Resumo

O presente artigo propõe refletir sobre o livro O perfume ˗ A história de um assassino, de Patrick Süskind, que narra a vida de Jean Baptiste Grenouille, em que, numa tentativa de aborto, sua mãe é descoberta por causa do choro dele e, assim, enforcada pelo seu crime. A partir daí, sua vida passa a ser uma peregrinação, lutando para sobreviver em ambiente que sempre lhe é hostil. Pretende-se refletir sobre alguns conceitos da teoria de Winnicott, tais como a mãe suficientemente boa como suporte para o bebê, o olhar da mãe como espelho que projeta no bebê a sua imagem, a ilusão de onipotência na construção psique/soma, a “não integração” e o comportamento antissocial como reação ao ambiente, e a incapacidade de subjetivação.

Palavras-chave: Winnicott, Amadurecimento, Ser, Perfume, Mãe, Ambiente.

Introdução

Winnicott faz uma mudança epistemológica [2] na psicanálise, tira do campo das ciências naturais, para uma psicologia científica, ao criar uma teoria do desenvolvimento emocional, onde o princípio do prazer e o princípio da realidade não são antagônicos, mas, sim, aliados do ambiente na formação do ser. Nessa abordagem, o ser humano carrega em si potencialidades para se desenvolver e se integrar, do estágio da dependência absoluta à autonomia, através da sustentação da “mãe suficientemente boa”.

Na antropologia winnicottiana, o bebê nasce com um conjunto desorganizado de pulsões, instintos, capacidades perceptivas e motoras que, conforme progride em seu desenvolvimento vai se integrando até alcançar uma imagem unificada de si e do mundo externo. Essa imagem é chamada de self.

1. A mãe suficientemente boa como suporte básico para o desenvolvimento do bebê

Jean Baptiste foi criado num ambiente insuficiente para o desenvolvimento do seu self, “não havia atividade humana, construtiva ou destrutiva, manifestação alguma de vida, a vicejar ou a fenecer, que fosse acompanhada de fedor” (SÜSKIND, 1985, p. 11). As condições de vida da sua mãe foram totalmente insuficientes para cuidar de uma criança, desde sua gravidez; tudo era desfavorável. Sua mãe “não percebia nem o cheiro dos peixes nem dos cadáveres (...) doía-lhe o corpo, e a dor tirava-lhe toda sensibilidade par sensações externas” (Idem, p. 11).

O nascimento de Jean Baptiste foi extremamente traumático, inimaginável para um ser humano, “nesse instante, contrariando as expectativas, a coisa recém-nascida começa a chorar debaixo da mesa de limpar peixe (...) procura-se, encontra-se o bebê num enxame de moscas e entre vísceras e de cabeça de peixe, é puxado para fora” (SÜSKIND, 1985, p. 12). Na teoria psicanalítica de Winnicott, é essencial que haja uma “mãe suficiente boa” e um ambiente que propicie ao bebê condições para o seu desenvolvimento.

Na contramão dessa realidade, Jean Baptiste foi uma criança que teve as piores condições possíveis para um desenvolvimento saudável do seu self: “ele é entregue a uma ama, a mãe é presa, poucas semanas mais tarde, é decapitada” (Idem, p. 12). Ele viveu sem ter lugar na existência, uma vida sem a sensação de pertencimento. Não recebeu afeto. Não conseguia ter amigos entre as crianças do orfanato. Desde o nascimento teve uma vida de rejeição e solidão.

2. O olhar da mãe e a ilusão de onipotência na construção da psique/soma

Winnicott diz que é essencial a relação mãe-bebê, de forma que “não existe bebê sem mãe e nem mãe sem bebê”. Nesse conceito, a existência de um só é possível na dialética com o outro. É uma simbiose, um amálgama. O psiquismo do bebê se forma na relação afetiva com a mãe. Ela é o espelho. Quando a mãe olha o bebê, ele se vê nela. As expressões e os sentimentos da mãe são internalizados no bebê.Winnicott 1975 (p.177) faz uma pergunta retórica:“o que vê o bebê quando olha para o rosto da mãe? Sugiro que, normalmente, o que o bebê vê é ele mesmo”. Jean Baptiste se encontrava como muitas crianças, que, de acordo com Winnicott (1975, p. 177), “olham e não se veem a si mesmos. Há consequências (...) sua própria capacidade criativa começa a atrofiar-se e, de uma ou de outra maneira, procuram outros meios de obter algo de si mesmos de volta, a partir do ambiente”.

