lá, naquele país, tornara-se excelente. Agora, sim! Estudava muito, porque pensava no passado, de onde tinha saído, nos papelões, nos jornais e pneus. Pensava nas noites frias atravessadas na companhia da manta curta. Encolhia-se para cobrir parte dos seus sonhos, esse «encobrir» era uma dedicação absurda.

Durante uma aula sobre o significado dos nomes, questionaram-no sobre o seu.

«My name is Samanhonga, it means a thinker, someone who thinks».

E a sala, repleta de russos, brasileiros, americanos, italianos, portugueses e chineses, deslumbra-se porque cada um aprendera sobre o outro. Gostavam dele por ser diferente, por ter a pele preta e brilhante. Mas, cá entre nós, caros leitores, talvez gostassem muito dele porque, primeiro, nunca precisou de permissão para gostar de si mesmo.

Quando regressou à sua terra, tempos depois, já não era um mwana. Agora, Samanhonga era mwata, senhor formado em duas escolas. A da vida, que encobria os pés, e a dos homens, que encobria a cabeça.

Tornara-se professor e empresário. Não chegou a trabalhar no Museu Nacional do Dundo, como sempre imaginara, mas teve muito mais que aquilo com que um dia sonhara naquela cama da adolescência, almofadada por de papelão, jornal e pneu.

Criou um grande museu no bairro Camatundo, onde crescera. Muitas empresas e pessoas ofereceram-se para expandir as dimensões e decorar o novo museu com peças e outras preciosidades de toda Angola. Ajudou a alguns amigos que se perderam noutros caminhos, disse-lhes que nunca era tarde para voltarem a sonhar.

Aquele que um dia dormira pensando em trabalhar no Museu do Dundo, hoje, tinha um belíssimo museu, apenas dois filhos, uma maravilhosa mulher e uma mulher maravilhosa, uma casa com sete compartimentos e experimentava uma alegria diferente daquela testemunhada por noites frias e ao relento. Mwata Katyavala, este já mais velho, ainda ajudou aquele seu mwana de quem recebeu muitos agradecimentos.

Numa segunda-feira, à tarde, depois de visitar o Museu e descobrir que aquele corredor da direita, que acabara de conhecer, era iluminado pelo maior diamante da sala, que resplandecia através do reflexo da lâmpada, e que a máscara mwana pwó tinha os segredos que só os conhecia quem chegasse muito perto, enquanto se dirigia para o carro, encontrou um mwana de mais ou menos dez anos a limpar-lhe o carro todo.

Nem foi preciso que o mwana pedisse o dinheiro pelo serviço cujo contrato era silencioso e regido pela fé inabalável de quem crê que vá receber por algo sem ter sido solicitado. Era esta a linguagem de sonhadores sem pais, de órfãos de família, de felicidade. Para quem não soubesse escrever cláusulas contratuais, restava confiar na boa-fé dos beneficiários, que, muitas vezes, não a tinham.

Porém, não sendo assim este novo beneficiário e havendo, no bolso, apenas notas de grande valor para as quais o mwana não teria troco, mwata Samanhonga retirou a mais alta que tinha e doou-a àquele de calções rasgados e cheio de sonhos, notava-se. E, quando este, admirado, por não ter onde proceder à tal troca, se justificava, lamentando, Samanhonga, tendo já adentrado no carro, finalizou:

«Deixa estar, fica para ti, bebe um sumo e compra o que puderes». Ouviu o rapaz, agradecido. Correu para comprar sabe-se lá o quê...

 

Hilton Fortuna Daniel, 2018, Luanda. http://O Figurante e o Protagonista Hilton Fortuna Daniel contos de Angola