* Trabalho escrito e publicado em 2020.

RESUMO 

Por meio da apresentação dos regimes de historicidade, o presente trabalho propõe investigar suas respectivas influências na experiência da memória e na concepção do tempo, de acordo com classificação teorizada por François Hartog e demais pensadores, em um estudo cuja época simbólica data do Iluminismo e da Revolução Francesa de 1789, até os dias atuais. PALAVRAS-CHAVE: REGIME; HISTORICIDADE; PASSADISMO; FUTURISMO; PRESENTISMO. 3 

1. INTRODUÇÃO 

A questão proposta é bastante interessante, pois parte da análise dos regimes de historicidade. Assim classificados por François Hartog, tais sistemas são especificidades de experiência temporal, em que, de acordo com as circunstâncias e os momentos então vividos, uma de suas categorias - passado, presente ou futuro - se sobrepõe às demais (ARAUJO & PEREIRA, 2016). Desta forma, num contexto histórico no qual, por exemplo, se possui a categoria de passado como dominante, diz-se que há um regime de historicidade “passadista”, o mesmo se aplicando em relação ao presente (regime de historicidade “presentista”) e ao futuro (regime de historicidade “futurista”). Tendo em vista a visão eurocêntrica do mundo, e de acordo com a análise do próprio de François Hartog, considera-se que aquele continente tenha vivido um regime de historicidade futurista desde o século XVIII, com a ascenção do Iluminismo e da Revolução Francesa de 1789, e que se tenha, em escala mundial, chegado a um sistema presentista em 1989, diante da Queda do Muro de Berlim e dos regimes marxistas europeus orientais (HARTOG, 2013a, p. 178, HARTOG, 2013b, p. 136, e ARAUJO & PEREIRA, 2016, p. 278). O objetivo de teorizar sobre mencionadas especificidades é a sua pretendida harmonização, articulando-as no tempo, e, desta maneira, expor eventuais relações hierárquicas que tenham entre si, fazendo, portanto, com que fiquem evidenciadas determinadas formas de experiência, enquanto outras são reprimidas (HARTOG, 2013b, p. 11-13, e CEZAR, 2014).

