1.Introdução : uma síntese do livro.

Embora os capítulos não tenham uma homogeneidade, percebe-se que os três primeiros, intitulados, respectivamente, Antecedentes indígenas e Fatores exóticos e Os descobridores, articulam-se em um único bloco que produzem o sentido de antecedentes da história da colonização,ou seja, são capítulos em que o autor narra, descreve e às vezes comenta os aspectos naturais da terra, do índio, bem como as primeiras relações dos colonizadores com os indígenas. Assim, este bloco de capítulos parece ser articular o sentido de fatores externos à colonização.
Já os capítulos de 4 a 9, intitulados Primeiros conflitos, Capitanias hereditárias, Capitanias da coroa , Franceses e espanhóis e O sertão formam um outro bloco que pode ser entendido como o deslocamento das elites para o sertão, ou seja, as formas através das quais o Brasil foi sendo colonizado desde a ocupação da costa litorânea até o povoamento do sertão.
Os dois últimos capítulos, Formação dos limites e Três séculos depois fazem parte de um terceiro bloco, em que o autor encerra, conclui a história colonial e faz uma espécie de retrospecção quando argumenta , de forma pessimista, que a obra de três séculos de colonização resumiu-se em um produto básico: um país sem planejamento.
Assim, o livro Capítulos da História Colonial, de João Capistrano Honório de Abreu possui, portanto, onze capítulos nos quais o autor narra, descreve e analisa a formação e o povoamento do território brasileiro em seus aspectos variados como a geografia, a história, a religião, a sociologia, a literatura, a lingüística, enfim, as formas através das quais a sociedade brasileira foi se organizando desde o quinhentismo até o início do século XIX.
De início o autor faz uma incursão pelos aspectos sócio-geográficos da época anterior ao descobrimento, enfatizando, de maneira paradisíaca, a flora, a fauna, estendendo esse aspecto descritivo aos costumes, labutas e à própria língua indígena, e o contrasta com a rudeza da cultura portuguesa, salientando que Portugal, por estar em trânsito entre Idade Média e a Idade Moderna, enfrenta grandes atritos na política e na religião, atritos que também ajudam a impulsionar as grandes navegações.
A partir de um dos trechos da Carta de Pero Vaz de Caminha a El Rei D. Manuel (1500) o autor conta a chegada dos portugueses ao Brasil, seus interesses mercantilistas e religiosos pela terra. Em seguida comenta as influências dos costumes indígenas sobre os primeiros colonos, a chegada dos negros africanos, além de abordar os conflitos entre as capitanias hereditárias na batalha pela terra de Vera Cruz (ou Santa Cruz), sobretudo aquelas ocorridas na região nordeste, visto que a cidade de São Salvador é a capital do Brasil naquela época.
Ao citar a obra Diálogos das Grandezas do Brasil (1618), de Ambrósio Fernandes Brandão, o autor contrasta as vantagens do domínio espanhol na eliminação completa dos franceses (p.42) com as guerras flamengas, oriundas exatamente deste domínio. Assim a ênfase da narrativa é a chegada e a colonização holandesa, o ataque à Bahia, o ataque à Olinda, enfatizando que Holanda e Olinda representavam o mercantilismo e o nacionalismo, na referência ao sentimento nacional aí despertado e que é uma alavanca para a batalha entre Portugal sobre a Holanda. Resume: A invasão flamenga constitui mero episódio da costa. Deixa-a na sombra a todos os respeitos o povoamento do sertão, iniciado em épocas diversas, de pontos apartados, até formar-se corrente interior, mais volumosa e mais fertilizante que o tênue fio litorâneo (p.56).
A seguir, o texto apresenta uma narrativa sobre a divisão do Estado do Maranhão em capitanias hereditárias, um relato sobre as viagens dos colonizadores pelo desconhecido Amazonas até se deter no Pará e na degradação humana ali existente, por volta de 1660. Além disso, ressalta a história de Padre Antonio Vieira e sua importância como orador e politizador, por meio de seus sermões, dos índios e dos negros e enfatiza o caos social existente entre o Pará e o Maranhão, ocorrido nos exatos anos seguintes à partida de Padre Vieira para a Europa.
A agropecuária ganha destaque na narrativa uma vez que o autor faz uma incursão pelos sertões nortistas e nordestinos para mostrar as ricas e vastas regiões de plantios e de cultura da criação de gado. Ele cita a obra Roteiro do Maranhão a Goiás, de autor anônimo, escrito no fim do século XVIII, para se referir às trajetórias das boiadas e dos colonizadores no estabelecimento das cidades, no desenvolvimento econômico das regiões urbanas e dá ênfase a essa organização social, advinda da colônia portuguesa: a lógica da concentração de renda nas metrópoles. Nesse contexto, o Rio São Francisco surge na narrativa como mais um forte aliado para a aplicação dessa lógica colonizadora
As Minas Gerais ganham destaque, então, na produção de cana de açúcar, na mineração, no escoamento do ouro, e Goiás aparece como uma linha de comunicação mais eficaz com a baixada amazônica e com os chapadões do Parnaíba, de São Francisco e do Paraná e o autor afirma que a Bahia é vista, nesse momento, pelos colonizadores, como uma região mais pastoril que mineira e Minas Gerais e Goiás, como regiões mais esplendorosas, por causa do ouro. Vila Rica, Sabará, Ouro Preto são ressaltadas no processo de captação, de casas de fundição do ouro. A riqueza dessas regiões é enfatizada no texto: (...) o ouro produzido escapa a qualquer avaliação exata (...) (p. 84). Porém a constância da derrama e suas conseqüências influem sensivelmente na decadência dessa riqueza e, mais uma vez, a atenção se volta para outros meios de subsistência: a plantação de cana, o fumo, o algodão e até na criação de indústrias de transportes. O autor cita, para elucidar este período, a obra Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas, de André João Antonil, dividida em cinco partes e que narra a formação do Brasil por meio de um espírito investigador e penetrante (p.92) e que (...) ensina o segredo do Brasil aos brasileiros, mostrando toda sua possança, justificando todas as suas pretensões, esclarecendo toda sua grandeza. (...) (p.93. A atenção da narrativa, então, passa para o processo de libertação dos indígenas, originado pela chegada de Manuel da Nóbrega, na Bahia, e seu interesse pela catequese dos aborígenes , pela declaração de liberdade e pelo diretório dos índios.
Após descrever a formação dos limites do Brasil, o autor faz surgir São Paulo na narrativa. Ali aparecem descritos os temperamentos, os costumes, as comidas, as estatísticas de etnias, as semelhanças e as diferenças entre os paulistas e os demais povos brasileiros. Assim, ele faz uma descrição minuciosa das gentes mineira, baiana, rio-grandense, goiana e carioca, enfatizando as sutis diferenças entre elas. O Rio de Janeiro passa a ser palco de negócios, de observação do cotidiano social e da narrativa e surgem cenas de meirinhos, mulheres bem vestidas, crianças indo à escola, vendas de folhetins, religiosos em suas funções, desfile de mulheres de sombrinhas, carregadas em cadeirinhas por escravos, de bêbados pelas calçadas, dos cafés, dos jogos. Enfim, um Rio de Janeiro aparece oscilando entre as riquezas e pobrezas produzidas pela chagada da nova ordem capitalista, ora apresentando traços de tranqüilidade lisboeta, de pasmaceira social, ora apresentando traços de burburinhos parisienses e nuances de independência e de sonhada república, como a dos Estados Unidos da América.

