Nikelly Maria Alves¹

Resumo: Esse ensaio acadêmico de cunho reflexivo insere-se dentro dos estudos linguísticos. É de grande importância   procurar   refletir sobre quem foi Ferdinand de Saussure, e as contribuição do linguista para a   formação da linguagem dentro   dos desenvolvimentos dos estudos modernos, salientando que toda a curiosidade dos estudos linguísticos vem de tempos passados onde a pré-história da linguística retrata todo surgimento das mudanças. Passando por um processo de mudanças devido o surgimento dos novos pensamentos teóricos, os fenômenos linguísticos vem ganhando uma nova forma de pensar transformando-se em conceitos científicos. Tratar da concepção de Saussure é entender a língua dentro de uma modernidade, as mudanças acontecidas na linguística vem ser para ele um sistema que se relaciona com outros elementos em um processor sincrônico, ou seja a língua estudada a partir de um processo histórico. E dentro de seus estudos estruturais, Saussure contribuiu a linguística como parte semiótica a ‘ciência que estuda os signos’, tendo a linguagem como um sistema de signos e imagem acústica o ‘significante’ ele nos mostra também que possuem significado diferente que podem variar de uma cultura para outra. Todas as contribuições do pensamento Saussuriano são de significância para a continuidade dos estudos linguísticos, e as concepções apresentadas pelo o linguista foram de grande importância para a aceitação dos estudos científicos na área da linguística possibilitando a renovação dela nos tempos atuais.

Palavras-chave: Saussure; Dicotomias; Língua e Fala; Significante e Significado; Paradigma e Sintagma; Diacronia e Sincronia. 

             Ferdinand Saussure nasceu em 26 de novembro de 1857 em Genebra, Suíça. De família rica, filho de um naturalista e neto de um botânico estudou desde cedo idiomas como o inglês, grego, alemão, francês e sânscrito.Com o objetivo de continuar a tradição científica de sua família, em 1875, estudou física e química na Universidade de Genebra. Na juventude, foi incentivado e orientado para seguir os estudos em linguística por um filólogo e amigo da família chamado Adolphe Pictet. Convencido de que seu futuro estava nos estudos da linguagem, ingressou na Sociedade Linguística de Paris. Ainda estudante aos 21 anos, publicou seu único livro, um brilhante estudo em linguística comparativa que firmou sua reputação: “Memória sobre as Vogais Indo-Europeias”

            Sua notoriedade veio com a publicação da obra póstuma publicada por seus discípulos Charles Bally e Albert Sechehaye. Após sua morte aos 55 anos em 1913, seus discípulos esperavam encontrar em sua escrivaninha, manuscritos, anotações mas Saussure destruía os rascunhos que escrevia, e as gavetas de sua mesa de estudo estavam quase vazias. Foi aí que textos dos cursos ministrados durante seus últimos anos de vida na Universidade de Genebra foram recolhidos e organizados Bally e Sechehaye e assim, em 1915, foi publicado o “Curso de Linguística Geral”, considerado a obra fundadora da linguística moderna.

        Ferdinand de Saussure é considerado hoje o pai da linguística moderna, por ter contribuído para desvendar os mistérios da linguagem, com seus estudos e conceitos. Em sua formação acadêmica, o Comparativismo indo-europeu dominava os estudos da linguística. Nessa fase, o objetivo era, inicialmente, identificar-se com as ciências da natureza, entendendo que as línguas nascem, crescem e morrem, assim como os organismos. Porém, um movimento culturalista surge e acredita que as línguas não existem por si mesmas, mas são instrumentos culturais que sofrem influências sociais, históricas, geográficas etc. Entretanto, Saussure se opõe ao método histórico-comparatista existente até então. Para ele, a linguística da época tratava de diversos aspectos com nomes iguais. Assim, Saussure, primeiro, tenta dar à linguística uma linguagem única e organizada procurando estrutura-la em divisões, e se preocupa em delimitar o objeto de estudo e um método específico para essa ciência. E dentre tantos aspectos estudados, Saussure cria a Teoria do Signo Linguístico e seus princípios divididos em dicotomias que são: língua e fala, significante e significado, sincronia e diacronia, forma e substância e relações paradigmas e sintagmas. As dicotomias não são formadas por dois conceitos formados entre si, mas por dois conceitos distintos em algum ponto que se completam, o termo dicotomia designa a divisão logica de um conceito em dois, de modo que se obtenha um par opositivo podendo assim observar dualidades. Começando pelo o significante e o significado que para Saussure é: 

‘’ Enquanto a linguagem é heterogênea, a língua assim delimitada é de natureza homogênea: constitui-se num sistema de signos onde, de essencial, só existe a união do sentido e da imagem acústica, e onde as duas partes do signo são igualmente psíquicas. Os signos linguísticos, embora sendo essencialmente psíquicos, não são abstrações; as associações, retificadas pelo conhecimento coletivo e cujo conjunto constitui a língua, são realidades que têm sua sede no cérebro.’