2. A ORIGEM E O DESENVOLVIMENTO DOS REGIMES DE HISTORICIDADE 

Entretanto, apesar de considerado “pai” de dita teoria, François Hartog não a construiu sozinho, eis que suas primeiras noções derivam da obra historiográfica do alemão Reinhart Koselleck (HARTOG, 2013a, p. 28). Segundo o próprio François Hartog, tal é um pensamento bastante próximo ao “tipo puro” teorizado pelo sociólogo alemão Max Weber (1864-1920). De acordo com Weber, o “tipo puro” é um recurso de exame sociológico destinado à compreensão da sociedade pelo pretenso analista, por meio da criação de puras tipologias, sempre fundamentadas em conceitos, como as religiões, e, principalmente, os sistemas econômicos. 4 Assim, no contexto desta discussão e como acima referido, os regimes de historicidade se constituem em instrumentos cujas funções são “expor eventuais relações hierárquicas que tenham entre si, fazendo, portanto, com que fiquem evidenciadas determinadas formas de experiência, enquanto outras são reprimidas”. E dito caráter fica ainda mais exposto e evidente nas obras de Reinhart Koselleck, real inspirador da teoria de François Hartog. Para analisar o legado hartogiano, retrocede-se: até o século XVIII, havia a concepção de várias histórias paralelas, que, de acordo com seus contemporâneos, eram ditadas pela vontade divina. Desde então, com o Iluminismo e a Revolução Francesa de 1789, houve um crescente otimismo na ciência como força motriz da humanidade, razão pela qual a referida visão das histórias foi deixada de lado em prol de uma História única, da qual o ser humano é o principal protagonista, embora sujeito aos infortúnios do acaso. Para Reinhart Koselleck , a partir do século XIX a História “se tornou onipotente, justíssima, onisciente, e, finalmente, nos tornamos responsáveis diante dela” (KOSELLECK, 2013, p. 217). Afinal, a mesma, como um conceito surgido no século XVIII, é denominada de “uma última instância”, que “se transforma em agente do destino humano ou do progresso social” (KOSELLECK, 2013, p. 124). Por fim, Reinhart Koselleck afirma que a ação humana se configura como “resultado de um processo de teorização, descrição de uma experiência completa” (KOSELLECK, 2013, p. 135-136), facilitando, assim e destarte, a retilínea noção do tempo e a apreensão dos fatos na memória. Tudo num regime que, segundo François Hartog, e conforme o segundo parágrafo da introdução deste trabalho, se classificava como historiográfico futurista. Isto é, um sistema no qual o esclarecimento do passado cabe ao futuro, não mais sujeito ao passadismo e consequente circularidade, que eram fundamentados em modelos pretéritos que deviam ser seguidos, da História como “Mestra da Vida” (CATROGA, 2006). Naquela linha de pensamento, mesmo que o futuro não repetisse o passado, aquele era, indubitavelmente, um fiel seguidor de suas regras. Com o futurismo de Hartog, o propósito maior da História deixou de ser, puramente, o de sentido cívico-pedagógico, transformando-se em um sistema cada vez mais centrado em modelos de confiáveis previsões. No futurismo hartogiano, o passado se faz obsoleto e ultrapassado, de modo que a percepção do tempo predominante é a de uma eventual sequência, única e infindável, de acontecimentos que, não obstante se firmarem como consequência do passado, não mais o tem como modelo a ser 5 compulsoriamente perseguido. Essa é a ideologia do progresso material, especialmente no mundo capitalista ocidental. Como decorrência, a História - que se diferencia da memória por ser esta o conjunto de lembranças que as pessoas carregam de suas experiências próprias, sem uma análise empírica da respectiva época - como narrativa do passado ora obscurecido, fica ofuscada, vez que, embora outrora houvesse antigos paradigmas que se julgava exemplares e circularizantes, os mesmos já não mais seriam, conforme antes mencionado, “mestres da vida”. Triunfa, pois, a memória sobre a História. Ocorre que, inobstante a proposta dos regimes de historicidade de François Hartog ter ocorrido após 1989, quando, segundo o mesmo, já se teria ingressado no regime presentista, ainda na década de 1960 ocorriam manifestações de relativização do futurismo. Tais exteriorizações sempre haviam sido direcionadas por meio de críticas à forma de utilização da ideologia futurista como principal veiculadora da noção de progresso material. Como escreveu o próprio François Hartog, assim definindo o que seja presentismo: “O presente tornou-se o horizonte. Sem futuro e sem passado, ele produz diariamente o passado e o futuro de que sempre precisa, um dia após o outro, e valoriza o imediato” (HARTOG, 2013, p. 148). No presentismo, o passado e o futuro sempre são “neutralizados”, restringindo-se a real noção de tempo ao presente, embora a memória e a História sempre permaneçam, mesmo que em escala inferior se comparado aos regimes futurista e passadista. No dizer de Reinhart Koselleck, em relação a tal regime historiográfico, o mesmo é definido como “uma lacuna crescente entre o campo de experiência e o horizonte de espera” (entrevista com François Hartog, por Mariza Romero, 2015). Ou seja, o presente é tido como ator principal - e não o futuro, como incorretamente citado em um outro trabalho desta mesma disciplina, razão pela qual este aluno se penitencia. Desta maneira, ratifica-se a teoria de François Hartog, no tocante ao atual momento presentista, o que é corroborado pelas mencionadas manifestações, antes mesmo de 1989, eis que na própria década de 1960 passou a haver uma maior conscientização da necessidade de preservação, cuja prioridade estaria mesmo acima da necessidade do progresso material. E a citada necessidade se estende até as décadas mais recentes, argumento este que é sustentado por fatos incontroversos, como, por exemplo, a museificação de partes 6 do Muro de Berlim, numa típica relação entre patrimônio, História e memória, expondo uma nítida característica do presentismo, embora, nestas atitudes, também houvesse um eventual chamado ao passado. Ou, como expresso por este aluno em outro texto desta mesma disciplina, pelo fato de que o tempo real dos mercados é presentista, e não futurista. 

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Tecidas essas considerações, resta afirmar que, independentemente de qual regime de historicidade se trate, as implicações na memória e no tempo não são as mesmas, ainda que, com relação à História em si, possa resultar em idênticas, ou diferentes, interpretações por parte dos historiadores, dependendo dos locais e dos momentos políticos vividos. E isso vale desde o Iluminismo e da Revolução Francesa de 1789 até os dias de hoje, bem como para as obras aqui discutidas. Com o Iluminismo e citada revolução, bem como consequente passagem ao regime futurista, viu-se o ser humano solitariamente compelido a reescrever sua própria história, por nela vislumbrar um horizonte a ser desbravado, em virtude de sua própria capacidade e força motriz de raciocínio, tão brilhantemente retratados por pensadores como François Hartog, Reinhart Koselleck, Fernando Catroga e outros cujas ideias são centrais, senão essenciais, para a correta compreensão do passado e do futuro, mas, especialmente, do nosso presente, vez que, indubitavelmente, o nosso atual regime de historicidade é presentista.  [...]