1.1 O rio São Francisco: questões históricas e geográficas.

O rio São Francisco é um rio genuinamente brasileiro. Ele é chamado de Opará pelos indígenas, expressão que significa algo como rio-mar e foi descoberto em 04 de outubro de 1501, data em que o dia de São Francisco é comemorado, por isso foi batizado com este nome por Américo Vespúcio e André Gonçalves.
Segundo a Wikipédia, é um dos mais importantes cursos d'água do Brasil e de toda a América do Sul. Sua nascente está localizada no município de São Roque de Minas, na Serra da Canastra, no estado de Minas Gerais, a aproximadamente 1200 metros de altitude. Além disso , ele atravessa todo o estado da Bahia, fazendo sua divisa ao norte com o estado de Pernambuco e constituindo a divisa natural dos estados de Sergipe e Alagoas, e, por fim, deságua no Oceano Atlântico, drenando uma área de aproximadamente 641 000 km² e atingindo 2 830 km de extensão. Seu nome indígena é Opará e também é carinhosamente chamado Velho Chico. Apresenta dois estirões navegáveis: o médio, com cerca de 1.371 km de extensão, entre Pirapora (MG) e Juazeiro (BA) / Petrolina (PE) e o baixo, com 208 km, entre Piranhas (AL) e a foz, no Oceano Atlântico.O rio São Francisco atravessa regiões com condições naturais das mais diversas e tem cinco usinas hidroelétricas.