Dessa forma, o signo tem uma natureza psíquica e é a união do sentido e da imagem acústica, ou seja, do significado e do significante. Pode-se entender como significado o sentido, o conceito ou mesmo a ideia de alguma coisa. Seria a representação mental de algo.  Já o significante pode ser entendido como a imagem acústica: “Esta não é o som material, coisa puramente física, mas a impressão psíquica desse som, a representação que dele nos dá o testemunho de nossos sentidos.”.  É possível dizer que o significante é a parte perceptível do signo e o significado a parte inteligível. Assim, o signo se parece a uma moeda com duas faces inseparáveis, mas ao mesmo tempo interdependentes. O significado e o significante estão unidos mentalmente por um vínculo de associação, porém não podem ser interpretados com um objeto e seu nome ou rótulo.

             A Linguística iniciada, a partir do CLG, leva em conta os fundamentos saussurianos de que a língua “é um sistema que conhece apenas sua própria ordem” (CLG, 1997, p. 31); “é um sistema do qual todas as partes podem e devem ser consideradas em sua solidariedade sincrônica” (CLG, 1997, p. 102) e de que a Linguística “tem por único e verdadeiro objeto a língua considerada em si mesma e por si mesma”. , A langue e a parole em suma definição língua e fala foi a delimitação da ciência chamada linguística.

             Saussure deixa bem evidente que é a langue (língua) o grande objetivo da linguística, para ele é a parte social da linguagem, ele define a linguagem como sendo uma faculdade da natureza humana de se comunicar através dos signos linguísticos, ou seja a língua é um conjunto de convenções adotadas por uma comunidade para permitir a comunicação. A interdependência da língua e da fala pode ser nitidamente percebida nos estudos Saussurianos, uma vez que só por meio do circuito da fala foi possível   demonstrar as esferas que envolvem a linguagem, dentre as quais está especialmente a língua. Nos CLG, Saussure demostra que a linguagem é representada por um retângulo, que é dividido em dois triângulos iguais: um correspondente à língua, e outro correspondente à fala.

                A língua é caracterizada como o “código social” que “organiza a linguagem e forma a ferramenta necessária ao exercício da faculdade da linguagem” (ou fala). A fala é ativa e consiste no uso individual do código, que é a língua. Assim, temos que a fala depende da língua, uma vez que só por meio desta os indivíduos podem exercer a faculdade da linguagem, e a língua depende da fala, pois se não houvesse fala, a língua seria um código inútil, ou até mesmo não existiria. Nessa interdependência, há também a linguagem, que engloba a língua e a fala, e que necessita de ambas as existências para que ocorra. Para Saussure a língua é:

Um sistema supraindivudual utilizado como meio de comunicação entre os membros de uma comunidade; a língua corresponde a parte essencial da linguagem e constitui um tesouro – um sistema gramatical -  depositado virtualmente no cérebro de um conjunto de indivíduos pertencente a uma mesma comunidade linguística. Sua existência decorre de uma espécie de contrato implícito que é estabelecido entre os membros dessa comunidade.

(MARTELOTTA, p.116)

            No século XIX, o estudo linguístico era feito com base histórico-comparativa, seguia uma linha filológica, avaliava a evolução das línguas através do tempo buscava as raízes comuns entre as línguas indo-europeias, pois não havia o estudo sincrônico, já no século XX, a  língua passa a ser estudada como sistema autônomo, assim, para Saussure, o estudo linguístico deve se ocupar de um ponto no tempo, para poder estudar o sistema que é a língua em sua totalidade, com esse pensamento Saussure cria as definições sincronia e diacronia. Existe uma divisão de teorias estudadas, o estruturalismo e o gerativismo que dão ênfase ao estudo sincrônico separando o diacrônico, porem os linguistas funcionalistas e os sociolinguísticas vem estudando os aspectos históricos da língua, não separando o estudo sincrônico do diacrônico, onde o estruturalismo proposto por Saussure não apenas aponta as diferenças entre essas duas formas de investigação, mas, sobretudo, registra a prioridade do estudo sincrônico sobre o diacrônico, ou seja ‘’O linguista deve estudar principalmente o sistema da língua, observando como se configuram as relações internas entre seus elementos de um determinado momento do tempo. (MARTELOTA, p.118).

