Introdução. 

      Nos  últimos três anos (2008-2011), atuando como professor de Comunicação e Expressão em Língua Portuguesa em contextos de ensino e educação tecnológica, tenho-me deparado com artigos de opinião e artigos científicos de revistas da área de Administração de Empresas que tratam sobre a temática  do perfil atual do empreendedor  brasileiro no mercado. 

      Nesses artigos, o que me chama a atenção é a forma com que os autores da área vêm significando a expressão jeitinho brasileiro quando os objetivos são os de  especificar as características do empreendedor na atualidade e os de criar uma interface de sentidos entre os significados do jeitinho brasileiro (Da Matta,1979) e os significados que definem o perfil do empreendedor (Torres,1973.), sobretudo o de pequenas e médias empresas. 

      Esses artigos têm-se fundamentado, para tanto, na história da cultura brasileira. Em especial, o binômio “casa grande-senzala”(Freire,2000) aparece como mola propulsora de discussões a respeito das relações sociais que se estabelecem nas organizações e que afetam direta e/ou indiretamente o comportamento daqueles que dela fazem parte. 

      Nas discussões sobre relações e  comportamentos organizacionais, em discursos de revistas empresariais, a expressão jeitinho brasileiro parece ganhar destaque e ser enfatizada nos textos de circulação acadêmica, em uma justaposição de sentidos histórico-sociais legitimados e sentidos atuais produzidos pelos discursos do mercado e pelo discurso empresarial. 

      Assim, neste trabalho, organizo uma discussão sobre como a expressão jeitinho brasileiro se apresenta em um artigo da área e que significados são atribuídos a ela a partir desses objetivos específicos dos autores que a utilizam em seu texto. 

     Esta análise se pauta nas teorias que discutem a língua portuguesa a partir da linguagem do mercado (Zoppi-Fontana, 2009; Diniz,2010), na expressão jeitinho brasileiro, tal como se apresenta neste acontecimento da linguagem (Guimarães,2005), específico em um texto da área de Administração de Empresas  e também no estudo sobre língua política (Zancarini, Fourniel, Descendre, 2008). 

Deslocamentos de sentido da expressão jeitinho brasileiro.

     O objeto de análise deste trabalho é o texto: A relação entre o jeitinho brasileiro e o perfil do empreendedor: possíveis interfaces no contexto da atividade empreendedora, de José Pedro Penteado Pedroso, Marcia Shizue Massukado-Nakatani e Fabricio Baron Mussi, publicado na Revista de Administração Mackenzie, vol. 10, n.4, São Paulo/SP, Jul.Ago,2009–ISBN1678-1971,http://www3.mackenzie.br/editora/index.php/RAM/article/viewFile/549/1097, acessado em 11/07/2011, as 14h00.

      No artigo há várias definições utilizadas pelos autores para atribuírem alguns sentidos à expressão jeitinho brasileiro. Para efeitos da análise que pretendo desenvolver, exponho apenas algumas necessárias para tal raciocínio: 

      “Para Guerreiro Ramos (1983), o jeitinho é uma categoria central da sociedade brasileira, apesar de comum a outros países latino-americanos, por possuir raiz no formalismo. Segundo Campos (1966), o jeitinho não é instituição legal nem ilegal, é simplesmente paralegal. Suas raízes estão ligadas a três fatores principais: a origem histórica, atitudes relacionadas às leis e aos fatos sociais, e a atitude religiosa. O estudo de Rosenn (1971) foi classificado como o mais minucioso de todos, em que o autor destaca cinco tipos diferentes de jeitinhos e afirma que a cultura legal e formalista, originária da monarquia portuguesa e da Igreja Católica, permeia a sociedade brasileira e estimula o jeito. Torres (1973) destaca que o jeito é uma maneira de ser peculiarmente brasileira, fruto de condições históricas particulares que permitiram a criação desse tipo de filosofia de vida. Traduz-se na capacidade de adaptação a situações inesperadas ou difíceis e demonstra a criatividade, improvisação e esperteza do brasileiro. O autor cita nosso caráter mestiço como um dos fatores responsáveis pelo jeitinho. DaMatta (1979) afirma que o dilema do brasileiro consiste em separar o interesse pessoal do interesse público, as leis da casa das leis da rua.De igual forma, Shimonishi e Machado-da-Silva (2003) apresentam uma concepção positiva como indicadores da presença do jeitinho. Segundo os autores, a flexibilidade, a rapidez, a improvisação, fazer vista grossa, arranjar um padrinho e quebrar os galhos são aspectos positivos do jeitinho.” ( p. 106). 

