Marques. José Luiz

 Introdução 

       Nos últimos cinco anos (2008-2013), atuando como professor de Comunicação e Expressão em Língua Portuguesa em contextos de ensino e educação tecnológica, tenho-me deparado com artigos de opinião e artigos científicos de revistas da área de Administração de Empresas que tratam mais diretamente sobre a temática dos diferentes perfis atuais do empreendedor brasileiro de micro e pequenas empresas no mercado.

          Nesses artigos, o que me chama também a atenção é a forma com que os autores dessa área vêm significando a expressão jeitinho, quando os objetivos são os de especificar as características do empreendedor na atualidade e os de criar interfaces de sentidos entre os significados da expressão jeitinho brasileiro ( FERREIRA,2003) e os significados que definem os perfis do empreendedor (KASSAI, 2009), sobretudo os de pequenas e médias empresas.

           Assim, neste trabalho, organizo uma discussão sobre como a expressão jeitinho é apresentada em um artigo da área da Administração de Empresas. Por meio de um recorte (GUIMARÃES, 2011), específico deste artigo, apresento uma análise do agenciamento enunciativo que este recorte produz no acontecimento da enunciação e a designação da palavra jeitinho, tal como ela se apresenta no recorte do texto, pelo procedimento de análise da reescritura. 

             Esta análise se pauta nas teorias que discutem o português a partir da linguagem do mercado (ZOPPI -FONTANA,2009; DINIZ;2010), da expressão jeitinho, tal como se apresenta no acontecimento da linguagem  (GUIMARÃES,2005), específico em um texto da área de Administração de Empresas,  e também nos estudos sobre língua política (ZANCARINI, FOURNIEL, DESCENDRE, 2008). 

A análise: 

            O objeto de análise deste trabalho é o texto:  A relação entre o jeitinho brasileiro e o perfil do empreendedor: possíveis interfaces no contexto da atividade empreendedora , de José Pedro Penteado Pedroso, Marcia Shizue Massukado-Nakatani e Fabricio Baron Mussi, publicado na Revista de Administração Mackenzie, vol. 10, n.4, São Paulo/SP, Jul.Ago, 2009 – ISBN 1678, http://www3.mackenzie.br/editora/index.php/RAM/article/viewFile/549/1097 acessado em 11/04/2013, às 14h00.

           No artigo há várias definições utilizadas pelos autores para conceituar os sentidos que atribuem à expressão jeitinho. Para efeitos da análise que pretendo desenvolver, exponho um recorte específico em que esta expressão linguística aparece. 

O recorte 

 “Torres (1973)   destaca que o jeitinho é uma maneira de ser peculiarmente brasileira, fruto   de condições históricas particulares que permitiram a criação desse tipo de   filosofia de vida.Traduz-se na capacidade de adaptação a situações   inesperadas ou difíceis e demonstra a criatividade, improvisação e esperteza   do brasileiro.O autor cita nosso caráter mestiço como um dos fatores   responsáveis pelo jeitinho. (p.18)

Recorte extraído do texto objeto de estudo desta análise. Cf.   referências.

 

 

A cena enunciativa: 

          Para Guimarães (2002), a cena enunciativa é uma distribuição de lugares de enunciação em um acontecimento. Estes lugares são configurações do agenciamento enunciativo para alguém que fala e para alguém para quem se fala. São lugares constituídos pelos dizeres e não por pessoas físicas. Assim é preciso considerar estes lugares de enunciação no próprio funcionamento da língua. 

          Assim. neste recorte específico, considerando a cena enunciativa,  aparece o Locutor L  que se desdobra  em  um enunciador universal para cujo o  sentido de  jeitinho é uma filosofia de vida da cultura mestiça do Brasil, ou seja, fruto da história particular do Brasil, uma história brasileira advinda e constituída  por meio  do  caráter mestiço do brasileiro. 

          O Locutor X se manifesta como um enunciador genérico a partir das intencionalidades dos autores do texto em questão, que são da área de administração de empresas, em explicitar as características de um empreendedor no Brasil, e  define o sentido de  jeitinho  como   criatividade, esperteza e improvisação na cultura brasileira, ou seja, algumas das características importantes, na visão destes mesmos autores,  para alguém que queira ser um empreendedor de micro ou pequena empresa no Brasil. 