                  Sendo assim outros estudiosos partindo do ramo das contribuições de Saussure puderam aperfeiçoar o modo de estudo linguístico, os funcionalistas eles observam vários usos para uma mesma forma e procuram detectar com base na teoria da gramaticalização qual é o uso original e os derivados e que, as mudanças ocorre no cognitivo, esses estudos fundamentalmente histórico vem sendo feito desde dos anos de 1970, e até hoje estão na ativa por novas descobertas.

Na pratica Saussuriana ele considera prioritário o estudo sincrônico porque o falante nativo não tem consciência da sucessão dos fatos da língua no tempo. Para o indivíduo que usa a língua como veículo de comunicação e interação social, essa sucessão não existe. A única e verdadeira realidade tangível que se lhe apresenta de forma imediata é a do estado sincrônico da língua. Além disso, como a relação entre o significante e o significado é arbitrária, estará continuamente sendo afetada pelo tempo, daí a necessidade de o estudo da língua ser prioritariamente sincrônico.

               A língua, portanto, será sempre sincronia e diacronia em qualquer momento de sua existência. O ponto de vista da ciência linguística é que poderá ser ou sincrônico ou diacrônico, dependendo do fim que se pretende atingir. E há determinados casos, por exemplo, em que a descrição sincrônica pode perfeitamente ser conjugada com a explicação diacrônica, enriquecendo-se, desse modo, a análise feita pelo linguista.

            Por exemplo, podemos descrever o verbo pôr como pertencente à segunda conjugação, apelando para as formas sincrônicas atuais pões, põe, puseste, etc., além dos adjetivos poente e poedeira, nos quais o -e- medial aí existente (ou remanescente) funciona estruturalmente como vogal temática. Ao mesmo tempo, podemos enriquecer a descrição sincrônica, complementando-a com a explicação diacrônica: o atual verbo pôr já foi representado pelo infinitivo arcaico poer, que, por sua vez, se vincula ao latim vulgar ponere, com a seguinte cadeia evolutiva: poněre > ponēre > poner > põer > poer > pôr. Então sob essa perspectiva, os pontos de vista sincrônico e diacrônico não são excludentes, ao contrário, são complementares. Seja como for, vale registrar que Saussure, deixando de se preocupar com o processo pelo qual as línguas se modificam, para tentar saber o modo como elas funcionam, deu, coerentemente, primazia ao estudo sincrônico, ponto de partida para a Linguística Geral e o chamado método estruturalista de análise da língua.

             Sendo a língua um sistema, é evidente a compreensão da forma como as unidades constitutivas desse sistema encontram-se relacionadas umas ás outras, porque para Saussure, tudo na sincronia se prende a dois eixos: o associativo paradigmático e o sintagmático. Quando se descreve essa s relações fica explicitado a organização dos elementos constituintes da estrutura linguística e o funcionamento do sistema.  Ao conhecer as relações sintagmáticas que se baseiam-se no caráter linear do signo linguístico, que exclui a possibilidade de pronunciar dois elementos ao mesmo tempo” (CLG, p. 142). A língua é formada de elementos que se sucedem um após outro linearmente, isto é, “na cadeia da fala” (CLG, p. 142). À relação entre esses elementos Saussure (CLG, p. 142) chama de sintagma. O sintagma se compõe sempre de duas ou mais unidades consecutivas, devemos portanto entender como sintagmáticas sendo um eixo horizontal de relações de sentido entre as unidades da cadeia falada, que se dão em presença, e eixo paradigmático, eixo vertical das relações virtuais entre as unidades comutáveis, que se dão em ausência, por exemplo: No eixo sintagmático abrem-se as relações que pertencem ao domínio da fala, os elementos que constituem o enunciado, Estou a comer; estão em uma relação sintagmática, a segunda, pertence ao domínio da língua comer   está em relação paradigmática pois a palavra comer está em relação a: Ingerir algum alimento, consumir, porem apenas um destes elementos pode ser válido no enunciado.  Neste caso, todas as palavras podem ser comutáveis, dependendo do contexto e da natureza do enunciado. Assim, no enunciado Estou a comer, podemos mudar as palavras estou à por quero, vou, sei, etc.; e o elemento comer pode ser comutado por querer, fazer, e etc. Diz-se que todos estes elementos substituíveis estão em relação paradigmática. Estas relações sintagmáticas e paradigmáticas não se limitam ao nível lexical ou gramatical do signo, mas abrangem também o nível fonológico. O que acontece é que os elementos da língua nunca estão isolados em nossa memória. Eles são armazenados de determinados traços que os caracterizam, como estrutura, classe gramatical, tipo semântico, entre outros, (MARTELOTA, p. 122).