      A partir dessas definições, procuro analisar os sentidos produzidos por elas no interior do texto/objeto de análise deste trabalho. 

      a-) O primeiro aspecto que chama minha atenção sobre essas definições é a forma como são conduzidas no texto, partindo primeiramente de sentidos atribuídos à expressão pela perspectiva sociológica, tais como: “categoria central da sociedade brasileira”,“instituição paralegal”, “maneira de ser peculiarmente brasileira”,  cujo enfoque principal parece ser o da “antiética da vantagem” (Ferreira,2003:69),o da malandragem e o da facilitação à corrupção. 

      Em seguida, a partir da definição de Torres (1973), os enunciados produzem as definições por meio de expressões e palavras como “condições históricas”, “filosofia de vida”, e, a partir de Shimonishi e Machado-daSilva(2003), como “criatividade, esperteza e improvisação”,“rapidez”,“flexibilidade” e, ainda, segundo Motta (1997, p.34) “o jeitinho brasileiro é uma prática social que implica personalizar relações por meio da descoberta de um time de futebol comum ou uma cidade natal comum, ou ainda de um interesse qualquer.”   

      Os sentidos, dessa vez, se movimentam em direção às qualidades do jeitinho, cujas habilidades de sobreviver em situações inesperadas e personalizar relações pela identificação de culturas semelhantes são tidas também como condições históricas e filosofias de vida para o perfil do empreendedor no atual momento histórico.

    b-) O segundo aspecto importante para minha análise é a forma com que os autores do texto tratam os sentidos que essas definições produzem, nas citações, para o que querem desenvolver em seu artigo.

      Os autores afirmam (p.107) que “o jeitinho é sempre uma forma especial de resolver algum problema, uma situação difícil ou proibida, ou uma situação de emergência, seja sob a forma de conciliação, esperteza ou habilidade. Portanto, para que uma determinada situação seja considerada jeito, necessita-se de um acontecimento imprevisto e adverso aos objetivos do indivíduo.”,ou ainda, em outra passagem interpretadas por eles, “segundo os autores, a flexibilidade, a rapidez, a improvisação, fazer vista grossa, arranjar um padrinho e quebrar os galhos são aspectos positivos do jeitinho(p.108).

      Além disso,expõem um quadro comparativo acerca dos desdobramentos de sentido da expressão jeitinho brasileiro, analisados por eles a partir  das citações dos autores referenciados em seu texto. Eles organizam esse quadro de maneira didática para expor  do que chamam de desdobramentos da expressão jeitinho brasileiro entre os aspectos positivos e negativos (P.108) :

DESDOBRAMENTOS POSITIVOS DO JEITINHO

• Criatividade e inovação

• Iniciativa para mudança (de determinada

situação) e habilidade de resolução de problemas

. Enfrentamento de problemas

• Habilidade de persuasão e conciliação

(negociação)

• Adaptabilidade e flexibilidade

• Habilidade no relacionamento pessoal

• Capacidade de improvisação

• Tendência à inadequação a normas

DESDOBRAMENTOS NEGATIVOS DO JEITINHO

• Propensão a corromper ou a ser corrompido

. Tendência a facilitar a corrupção

• Tendência ao uso de recurso de poder

• Alienação (tendência a se deixar ser manipulado)

 

Fonte: Elaborado pelos autores com base na revisão da literatura.

       c-) E,finalmente, na conclusão do texto/objeto, a expressão jeitinho brasileiro é tratada como “peculiaridade da cultura brasileira que pode emergir de situações diversas, até mesmo nas atividades de um empreendedor”(p.126), e os seus desdobramentos como objetos de estudo para a capacidade explicativa de pesquisas sobre o perfil do empreendedor no Brasil.

