INDISCIPLINA ESCOLAR: UMA PERSPECTIVA HISTÓRICA

Edna Aparecida Ribeiro

Raquel Cândida de Oliveira

Rute Cândida de Oliveira

RESUMO: O presente artigodesenvolve uma reflexãosobre a indisciplina escolar, buscando elucidar os motivos na base histórica, propondo algumas concepções sobre a indisciplina no campo teórico e a participação da relação professor – aluno nesse processo.

PALAVRAS-CHAVE:Indisciplina, relação aluno – professor, ambiente escolar, ambiente familiar.

1. Introdução

Sabe-se que o ambiente escolar possui diversos problemas dentro do processo de ensinoaprendizagem. Entre essas dificuldades destacam-se a indisciplina, que interfere na qualidade do ensino, visto que na maioria das vezes ocorrem dentro da sala de aula. O comportamento de alguns alunos, denominados indisciplinados, tem em seu histórico atitudes com desatenção, dificuldade de relacionamento com colegas e professores, agressões verbais e em muitos casos, agressões físicas, atrasos frequentes nas aulas, entre outros.

A indisciplina escolar tornou-se objeto de estudo durante a década de 1990. Isso não descaracteriza o fato que a disciplina/indisciplina sempre permeou o ambiente escolar, visto que a mesma é uma realidade em quase todas as instituições escolares. Esse fator, em muitos casos são reflexos da realidade social atual, que está permeada por violência e desestruturação familiar.

É preciso compreender que aconteceram grandes mudanças na escola, na sociedade e nas relações interpessoais nas últimas décadas. Com as mudanças, houve a necessidade de reestruturar a realidade escolar e de certa forma compreender o conceito de disciplina, que em muitos casos, transmite a ideia de limites e cerceamento.

Desta forma, para que todos aprendam a lidar com as dificuldades presentes no cotidiano escolar é necessário que a comunidade escolar aceitem a diversidade e a heterogeneidade presente no ambiente escolar. Com a implantação da escola democrática, surgiu a necessidade de investigar o motivo do fracasso escolar, que evidenciou que um dos motivos é a indisciplina dentro do contexto escolar. Para AQUINO (1996) a base para a motivação indisciplinar está nos fatores de desenvolvimento etário das crianças, enquanto que SANTOS (2001) afirma que a causa é a violência no seio familiar e na sociedade. De acordo com ALVES (2002) 

[...] a indisciplina, que é complexa por essência, influi e é influenciada pelas partes e aspectos que a definem e a constituem, sendo assim, é urgente repensá-la a partir de uma visão de totalidade, que a torne envolvida com as partes e os recortes, mas sempre se considerando as partes e um todo uno, múltiplo e complexo, ao mesmo tempo, bem como a rede de relações existentes em uma sala de aula. (ALVES, 2002, p. 155).

Desta forma, é possível compreender que o conceito de indisciplina está pautado nos limites norteadores das instituições escolares. VASCONCELLOS (1996) afirma que:

Logo que pensamos em disciplina, logo vem à mente as ideias de limites (restrição, frustração, interdição, proibição, etc) e de objetivos (finalidades, sentidos para o limite colocado). A crise da disciplina escolar hoje está associada justamente à crise de objetivos e de limites que estamos vivenciando. (Vasconcellos, P. 231, 1996)

Sendo assim, pode-se afirmar que Disciplina escolar, caracteriza-se por todo comportamento, seja ele, gestos ou atitudes que alcance os objetivos propostos pelo gestão escolar, enquanto que a indisciplina representa-se com todo comportamento que vai contra os objetivos proposto pelo gestão escolar.  Portanto, é preciso que tanto os gestores escolares, quanto os alunos possuam a percepção das regras estabelecidas, a fim de que não ocorra a indisciplina. A comunidade escolar precisa estar em conexão, em relação as normas estabelecidas.

Deste modo, a interpretação do que é indisciplina/ disciplina influencia diretamente as práticas pedagógicas, isto é, no ensino aprendizagem dos alunos. PIROLA (2009) afirma que:

a interpretação da disciplina ou indisciplina fornece elementos capazes de interferir não somente nos tipos de interações estabelecidas com os alunos e na definição de critérios para avaliar seus desempenhos na escola, como também no estabelecimento dos objetivos que se quer alcançar. (Pirola, P. 42, 2009)

2. FAMÍLIA E ESCOLA AGENTES MOTIVADORES DA INDISCIPLINA

Com a globalização e as mudanças que tal processo acarretou surgiram também mudanças nas relações humanas e sociais, visto que dentro desse processo surgiu a necessidade de um novo profissional capacitado para atender as exigências do mercado. Diante de tantas mudanças, papéis fundamentais na construção das relações familiares ficaram em segundo plano.

