Inicialmente, devemos definir o que é cultura. Em um sentido lato, é toda forma de produção e manifestação artística ou intelectual de determinada civilização, dando-lhe, desta forma, uma identidade única que a distingue das demais, caracterizando-a e individualizando-a por completo. Assim, cabe afirmar que a cultura se manifesta por meio da literatura, filosofia, valores políticos, forma de economia, artesanato, música e outras formas de expressão, em especial a religião – notadamente quando falamos a respeito da Baixa Idade Média na Europa Ocidental (c. 1.000 d.C. – 1453 d.C.).

Tecidas essas considerações, passemos ao cerne da questão: no mencionado período houve rupturas ou diálogos entre a cultura popular (dos leigos, vulgar e transmitida oralmente de geração em geração) e a erudita (da elite intelectual, formada por nobres e homens da Igreja), que eram as duas vertentes em que estava dividida? Cremos que diálogos.

Devemos admitir que, na Baixa Idade Média Europeia Ocidental, a reocupação e o surgimento, respectivamente, de antigas e novas cidades em virtude das melhores condições de vida que as outrora oferecidas, por meio do aparecimento, dentre outras conquistas, de excedentes agrícolas produzidos pelos servos - de quem os senhores feudais também cobravam tributos extorsivos em moedas de cunhagem cada vez mais centralizada -  fez com que estes mesmos excedentes passassem a ser vendidos pelos ditos senhores, bem como pela Igreja (proprietária de terras e de servos) para que pudessem, ambos, obter os produtos orientais de luxo que tanto desejavam.

Tal fato, voltamos a dizer, aliado a outros, como o surgimento das "feiras" – nas quais se vendia produtos de boa parte do mundo conhecido, e onde se apresentavam músicos, pintores, acrobatas e outros artistas dos mais diferentes rincões - propiciou o fortalecimento e o florescimento do comércio e de culturas heréticas em solo europeu ocidental, por meio de previsíveis e consequentes ondas de migrações, tanto de fora do continente quanto de servos que fugiam de seus senhores em busca de uma vida melhor nas cidades.

Ali, com a reocupação houve o surgimento de várias e diversas cidades diante de castelos, mosteiros e igrejas, bem como a seguinte integração – ou diálogo – entre as referidas culturas populares, na maior parte inofensivas, e a erudita: afinal, com essa maior prosperidade (apesar de forjada num sistema eminentemente cruel), não havia por que persegui-las, já que o contexto econômico e político então presente ratificava a máxima eclesiástica de que se vivia num mundo onde “uns rezam, outros trabalham e outros guerreiam”, eis que, deste modo, os interesses dos senhores e da Igreja estariam garantidos. Portanto, quase todos concordavam com mencionada doutrina, motivo pelo qual se deve falar em diálogos (ainda que forçosamente), e não rupturas entre as culturas popular e erudita.

Tal é corroborado pelo aumento do fluxo de fiéis das igrejas nas cidades, como natural decorrência de uma maior proximidade geográfica, naturalmente surgida com o retorno da vida urbana. Os diálogos entre as culturas popular e erudita prevaleciam, especialmente na ideia do imobilismo social, descrita no último parágrafo.

Mas os ricos e nobres também estavam sujeitos ao poder da Igreja, não obstante o imobilismo que os beneficiava. Tinham medo de que suas almas não viessem a alcançar o Reino dos Céus quando morressem. Por isso, financiavam as construções de várias catedrais, Ocidente adentro, para serem frequentadas por todos quantos quisessem. Nestas gigantes basílicas, as principais características eram a erudição das obras de arte representando a saga e o sacrifício de Cristo e de muitos santos, por meio de gravuras, pinturas e esculturas, bem como pela presença de alta luminosidade, em especial quando a luz atravessava os vitrais de diferentes cores, delatando a presença e o conforto de Deus. Os fiéis, que eram, na sua maior parte, iletrados - sendo esse o motivo por que não lutavam contra o imobilismo social ora imposto - ficavam maravilhados com as mencionadas construções, e, em relação a elas, as tinham como prova da existência do deus cristão, a quem era devida obediência por meio de sua representante máxima, a Igreja Católica Romana, legitimadora do sistema feudal e suas imposições.

Desta maneira, cremos que não houve qualquer ruptura entre as culturas popular e erudita, mas, sim, diálogos, ou melhor, integração visando a manutenção do sistema econômico lá existente.

Mas, apesar do diálogo entre eruditos nobres e católicos e as crenças populares heréticas  que não representavam ameaça ao modelo então dominante, era patente a força de muçulmanos na Península Ibérica e dos pagãos cátaros provenientes da Europa Oriental – mais especificamente do que um dia se tornaria a Bulgária – e albigenses. Para essas regiões foram organizadas expedições militares a fim de expulsá-los, de modo a impor a fé católica num território que a Igreja considerava como de sua exclusiva influência. E, obviamente, não podemos esquecer as Cruzadas, que durante quase duzentos anos, desde 1096, tentaram expulsar os muçulmanos da Cidade Sagrada de Jerusalém, e cujos resultados, após cerca de dois séculos, foram bastante questionáveis, independentemente da inegável expansão da Cristandade romana nos territórios supramencionados.

Portanto, a ruptura ocorreu entre os eruditos católicos e de outras religiões, e não entre aqueles que, apesar de pagãos e heréticos, não representavam oposição à estrutura social lá dominante.