* Artigo escrito e publicado em 2021


A Mais Nociva das Commodities Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho * Artigo escrito e publicado em 2021 Guerras sempre fizeram parte da História Humana. Suas motivações podem variar: desde a vaidade de determinados governantes, sedentos de sangue e glória, até motivações religiosas a fim de satisfazer os idênticos instintos oriundos de enormes panteões de deuses, os morticínios sempre foram parte da pretérita - e da presente - construção do mundo que, hoje, definimos como nosso. Só que tais não são os únicos motivos pelos quais o homem mata o homem utilizando a violência organizada. Acima de tudo, a maior parte dos genocídios foi ocasionada pela disputa de recursos naturais, que, não podemos negar, são os reais propiciadores do progresso humano (apesar de, como explanado, obtidos de formas muitas vezes imorais). E desta sina não escapa a modernidade, que é resultado, e, simultaneamente, grande incentivadora deste tipo de comportamento, junto a ele moldando e mantendo as nações modernas em seus respectivos valores materiais. Desde a primeira metade do século XX, as disputas são incentivadas por aquela que, talvez, ainda seja a mais lucrativa fonte de energia já descoberta: o petróleo. Existente em abundância em certas partes do mundo, muitas de suas maiores reservas encontram-se no norte na América do Sul, no Sudeste Asiático e no Cáucaso. Só que nenhuma dessas regiões registrou tão grandes e semelhantes históricos de conflitos se comparados aos que, desde a descoberta de imensas jazidas na Ásia Menor, lá ocorreram em virtude da cobiça das grandes potências, especialmente os EUA. Refiro-me, principalmente, ao Irã. Riquíssimo em petróleo, já antes mesmo da Segunda Guerra Mundial os EUA cobiçavam suas jazidas energéticas, ensaiando o que, futuramente, viria a ser um conflito com uma administração nacionalista, uma posterior aliança, e, depois, uma nova inimizade, que vem desde 1979: bem antes, em 1953, aproveitando-se da condição de herói por ter sido Comandante Supremo das Forças Aliadas na Europa durante o último conflito mundial, o então presidente republicano dos EUA, general Dwight Eisenhower, bem como a CIA, incentivam o Xá iraniano Mohammad Rezā Shāh Pahlavi a derrubar o governo do primeiro-ministro nacionalista Mohammad Mossadegh, que sempre pôs os interesses econômicos de seu país em primeiro lugar. Com a derrubada de Mossadegh, os americanos induziram o Xá a ocidentalizar o país em prol de seus interesses econômico-energéticos, o que foi posto em prática por meio da Revolução Branca. Como o povo se opôs inteiramente às políticas neoliberais do Xá, especialmente no âmbito religioso, teve início uma forte resistência interna, fazendo com que Rezā Pahlavi instalasse gradativamente uma brutal e feroz ditadura, lançando nas garras da Savak - sua temida polícia política, que não ficava nada a dever à Gestapo em termos de crueldade - os líderes da oposição. Assim, foi desenvolvendo-se, ao longo das décadas seguintes, um movimento interno para a respectiva derrubada, insuflado não somente por sua submissão aos interesses laicos americanos, mas também por uma eventual complacência com Israel, na visão dos iranianos um grande opressor dos povos muçulmanos. O principal líder daquele movimento passou a ser o Aiatolá Ruhollah Khomeini, que, liderando a população persa, depôs o Xá em 1979 na chamada Revolução Islâmica, rompendo os laços econômicos e políticos com os americanos e instalando uma teocracia tão brutal quanto o regime de Rezā Pahlavi, mas que, na visão geral dos islamitas, era preferível por desfazer qualquer vínculo econômico, diplomático e religioso com o “Grande Satã”. Iniciou-se, assim, o segundo período de hostilidades a que me referi no quarto parágrafo. Só que os EUA tinham um aliado na região do Golfo Pérsico: o ditador sunita iraquiano Saddam Hussein, grande opositor de Khomeini (xiita) e também apreciador das benesses econômicas ocasionadas a quem tem o controle de jazidas petrolíferas - principalmente quando revertidas, tão somente, em benefícios pessoais. Tanto que, em 1980, com apoio americano, o Iraque ataca o Irã. Inicia-se um terrível conflito, a Guerra Irã-Iraque, em que o governo do presidente americano Ronald Reagan forneceu os mais variados e modernos tipos de armamentos ao Iraque a fim de derrotar Khomeini. E, mesmo assim, a guerra perdurou até 1988, matando mais de 01 milhão de pessoas, tendo Saddam Hussein falhado em seu intento de dominar o Irã com procuração dos americanos, ainda por eles armado até os dentes. Saddam Hussein era muito vaidoso. Grande parte do petróleo iraquiano era revertido para luxos individuais, assim como seria o iraniano, dividido com os americanos, se tivesse vencido o Irã (a título de esclarecimento, cabe afirmar que a Guerra Irã-Iraque terminou num empate técnico, eis que ambos os governos foram mantidos). Não conformado com o “empate”, extermina parte dos curdos do norte do Iraque, a quem acusara de serem pró-iranianos, com armas químicas americanas. Mas sua jogada mais perigosa ocorreu em 02 de agosto de 1990, quando invadiu o emirado petrolífero do Kuwait, imaginando que os aliados americanos não fossem reagir. Ledo engano: o Kuwait, assim como o próprio Saddam até então, era aliado do Ocidente. Rompe-se a “amizade” entre Saddam e os americanos, dando início à Guerra do Golfo, no início de 1991, na qual os EUA, com o apoio de uma coalização de cerca de 30 países, libertaram o Kuwait (uma questão muito interessante a ser abordada é o fato de os EUA terem recrutado um número tão extenso de aliados para vencer forças militares que, apesar de grandes, eram teoricamente mais fracas - talvez porque tivessem receio das suas próprias armas, a elas anteriormente fornecidas quando do conflito com o Irã, o que poderia fazer com que se repetisse, entre os americanos, o banho de sangue ocorrido no Vietnã, desta vez ocasionado, indiretamente, por eles mesmos). O Aiatolá Ruhollah Khomeini morreu antes da Guerra do Golfo, mas a Revolução Islâmica segue governando seu país. Os EUA invadiram o Iraque em 2003, capturaram Saddam Hussein e o executaram em 2006. Da mesma forma, continuam como uma das nações mais agressivas do mundo, e nada parece mudar esse panorama. E, no meio de tudo isso, só quem ganha são as corporações exploradoras de energia. E, é claro, as produtoras de armas.