Sabe-se que o papel da família é de vital importância para a construção psicossocial do indivíduo em formação. A criança necessita ter sua integridade e segurança alicerçada primeiramente no seio familiar, mas com as mudanças ocorridas na sociedade, percebe-se que muitas famílias estão em total desestruturação e que em muitos casos, os pais delegam a terceiros a responsabilidade de educar. Essas situações de desestruturação interferem diretamente no processo educacional da criança. Muitos pais delegam a escola sua responsabilidade de educar, direcionar e transmitir valores. Vasconcellos (1995) afirma que: a família não está cumprindo sua tarefa de fazer a iniciação civilizatória: estabelecer limites, desenvolver hábitos básicos. (VASCONCELLOS, 1995, p. 22).

Isso acarreta na maioria das vezes em crianças agressivas, sem limites, desatentas e mal –educadas.

Outro ponto importante a destacar é a influência da Mídia, no processo de construção e desenvolvimento de muitas crianças. Muitas crianças sofrem influências das mídias, através de programas de TV, jogos que estimula a violência, a inversão de valores, entre outros. As famílias precisam assumir a difícil tarefa de educar e influenciar, precisam colocar-se no dia-a-dia desses indivíduos, selecionando o que dever ser acessado ou assistido por elas.

Segundo LA TAILLE (1996)

As crianças precisam sim aderir regras e estas somente podem vir de seus educadores, pais ou professores. Os limites implicados por estas regras não devem ser apenas interpretados no sentido negativo: o que não poderia ser feito ou ultrapassado. Devem também ser entendidos o seu sentido positivo: o limite situa, dá consciência de posição ocupada dentro de alguém espaço social – a família, e a escola como um todo. (La Taille, P. 9, 1996).

É possível afirmar que crianças sem limites, tornam–se indivíduos indisciplinados, agressivos e esse mal comportamento reflete no cotidiano escolar. Esta desestruturação de inversão de valores e princípios causam desequilíbrio e influencia os relacionamentos em todos os segmentos da comunidade escolar. Para Vasconcellos (1995) com o decorrer dos anos, com as mudanças influenciadas pela globalização, o conceito de disciplina tem se dinamizado, tornando a expectativa em relação a disciplina bastante volátil, isto é, o fator indisciplina ou disciplina está concomitantemente relacionado ao conjunto de valores e do contexto de vivencia apresentado.

Ao tratar-se da escola como fonte disseminadora da indisciplina, foge-se da real função da escola que é lidar com conteúdos sistematizados, além de ser responsável pela formação da cidadã de cada aluno.

Para Aquino(1998) é importante frisar que:

Não há a possibilidade de o cidadão ter acesso, de fato, aos seus direitos constituídos. Afinal, tornar-se cidadão não se restringe ao direito do voto, por exemplo, mas inclui direitos outros com vistas a uma vida com dignidade - e isso tudo tem a ver mediatamente com escola, pois quanto menor for a escolaridade da pessoa, menores também serão suas chances de acesso às oportunidades que o mundo atual oferece e às exigências que ele impõe. (Aquino, P. 01, 1998)

É sabido que a função de educar no sentido lato não é  responsabilidade integral , da escola, mas sim da família. Para Aquino (1996) a função do professor termina na explanação do conhecimento, fora desse patamar, a escola não é mais funcional. O professor e a escola devem objetivar-se na transmissão de conhecimento e formação social. Mas dentro desse parâmetro encontram-se um grande problema, a falta de interação entre professor- aluno. Na maioria dos casos, o profissional da área da educação mantêm-se a distância em uma posição de autoridade.

De acordo com Guimarães (1996) o professor considera que sua posição normalizadora será suficiente para apaziguar os conflitos, mas isso não muda, nem ameniza a realidade da relação aluno-professor. É necessário reconhecer que a relação aluno-professor precisa permitir a reciprocidade.

            Zandonato (2003) afirma que:

O professor não é o tempo todo ensinante mas, que também aprende e deve abrir mão de uma postura autoritária que não considere os conhecimentos dos alunos, negando-se a ampliar seus próprios conhecimentos com os mesmos. (Zandonato, P. 02, 2003)

            Desse modo é possível inferir, que a maneira de entender o motivo da indisciplina acaba de certo modo sendo preconceituosa e em muitos casos baseada em justificativas e que não coincidem com a realidade. Cabe ao professor, compreender a realidade dos seus alunos e buscar compreender o motivo da ação e reação a cada situação isoladamente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

                É possível inferir que a indisciplina escolar tem sua base cultural no que tange a posição e a expetativa ao qual o aluno é inserido. Se o aluno encaixa-se no padrão moral e ético estabelecido pelo sistema de ensino e cumpre os princípios pré-estabelecido, ele é indiscutivelmente um aluno disciplinado. Outro ponto relevante para definir se um aluno é disciplinado ou não é se ele cumpre as regras convencionais. Quando um aluno descumpre uma regra, ele concomitantemente é tachado como indisciplinado. Em muitos casos, esses pontos são reflexos de uma educação limitadora, como ausência de regras ou regras rígidas demais.