          O enunciador individual, por fim, neste recorte, assume a enunciação, buscando não só interpretar o Locutor L e o Locutor X, mas corroborar com as definições deles sobre a expressão linguística jeitinho, de maneira a dizer que o que realmente compõe o sentido dela é o “ nosso caráter mestiço”, ou seja, por meio do pronome possessivo  “nosso”.    

A temporalidade da enunciação. 

          Segundo Guimarães (2005), a temporalidade se configura por um presente que dá origem a uma latência de futuro. A projeção de futuro, a futuridade, é, então, a possibilidade de interpretação. E mesmo o presente e o futuro funcionam por um passado que os faz significar. 

          Assim, é na temporalidade do acontecimento enunciativo que se recorta um passado memorável de sentido da expressão linguística e, ao mesmo tempo, se dá a produção de sentido desta expressão em um presente do acontecimento enunciativo e se projeta, ainda, uma futuridade de sentidos como possibilidade de interpretação desta mesma expressão linguística. 

          Deste modo, os enunciados “O jeitinho é parte do nosso caráter mestiço do brasileiro”, do locutor individual, faz rememorar um passado do acontecimento, por aqui se produzir o memorável da  antiética da malandragem, do jeitinho do brasileiro preguiçoso e malandro de lidar com a vida, muito presente no livro Macunaíma, de Mário de Andrade.

        Já em o jeitinho “ traduz-se na capacidade de adaptação”, do locutor que produz o acontecimento da enunciação no presente dela mesma, instaura o presente do acontecimento enunciativo, ou seja, define o sentido do jeitinho como a capacidade de adaptação do brasileiro às situações mais adversas que ele possa enfrentar quando se lançar ao desafio de ser um empreendedor de micro e pequenas empresas na atualidade.

        Por fim, tudo isso projeta sentidos futuros, ou uma futuridade de sentidos, sobre a expressão linguística, quando o locutor individual, que traduz o locutor X, afirma que jeitinho é, portanto, “criatividade, improvisação e esperteza do brasileiro”. Aqui  há , no acontecimento enunciativo,  a interpretação   do  enunciador individual, que projeta a futuridade do acontecimento pelas interpretações possíveis que podem ser feitas das palavras criatividade, improvisação e esperteza, advindas das tentativas de definições da expressão linguística jeitinho dentro de uma outra maior que ela mesma: jeitinho brasileiro. 

O espaço da enunciação.  

          Guimarães ( 2005, p.18)  afirma que os espaços de enunciação  são:

habitados por falantes , por sujeitos divididos por  seus direitos a dizer” em diferentes “espaços de funcionamento de línguas, que se dividem, redividem, se misturam, desfazem, transformam por uma disputa incessante.

           Este espaço pode se dar pelas disputas entre línguas ou dentro de uma mesma língua.

          Assim a expressão linguística jeitinho, tal como se apresenta neste recorte do texto em questão, traz a marca sufixal do diminutivo “ inho”, que pode significar , de acordo com Da Matta (1979), um pequeno jeito, um carinhoso jeito ou um estranho jeito, ou ainda , segundo Ferreira (2003, p. 77),  uma palavra que aponta para “ uma cumplicidade do sujeito de discurso” no sentido da filosofia da vantagem e da ética da malandragem, da simpática e alegre e ao mesmo tempo preguiçosa e malandra maneiras de ser do brasileiro em lidar com o mundo.

          Há, portanto, um embate em que o falante está dividido por sua relação com a língua, dentro desta mesma língua, ou seja, a Língua Portuguesa: por um lado, a expressão jeitinho, em sua forma diminutiva, pode significar, pelo passado memorável que ela recobra, sentidos que ela mesma traz na sua relação com a História, ou seja, com o real, sentidos esses que a fazem significar  malandragem e preguiça. Por outro lado, no presente do acontecimento enunciativo, ela pode projetar, na futuridade deste mesmo acontecimento, sentidos que a fazem significar improvisação, criatividade e esperteza. 

A designação.

          A designação, para Guimarães (2005), é a significação de um nome e tem relação direta com as relações de linguagem que tomam a palavra e o sentido nas estreitezas do real, ou seja, enquanto uma relação tomada na história. (p.9).

          Dessa maneira, os sentidos das palavras não se apresentam prontos, cristalizados e estagnados no tempo ou no espaço. Eles se apresentam no acontecimento da linguagem pelas relações de sentidos que são possíveis de tecer com a história, com o tempo. Assim, é na enunciação que esses sentidos são produzidos, ou seja, no acontecimento político da linguagem. 

