* Artigo escrito e publicado em 2018.

Líderes religiosos são pessoas que fazem a diferença. Homens como Cristo e Maomé, por exemplo, foram responsáveis por alterar radicalmente o curso da História, com a conversão de milhões de pessoas às suas fés e a formação de dezenas de nações que, se hoje possuem governos que se dizem laicos, um dia os tiveram como forjadores de suas identidades nacionais. E o mesmo se pode dizer de Siddartha Gautama. Nascido um Lumbini (hoje parte do território nepalês) por volta de 563 a.C., filho do rei Suddodhana e da rainha Maya, o príncipe Siddartha sempre viveu, no interior do palácio monárquico de seus genitores, com o mais esplendoroso luxo e segurança. Tinha tudo, com todos os prazeres mundanos ao seu alcance, e Suddodhana sonhava que um dia ele viesse a ser um grande rei. Aos 16 anos se casou com a princesa Yashodhara, sua prima, e juntos tiveram um filho, a quem chamaram Rahula. Um dia, Siddharta resolveu transpassar os limites do palácio. Ele, que nunca havia tido a noção dos percalços que constituíam a condição humana, de repente teve as Quatro Visões que mudariam o rumo de sua vida para sempre: avistou um homem doente, um idoso, um falecido e um asceta. Retornando ao lar, estava visivelmente inquieto, se perguntando como poderiam existir doença, velhice, morte e fome, situações pelas quais ele jamais havia passado, mas que, obviamente, também poderiam vitimá-lo no futuro. Então, percebendo que as condições materiais e familiares nas quais se encontrava constituíam um obstáculo em sua busca pela Verdade Suprema, deixou a família no palácio e foi viver como asceta, somente com farrapos cobrindo o próprio corpo. Tinha, então, 29 anos ao tomar tal e abrupta decisão. Perambulando pelo norte da Índia, Siddharta praticava meditação combinada com automortificação, comendo e bebendo somente o suficiente para mantê-lo precariamente vivo. Acreditava, realmente, que a mais rígida forma de asceticismo, aliada à meditação, iria conduzi-lo à libertação. E tinha discípulos que o seguiam. Um dia, vendo-o quase morrer de tanta mutilação a si próprio infligida, uma moça ofereceu-lhe o único prato de comida que tinha, e ele aceitou. Resolveu dar parte do alimento aos seus companheiros de asceticismo, que recusaram e o condenaram, abandonando-o. Siddharta perdeu seus discípulos, mas finalmente compreendeu que a meditação de nada adiantaria se seu corpo estivesse fraco e debilitado. Ele finalmente entendeu que a atitude ideal a qualquer filosofia de vida não são os extremos, mas o “caminho do meio”. Voltou a se alimentar normalmente, e a persistir na prática da meditação por anos. Um dia, aos 35 anos e sentado em meditação sob uma árvore, ele alcançou a Iluminação (ou o "Nirvana"). Tornou-se, então, um Buda (que significa “O Desperto” ou “O Iluminado”) - não foi o primeiro Buda da História, pois as Sutras dão conta de que, antes dele, ao menos outros 24 Budas existiram, cujos demais registros se perderam ao longo do tempo - mas foi o real fundador do Budismo, sendo chamado também de “Buda Shakyamuni” (da etnia Shakya) e “Buda Histórico”. Buda Shakyamuni passou os 45 anos seguintes vagando pela Índia e pregando sua filosofia àqueles que estivessem dispostos a ouvi-lo. Dita prática, compartilhada oral e inicialmente por ele – e, depois de centenas de anos, ensinadas também de forma escrita - consistia na consciência de que existem as Quatro Nobres Verdades, que são: (a) a Nobre Verdade de que a existência humana é pautada pela dor; (b) a Nobre Verdade da causa da dor, que é o apego a tudo que no universo é perecível, efêmero e impermanente; (c) a Nobre Verdade de que a cessação da dor deve seguir o disposto na Quarta Nobre Verdade, que é o Nobre Caminho Óctuplo, realizado por meio de pensamento, discurso, consciência, visão, esforço, modo de vida, ação e meditação corretos (obviamente, para a concretização do Nobre Caminho Óctuplo deve-se seguir os Cinco Preceitos Budistas, que são a proibição de fazer mal a qualquer ser vivo, de roubar, de mentir, de ter conduta sexual inadequada e de se intoxicar). Assim, qualquer ser-humano pode alcançar a Iluminação, que resulta no desapego a tudo o que é impermanente, e, em conseqüência, na eliminação da dor e na libertação do Samsara (a contínua roda de reencarnações no nosso mundo de sofrimento). Com referida filosofia, Buda ajudou milhares de pessoas, converteu muitas outras, fundou uma ordem monástica, desafiou o sistema de castas, popularizou a religião (até então sob o domínio dos brâmanes) e regenerou alguns dos mais perigosos criminosos da época. A meditação, as Quatro Nobres Verdades e os Cinco Preceitos Budistas, partes essenciais do seu cotidiano quando da Iluminação, passaram a fazer parte da vida daqueles seres. Se alguns não conseguiram alcançar o Nirvana, viveram muito mais felizes para o resto de suas vidas. Um dia, Buda retornou ao palácio e reencontrou seu filho Rahula e sua esposa Yashodhara. O filho se converteu e foi ordenado monge a pedido do pai, pedido feito ao seu grande discípulo Shariputra (também não custa lembrar que Rahula, de acordo com a tradição budista, teria morrido antes do pai, que nunca se declarou um santo ou um messias – pois o Budismo, ao contrário das religiões ocidentais, é uma filosofia não teísta - porém reconhecia sua própria natureza transcendental, como expresso em algumas Sutras). Aos 80 anos de idade, em torno de 483 a.C., Buda faleceu em Kushinagar, na Índia. Seus ensinamentos permanecem intocados até hoje e, nos tempos atuais, a respectiva filosofia ainda é a religião principal de vários países do Extremo Oriente, como Myanmar, Tailândia, Nepal, Butão e outros. Seus conhecimentos eram tão científicos – especialmente os que se referiam à impermanência - que foram ratificados pelo químico francês Antoine Lavoisier, mais de 2.200 anos depois e segundo o qual “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Como Sócrates, Buda não escrevia suas idéias, apenas as repassava oralmente, mas teve a sorte de ter possuído seguidores que, centenas de anos após sua morte, as positivaram. E, graças aos mesmos – e, logicamente, ao próprio Buda - temos a sorte de contar com o Budismo, uma das mais fascinantes doutrinas já formuladas por um homem.