            No âmbito escolar, a indisciplina é um fenômeno que vem sendo discutido, buscando compreender a realidade de cada ambiente escolar e buscando soluções para tal mal.

Para o autor Aquino (1998) existem quatro regras que propõem soluções para a indisciplina. São elas:

  • a primeiríssima regra implica a compreensão do aluno-problema como um porta-voz das relações estabelecidas em sala de aula. O aluno-problema não é necessariamente portador de um "distúrbio" individual e de véspera, mesmo porque o mesmo aluno "deficitário" com certo professor pode ser bastante produtivo com outro. Temos que admitir, a todo custo, que o suposto obstáculo que ele apresenta revela um problema comum, sempre da relação. Vamos investigá-lo, interpretando-o como um sinal dos acontecimentos de sala de aula. Escuta: eis uma prática intransferível!
  • a segunda regra ética refere-se à desidealização do perfil de aluno. Ou seja, abandonemos a imagem do aluno ideal, de como ele deveria ser, quais hábitos deveria ter, e conjuguemos nosso material humano concreto, os recursos humanos disponíveis. O aluno, tal como ele é, é aquele que carece (apenas) de nós e de quem nós carecemos, em termos profissionais.
  • a terceira regra implica a fidelidade ao contrato pedagógico. É obrigatório que não abramos mão, sob hipótese alguma, do escopo de nossa ação, do objeto de nosso trabalho, que é apenas um: o conhecimento. É imprescindível que tenhamos clareza de nossa tarefa em sala de aula para que o aluno possa ter clareza também da dele. A visibilidade do aluno quanto ao seu papel é diretamente proporcional à do professor quanto ao seu. A ação do aluno é, de certa forma, espelho da ação do professor. Portanto, se há fracasso, o fracasso é de todos; e o mesmo com relação ao sucesso escolar.
  • a quarta regra é a experimentação de novas estratégias de trabalho. Precisamos tomar o nosso ofício como um campo privilegiado de aprendizagem, de investigação de novas possibilidades de atuação profissional. Sala de aula é laboratório pedagógico, sempre! Não é o aluno que não se encaixa no que nós oferecemos; somos nós que, de certa forma, não nos adequamos às suas possibilidades. Precisamos, então, reinventar os métodos, precisamos reinventar os conteúdos em certa medida, precisamos reinventar nossa relação com eles, para que se possa, enfim, preservar o escopo ético do trabalho pedagógico.
  • a última regra ética, e com a qual encerramos nosso percurso, é a ideia de que dois são os valores básicos que devem presidir nossa ação em sala de aula: a competência e o prazer. Quando podemos (ou conseguimos) exercer esse ofício extraordinário que é a docência com competência e prazer - e, por extensão, com generosidade -, isso se traduz também na maneira com que o aluno exercita o seu lugar. O resto é sorte. E por falar nisso, boa sorte a todos! (Aquino, P. 06.1998.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AQUINO, J. G. Indisciplina: o contraponto das escolas democráticas. São Paulo: Moderna, 2003.

_____________ A indisciplina e a escola atual.Rev. Fac. Educ. vol.24 n.2 São Paulo July/Dec. 1998

LA TAILLE, Yves de. A indisciplina e o sentimento de vergonha. In.:AQUINO.julioGroppa(Org.). Indisciplina na escola: Alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 1996.

PIROLA, Sandra Mara Fulco.As marcas da indisciplina na escola: caminhos e descaminhos das práticas pedagógicas. Piracicaba, 2009 155 f. Disponível em: www.scielo.com.br; Acesso em: 12.12.2014

SGANZELLA, Natalia Cristina Marciola. O ambiente escolar e a indisciplina no ensino fundamental. Revista Eletrônica de Educação e Ciência – REEC Volume 02 Número 01 Março/2012 Páginas 44-53 ISSN 2237-346244 .

VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Disciplina: construção da disciplina consciente e interativa em sala de aula e na escola. São Paulo: Libertad, 1995. 

ZANDONATO, Zilda Lopes. Indisciplina escolar e a relação professor-aluno: uma análise sob as óticas moral e institucional. ANPED, 2003. Disponível em: www. educacao.salvador.ba.gov.br