1. INTRODUÇÃO 

A História não é uma ciência exata. Ainda que ela suscite muitos debates entre os eruditos (principalmente historiadores e arqueólogos, bem como filósofos e sociólogos), os mesmos, desejosos de convencer os respectivos pares e interlocutores de suas teorias, devem fundamentá-las nas evidências documentais e arqueológicas até aqui existentes e descobertas. Como parte do conhecimento científico que é, a contínua escrita e reescrita de tempos pretéritos depende de provas empíricas. E tal vale, obviamente, para o período que se denomina Alta Idade Média. Cronologicamente situada entre o fim da Antiguidade Tardia, ocorrido com a Queda do Império Romano do Ocidente, em 476, e a época havida em torno do ano 1.000, a Alta Idade Média sempre foi alvo de fascínio por parte de estudiosos e público em geral - em especial quando se verifica que ela não teria acontecido da forma que sabemos, e, por consequência, o mundo de hoje seria totalmente diferente - se vários de seus comprovados protagonistas não tivessem existido, ou, mesmo existindo, tomassem atitudes completamente diferentes das que foram contadas e provadas. É como lançar uma pedra em um lago: o impacto na água se irradia em todas as direções, de idêntico modo que alguma decisão específica de uma personagem histórica, por mais remota que seja sua época, impacta o futuro mais distante, positiva ou negativamente. Isso porque a história pessoal de cada um daqueles protagonistas, em algum momento e por conta da realização de feitos únicos, se confundiu com a própria História da nossa civilização. E tal se aplica ao líder dos francos, Carlos Magno (2 de abril de 742 — Aachen, 28 de janeiro de 814), cujo contexto de vida é o tópico principal deste artigo. Claro que o presente artigo não possui a pretensão de esgotar o aludido tema em um breve compêndio de apenas 16 (dezesseis) páginas. “Não se trata de um resumo. Não se pode simplesmente condensar a História geral reduzindo páginas a parágrafos e parágrafos a frases. Quando se apresenta as principais linhas num espaço menor, os tópicos precisam ser distribuídos de modo diferente, às vezes em sequências diferentes” (ROBERTS, 2005, p. 15). Como a História de Carlos Magno se confunde com a do mundo (notoriamente a da civilização cristã ocidental), se tratará, inicialmente, de fatos que antecedem sua vida, a fim de posteriormente situá-la no contexto geral em que a mesma se passou, visto que é impossível argumentar sobre o dito líder sem entender o porquê de suas ações, e sempre seguindo a linha de raciocínio de ROBERTS.