Ele nunca teve um olhar de amor, nunca se viu no olhar de sua mãe, nem das pessoas que cuidaram dele. Sua vida era um incômodo desde o nascimento, “a criança já tinha trocado três vezes de ama. Nenhuma queria ficar com ela mais que por uns poucos dias” (SÜSKIND, 1985, p.13). Dessa forma, Jean Baptiste tem em seus olhos a ausência de um objeto, um olhar perdido, sem direção, sem lugar, “vazado”, que olha mas não vê o objeto do seu olhar, “... enquanto seus olhos mortiços se voltavam para o indefinido...” (SÜSKIND, 1985, p. 21).

Uma pessoa que desde bebê nunca foi amada e, por isso, não tinha capacidade de amar, era vazia. Um adulto na idade, mas uma criança na existência, nunca pôde devolver um olhar de amor por nunca ter recebido esse olhar. Por essa razão, tinha necessidade de ser visto, “queria externar o seu interior, nada mais que o seu interior, que ele considerava mais maravilhoso do que tudo o que o mundo externo tinha a lhe oferecer” (SÜSKIND, 1985, p. 96). O fenômeno da “ilusão de onipotência” é de extrema importância para a integração psique/soma do bebê, escreve Winnicott (1975, pp.26,27),“a adaptação da mãe às necessidades do bebê, quando suficientemente boa, dá a este a ilusão de que existe uma realidade externa correspondente à sua própria capacidade de criar”.

Jean Baptiste teve na construção da sua psique o que Winnicott chamou de “angústia impensável”. As sensações que teve num período da existência que não tinha capacidade de experienciar se agravaram ainda mais com a rotatividade de pessoas que cuidavam dele, dificultando seu desenvolvimento. Ele é descrito como insaciável: “dizia-se que era faminta demais, mamava por duas, tirava o leite das outras crianças” (SÜSKIND, 1985, p. 13). Sentia uma angústia extrema, afinal, nunca teve a “ilusão da onipotência”, aquela experiência de “criar a realidade”, a sensação de que suas necessidades seriam atendidas, sensações importantes que precisariam ser gravadas em sua psique para haver a integração do seu self.

Esse fenômeno é importante para desenvolver a autoconfiança do bebê, uma sustentação, até que gradativamente a mãe vá falhando aos poucos e, assim, a criança vai naturalmente perdendo essa ilusão e começa a aprendera lidar com a realidade. Contudo, essa falha não pode ser extrema, duradoura, para não causar danos ao psiquismo do bebê. Citando Winnicott, escreve FULGENCIO (2016, p. 81): “a psique se forma a partir do material fornecido pela elaboração imaginativa das funções corporais (que, por sua vez, depende da saúde e capacidade de um órgão específico – o cérebro)”.

O bebê elabora sobre o que ele vivencia no nível somático. O corpo e a psique têm uma tendência inata para a integração, contudo, não é automática. Para que seja concretizada essa integração, é preciso criar um ambiente acolhedor, que adapte o bebê. É preciso um processo no qual haja um “ambiente suficientemente bom” para que o bebê possa integrar suas fantasias e passar a ter a experiência de existir dentro de um corpo. Precisa de uma existência unificada, psique e soma.

Jean Baptiste é apresentado como alguém que teve falha nesse processo, não teve suporte para desenvolver a capacidade criativa. Ele é descrito da seguinte forma: “para a alma não precisava de nada. Calor humano, dedicação, delicadeza, amor ˗ ou seja lá como se chamam todas as coisas que dizem que uma criança precisa ˗ eram completamente dispensáveis para o menino Grenouille. Ou então, assim nos parece, ele as tinha tornado dispensáveis simplesmente para poder sobreviver” (SÜSKIND, 1985, p. 25).

3. A não integração e o comportamento antissocial como reação ao ambiente

Jean Baptiste, em seu total desamparo, não conseguiu integrar as dimensões psiquesoma. Ao não receber afeto, sua capacidade de sentir ficou desconectada do corpo. Suas ações eram destituídas da capacidade de correlacionar qualquer senso de moral, de certo ou errado: “tinha dificuldade com palavras que não designassem algo que cheirasse, portanto com conceitos abstratos, sobretudo de natureza ética e moral (...) ainda quando adulto ele os empregava sem satisfação e muitas vezes erroneamente: direito, consciência, deus, alegria, responsabilidade, humildade e gratidão etc. – o que com isso deveria ser expresso era e continuou sendo algo misterioso” (SÜSKIND, 1985, p.28).

