De início, cabe afirmar que, não obstante no século XIII a Igreja ter consagrado sua dominação espiritual na maior parte do Ocidente, os grupos heréticos e muçulmanos que vinha combatendo não paravam de crescer, e isso a preocupava muito, eis que mesma já estava envolta nas Cruzadas, possuidoras de forte apelo espiritual desde que o papa Urbano II, em 1095, convocou a primeira da série de oito expedições militares a Jerusalém, e que durariam, no total, cerca de duzentos anos, do século XI ao XIII.

Em relação aos muçulmanos na Península Ibérica, foram definitivamente expulsos de Portugal pelos cristãos, em 1253, e, da Espanha, após o fim da Idade Média, mais especificamente em 1492, num episódio que a historiografia moderna denominou “Reconquista Cristã”. O incentivo para que os cristãos viessem a combater os que ameaçavam a Igreja Católica na Península Ibérica e o sistema feudal do qual era beneficiária no resto do Ocidente Medieval sempre foi o mesmo que os convocava para lutar nas Cruzadas: a salvação eterna, com a remissão dos pecados, conforme se pode verificar pela transcrição de parte do Conclame de Urbano II no Concílio de Clemont, em 1095:

“A todos que partirem e morrerem no caminho, em terra ou mar, ou que perderem a vida combatendo os pagãos, será concedida a remissão dos pecados. Que combatam os infiéis o que até agora se dedicavam a guerras privadas. Que sejam doravante cavaleiros de Cristo os que não eram senão bandoleiros. Que lutem agora contra os bárbaros os que se batiam contra seus irmãos e pais. Que recebam as recompensas eternas os que até então lutavam por ganhos miseráveis. Que tenham uma dupla recompensa os que se esgotavam em detrimento do corpo e da alma. A terra que habitam é estreita e miserável, mas no território sagrado do Oriente há extensões de onde jorram leite e mel”.

Como se pode verificar, há, no texto acima, um apelo aos cristãos de todas as classes sociais para que viessem a participar do Movimento Cruzadístico, numa exceção ao princípio do imobilismo social segundo o qual a sociedade cristã era um ambiente onde somente “uns rezam, outros trabalham e outros guerreiam”. Aqui, os que rezam, como os senhores feudais (que participavam de “guerras privadas”), são conclamados a lutar. Os que trabalhavam, como os servos ("os que até então lutavam por ganhos miseráveis"' e "os que se esgotavam em detrimento do e da alma") e comerciantes, são chamados a combater.

Como a mentalidade do homem medieval era estritamente religiosa – o que significava obediência total aos ditames da Igreja - muitos senhores foram lutar, bem como servos, pobres comerciantes e outras pessoas que nada tinham a perder, como mendicantes e aventureiros de toda espécie: todos partiram para a Palestina no intuito de obter a salvação (daí surge a Ordem dos Cavaleiros Templários, que inicialmente não passavam de monges militares que escoltavam, nos caminhos que iam e vinham de Jerusalém, os combatentes que lá iam para lutar).

Não devemos esquecer, também, que naquela época a espiritualidade do Ocidente Medieval estava muito restrita aos mosteiros, até mesmo em virtude da presença, no mundo em geral, dos grupos considerados heréticos. Havia muito pessimismo em relação ao homem. No entanto, como que num reflexo vindo da alta cúpula, apesar de os monges nada possuírem pessoalmente, seu sustento era garantido pela enorme quantidade de bens recebidos, pelos riquíssimos monastérios, da nobreza e do povo em si. As ordens eram muito luxuosas. E, apesar disso, praticar o monasticismo ou a religião em si era, junto à luta pela fé – em especial nas Cruzadas – a única via garantida para o paraíso. Por isso muitos leigos, quando sentiam estar no fim da vida, se convertiam de última hora (a chamada “piedade fugitiva”).

Mas, ao longo do século XII, no Ocidente Medieval passou-se a difundir a ideia da existência de um deus benevolente, com a elaboração, por teólogos, da teoria do purgatório, que seria um estágio espiritual entre a terra e o céu, de modo que as almas ali penadas seriam libertadas de seus pecados e recebidas no paraíso celeste, de acordo com sua beatitude. Desta forma, o Ocidente Medieval se torna mais otimista em relação ao destino final de cada um, não sendo o céu exclusividade de monges enclausurados ou religiosos em geral, bastando, para alcançá-lo, simplesmente praticar o Cristianismo.

Pode-se afirmar, também, que essas novas ideias foram recepcionadas por São Francisco de Assis (1181 ou 1182-1226), opositor tanto da grande suntuosidade exibida pela Igreja quanto da clausura monástica. Integrante de uma rica família de Assis, por volta dos 24-25 anos de idade abandonou todos os seus bens materiais para se converter num discípulo de Cristo, literalmente à imagem e semelhança do Messias, ou seja, pobre e caridoso, bem como advogando que a religião deveria ser razão de felicidade, e não de opressão, como infelizmente ocorria com as Cruzadas.

Também pregava um retorno às origens do Cristianismo primitivo através de contato direto com o povo, nas ruas, passando a fazê-lo. Não é errôneo dizer que se tornou um mendigo – daí o outro nome pela qual a Ordem dos Franciscanos também viria a ser conhecida quando de sua fundação – era uma das “Ordens dos Mendicantes”.

Entretanto, apesar de suas ideias serem contrárias às atitudes de facto da Igreja na época, São Francisco de Assis não foi reprimido. Ao contrário: à medida que foi ganhando seguidores sua pregação se expandia. Assim, em 1210 o papa Inocêncio III adotou oficialmente o seu discurso, de forma que ele passou a ser conhecido em todo o Ocidente Medieval, naquele que foi o passo certo para o reconhecimento da referida Ordem dos Franciscanos, em 1223, e a posterior canonização de São Francisco, poucos anos depois de morrer.

São Francisco de Assis foi, digamos, “imitado” por Domingos de Gusmão (1170-1221), fundador de Ordem dos Dominicanos (a outra “Ordem dos Mendicantes”), que também criticava a riqueza material da Igreja, e, do mesmo modo, abandonou tudo em 1210 para seguir sua vocação. Ele - e isso é muito importante – pregava que os povos pagãos deveriam ser convertidos pela persuasão, com o ensino da verdadeira filosofia cristã, e não pela força. Também não foi perseguido e sua ordem viria a ser reconhecida em 1216.

Percebemos, destarte, que na época de São Francisco de Assis e Domingos de Gusmão se inaugura um novo período de visão da Cristandade quando o que está em jogo é a salvação da alma. Não é demais dizer que com ambos, tendo por base a rebelião individual, mas pacífica, de seus espíritos em relação ao injusto sistema feudal - do qual a Igreja, voltamos a dizer, fazia parte – a pobreza e o subjugo próprio, assim como (por que não?) a pregação da liberdade de religião, com a conversão pacífica dos hereges (em relação a qual a Instituição Eclesiástica, apesar de não tê-los perseguido, demonstrou não concordar apenas alguns anos após suas mortes, instituindo o Santo Ofício da Inquisição, em 1231), passaram a ser cânones de salvação após a morte. Foi uma verdadeira revolução na espiritualidade medieval.