Flavio Bruzzamolino, sobrenome cuja tradução do italiano, conforme comentou uma vez o Nelson Colleoni, significa botar fogo no moinho, saiu de Mauá, cidade periférica da Grande São Paulo e foi para o Rio de Janeiro estudar engenharia. Depois de prestar vestibular em várias universidades, conseguiu uma vaga na Universidade do Fundão.

Arrumada a mala, não se esqueceu de pegar o velho violão, companheiro das noitadas com os amigos. O pai olhou meio atravessado e foi logo perguntando: “Você vai estudar ou vai tocar nos bares do Rio”. Ele respondeu prontamente: “Isso é para se divertir um pouco, pois só estudar ninguém aguenta pai”.

Chegando ao Rio se alojou numa república de estudantes onde também estava um estudante de química, que depois se tornaria um dos maiores nomes da música popular brasileira: Ivan Lins. Com ele Flávio revezava no violão acompanhando as músicas mais conhecidas do repertório MPB, Beatles entre outros, mas o forte mesmo era a MPB.

Apesar das noitadas com muito samba e regadas à cerveja, conseguiu terminar o curso, contava ele. Às vezes o samba entrava noite adentro e só parava quando o sol aparecia no Atlântico. Mas foram bons e inesquecíveis momentos os seis anos de universidade.

Voltando para Mauá foi contratado na antiga Empresa Brasileira de Tetrâmero, depois Unipar Química como engenheiro trainee, iniciando uma promissora carreira profissional que encerrou como Gerente de Produção. Mas ele não se esqueceu do velho violão e dos sambas e canções do tempo de estudante e nas festas de fim de ano alguém aparecia com um violão e colocava em suas mãos. Sempre dando desculpas de que estava sem prática ou que não se lembrava de uma ou outra canção, entrava no ritmo e só parava quando terminava o expediente. Um dos seus incentivadores era o Moacyr, um boêmio inveterado.

Quanto ao Ivan Lins, perdeu o contato, mas sempre que o artista tinha shows em São Paulo, aproveitava para assistir e rever o antigo colega de república. Às vezes conseguia ir até o camarim para um abraço. Ivan Lins ainda é um artista de grande projeção, inclusive internacional e suas músicas são tocadas e gravadas por artistas de várias partes do mundo.

Flávio era uma pessoa tranquila, simples e despojada. Sempre alegre, relacionava-se com funcionários de todos os níveis sem restrições.   Mas o engenheiro bossa nova, já viúvo, partiu cedo, com pouco mais de cinquenta anos, vitima de um câncer de próstata. Foi uma pena, pois depois da aposentadoria poderia animar os encontros com a velha guarda da Unipar com as canções do Caymmi, Ivan Lins, Chico Buarque, Tom Jobim entre outros.