MARQUES. José Luiz

Faculdade de Tecnologia de Indaiatuba/SP.

 

Introdução.

     A língua portuguesa, no início do século XXI, tem ganhado destaque em eventos nacionais e internacionais que pretendem discutir a importância dela para as mais diversas áreas do mercado e do conhecimento acadêmico. Assim ela aparece em destaque na atualidade e ganha mais espaços nos estudos que se interessam por  políticas linguísticas.

    Nesse sentido, quando falamos em internacionalização da língua, não pensamos nela como sinônimo de exportação, mas sim nos processos através dos quais uma língua de um determinado país passa a ser objeto de interesse de outros países, tanto no que diz respeito à comunicação oral e à comunicação escrita quanto também aos interesses políticos, econômicos e sociais a respeito dessa mesma língua.

    As políticas linguísticas para a internacionalização da língua portuguesa podem ser analisadas de vários ângulos através dos quais se entende o que vem a ser o fenômeno de se internacionalizar uma língua. Na perspectiva de compreender políticas linguísticas pela via das políticas globais , este trabalho expõe alguns aspectos importantes sobre a expansão da língua portuguesa na atualidade, sobre a popularidade dela nas discussões organizacionais e algumas considerações necessárias sobre o novo acordo ortográfico (1990/2008), compreendendo-o como uma ação legítima e afirmadora rumo à internacionalização da língua portuguesa.

 

A popularidade e a expansão da língua portuguesa.

 

      Nos últimos anos do século XX e nos primeiros do século XXI, o crescimento mais acelerado e a estabilização da economia do Brasil, bem como o status que nosso país passou a ocupar ante as políticas econômicas internacionais têm aumentado também o interesse de estrangeiros em aprender a língua portuguesa no mundo.

      O número de inscritos no Celp-Bras, exame de proficiência em língua portuguesa para estrangeiros -  reconhecido pelo Ministério da Educação – saltou, nesses últimos tempos, vertiginosamente em relação ao século passado e até mesmo sua estruturação foi reformulada com a criação de diferentes níveis de exame que possam atender mais diretamente à tão crescente  demanda do mercado.

     Assim o valor da língua portuguesa passou a se atrelar ao valor que ela ganha nas representações do mercado, uma linguagem historicamente construída a partir do discurso da mercantilização da língua e da cultura.  ( DINIZ, 2010:117). Se antes, a língua era compreendida apenas como fruto da organização social e da cultura de um povo, hoje ela acompanha o que a linguagem de mercado tem incentivado a respeito da produção contemporânea da imagem do Brasil aos olhos do mercado nacional e internacional: “a imagem de um país em ascensão econômica vertiginosa, em que a língua e a cultura aparecem como moedas de compra e venda” (Savedra:178), e em que  “ o valor de uma língua  se relaciona com sua capacidade de incentivar intercâmbios econômicos. Isso representa a capitalização linguística.” (ZOPPI-FONTANA. 2009:33). 

     Além disso, a língua portuguesa mostra sua expansão e sua popularidade também no exterior, na procura de estudantes e estrangeiros, tanto nas universidades como nos institutos culturais mantidos pelo Itamaraty, espalhados por diversos países, inclusive dos Estados Unidos da América.

     As tabelas abaixo, divulgada pelo Instituto de Políticas Linguísticas no Brasil,  elucidam esse crescimento. A tabela 1 (um) mostra o crescimento da procura pela língua portuguesa, em níveis nacionais, nos últimos anos e a tabela 2 (dois), a procura pela língua, em níveis internacionais, diferenciando em português de Portugal e português do Brasil.

 

Tabela 1:

Língua

Crescimento/Ano de 2007

Crescimento/Ano 2008

Em números

Português

13 %

21%

17.500

Espanhol

11%

13,7%

12.400

Alemão

11%

12,3%

 1.950  

Francês

1%

1,5%

 890  

 

 Fonte  :   IPOL - http://www.ipol.org.br

 

Tabela 2:

Países

Português de   Portugal  (2009)

Por(tuguês do   Brasil (2009)

EUA

 12%

  33%

Europa

  8%

  55%

Países do Mercosul  

  2%

  78%

 

 Fonte  :   IPOL - http://www.ipol.org.br

 

    Essas tabelas apontam para um crescimento pela procura e pelo interesse do mundo na língua portuguesa, não somente em função do que ela representa enquanto idioma para a comunicação global, mas também pelo interesse econômico do estrangeiro pelo Brasil, despertado pela economia globalizada e pelo aumento de multinacionais instaladas em nosso país, a partir do início do século XX.

