O encontro

Três coisas não me saem da mente, a primeira tem a ver com a filosofia de

Sócrates, que dizia dele mesmo, “só sei que nada sei”, deixando claro que não precisamos

pregar verdades. A segunda está relacionada à polifonia, na qual é forjado o nosso eu. A

terceira está ligada ao pensar freudiano, vinculada ao saber ouvir e observar, onde, Freud,

apud Dra. Waleska Fochesatto diz: “... Quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir fica

convencido de que os mortais não conseguem guardar nenhum segredo (IBIDEM, 78 Caso

Dora)”.

Precisamos sair da ditadura citada na música de Chico Buarque e Gilberto Gil, cálice

(cale-se). Ouvir e, a partir dessa ação, encontrar a forma adequada para a transmissão de

conteúdo e a viabilização da educação, mas também, sair da pretensão de que libertamos,

de que ensinamos.

Ninguém precisa de que digam o que fazer, precisamos de educadores que ajudem

na leitura das realidades e, depois disso, então, o educando estará apto a intervir ou não na

situação que por ele foi analisada. Chega de estupros filosóficos, escravização em nome da

liberdade.

As discussões estão sempre voltadas ao nosso próprio umbigo. Quando as ideias

não fazem parte do rol daquelas ideologicamente nossas, elas são alienantes, quando ao

contrário, são libertadoras, inteligentes, visionárias. E assim, discutimos questões

relevantes e intrinsecamente humanas, porém, prevalecerão os nossos próprios

parâmetros. O debate só é bom se favorecer o ego de cada um. Falamos de ética e moral,

mas sempre a alheia, porque a individual é sempre inquestionável.

As discussões são empreendidas de forma superficial e tendenciosa, promovendo o

aumento de uma massa de reclamões, egoístas e acima de tudo, sedentos de poder, fatos

constatados até nos menores grupos. Vemos questões imbricadas, sendo discutidas de

forma fragmentada.

Enquanto não tomarmos consciência da responsabilidade de cada um sobre os

males que afetam a humanidade, ficaremos como cão, correndo atrás do próprio rabo.

A história é sempre a mesma, o que há são releituras. Sempre houve eloquentes

usurpadores, inimigos salvadores da pátria, além de uma massa vendida e acadêmicos a

serviço do poder. Todos querendo discutir o outro, nunca a si mesmo!

Para um pensante, toda questão que envolve o ser, deveria ser bem vinda, pois não

há enunciado que parta do além, sempre somos nós, os humanos, os protagonistas ou

antagonistas da situação, quando não, somos porta vozes.

Então, vamos sair da mesmice e de nossas cavernas sugeridas por Platão para

ouvirmos e vermos a proposta trazida pela vivência carente ou abastada dos pares?

“Esqueçamo-nos do nosso umbigo, ele só é algo em comunidade. O pensar é

sempre um desafio e o homem, um ser social!” Jailton Silva.

“Onde está seu irmão?” – Essa pergunta foi feita pela primeira vez por Deus,

segundo a bíblia, a Caim, filho de Adão e Eva, sobre seu irmão Abel, o qual havia sido

morto pelo próprio Caim. Gênesis 4:9. Criou-se um “eco”, o qual poucos ouvem, menos

ainda escutam, mas seu som é eternizado, pois as circunstâncias que o provocaram são

também proporcionalmente reproduzidas, hora após hora, sincronicamente por toda a Terra.

Essa voz, ou chamado, evolui e propõe novas leituras da frase original, mas o

hominídeo continua sem entender que tudo que ele faz, o faz para o outro e pelo outro. Até

mesmo a dita liberdade só se realiza na presença de outrem, pois, a condição sociável o

torna incapaz de viver isoladamente.

Sua dependência começa a ser notada, pelo fato de, embora com características

físicas da raça humana, só o convívio com os seus iguais, o desenvolve ou faz brotar o que

chamamos de humanidade.

Temos histórias de humanos criados por lobos que se comportavam como seus

criadores. Como é o caso veiculado pela mídia sobre Amala e Kamala, irmãs que

conviveram com lobos por muito tempo, podendo dizer que foram criadas por eles,

encontradas em 1920 e que não se adaptaram ao convívio humano.

A história das duas jovens é contestada e há quem diga que é uma farsa, mas há

outra que fala de um menino de aproximadamente seis anos, que andava de quatro e fora

criado até aquela idade pelos lobos. Deram-lhe o nome de Sanichar, o qual teve muitas

dificuldades de adaptação.

