Cassinda – a pequena cientista (conto infantojuvenil)

- Mamã, o que significa o meu nome "Cassinda"?

- O teu nome é atribuído a uma pessoa que nasce depois de gémeos, filha, isto na nossa cultura ovimbundo.

Explicou a mãe. Mas prosseguiu com as questões a menina.

- Mamã, e por que razão as letras do carro dos bombeiros estão sempre ao contrário?

- Não sei, pergunta ao teu pai! Dizia a senhora à Cassinda.

- Papá, diz-me a razão de a palavra “bombeiros” estar sempre ao contrário, nos carros!

- Ó minha filha, eu também não sei, pergunta à tua professora!

Repassava o pai de Cassinda a dúvida para que outra pessoa a satisfizesse. Como a pergunta fora feita num fim-de-semana, a menina esperou pela segunda-feira, na escola. Guardou-a para a fazer à professora mal a visse. Viu-a e fê-la. Mas a professora também desconhecia a resposta precisa. Obtendo aquela resposta ou não, nasciam mais dúvidas na cabecinha da aluna, filha e curiosa. Entristecia-se. Sabendo que não lhe podiam dar as respostas que queria, guardava muitas questões.

- Mãe, porque é que o avião fica no ar sem cair? – Indagou à sua mãe.

- Tu és muito chata, está aí o teu pai, pergunta-lhe isto!

- Fica no ar porque tem asas, filha.

Era o pai a responder, sem saber se estava certo tão certo. Não satisfeita, perguntou a muitas pessoas e as respostas eram sempre:

- As estrelas piscam porque sim. Isso acontece porque sim. Aquilo acontece porque sim.

Já triste, muito zangada, por lhe chamarem teimosa e chata, um dia, enquanto sonhava na sua caminha aconchegante, apareceu uma fada que a iluminou tanto, tanto, tanto, que até sorria dormindo. Conversaram que conversaram!

- Fada, uma última pergunta. Qual é o teu nome?

Perguntou a menina, no sonho. E teve resposta. De manhã, muito, muito, muito cedinho, felicíssima, acordou a mãe e disse-lhe muitas coisas:

 - Mamã, para que, na via pública, os condutores dos carros da frente consigam ler, pelo retrovisor, a palavra “bombeiros” e assim possam encostar-se à faixa mais à direita e deixarem o carro urgente passar, é preciso que a palavra esteja ao contrário.

A mãe sorriu e depois voltou a contar tudo ao pai, quando este voltou duma viagem de trabalho.

- A tua filha parece que vai ser cientista. Ela disse-me que o avião voava e ficava no ar por causa das asas largas que o equilibram e das hélices ou ventoinhas no seu sistema interno. Disse-me que o avião é bicudo para que consiga vencer e cortar a massa de ar e voar sem dificuldades.

Depois, era a professora Júlia que ficara surpreendida com o que acabara de ouvir e chamou todos os colegas de Cassinda e outros professores.

- Oiçam-na, ela tem algo a nos dizer! Interveio a professora.

- Na verdade, as estrelas são astros que ficam a muitos e muitos quilómetros da Terra, anos-luz, e elas cintilam, quer dizer, brilham. Ao brilharem na nossa direcção, a luz atravessa a atmosfera, que é composta por camadas de ar, mas estas camadas de ar movimentam-se como o vento. Por as estrelas serem menores do que outros astros, temos a percepção de que elas piscam, embora sejam as suas luzes que parecem balançar. Por exemplo, se eu, no escuro, colocar uma lâmpada muito pequena nas minhas mãos e tapá-la, deixando só um furo por onde sairia um fio de luz, quando eu fizer o movimento de fecha-e-abre, abre-e-fecha, com as mãos, parecerá a lâmpada a piscar, mas não. A sua luz estaria na mesma, o meu movimento das mãos é que daria a entender que ela pisca.  

E todos – mas todinhos, aplaudiram-na de pé, apesar de se perguntarem como é que ela, de uma hora para outra, tão pequena, sabia tanto. Daí em diante, as meninas e os meninos queriam ser também curiosos e saber muito sobre ciências. Queriam ser como ela, andar, ficar e estudar com ela. Uns queriam ser engenheiros, outros queriam ser inventores e inventoras, cientistas, médicos e médicas.

Quando Cassinda voltou a casa, os pais chamaram-na e perguntaram:

- Filhinha, estamos muitos orgulhosos de ti. Mas quem é a fada com quem tens sonhado sempre, qual é o nome dela?

E Cassinda apenas sorriu, mas não disse nada, preferiu manter o segredo. Nunca disse o nome a alguém, mesmo depois de crescer e ter virado uma cientista e inventora. A única pessoa a quem ela confessou é a pessoa que leu e ouviu esta estória até ao fim: «o nome da fada era Marie Curie».

 

Hilton Fortuna Daniel, Luanda, 2018. http://cassinda a pequena cientista hilton fortuna daniel