 

O caso do novo acordo ortográfico. 

       Não é preciso muita racionalidade para entender que os acordos ortográficos são também acordos políticos e econômicos. Os investimentos, apontados pelas tabelas abaixo, mostram a força incomensurável dos órgãos responsáveis em lidar com as relações diplomáticas da CPLP  (Comunidade dos Países  de Língua Portuguesa) para que o novo acordo ortográfico seja instaurado definitivamente a partir do ano de 2013. As tabelas revelam a dimensões  geográfica e estatísticas das mudanças ortográficas e os investimentos maciços para esse acordo se consolide no cotidiano social da língua portuguesa. A tabela 3 (três) aponta o contigente atingido pelas mudanças ortográficas, e a tabela 4 (quatro) mostra os valores gastos e previstos com acordo ortográfico até 2011.

 

Tabela 3: 

8 países (   237 milhões de pessoas, aproximadamente):

1-) Brasil – 188 milhões

2-) Portugal – 30 milhões

3-) Angola – 16 milhões

4-) Moçambique- 20 milhões

5-) Cabo Verde e Guiné-Bissau- 1,6 milhão

7-)São Tomé e Príncipe – 155 mil

8-) Timor Leste – 950 mil

                   ( fonte: Revista Língua Portuguesa. Vl.16.2011.p.p.18-19)

 

Tabela 4:    

 

NO   BRASIL  (2011) :

130 milhões de   livros didáticos

0,45% alterações

250 mil livros em   Braile

12 mil softwares   com corretor automático, dicionários temáticos e de sinônimos,   hifenizadores,etc.

60 milhões de   reais (editoras)

1,4 bilhão de   reais previstos para faturamento em livros.

1,5 bilhão de reais previstos para   faturamento em dicionários.

    ( fonte: Revista Língua Portuguesa. Vl.16.2011.p.p 19-20)

 

      Antes de gastarmos nosso tempo discutindo quais as palavras que levarão    ( ou perderão) hífen, quais perderão acentos e por que o trema vai deixar de existir, é preciso que reconheçamos a importância das políticas linguísticas que estão por trás desse novo acordo e que são a ele uma dimensão de valores a que as tabelas 3 e 4 se reportam.

     Apenas 0, 5% das palavras escritas em português brasileiro sofrem alguma alteração com o novo acordo ortográfico, mas a mudança é necessária (FIORIN,2011)  para que o Brasil possa assumir, de fato e de direito, a frente nas discussões sobre  a língua portuguesa no mundo, para a livre circulação de material impresso no Brasil pelos demais países, para que a terceira língua mais falada no Ocidente se projete, junto à imagem econômica do Brasil, no cenário de um mundo globalizado e para que a língua portuguesa do Brasil seja reconhecida como representante de seu mercado e de sua cultura, como  devem ser todas as línguas do mundo.

 

 Referências. 

BAGNO. Marcos. Defender a nova ortografia é defender a presença do Brasil na Globalização. In. Revista Caros Amigos. Março/2011.p.12.

CASTRO. Ivo. A internacionalização da língua portuguesa. Comunicação. Associação Sindical dos Diplomatas Portugueses. Lisboa.16.VI.2009) Disponível:http://www.clul.ul.pt/files/ivo_castro/2009_Internacionalizao_do_Portugues.pdf

DINIZ. Leandro Rodrigues A. Mercado de línguas. SP: RG.2010.

FIORIN. José Luiz. Uma mudança necessária. Disponível em WWW.estacaodaluz.org.br (Museu da Língua Portuguesa)

HENRIQUES. Claudio César. O novo acordo ortográfico. SP: Campus. 2008.

SANTANA. Mônica G.Zoppi. O português do Brasil como língua transnacional. SP:RG. 2009.

SAVEDRA. Monica Maria G.  O português no mercosul. Cadernos de Letras da UFF. N.39.2009.p.175-284