“O menino foi encaminhado a um abrigo para menores, onde recebeu o nome "Sanichar", que

significa "sábado" em urdu (já que esse foi o suposto dia em que seu resgate aconteceu). No

entanto, “domesticá-lo” não foi uma tarefa muito fácil. Sanichar não se comportava muito bem com a

nova condição de vida e lutava muito. [...] Mesmo depois de 10 longos anos vivendo na companhia

de outros humanos, Dina Sanichar continuava lutando contra as imposições que o abrigo lhe trazia.

Seu desenvolvimento foi bastante anormal, [...] Conheça a história real do menino que viveu com

lobos - meionorte.com acesso 10/11/2021

Sanichar, viveu até os 29 anos, na Índia, e morreu com tuberculose, sem se ajustar

completamente com os de sua espécie.

O primata dito humano, nascido, evoluído ou criado, é dotado do que chamamos de

inteligência, o que o difere dos demais animais, porém, o que seria dele com seu intelecto,

sem as oportunidades proporcionadas pela interação com outros de sua raça.

O isolamento parece não ser algo que combina com as características humanas,

mas isso não o faz amar outro humano, mesmo não sendo criado por lobos. Daí toda a

história e mitos que buscam chamar atenção dessa criatura para o bom convívio com tudo e

todos ao seu redor.

Aos crentes em DEUS, que criou todas as coisas e as entregou ao homem e a

mulher, foram dados mandamentos e situações que buscam despertar esses seres para o

entendimento com seus iguais, como é a questão dos dez mandamentos, além da pergunta

feita a Caim, personagem bíblico já citado anteriormente neste texto.

Os mandamentos do povo Hebreu, recebido pelo profeta Moisés, enquanto

perambulava pelo deserto, eram dez, e já em seus 1º e 2º itens determina o seguinte,

conforme citado por Jesus Cristo no próprio livro: Amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo

como a ti mesmo (Mt 22,34-40) Amarás o Senhor teu Deus. de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo

o teu entendimento!’. Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: `Amarás ao teu

próximo como a ti mesmo’. Mateus 22:34-40 - ACF - Almeida Corrigida Fiel - Bíblia Online (bibliaonline.com.br)

A grande maioria dos humanos, aceita haver sido criado por DEUS e ainda

proclamam que ele, “Deus”, cuida deles, todavia, as palavras ditas pelo apresentado como

filho de Deus, Jesus Cristo, aparentemente, não faz efeito em suas vidas.

O próprio Jesus Cristo criou parábolas para contar e sensibilizar o povo daquela

época, uma delas a do bom samaritano. Pelo relato do discípulo Lucas, 10: 25-37, no Novo

Testamento, pode-se resumir como um chamado para a atenção ao outro,

independentemente da cor, raça ou origem, todavia, o ponto alto da história, está no fato de

um homem com origem fora daquelas ditas próximas de Deus, haver encontrado uma

pessoa caída e machucada, após ter sofrido um assalto e, mesmo não sendo eles,

correligionários, aquele moço, chamado no conto de samaritano, cuidou da vítima, a levou

ao médico e deixou tudo pago e simplesmente desapareceu.

Não entraremos aqui na questão ética, coisa que faltou aos outros que já haviam

passado por lá e apertaram os passos, conforme a escritura, mesmo sendo eles filhos do

povo escolhido de Deus e correligionários do vitimado.

Jesus, dito filho de Deus, o qual os estudiosos já esperavam naqueles tempos, não

veio como Deus, veio como homem e pregou para que o homem cuidasse do homem, e,

diga-se de passagem, era bem incisivo nesta questão, a ponto de vincular o entendimento

entre os crentes e a conquista da salvação, como relata o discípulo chamado Matheus em

um episódio denominado como “Sermão da montanha”:

“Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou

estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos?

Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando deixaste de fazer a um destes

pequeninos, foi a mim que não o fizeste”. Mateus 25:44,45

Na vida o humano sofre para apresentar-se melhor ao outro, ele estuda para dar

aula, ele estuda para melhor colocar-se em um grupo, ele veste-se para ser elogiado, e ele

não fala só porque sabe falar, usa também sua fala para se impor, para dominar. Se em um

grupo ele amargar o esquecimento, para que outrem se destaque, certamente haverá sua

participação em outro lugar e ele exercerá sua superioridade.

Ao autor Thomas Hobbes, é atribuída a frase, “O homem é lobo do homem”, frase

que quer indicar como o homem depende de leis para não se digladiar, e isso, pode vir a

dar sentido ao que no início do texto chamamos de “eco”, nada a ver com ecologia, mas de

ressonância, de voz. Uma voz que pede aos seres humanos que busquem a paz entre sua

própria espécie, que reconheça no outro a semelhança e interdependência que permeia sua

raça.