No orfanato, aos seis anos de idade, apresentou comportamento antissocial: era introspectivo, incapaz de criar, de desenvolver o potencial criativo, “a atividade criativa de Grenouille se realizava somente em seu interior e não podia ser percebida por ninguém, exceto por ele mesmo. Externamente tornou-se cada vez mais fechado” (SÜSKIND, 1985,p. 29). Essa incapacidade de expressar a criatividade tem relação com a ausência da transitoriedade, efeito da fragmentação do seu mundo interno com o externo. Ele buscava o objeto transicional, “criar um perfume inigualável”˗ essa era a forma de obter segurança, ser amado. Uma tentativa de unificar o mundo interior com o exterior, “o que ambicionava era a fragrância de certas pessoas: daquelas, extremamente raras, que inspiravam amor (...) o que ele sempre havia desejado (...) que as outras pessoas o amassem” (SÜSKIND, 1985, pp.164, 205).

Madame Gaillard, dona do orfanato, descreve Jean Baptiste como possuidor de determinadas capacidades incomuns, “parecia-lhe completamente alheio o medo infantil do escuro e da noite” (SÜSKIND, 1985, p. 30). Era uma pessoa fria, insensível, “a consequente punição com a vara ele a suportava sem manifestações de dor. Prisão domiciliar, privação de comida, trabalho punitivo, nada conseguia alterar seu comportamento” (SÜSKIND, 1985, p.30).

A falta de sensibilidade emocional, “ausência do medo”, e física, “insensibilidade para sentir e expressar dor” se deu na quebra da continuidade do ser devido à faltadas mínimas condições para um desenvolvimento saudável, isso porque todo o comportamento antissocial,de acordo com Winnicott (2000, p.36), “carrega dentro de si a proclamação da necessidade original não preenchida”. O perfumista Baldini descreve a aparência de Jean Baptiste como uma postura defensiva, alguém que sempre esperava o pior do ambiente, sempre alerta, “o rosto de um jovem com olhos assustadiços (...) parecia até que se escondia atrás do braço estendido como alguém que espera pancadas” (SÜSKIND, 1985, p. 44).

Uma experiência marcante para Jean Baptiste foi sentir o perfume da primeira moça. Antes de matá-la, seu coração pulou. Ele sabia que não era pelo esforço de ter corrido, então concluiu, “mas o seu excitado desamparo diante da presença desse aroma. Procurou lembrar-se de alguma coisa comparável, e teve de desistir de todas as comparações” (SÜSKIND, 1985, p.40). Sua vida era destituída de alegria, sem o despertar da capacidade imaginativa. A excitação do coração é seguida pela descrição de “desamparo” diante do aroma, algo até então jamais sentido. Procurou lembrar se havia experimentado algo semelhante, mas preferiu “desistir de todas as comparações”.

4. Psicose, perversão e incapacidade de subjetivação

A primeira conquista que deu prazer a Jean Baptiste foi através de tirar uma vida, “que o início dessa maravilha tenha sido um assassinato isso lhe era, se de algum modo consciente, totalmente indiferente" (SÜSKIND, 1985, p. 44).

Na teoria winnicottiana, essa atitude é caracterizada como perversão: “o perverso busca curar-se de uma falta de integração egoica, resultante das falhas nos cuidados maternos que implica por conseguinte em uma falha na transicionalidade” (FERRAZ, 2002, p.81). Jean Baptiste se relacionava com as vítimas como um objeto impessoal. As moças eram apenas objetos. Estava alienado, dissociado, não via sua vítima como um ser humano. Seu olhar estava fixo no objeto de desejo.

A diferença da posição do objeto na psicose e na perversão é descrita da seguinte forma: “se na psicose a realidade objetiva do objeto é negado em todas as suas dimensões, na perversão o objeto ocupa uma posição intermediária: não pertence ao Self, mas é subjetivo; é registrado e aceito como separado, mas é tratado como se tivesse sido criado subjetivamente” (FERRAZ, 2002, p.81).  O ato lhe deu prazer. Suas ações não eram inconscientes, contudo, para ele, era tudo indiferente. Não tinha capacidade para fazer juízo moral.

