O título do presente artigo é, sem dúvida, a melhor definição extra-oficial para a série clássica de “Jornada nas Estrelas”, pois seu conteúdo é multifacetário e cativante, a começar pelo primeiro episódio, “Onde Nenhum Homem Jamais Esteve”, que abre a seqüência de viagens da Enterprise com uma analogia ao absolutismo e às suas nefastas conseqüências. Em tal capítulo, ao objetivar a saída de nossa galáxia, a tripulação da Enterprise sofre inesperada descarga energética que resulta na obtenção, pelo tenente Gary Mitchell, de poderes telecinéticos (que consistem na capacidade de realizar movimentações, explosões e outras capacidades somente com a força mental). Percebendo o perigo que Mitchell passa a representar, especialmente quando manipula o restante da tripulação a seu bel-prazer, Spock propõe que o capitão James T. Kirk o mate antes que provoque mais danos. Spock é um vulcano que, como grande parte de seu povo, segue a filosofia “Kholinar”, de remoção emocional. Conseqüentemente, é regido apenas pela lógica voltada ao bem comum. Afinal, como demonstrado em episódios posteriores e nos filmes para o cinema, para ele “as necessidades de muitos se sobrepõem às de poucos, ou às de um só” (e aplica dito padrão a si próprio, sacrificando-se para salvar a tripulação ao final de “Jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan”). Assim, ele e Kirk – que não esconde seu repúdio à possibilidade de eliminar o velho amigo Mitchell – entram em um marcante conflito de intenções, que, ao fim, é vencido por Spock, já que Kirk se vê obrigado a erradicar aquele novo e virtual semideus após sofrer bárbaras torturas e ele (Kirk) realizar profundos questionamentos à mais ferrenha defensora de Mitchell, como “o que ele fará com o poder? Ele alcançará a sabedoria?” e “gosta do que vê? Poder absoluto, corrupção absoluta”. E mencionado dilema é a grande característica de “Jornada” (tanto na série clássica quanto no cinema): a permanente busca pelo ideal da justiça tomando por base a permanente ambivalência entre lógica e emoção, frieza e humanidade, meios e fins, além do óbvio questionamento de valores (ou antivalores?), deixando, ao final de cada aventura, que o espectador faça o seu próprio julgamento. Tanto nas discussões entre Kirk e Spock, quanto naquelas que envolvem Spock e o emotivo cirurgião da Enterprise, Dr. Leonard McCoy. Tanto no descrito episódio inicial quanto em dezenas de outros, como “Um Gosto de Armagedom” (em que se questiona a hipocrisia de uma “limpa” guerra interplanetária travada por computadores, na qual há a subtração de seus aspectos mais horrendos, como corpos mutilados e cidades destruídas, mas, ainda assim, milhões de mortos), “Operação: Aniquilar” (que, mostrando uma colônia da federação infestada de organismos venenosos de médio porte que podem se espalhar para outros planetas, expõe, principalmente num diálogo entre Spock e McCoy – o último perguntando se a lógica do vulcano consiste em matar um menor número de pessoas a fim de salvar um grupo maior - o dilema de haver ou não a necessidade de destruir o planeta, o que, no fim, não se faz necessário pela erradicação da ameaça com a utilização de satélites realizadores de uma convergência letal de luz estelar) e “Tempo de Nudez” (no qual um vírus adquirido pela equipe de solo em um planeta gélido contamina seus membros e o restante da tripulação, que fica em estado de embriaguez extrema, e, pelo mencionado motivo, externa os mais profundos desejos contidos no subconsciente, havendo, inclusive, o primeiro beijo inter-racial da televisão americana, entre Kirk e Nyota Uhura). Muitos dos demais episódios transmitem mensagens semelhantes, com o idêntico triunfo do “nós” sobre o “eu”, da inteligência sobre a mediocridade, do profundo sobre o superficial, da humanidade sobre a indiferença. Enfim, “Jornada” é muito mais que uma ficção-científica. É uma verdadeira epopéia intelectual, filosófica e humanística.