A ETICA NO MUNDO DO TRABALHO

 

 

Jordão dos Santos Félix

 

10/11/2017

 

 

RESUMO

 

 

Atualmente pesquisadores, educadores e vários agentes da esfera educacional destacam um cenário de intensa desigualdade social no que se diz respeito ao mundo do trabalho devido as questões éticas. Mediante a essas inquietações e a luz de compreender melhor esta problemática.  O presente paper, estruturado em estudos e planos voltados ao âmbito da ética, propõe uma série de reflexões através do tema “a ética no mundo do trabalho”. Sendo assim, pretende-se diagnosticar qual o papel da ética, bem como dos profissionais que fazem e/ou não uso da mesma, em vista a uma estrutura social que desenvolve processos de exclusão. E, para além disso, perceber as formas que a desigualdade social pode se manifestar no espaço de trabalho. Como produto deste estudo bibliográfico, espera-se externar reflexões sobre igualdade e justiça, como forma de envolver mais a sociedade, em confronto com a problemática da ética e/ou da falta da mesma.Pois é essencial adotar uma conduta ética no trabalho, seguindo padrões de valores, tanto da sociedade, quanto da própria organização.

 

 

Palavras-chave:Ética, Trabalho, Estado, Diversidade e Desigualdade Social.

 

1 INTRODUÇÃO

A diversidade que compõe a realidade brasileira é muito grande, e na carência de políticas públicas adequadas, emergem uma série de conflitos éticos, porém para o filosofo iluminista do séc. XVIII Immanuel Kant a ética teria que ser baseada em uma lei universal, pois para Kant seria possível saber se uma ação é moral ou não, pois seria apenas necessário se perguntar qual é a regra que seguiríamos ao realizar uma determinada ação logo em seguida seria necessário perguntar se estaríamos dispostos que tal regra fosse aceita e utilizada por todas as pessoas em todas as circunstâncias sem exceções. Caso a resposta fosse positiva então a ação seria moralmente aceita e permitida, mas caso a resposta fosse negativa a ação seria moralmente proibida. Mas o valor de ética vem arraigado aos princípios de moral e de conduta em sociedade e/ou individuais.

[...] O que vem a ser a moral? Um conjunto de valores e de regras de comportamento, um código de conduta que coletividades adotam, quer sejam uma nação, uma categoria social, uma comunidade religiosa ou uma organização. Enquanto a ética diz respeito à disciplina teórica, ao estudo sistemático, a moral corresponde às representações imaginárias que dizem aos agentes sociais o que se espera deles, quais comportamentos são bem-vindos e quais não. (SROUR, 2000, p. 29).

Percebe-se que as diferenças provenientes do ambiente social, no qual o trabalhador encontra-se inserido, perpassam para o contexto social na medida em que o Estado, enquanto instituição, é parte impregnada da conduta em sociedade.  Além de ao longo da história este condiciona processos de seleção e diferenciação social. Porém hoje podemos perceber que o Estado pode contribuir para o desenvolvimento de um projeto de educação ética mais comprometido com o desenvolvimento das capacidades individuais e coletivas.

 Com o uso da ética deve-se intervir na realidade para, então, transformá-la, tornando-a menos preconceituosa, menos arrogante e mais útil para o desenvolvimento de processos mais virtuosos que possam acarretar na construção e conseguintemente no desenvolvimento de processos que possam fazer fluir uma ética mais tolerante, menos agressiva e mais humana.

Vale ressaltar que a ética segundo os gregos em sua noção mais simples define-se como “aquilo que pertence ao caráter”, e sabe-se que caráter é a maneira firme e coerente de se agir com harmonia em sociedade sem prejudicar seu semelhante, no mundo do trabalho seu concorrente. Mas para que se haja ética é preciso que antes de tudo haja a igualdade de condições para o acesso e permanência no trabalho.

Agir absolutamente por virtude nada mais é, em nós, do que agir, viver, conservar seu ser (estas três coisas têm o mesmo significado), sob a condução da razão, e isso de acordo com o princípio de buscar o que é útil para si próprio” – Espinosa, Ética IV, prop. 24

Nessa ótica, refletir sobre a desigualdade social e suas consequências nos aspectos cognitivos dos indivíduos, perceber e entender como essa problemática se estrutura no decorrer da vida das pessoas e os prováveis reflexos que afetam nas realidades destes, na sua vida em sociedade. Estas são algumas questões que fundamentarão o presente trabalho.