      Assim, o que se percebe é que a expressão jeitinho brasileiro justapõe e aglutina uma série de significados, produzidos por discursos da atualidade, a respeito das relações de trabalho, de empreendedorismo e de mercado, em que os sentidos se deslocam a partir da inserção da língua em determinados espaços de enunciação, “espaços de funcionamento de línguas, que se dividem, re-dividem, se misturam, desfazem, transformam por uma disputa incessante” (Guimarães, 2005:10).    

      O diminutivo da palavra permanece, segundo Ferreira (2003:77) “apontando uma cumplicidade do sujeito de discurso”,  e para “a filosofia da vantagem e da ética da malandragem”, da simpática e alegre maneira de ser e lidar com o mundo. Os sentidos da expressão deslocam-se em direção a uma concepção de cultura da criatividade, da adaptação, da flexibilidade, da agilidade e de planos de contingência. 

      Não se apagam  os sentidos da expressão jeitinho brasileiro, produzidos em outros espaços de enunciação, como textos de História, a Sociologia ou a Antropologia, por exemplo.

      Os  sentidos produzidos a partir dessas definições (ou tentativas de conceituar a expressão) aparecem atrelados à linguagem do mercado, historicamente construída a partir do discurso da mercantilização da língua e da cultura  e que, segundo Diniz ( 2010:121), “se, em outras condições de produção, “ o valor” de uma língua se dava de acordo com o saber que lhe era suposto, a partir de referências culturais legitimadas em uma dada comunidade, nas atuais condições sócio-históricas, esse valor é construído segundo o potencial econômico a que – real ou imaginariamente – ela está associada”.   

      Nesses deslocamentos aparecem, pelos enunciados aqui analisados, os sentidos de que a expressão jeitinho brasileiro acompanha o que a linguagem de mercado tem incentivado a respeito da produção contemporânea da imagem do brasileiro e do Brasil aos olhos do mercado nacional e internacional : “a imagem de um país em ascensão econômica vertiginosa, em que a língua e a cultura aparecem como moedas de compra e venda.” (Savedra, 2005:178), e em que  “o valor de uma língua  se relaciona com sua capacidade de incentivar intercâmbios econômicos. Isso representa a capitalização linguística.” (Zoppi-Fontana. 2009:33). 

Considerações finais. 

     Ao lado de caracterizações históricas, sociológicas e antropológicas, referências culturais legitimadas, acerca dos sentidos da expressão jeitinho brasileiro, este trabalho procurou evidenciar as relações de deslocamento de sentidos dela,  pela enunciação em espaços específicos, como uma Revista de Administração, pelas injunções de mercado (Zoppi-Fontana,2009). Segundo a autora (p.87), “essa discursividade, que funciona a partir do imaginário do Brasil no mundo, não apenas afeta o imaginário da língua portuguesa, mas reconfigura os espaços de enunciação”.

      Assim considero que alguns enunciados do texto/objeto  produzem os deslocamentos de sentidos à expressão jeitinho brasileiro. Por exemplo:

a-) Os enunciados criatividade, esperteza e flexibilidade apontam para a linguagem do mercado, no sentido de que essas expressões são utilizadas frequentemente para evidenciar características do perfil de um empreendedor de sucesso na área organizacional ( Kassai, 2009).

b-) Os enunciados condições históricas e filosofia de vida aparecem, no funcionamento da linguagem, expressando, além de seus sentidos mais universais, outros mais pontuais e específicos deste acontecimento da linguagem : os de que, antes de se pensar em características atuais de um empreendedor individual de sucesso, é preciso pensar na história de sua cultura e nas consequências que essa história trouxe e traz para o modo com o qual esse empreendedor enxerga as relações sociais  e econômicas no mercado do empreendedorismo.