A obtenção do objeto do seu desejo justificava a morte das moças. Depois de matar a vigésima quinta moça, sua sensação foi  descrita da seguinte forma: “nunca em sua vida se sentira tão contente, tão calmo, tão equilibrado, tão uno consigo mesmo (...) ficava sentado junto à sua vítima, a esperar, vigiando. Eram os únicos momentos em que, em sua mente sombria, se formavam pensamentos quase alegres” (SÜSKIND, 1985, p. 188). Jean Baptiste não tinha senso moral. Sua vida estava centrada no passado, “ele não pensava no perfume feito da aura de vinte e cinco mocinhas, ou em seus futuros planos, em alegria e êxito. Não, ele repensava o seu passado. (...) Lembrou as etapas da vida” (SÜSKIND, 1985, p. 188).

O psicótico tem o problema de “ser”, de encontrar um lugar no mundo. De acordo com Fulgencio (2016, p. 81), “são aqueles que têm problemas relativos a estar no mundo, a integrar-se numa unidade; eles se sentem desintegrados, não têm contato com o seu próprio corpo, ou ainda, com aquilo que nós, observadores, chamamos de realidade externa”. Jean Baptiste, ao olhar o passado, mostra a ruptura na integração, começa a refletir usando a terceira pessoa do singular como se estivesse falando com outro. Ele não se reconhecia como pessoa. Seu self não fora integrado: “pensando bem, era um indivíduo realmente abençoado! Nele explodiram comoção, humildade e gratidão. – Eu lhe agradeço disse baixinho – eu lhe agradeço Jean Baptiste Grenouille, por você ser como é! Tão comovido estava consigo mesmo”. (SÜSKIND, 1985, p. 188). Jean Baptiste teve êxito na criação do perfume, foi amado, mas seus sentimentos foram um misto de triunfo e desprezo. Nele o ódio foi um afeto maior; anulou sua capacidade de amar, “ele mesmo não as amava” (SÜSKIND, 1985, p. 205).

Ele se frustrou, viveu em busca de fazer um perfume perfeito, que fizesse as pessoas lhe darem o que ele nunca teve: amor!Conseguiu, mas percebeu que não poderia sentir o amor que não recebera, portanto, não poderia amar, assim, chegou à seguinte conclusão: “soube que jamais encontraria satisfação no amor, mas tão somente no ódio, no odiar e no ser odiado” (SÜSKIND, 1985, p. 205). Ele só poderia dar o que recebera e só recebera ódio, então daria o ódio que havia recebido.

5. Conclusão

No livro O perfume - A história de um assassino, com base na teoria do desenvolvimento de Winnicott, percebe-se que o conceito de “mãe suficientemente boa” é imprescindível para dar sustentação ao bebê na sua relação com o ambiente. O ser humano não nasce pronto, mas se constrói na interação com o ambiente, daí a importância do cuidado 9 materno, principalmente nos primeiros meses de vida, para que haja uma integração psique/soma.

A falta de suporte levará à “não integração”, o que refletirá posteriormente em comportamento antissocial como reação ao ambiente. Se a falha ambiental for extrema e por tempo duradouro, produzirá angústias “impensáveis”, que poderão levar à psicose e, consequentemente, à incapacidade de subjetivação. A pessoa viverá com uma profunda angústia, sem a capacidade de existir como pessoa, como humano.

Referências bibliográficas

FERRAZ. F. Uma visão winnicottiana da perversão: Os caminhos da dissociação em Massud Khan. Em: http://revistapercurso.uol.com.br/pdfs/p29_texto10.pdf.Percurso nº 29/-2/2002.

FULGENCIO, L. Porque Winnicott? Coleção Grandes Psicanalistas. São Paulo: Zagodoni, 2016. SÜSKIND, P.O perfume – A história de um assassino. Tradução de Flávio R. Kothe. São Paulo: O Estado de São Paulo, 1985.

WINNICOTT, W. D. Da pediatria à psicanálise. Obras Escolhidas. Introdução de Massud R. Khan.Rio de Janeiro:Imago, 2000. ______________.O brincar e a realidade. Coleção Psicologia Psicanalítica. Rio de Janeiro: Imago, 1975.