O momento atual impõeo desafio de lidar com uma realidade na qual as diversidades provenientes das particularidades implicam em inúmeras desigualdades sociaissendo assim é valido ressaltar que o Estado, enquanto instituição social tem papel fundamental a conscientização do homem para o exercício da cidadania e qualificação profissional.

 

2 A IMPORTÂNCIA DA ÉTICA PROFISSIONAL NO ÂMBITO DO TRABALHO

A manifestação da desigualdade social no ambiente do trabalho traduz alguns dos desafios do Estado na sociedade contemporânea. Daí a necessidade de promover objetivos e ações que possam conferir caminhos para o desenvolvimento de práticas éticas impregnadas aos ideais de cidadania. Metodologias que externem aos aspectos sociais e morais das pessoas.

O que se almeja no presente momento é que o Estado enquanto instituição pública, crie um espaço de instrução e formação ética dentro do próprio Estado que englobe todas as instituições de trabalho público e/ou privado, ou seja um ambiente democrático, compromissado em desatar os nós da desigualdade social que a falta de ética promove. Que mais do que transmitir conhecimento, os faça sem restrições, sem privilégios.

E que possa desenvolver as potencialidades cognitivas dos futuros trabalhadores, empresários e profissionais liberais, de forma justa.

“Por virtude e potência compreendo a mesma coisa […] a virtude, enquanto referida ao homem, é sua própria essência ou natureza, à medida que ele tem o poder de realizar coisas que podem ser compreendidas exclusivamente por meio das leis de sua natureza” – Espinosa, Ética IV, def 8

Muito foi dito sobre a participação do Estado para a formação da ética no trabalho, mas é importante citar que nada o Estado pode fazer, caso não haja por parte dos empregadores e demais profissionais das mais diversas áreas, o querer fazer e seguir os padrões éticos da sociedade quanto as normas e regimentos internos das citadas organizações.

Então percebe-se que a ética não pode existir sem responsabilidade, integridade, humildade e comprometimento, afinal torna-se a repetir quantas vezes for necessário que a ética é o conjunto de princípios e valores morais que conduzem o comportamento humano dentro da vivencia em sociedade, mas nada fácil de se cumprir se diante estivermos frente a um Estado corrupto e inglorioso pois corruptos e cheios de maculas serão os seus cidadãos.

[...] de tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto. (Ruy Barbosa - Discursos Parlamentares - Obras Completas

Vol. XLI - 1914 - TOMO III - pág. 86/87)

Onde muitas das vezes uma minoria detém-se em certos privilégios, no que concerne ao capital tendo desta forma mais privilegio além de uma educação de maior qualidade.

Claramente enquanto a grande maioria apenas tiver acesso à educação de forma fragmentado e corrompido e, para além disso, uma considerável parcela da população apresentar esse direito negado, torna-se muito difícil que os menos abastados tenham ética, pois neste caso falar de ética a estes, torna-se e/ou ao menos parece tom de controle de massa usando a ética como pretexto.

 

3 OS MECANISMOS QUE CONDICIONAM A DESIGUALDADE SOCIAL E A FALTA DE ÉTICA

Quando se fala de ética no trabalho é importante que nem todos que aceitam certos princípios exercem a ética pois não devemos nunca sobre hipótese alguma achar que "Os fins justificam os meios", já citado na obra o príncipe de Nicolau Maquiavel, pois para o príncipe oEstado deve ser amoral na manutenção de seus princípios, mas sabe-se que um estado amoral facilmente torna-se um Estado corrupto e sem ética alguma.

Sabe-se que a ética é a conduta que leva o ser humano a adotar princípios e valores de vida em sociedade e sendo assim, ser ético é agir de forma que não ocorra o desvio dos padrões de conduta do trabalho.

