Hoje Rolim de Moura é uma bela cidade. Mas nem sempre foi assim: aqui era uma floresta.

As coisas começaram quando o país, nas duas décadas entre 1960 a 1980, enfrentou várias crises econômicas e sociais. Nessa época e por causa das crises as pessoas de outras regiões do Brasil buscaram alternativas. Buscavam um lugar melhor para viver. E migraram. Esses migrantes fizeram Rondônia, mas fizeram isso por que, antes, o governo federal havia inventado Rondônia.

Em que consistiu essa invenção, uma vez que a região já existia?

Aconteceu que os governos militares criaram, através da propaganda, com base na Lei de Segurança Nacional, a necessidade de ocupar a Amazônia. Direcionaram as migrações para a uma das alternativas: Rondônia. Local que, de acordo com o discurso possuía terras férteis e fartas a serem distribuídas. Assim as crises de outras regiões foram debeladas pela propaganda que apresentava Rondônia como solução para os problemas. Dessa forma as pessoas que fizeram Rondônia e dentro desse estado, Rolim de Moura, vieram por que acreditaram numa promessa: a Fartura que não havia em sua região de origem!

Mais do que uma promessa Rondônia passou a ser o destino de um sonho. E isso se aplicou, também, para os migrantes que fizerem Rolim de Moura. Por isso é que se pode dizer que o sonho era mais do que uma promessa. Em se tratando de Rolim de Moura as pessoas que para cá vieram sabiam que aqui estava para ser plantada uma cidade onde se colheriam melhores dias.

Acreditando nessa certeza as pessoas que chegaram às centenas começaram a erguer uma cidade. Inicialmente formada de barracos, mucambos, de pau a pique. Mas a cidade foi crescendo a ponto de se transformar, neste início de século XXI, em uma das maiores cidades do interior do Estado de Rondônia.

Quem olha para esta cidade pode ver uma boa rede de canais de interligação através de estradas, canais de rádio e TV; estamos interligados com o mundo pela grande rede. Além disso, a cidade conta com um sistema comercial que atende inclusive algumas cidades vizinhas. A Indústria está crescendo, principalmente num dos campos mais promissores da economia do município, que é a pecuária – pode-se até questionar a pertinência da pecuária extensiva e os problemas eco-ambiantais daí derivados, mas o fato é que essa atividade econômica já se instalou em Rolim de Moura.

Quem fundou a cidade lembra que nos primeiros anos um dos principais meios de transporte era o avião; tempos depois apareceram os picapeiros, mas hoje estamos interligados com o mundo.

O progresso chegou em vários aspectos da cidade. As primeiras escolas funcionaram num rancho de pau a pique, coberta com tabuinha. Nem quadro negro existia. E o que vemos hoje é não só uma invejável rede escolar como vários cursos superiores em três instituições de ensino superior. Hoje temos atendimento desde a pré-escola até o nível superior, inclusive com várias opções para cursos de pós-graduação em nível de especialização. Hoje nossos filhos podem iniciar seus estudos na pré-escola e concluir a pós-graduação em Rolim de Moura. Isso conquistado em muito pouco tempo.

Quantas cidades com menos de 25 anos podem contar com um campus de uma Universidade Federal? Quem viu a primeira escolinha de pau-a-pique nem sonharia que se chegaria a tanto. Só mesmo os pioneiros com sua visão de fé no futuro, como nos disse o senhor Durvalino, contando sua fé nesse crescimento: "Quando eu reservei aquela área, ali perto do shoping, veio o filho do senador Guedes e me perguntou pra que eu queria aquelas terras? Eu disse pra ele: olha, doutor, isso aqui futuramente vai ser uma grande cidade". Ou então o senhor Analpides, popular Paraguai, afirmando numa entrevista que apesar das dificuldades dava para ver o futuro promissor: "tinha muito sofrimento mas eu via futuro eu sabia que a coisa era boa. Via o povão chegando..."

Quem leu Tocaia Grande, De Jorge Amado, pode entender melhor o que estou dizendo: alguma passagens daquela obra podem ser relidas em comparação com a história de Rondônia, e de Rolim de Moura. Principalmente quando Natário, um dos personagens principais, fala ao Coronel: "É onde vou fazer minha casa, Coronel, quando a peleja acabar e vosmicê, cumprir o trato. Isto aqui ainda há de ser uma cidade". Lá na ficção de Jorge Amadoassim se concretizou. Aqui também.

Tudo isso que vemos como progresso foi conquistado graças ao esforço dos que acreditaram num sonho e, acordados, construíram aquilo que poucos imaginavam ser possível, no meio da floresta. Construíram uma cidade pujante crescida do meio da floresta. Aquele imenso verde feito de nada se converteu em progresso. Mas ainda nos falta algo. Falta-nos resgatar a memória dos colonos pioneiros. Quem foram eles? Quem foram os que iniciaram o processo dessa construção? Sabemos, com certeza, que foram muitas pessoas. Muitos anônimos... que possivelmente nunca serão lembrados. Por isso daqueles e com aqueles que ainda temos contato precisamos resgatar e preservar a memória.

Lembramos de alguns, mas quem foram os outros? E os que conhecemos, onde estão? Onde está o primeiro administrador, hoje professor Moreira? Quem se recorda do José Ari? Quem construiu a primeira farmácia? Onde estão os donos do "Paca Assada"? de quem foi a primeira bicicletaria para quem o INCRA entregou o segundo lote do perímetro urbano? Esse funcionário disse que o primeiro lote oficializado pertenceu a um importante empresári, na atualidade, mas quem eram os outros....?

E os primeiros professores, quem foram? Onde estão eles e elas? Além da dona Enilde, da Creuza, quem foram as outras?

Onde estão os monumentos aos anônimos que fizeram esta cidade?

Hoje Rolim de Moura é uma bela cidade Mas para chegar a isso, passou de toscas construções que foram melhorando até chegarmos ao ponto em que estamos. Mas isso só foi possível pelo trabalho daqueles de quem nem sabemos o nome.... E isso que estamos falando de Rolim de Moura vale para todas as cidades de Rondônia. Ainda temos como resgatar a versão dos fatos pela ótica de quem os realizou. Quantos historiadores dariam tudo para fazer isso em outras regiões e com outras temáticas. Não podemos deixar para fazer isso depois que eles se forem...

Essa é a história ainda a ser contada... e escrita, sobre Rolim de Moura e Rondônia.

Neri de Paula Carneiro

Filósofo, Teólogo, Historiador

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