* Artigo escrito e publicado em 2015.

A História que conhecemos nos foi contada por livros e professores. Tudo o que nos foi passado aconteceu, mas nem tudo o que aconteceu nos contaram. O fato de algo não ter nos sido transmitido não quer dizer que não tenha ocorrido. E uma de mencionadas passagens é, certamente, a participação do Brasil na Primeira Guerra Mundial. País inicialmente neutro e exportador de matérias-primas, o Brasil via de longe o desenrolar de um conflito que parecia eminentemente europeu. Com muitos investimentos dos inimigos do Império alemão em seu território, os brasileiros faziam negócios principalmente com franceses e britânicos, vendendo às suas nações a maior parte do café e grãos que saíam de nosso território. Foi assim durante a maior parte da guerra e até 1917, quando fomos surpreendidos pelo bloqueio que a Alemanha declarou unilateralmente àqueles países, no intuito de sufocá-los (a exemplo do Bloqueio Continental que, mais de 100 anos antes, Napoleão Bonaparte havia decretado contra os britânicos e que fora desrespeitado por Portugal, provocando a invasão francesa e a conseqüente fuga da corte real para o Brasil). O Brasil, a princípio, protestou junto ao governo alemão, mas de nada adiantou. Mesmo assim, continuamos a exportar para aqueles dois países, ignorando a ameaça alemã. Semanas depois de declarado o bloqueio, um navio brasileiro carregado de café e grãos – o “Paraná” – foi torpedeado e afundado pelos alemães na costa européia. O Brasil, em resposta, cortou relações diplomáticas com a Alemanha, mas não renunciou às exportações: navios brasileiros continuaram a ser enviados para abastecer franceses e britânicos. Quando parecia que a situação tinha se acalmado, o “Tijuca” e o “Lapa”, em mais uma onda de ataques, são destruídos pela Alemanha. O Brasil, retaliando, confisca cerca de 45 navios alemães estacionados em sua costa. Não obstante, a embarcação “Macau”, também utilizada por brasileiros, é posteriormente afundada pelo Império alemão. Foi a gota d’água que faltava para ser decretado o estado de beligerância entre os dois países. Alemães e seus descendentes passaram a ser hostilizados em território brasileiro. Seus negócios eram invadidos e destruídos. Suas famílias foram ameaçadas. Atendendo ao clamor popular, no final de outubro de 1917 o presidente Wenceslau Braz, com o apoio do Congresso, declara guerra à Alemanha. Uma esquadra, embora tecnologicamente obsoleta, foi enviada para lutar na Europa, tendo sido utilizada, na maior parte do tempo, para patrulhar águas internacionais em favor dos aliados. Alguns aviadores também foram mandados, sendo que suas mais notórias missões consistiam em vigiar, mais detalhadamente, o Mar Mediterrâneo e o Estreito de Gibraltar. Houve luta em algumas batalhas na frente ocidental. E cerca de 100 médicos e enfermeiros chegaram à França a fim de colaborar com o esforço de guerra, para onde também foram transportados produtos agrícolas. Como se pode perceber, a participação do Brasil na Primeira Guerra Mundial foi muito mais tímida do que viria a ser na Segunda Grande Guerra. Mas ela, de fato, aconteceu. Tivemos uma participação, não se pode negar (inclusive, com declaração formal de guerra). Fomos, também, o único país latino-americano a lutar naquele conflito. Tanto que, após seu encerramento, o Brasil passou a ser bem mais respeitado e considerado no jogo econômico, político e diplomático que se seguiria, e que viria a anteceder a Segunda Guerra Mundial.