         Para a análise da designação do da expressão jeitinho no recorte em questão, este tópico inicia na perspectiva de definir o que se entende, neste trabalho, por texto, designação, reescritura e por articulação.

Conceito de texto.


          Para Guimarães (2011, p. 21), um texto é uma unidade, mas não tem uma unidade. Para o autor, o texto é finito e integra os seus enunciados, assim como apresenta relações de integração destes enunciados porque eles têm marcas de relações de sentido e é por isso que a interpretação de um texto não pode ser considerada apenas como subjetiva. Ela é também fruto da passagem entre um enunciado e outro, integrados pela reescrituração

          Assim, o texto não é só uma unidade abstrata composta por unidades abstratas. Os enunciados de um texto se reportam a enunciações anteriores e a interpretação semântica é uma projeção sobre a estrutura sintática do texto. Ela está posta pelos sentidos e se faz de lugares diferentes.  

          Dessa maneira, o texto se dá enunciativamente enquanto unidade que integra enunciados por uma relação com o lugar social de locutor, ou seja, o lugar do autor (p. 26).


           Neste trabalho, entende-se que um texto é uma unidade integrada por enunciados, não é uma unidade combinatória e nem linear, e essa integração toma a referência como derivada da enunciação, ou seja, o que é enunciativo é o fato de que o sentido não se caracteriza pela referência, ele precede ao dizer.

A reescritura: procedimento de textualidade.

          A reescritura é um procedimento de repetição  na enunciação de um texto. A enunciação, segundo Guimarães ( 2007,p.84) rediz insistentemente o que já foi dito, fazendo interpretar uma forma como diferente de si.


          Este procedimento, então, segundo o autor, acaba por predicar algo ao reescriturado, ou seja, atribui àquilo que já foi dito outros sentidos, porque o reescriturado aparece em outro momento do texto e, portanto, pode enunciar significados. 

         Para esta analise, considero, então, os procedimentos que Guimarães (2011, p.45) defende quando se refere à análise de textos:


a-) Toma-se um recorte qualquer e produze uma descrição de seu funcionamento;
b-) interpreta-se se sentido na relação com o texto em que está, outro recorte integrado;
c-) chega-se a, ou toma-se e faz-se dele uma descrição;
d-) interpreta-se seu sentido na relação com o texto em que está integrado, tendo em vista a interpretação feita no primeiro recorte;
e-) busca-se um novo recorte, etc., até que a compreensão produzida pelas análises se mostre suficiente para o objetivo específico da análise. 

          Assim apresento o esquema de DSD ( GUIMARÃES,2007) sobre a expressão jeitinho neste recorte do texto analisado 

                                                caráter mestiço

                                                         

                                                       _l_

            Malandragem       -l     JEITINHO      l- adaptação                    

                                                        __

                                                         l

                              criatividade, improvisação e esperteza

            Pelo Domínio Semântico de Determinação exposto, pode-se dizer que a expressão  jeitinho é reescrita por sinonímia primeiramente como mestiçagem e seu sentido é expandido, quando se recorta o passado memorável do acontecimento, em malandragem e preguiça. 

           Da mesma forma, é também possível afirmar que a mesma operação acontece quando, no presente do acontecimento da enunciação, seu sentido passa a ser o de adaptação do brasileiro empreendedor às situações mais diversas do mercado e, por isso mesmo, este sentido se expande, na futuridade do acontecimento, para uma certa capacidade de criatividade e improvisação deste mesmo brasileiro em resolver essas situações-problema que o cotidiano instável do empreendedor pressupõe. 

          Assim tem-se uma relação de sentidos da expressão jeitinho que segue este esquema: 

  1. O jeitinho  vem da mestiçagem brasileira.
  2. A mestiçagem do brasileiro produz sentido de  malandragem.
  3. A malandragem pressupõe adaptação.
  4. A adaptação resulta em criatividade, improvisação e esperteza.                              

Considerações Finais.  

      Ao lado de caracterizações históricas dos sentidos da expressão jeitinho, este trabalho procurou evidenciar as relações de deslocamento de sentidos dela, pela enunciação em uma situação de produção específica, como a Revista de Administração Mackenzie.