No novo testamento, no livro de Atos dos Apóstolos, o apostolo Pedro em um

lampejo, vislumbra um grande lençol, o qual trazia toda espécie de animais e ele, naquele

momento sentia fome, então, uma voz o autorizava a matar e comer, sua resposta foi que

nunca havia comido nada de impuro, recebeu como replica o seguinte: não chame de

impuro aquilo que Deus santificou, logo em seguida, tudo desapareceu e alguém o chama

para ir orar por uma família que não era judia.

Naquela época chamavam de gentios todos os povos fora da nação judia, e o

apostolo, ao chegar a casa desses, para sua surpresa, enquanto orava por eles, caíram

sobre eles, diz a obra, como que línguas de fogo e o apostolo entendeu naquele instante

que aquelas pessoas estavam sendo batizadas pelo espírito santo, mas isso fugia às

regras, visto que, esse tipo de batismo só iria acontecer após o batismo nas águas. Atos 10:

12-15

Essa, não é mais uma passagem onde Deus coloca os homens em pé de

igualdade?

O que me faz diferente de outra pessoa pode ser a minha fisiologia, a qual pode ser

influenciada pela geografia do local onde nasci ou vivo por muito tempo, ou parecermos

diferentes por que somos de nações diversas, ter ou não frequentado à escola (esse último

item já pode ser inserido no rol das desigualdades). A cultura, a profissão, o credo, a época

que nascemos também influencia em nossas diferenças. Até então estamos longe de

falarmos em desigualdades, pois, essa categoria traz em seu interior elementos

segregadores não naturais, mas fabricados.

Podemos dizer que nossas tendências sexuais, a nossa cor de pele, a estatura, a

condição socioeconômica e a forma de falar, podem também caracterizar diferenças.

Dessemelhanças proporcionais ao sofrimento, às oportunidades alcançadas na vida que

nos prendem seja à pobreza, ou a riqueza e, até nossas vontades.

Essas distinções, não capacita a nenhum humano à categoria de super-homem ou

supermulher, quando isso apenas indica sua história, sua origem, sua trajetória na vida.

Para sabermos como não há um melhor que outro, pensemos como fica um homem

rico que perdeu sua fortuna, um negro que seja forçado a viver em local de pouco sol, ou

pessoa de pele clara em local de sol escaldante.

Qual a diferença entre duas crianças, uma negra e a outra branca, que sejam

criadas juntas, comendo as mesmas coisas e com tratamento igualitário? Será que alguma

delas se transformará em um jumento, enquanto a outra será um deus?

Como podemos explicar o fato de duas pessoas da mesma cor estarem em

situações opostas como rico e pobre. Ex: Meu vizinho é pobre e negro, Pelé é negro e rico,

o que há de diferente, senão o quesito oportunidade? Não sendo isso o que justificaria duas

pessoas com a mesma cor estarem em status opostos?

Somos diferentes, mas as desigualdades são fabricadas. Dizem que todos podem o

que quiserem, entretanto, selecionam quem pode chegar, enganando-se e enganando a

todos com a pseudo ideia de superioridade. Isso também é bíblico.

No livro de Mateus, há um relato de confronto de Jesus Cristo com os doutores da

época, os quais alimentavam desigualdades, criando obrigações às quais eles próprios não

queriam cumprir. Fato que ainda nos dias de hoje, se repetem com mais força e provocam

marcas que se refletem em muitas gerações.

“Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com seu

dedo querem movê-los; Mateus 23:4

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais

importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas.” Mateus

23:23

Somos essencialmente, potencialmente e espiritualmente iguais, o além disso, são

resultados de ideologias e o aguçamento do ego humano, exaltados pela falta de controle

da essência divina que caracteriza cada um em sua individualidade.

É nosso o dever de cuidar uns dos outros, entendendo que quando cuidamos

daqueles, também é por interesse próprio, pois, o que somos sem nossos pares? Como

seria do mundo se todos alimentassem a ideia de que o que há na Terra é suficiente para

todos e ninguém é dono de nada, mas, administradores?

Por que falarmos de igualdades e oportunidades para todos, enquanto criamos

escadas em locais onde deficientes devem transitar? Por que o investimento no ensino

superior, se o ensino obrigatório é o básico? Por que apresentar aos jovens infinidades de

direitos e não proporcionar situações favoráveis para seus cuidadores como casa própria,

remuneração e carga horária condizente com suas responsabilidades?

O que estamos fazendo com o outro e quem é o outro? Onde está o seu irmão?