* Artigo escrito e publicado em 2010.

Quando viajamos ao exterior (e, o mais interessante, a outros países da própria América Latina), há a verificação de que, não obstante o similar nível de desenvolvimento que muitos de nossos vizinhos mantém em relação a nós, estão eles anos-luz à frente num quesito básico para a resolução de seus dilemas internos: a consciência de unidade nacional, inexistente no Brasil. A consciência de unidade nacional se manifesta quando uma população, diante da ineficiência governamental, busca por si os meios para o exercício de pressão sobre o Estado, que, assim, se vê obrigado a tentar solucionar os problemas. Pode-se questionar os meios pelos quais isso ocorre - na Argentina temos os "panelaços" e a quebradeira de agências bancárias, na Venezuela há acirradas manifestações diuturnas contra e a favor do governo chavista, na Bolívia até os indígenas questionam a política de Evo Morales - mas não podemos negar que, mesmo que por vias errôneas (eis que muitas vezes violentas), tais povos procuram definir seus destinos com as próprias mãos. Nos mencionados países, o orgulho nacional prevalece sobre a inércia, a obediência cega não tem vez e os usupardores da coisa pública, mesmo se não juridicamente punidos, convivem o resto da vida com o mais deprimente desprezo público. A América Espanhola se defende, de um modo ou de outro. No Brasil, nenhuma pressão da população ocorre sobre o Estado, pois a inconsciência coletiva faz de nós não uma nação, mas um imenso território considerado como de ninguém pelos milhões que o habitam, o que resulta numa fragmentação mental que bloqueia a absorção de valores que deveriam ser gerais, especialmente o de enxergar o outro como um concidadão (se se considera o território como de ninguém - e não como de todos - infelizmente não há leis a serem seguidas): não havendo "leis válidas", não compartilhamos dos mesmos valores, e, por conseqüência, não vemos o outro como parte da mesma sociedade, o que descamba na total incapacidade de articulação política em um nível minimamente decente de alcance nacional, de modo que nossas mentes passam a ser dominadas pelo mais abjeto individualismo, indiferenciando-nos em relação aos negócios públicos (afinal, não sendo um grupo unido, não consideramos a mesma bandeira e os mesmos valores, e, portanto, o imediatismo individual passa a imperar, fazendo com que o dinheiro público seja visto como de ninguém, do qual qualquer um pode se apropriar impunemente). Corruptos e corruptores são, em todas as eleições e sem exceção, reeleitos para cargos da mais alta responsabilidade, uma vez que a estupidamente aprovada ação do "rouba mas faz" é vista como sinônimo de uma forçada alternativa de eficiência, e não como o crime que verdadeiramente é (faz sim, mas faz mal-feito e superfaturado, objetivando apenas vantagens pessoais - o que é a mesma coisa que um imenso prejuízo). Quase ninguém sabe os direitos que a Constituição a República lhes confere e nem o modo de defendêlos, eis que aqui não há a cultura da defesa coletiva e da intelectualidade, e se dá mais valor às habilidades dos pés que às da cabeça. Aliás, como não somos uma nação, mas apenas um país, podemos considerar, de maneira muito infeliz, que nossa sagrada bandeira é somente esportiva, já que empunhada apenas a cada quatro anos em virtude de um evento organizado por uma entidade supranacional, e não por iniciativa dos próprios brasileiros para a defesa dos interesses que deveriam ser comuns a todos. Os nossos vizinhos têm os mesmos problemas que nós, mas lutam unidos para resolvêlos, enfrentando, inclusive, Estados de tendências totalitárias. Não estão mortos. Aqui não há ameaça manifesta à democracia e não usamos isso em nosso favor, o que demonstra, como cantava o gênio Renato Russo, que no Brasil “está tudo morto e enterrado agora”.