      Assim, considero aqui alguns enunciados que atribuem esses sentidos à expressão jeitinho  e que contribuem para esse deslocamento. Por exemplo:

a-) Os enunciados criatividade, esperteza e  improvisação, assim como adaptação apontam para a linguagem do mercado (ZOPPI-FONTANA, 2009; DINIZ, 2010), no sentido de que essas expressões são utilizadas frequentemente para evidenciar características do perfil de um empreendedor de sucesso na área organizacional..

b-) O enunciado caráter mestiço  aparece, no funcionamento da linguagem, expressando um sentido mais legitimado pelo passado da História Brasileira,  de que, antes de se pensar em características atuais de um empreendedor individual de sucesso, é preciso pensar na história de sua cultura e nas consequências que essa história trouxe e traz para o modo com o qual esse empreendedor enxerga as relações sociais  e econômicas no mercado organizacional.

      A expressão jeitinho, então,  parece oscilar entre as definições mais universais e mais clássicas  dela ( FERREIRA, 2003) e outras de caráter mais mercadológico da cultura e da língua e, portanto, mais pontuais, com interesse, digo, bastante circunscritos ( KASSAI, 2009).

      E deste  acontecimento da enunciação (GUIMARÃES, 2005), emergem o deslocamento de sentidos  da expressão no atual momento histórico, possível efeito da força política que a expressão ganha ante o status econômico, na atualidade, do Brasil no cenário mundial e ante os discursos que o acompanham, na materialidade histórica dos acontecimentos e na  da própria língua que, segundo Fourniel e Zancarini ( 2008:66),  aparece “ mimada pela conjunção das agitações da conjuntura com a novidade do instrumento utilizado (a língua vulgar)”.

      Nesse sentido, procuro, com este trabalho, evidenciar alguns dos deslocamentos atuais de sentidos da expressão jeitinho brasileiro, em acontecimento específico da enunciação, não só no sentido da Sincronia (SAUSSURE, 2007), ou seja, um conjunto determinado de elementos considerados na história da língua, mas também no da Diacronia, ou seja, na autonomia que a língua tem de se modificar na história, em condições materialmente determinadas.

Referências. 

DINIZ. Leandro Rodrigues A. Mercado de línguas. SP: RG.2010.

FERREIRA. Maria Cristina Leandro. A antiética da vantagem e do jeitinho na terra em que Deus é brasileiro (o funcionamento discursivo do clichê no processa da constituição de brasilidade). IN. ORLANDI. Eni P. Discurso Fundador: a formação do país e a construção da identidade nacional. SP:Pontes.3ª.edição.2003. 

GUIMARÃES. Eduardo. Os limites do sentido: um estudo histórico e enunciativo da linguagem. SP: RG Editora, 4ª. edição. 2010. 

___________. Semântica do Acontecimento. SP: RG Editora. 2ª. edição. 2005. 

____________  Domínio Semântico e Determinação. In: A Palavra: Forma e Sentido. Campinas: Pontes, 2007. 

___________.  Análise de textos: procedimentos, análises, ensino. SP: RG Editora. 2011. 

KASSAI José Roberto. O perfil do empreendedor. IN. Pequenas Empresas. SEBRAE. 2009. 

ORLANDI. Eni P. História das Ideias Linguísticas: Construção do saber metalinguístico e constituição da Língua Nacional. SP: Pontes. 2001.

________________.  Língua Brasileira e Outras Histórias: discurso sobre a língua e ensino no Brasil. SP: RG Editora. 2009.

PEDROSO José P.P.;NAKATANI. Márcia S.; MUSSI. Fabrício B. A relação entre o jeitinho brasileiro e o perfil do empreendedor: possíveis interfaces no contexto da atividade empreendedora  IN.  Revista de Administração Mackenzie, vol. 10, n.4, São Paulo/SP, Jul.Ago, 2009–ISBN1678-6971, http://www3.mackenzie.br/editora/index.php/RAM/article/viewFile/549/1097, em 11/07/2011, às 14h00. 

SAUSURRE. Ferdinand. Curso de Linguística Geral. SP. Cultrix., 2007. 

ZACARINI.Jean-Claude;FOURNIEL Jean- A civilità em Florença no tempo das guerras da Itália: “ Alma da cidade ou espécie de tolice? ” Jean Louis; DESCENDRE. Romain. Estudos sobre língua política: Filologia e política em Florença do século XVI. SP: RG Editora., 2008. 

ZOPPI-FONTANA. Mônica G.. O português do Brasil como língua transnacional. SP:RG. 2009.