      A expressão jeitinho brasileiro, então, parece oscilar entre os sentidos das definições mais universais e mais clássicas  dela e os de caráter mais mercadológico da cultura e da língua e, portanto, mais específicos de enunciação, em  que, segundo Guimarães (2005:p.10), “ cada espaço de enunciação tem sua regulamentação específica.”

      E do acontecimento da linguagem (Guimarães, 2005)  emergem as ambiguidades e as ambivalências da polissemia da expressão no atual momento histórico, possível efeito da força política que a expressão ganha ante o status econômico do Brasil no cenário mundial e ante os discursos que o acompanham, na materialidade histórica dos acontecimentos e na  da própria língua que, segundo Fourniel e Zancarini ( 2008:66),  aparece “ mimada pela conjunção das agitações da conjuntura com a novidade do instrumento utilizado (a língua vulgar)”.

      Nesse sentido, neste trabalho, procuro evidenciar alguns dos deslocamentos atuais de sentidos da expressão jeitinho brasileiro, em acontecimentos da linguagem e em contextos específicos de produção, não só no sentido da sincronia, ou seja, um conjunto determinado de elementos considerados na história da língua,  mas também no da diacronia (Sausurre,1976), ou seja, na autonomia que a língua tem de se modificar na história, em condições materialmente determinadas. 

Referências. 

DINIZ. Leandro Rodrigues A. Mercado de línguas. SP: RG.2010.

FERREIRA. Maria Cristina Leandro. A antiética da vantagem e do jeitinho na terra em que Deus é brasileiro (o funcionamento discursivo do clichê no processa da constituição de brasilidade). IN. ORLANDI. Eni P. Discurso Fundador: a formação do país e a construção da identidade nacional. SP:Pontes.3ª.edição.2003. 

GUIMARÃES. Eduardo. Os limites do sentido: um estudo histórico e enunciativo da linguagem. SP: RG Editora, 4ª. edição. 2010. 

GUIMARÃES. Eduardo. Semântica do Acontecimento. SP: RG Editora. 2ª. edição. 2005 

KASSAI José Roberto. O perfil do empreendedor. IN. Pequenas Empresas. SEBRAE. 2009. 

ORLANDI. Eni P. História das Ideias Linguísticas: Construção do saber metalinguístico e constituição da Língua Nacional. SP: Pontes. 2001. 

________________.  Língua Brasileira e Outras Histórias: discurso sobre a língua e ensino no Brasil. SP: RG Editora. 2009. 

PEDROSO José P.P.;NAKATANI. Márcia S.; MUSSI. Fabrício B. A relação entre o jeitinho brasileiro e o perfil do empreendedor: possíveis interfaces no contexto da atividade empreendedora  IN.  Revista de Administração Mackenzie, vol. 10, n.4, São Paulo/SP, Jul.Ago, 2009–ISBN1678-6971, http://www3.mackenzie.br/editora/index.php/RAM/article/viewFile/549/1097, em 11/07/2011, às 14h00. 

SAVEDRA. Monica Maria G.  O português no mercosul. Cadernos de Letras da UFF. N.39.2009.p.175-284

ZACARINI.Jean-Claude;FOURNIEL Jean- A civilità em Florença no tempo das guerras da Itália: “ Alma da cidade” ou “ Espécie de Tolice”? IN. ZACARINI.Jean-Claude;FOURNIEL Jean Louis; DESCENDRE. Romain. Estudos sobre língua política: Filologia e política em Florença do século XVI. SP: RG Editora., 2008. 

ZOPPI-SANTANA. Mônica G.. O português do Brasil como língua transnacional. SP:RG. 2009.