               O paradigma é um tipo de “banco de reservas” da língua, um conjunto de unidades que precisam aparecer num mesmo contexto.  Sendo assim, as unidades do paradigma se opõem, pois uma exclui a outra: se uma está presente, as outras estão ausentes.  É a chamado de oposição distintiva, que estabelece a diferença entre signos como fada e faca ou entre formas verbais como amava e amara, formados a partir da oposição sonoridade, não-sonoridade e pretérito imperfeito. A objetividade de paradigma é a ideia de relação entre unidades alternativas, é uma espécie de reserva virtual da língua.

              O sintagmático é “a combinação de pequenas formas numa unidade linguística, tratando de relações, dependência e função. Onde o que existe em essência é a reciprocidade, a coexistência ou solidariedade entre as palavras presentes na fala, essas relações sintagmáticas existem a nosso ver, em todos os planos da língua: fônico, mórfico e sintático. No nível fonológico as unidades se combinam para formar as silabas, no nível morfológico, os morfemas se unem para formar as palavras e no nível sintático, as palavras combinam para formar frases.

Considerações Finais

               O percurso reflexivo sobre a teoria Saussuriana da linguagem como podemos perceber, é de essencial importância, compreendermos a diferenciação entre “língua”, “linguagem” e “fala” que está presente tanto no CLG como nos Manuais de linguísticas. A funcionalidade dos momentos históricos conhecendo sincronicamente os momentos linguísticos com base em relações opositivas (paradigmáticas) no sistema e contrativas (sintagmáticas).  Que tendo como ponto de partida inicial as matrizes contidas no Curso de linguística geral, em seguida formaram-se várias escolas estruturalistas (fonológica de Praga, estilística de Genebra, funcionalista de Paris, glossemática de Copenhague), que deram sequência e continuidade ao pensamento inacabado do genial fundador da Linguística moderna Ferdinand Saussure.

                Dessa forma podemos ver a visão do estudo da língua   como um sistema semiológico, a teoria do signo, com seus dois princípios fundamentais: arbitrariedade / linearidade, a diferença entre sincronia (funcionamento) e diacronia (evolução), a distinção fonética / fonologia, fone / fonema, a dupla articulação da linguagem, sendo assim demostrado o valor linguístico que consiste no princípio que explica o funcionamento da língua enquanto sistema, e que envolve todas as outras noções saussurianas.

              Por fim, percebemos a complexidade e heterogeneidade que são questões constitutivas da linguagem humana.  Desse modo, apesar da língua ser um sistema abstrato, ela também reflete o que lhe é exterior e essa exterioridade tem lugar, de um modo ou de outro em tais estudos tanto em um viés funcionalista e pragmático quanto na análise do discurso, ou em outras pesquisas tendo em vista que a definição de língua é essencial para a existência, e é de grande valor tal conhecimento, uma vez que o valor linguístico só funciona dentro do sistema. Por outro lado, a língua, tal como é definida por Saussure no CLG, ou seja, como um sistema de signos de ordem própria, é totalmente dependente da noção do valor, visto ser ele o elemento que proporciona à língua essa ordem própria que lhe é inerente.

 

Referencias 

Livro: Manual de linguística (MARTELOTTA)

Livro: CLG. Curso de linguística Geral, (SAUSSURE).

Apostila: As contribuições de Saussure

Apostila: Introdução a linguística (FLORENCE CARBONI)

https://www.infoescola.com/linguistica/sincronia-e-diacronia/

https://www.ebiografia.com/ferdinand_de_saussure/

https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/gramatica/paradigma-sintagma.htm