Partindo da análise feita pelo ensaísta Carlos Nelson Coutinho em seu livro “Cultura e Sociedade no Brasil“, o transplante por uma classe progressista e anti-colonial, para o Brasil, de uma corrente cultural avançada, contribuiu para formar no país uma consciência social efetivamente nacional-popular, contrária ao nosso espírito de dependência do período colonial.

A capacidade de pensar pertencia às classes dominantes, e estas se sujeitavam a metrópole portuguesa, ou a ligação desta com a igreja romana, no caso dos agentes religiosos. Contanto, até a transição para o modo capitalista de produção, as ideias progressistas europeias assimiladas pelas classes anticoloniais estavam deslocadas de nossa realidade.

As conciliações das novas ideias com o modo de produção vigente se deram “à prussiana” (pelo alto). E dado que o local e instrumento de conciliação dessas classes foi sempre o estado verificou-se um fortalecimento da sociedade política em detrimento da sociedade civil. Houve um deslocamento tão relevante da tribuna onde são feitas as negociações pelos líderes do pátio de lutas por hegemonia, dos grupos sociais representados por eles, quanto o descrédito das massas na classe política, exceto em seus políticos preferidos, ou seja, “o meu candidato me representa, o resto dos políticos só o impede de trabalhar” – daí surge termos pejorativos como ‘toma-lá-dá-cá’ para designar as articulações políticas. Os resultados desta separação das sociedades em andares, em sociedades paralelas sobrepostas, sobre determinam as relações entre os intelectuais e as classes sociais.

Cada um dos grupos da sociedade civil se une através de ideais comuns e elegem cabeças que sintetizam a cartilha com a qual todos os membros comungam, cujas propostas são levadas ao espaço de debate público, que os guiam em suas ações, e que dialoga com outros grupos sociais, e são levados ao andar de cima; são eleitos ao mundo político e lá negociam pelos interesses de suas classes; são os intelectuais de suas classes.

Bolsonaro é o intelectual de sua classe, que não é necessariamente a dos cristãos, dos patriotas, dos militares, dos trabalhadores, mas daqueles dentre esses que se identificam com suas ideias, com sua personalidade, os “Bolsonaristas”. Ora, será Bolsonaro um intelectual, sendo totalmente despreparado como o é?

Precisamos delimitar e diferenciar o que é a inteligência. Entendo-a como a capacidade que se tem de utilizar todos os conhecimentos que se tem para decidir, opinar, lidar com as suas ocasiões. Logo, o inteligente pode ser o que mais tem conhecimento, e portanto, aquele que tem mais elementos para utilizar. Porém, me parece que minha mãe aos 75 anos de idade, dona de casa, é mais inteligente que eu aos 18 anos, estudante do ensino médio; muito embora tenha ela concluído apenas o fundamental. Já pesquisei e ela não sabe calcular a variação percentual do preço da cesta básica do início do governo atual(2019) até agora, embora saiba elaborar uma lista de compras, alterá-la improvisadamente na hora da compra, de acordo com os preços, e a medida certa de refeição de cada dia. É fato a existência de vários tipo s de conhecimento além do científico, e que minha mãe apreendeu durante sua vida saberes que são uteis no seu dia-a-dia, e eu conheço muitos que não o são no meu. Logo, as várias situações demandam diferentes conhecimentos, portanto, diferentes inteligências. Talvez eu tenha uma inteligência pura, ideal, cientificamente respaldada, e ela, uma concreta, útil no dia-a-dia de uma dona de casa.

Bolsonaro, certamente não tem uma inteligência para lidar com as exigências da função de chefe de estado, mas é inteligente o suficiente para mobilizar massas de acordo com suas ideias esdrúxulas e intenções amorais.