1.2. O rio São Francisco: questões político-sociais.

A relação do Estado com o rio São Francisco nasceu no período colonial por ele ter uma posição estratrégica no que diz respeito á ocupação e controle do territorio por parte dos colonizadores. Segundo Camelo Filho (2005, p.83), o povoamento do Vale do São Francisco deu-se lentamente porque os negócios com o açucar estavam em primeito plano. Assim, o autor comenta que a principal atividade econômica daquela época, no Brasil, era o plantio e a extração do açucar e que impulsionou também a atividade agropecuária, dado que o rio significava, para os colonizadores portugueses, um acidente geográfico encontrado desde o litoral do Atlântico, no entanto permitiu a penetração para o interior do território e, assegurava o controle e o povoamento dele pela Coroa Portuguesa que ampliava a sua expansão para além do litoral (p.83).
Segundo a história, o rio São Francisco acabou servindo como uma via de acesso para o sertão e por isso um rio bastante interessante não só no sentido da subsistência da colonização brasileira, mas também como um norteador para o caminho rumo ao povoamento deste sertão, uma bússola geográfica e viva da grandeza das entranhas do mundo sertanejo e, assim, da importância política que representava este rio para aqueles que desbravavam as terras e conquistava o território brasileiro.
Com isso, o povoamento, as vilas, os arraias, as cidades que são vizinhas ao rio São Francisco foram surgindo e ganhando destaque durante o período da colonização. Este destaque se deu porque o rio São Francisco, por isso mesmo, serviu também de vias para o transporte de alimentos e para a evasão do ouro de Minas Gerais até Salvador, no período do ciclo da mineração.
Após este período, recebeu o codinome de " rio dos Currais" porque passou a ser uma grande ária de produção pecuária e de agricultura de subsistência. e, com a Independência do Brasil, também passou a ser chamado de " rio da Integração Nacional" porque proporcionou ligação direta entre o Sudeste e o Nordeste do país através da intensificação das navegações, mais uma característica funcional importante para a política de povoamento brasileiro.


2. Desenvolvimento

Para a análise da designação do nome rio São Francisco no livro Capítulos de História Colonial, de José Honório Capistrano de Abreu, este tópico inicia na perspectiva de definir o que se entende, neste trabalho, por texto, designação, reescritura e por articulação.

2.1. Conceitos de texto.

Sobre o conceito de texto, expressam-se Kleimam e Moraes (1998, p. 62 ) :

O texto (do latim textus, tecidos) é toda a construção cultural que adquire um significado devido a um sistema de códigos e convenções: um romance, uma palestra, um quadro, uma foto, uma tabela são atualizações desse sistema de significados, podendo ser interpretados como textos.

Na concepção das autoras, o texto é um sistema de significados que pode se ampliar a partir de teias que lhe são possíveis de tecer, ou seja, a partir de um conjunto de significados elaborados pela interpretação textual. Assim um texto é uma unidade capaz de produzir sentidos externos a ele, ou seja, um conjunto de significados que se ampliam pelos sentidos que as palavras podem produzir a partir de uma dada leitura.
Para Guimarães (2011, p. 21), um texto é uma unidade, mas não tem uma unidade. Para o autor, o texto é finito e integra os seus enunciados, assim como apresenta relações de integração destes enunciados porque eles têm marcas de relações de sentido e é por isso que a interpretação de um texto não pode ser considerada apenas como subjetiva. Ela é também fruto da passagem entre um enunciado e outro, integrados pela reescrituração e os sentidos são produzidos exatamente por esta reescrituação.
Assim, o texto não é só uma unidade abstrata composta por unidades abstratas. Os enunciados de um texto se reportam a enunciações anteriores e a interpretação semântica é uma projeção sobre a estrutura sintática do texto. Ela está posta pelos sentidos e se faz de lugares diferentes. Dessa maneira, o texto se dá enunciativamente enquanto unidade que integra enunciados por uma relação com o lugar social de locutor, ou seja, o lugar do autor (p. 26).
Dessa maneira, neste trabalho, entende-se que um texto é uma unidade integrada por enunciados, não é uma unidade combinatória e nem linear, e essa integração toma a referência como derivada da enunciação,ou seja, o que é enunciativo é o fato de que o sentido não se caracteriza pela referência, ele precede ao dizer, ele se constitui pelo enunciado.