O bom profissional cumpre com todas as funções inerentes à sua profissão dentro e fora de seu ambiente de trabalho, mas para que haja um bom funcionamento nas relações de trabalho entre os empregados e das atividades exercidas na empresa, é necessário as presenças constantes da ética no ambiente de trabalho aonde estãoinseridas.Para cada profissional existe um código de ética impondo a estes profissionais um conjunto de normas a serem seguidas.

“Quanto mais cada um busca o que lhe é útil, isto é, quanto mais se esforça por conservar o seu ser, e é capaz disso, tanto mais é dotado de virtude; e, inversamente, à medida que se descuida de conservar o seu ser, é impotente” – Espinosa, Ética IV, prop. 20

Muito foi falado sobre princípios éticos que levam a condutas de comportamento moral em sociedade, mas se tais princípios éticos não existissem seria bem provável que nossa sociedade em questões morais e trabalhistas, voltassem aos primórdios do capitalismo aonde o capital selvagem acabariapor arruinar-nos como seres humanos. Pois sem ética não pode haver virtude.

 

4 A IMPORTÂNCIA DO CÓDIGOS DE ÉTICA

Um bom código de ética gera entre os participantes da sociedadeuma conduta mais disciplinada e participativa e assim sendo possível avaliar diferentes situações e facilitando a definição de papéis, metas e responsabilidades, podendo até aprimorar o relacionamento interpessoal para atuarno mundo do trabalho.

Quando estabelecido um padrão esperado de comportamento busca-se evitar que os envolvidos transgridam o que foi estabelecido como aceitável, não correndo o risco de comprometer o bom clima entre os envolvidos dentro do ambiente profissional.

Portanto não basta dizer que a ética por si apenas pode ser considerada um modelador de atitudes como um todo pois o que é certo para uns, pode não o ser para outros. Por isso, é muito importante saber as diretrizes que norteiam a atuação de cada indivíduo dentro do ambiente de trabalho.

Para Spinoza a ética em todos os sentidos possuía um valor quase divino, pois para ele a ética não era puramente teórica e sim possuía uma vertente pratica tais como a verdade e a beatitude, mais do que um fim a seatingir, é um fim que vale por si próprio e não a recompensa por alguma ação dita virtuosa.

“A beatitude não é o prêmio da virtude, mas a própria virtude; e não a desfrutamos porque refreamos os apetites lúbricos, mas, em vez disso, podemos refrear os apetites lúbricos porque a desfrutamos” – Espinosa, Ética V, prop. 42

Então quanto mais éticos agimos, mais virtuosos e imparciais podemos nos tornar e mais próximos da justiça iremos ficar, pois ser justo e virtuoso é o que todos que almejam uma sociedade mais igualitária desejam,como diria os franceses em sua revolução que marcou o fim da idade moderna,Liberté, Egalité, Fraternité (Liberdade, igualdade, fraternidade), padrões que podemos afirmar personificam o espirito da ética.

 

 

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O momento atual impõe à sociedade um grande desafio,o de lidar com uma realidade na qual a diversidade proveniente das particularidades da sociedade implica em inúmeras desigualdades sociais e acaba se tornando, mesmo que algumas vezes involuntariamente propagadora de diferenciação e exclusão no trabalho.

Conceição e Fonseca (2012) ressalta que não basta aceitar a desigualdade, nem tolerar ou respeitar, é preciso explicar como ela é produzida, tem que se colocar em questão a diferença e o poder ao qual ela está associada.

A ética deve transcender ao espaço familiar e chegar com igual dedicação ao mundo do trabalho com o intuito de promover uma verdadeira efetivação da cidadania, portanto não basta dizer que todos têm acesso aigualdade no trabalho e/ ou que a sociedade está aberta as diferenças.

Fazer com que as pessoas que por algum motivo foram descriminadas e excluídas sintam-se pertencentes ao contexto social que a ética dentro e fora do trabalho pode propiciar como um agente de transformação social seria o que as empresas deveriam adotar.

Claramente onde a ética mais do que garantir o seu direito a um bom ambiente de trabalho que condiz com suas capacitações, faça com que esses trabalhadores se sintam verdadeiros cidadãos, pois esta é a proposta fundamental aqui apresentada.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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