2.2. A designação.

A designação, para Guimarães (2005), é a significação de um nome e tem relação direta com as relações de linguagem que tomam a palavra e o sentido nas estreitezas do real, ou seja, enquanto uma relação tomada na história. (p.9).
Dessa maneira, os sentidos das palavras não se apresentam prontos, cristalizados e estagnados no tempo ou no espaço. Eles se apresentam no acontecimento da linguagem pelas relações de sentidos que são possíveis de tecer com a história, com o tempo. Assim, é na enunciação que esses sentidos são produzidos, ou seja, no acontecimento político da linguagem.


2.3. A reescritura e a articulação: procedimentos de textualidade.

A reescritura é um procedimento de repetição na enunciação de um texto. A enunciação, segundo Guimarães ( 2007,p.84) rediz insistentemente o que já foi dito, fazendo interpretar uma forma como diferente de si.
Este procedimento, então, segundo o autor, acaba por predicar algo ao reescriturado, ou seja, atribui àquilo que já foi dito outros sentidos, porque o reescriturado aparece em outro momento do texto e, portanto, pode enunciar significados diferentes, inclusive por estar, também, atrelado ao procedimento da articulação.

2.4 A análise.
Para esta analise, considera-se, então, os procedimentos que Guimarães (2011) defende quando se refere à análise de textos:
a-) Toma-se um recorte qualquer e produze uma descrição de seu funcionamento;
b-) interpreta-se se sentido na relação com o texto em que está, outro recorte integrado;
c-) chega-se a, ou toma-se e faz-se dele uma descrição;
d-) interpreta-se seu sentido na relação com o texto em que está integrado, tendo em vista a interpretação feita no primeiro recorte;
e-) busca-se um novo recorte, etc., até que a compreensão produzida pelas análises se mostre suficiente para o objetivo específico da análise. (Guimarães, 2011,p.45)

No texto de João Capistrano Honório de Abreu, as referências ao rio São Francisco aparecem diferenciadas pelas expressões: rio S. Francisco, repetida 42 vezes, rio São Francisco, 2 vezes e São Francisco, 29 vezes, totalizando 73 referências. Essas repetições vão compondo uma divisão a respeito de como o autor predica a expressão em dois blocos de sentidos distintos: um, a partir dos sentidos das características e das influências da geografia do rio sobre a formação de limites das regiões brasileiras, e a outra, dos sentidos da importância desses limites para o colonizador, no reconhecimento, na conquista e no povoamento do País.
Assim, dada a quantidade de vezes que a palavra reincide na trajetória do livro, este trabalho limita-se a descrever apenas duas designações dela referentes aos capítulos I e II, e duas referentes aos capítulos IX e XI, designações que contribuem para formar os sentidos interpretados nesses dois blocos.

2.4.1 ? Bloco 1 : primeiro recorte ? Capítulo I : Antecedentes indígenas, p. 3

" O S. Francisco, de grande importância histórica, é formado pelo rio que com este nome desce da serra da Canastra, e pelo rio das Velhas. No trecho superior, os afluentes mais consideráveis correm entre estas duas cabeceiras até sua confluência; transposto já o salto de Pirapora, a divisora das águas com o Tocantins afasta-se e deixa que se desenvolvam o Paracatu, o Urucuia, o Carinhanha, o Corrente, o Grande, ao passo que a serra do Espinhaço se aproxima. Desde a barra do rio Grande para o mar, nem de uma, nem de outra margem concorre afluente algum considerável; os embaraços encontrados pela navegação acumulam-se, e tolheram as comunicações até ser transposto por uma via-férrea o trecho encachoeirado. O S. Francisco é, por assim dizer, a imagem de quase todos os rios do Brasil: no planalto, apenas o volume de água o permite uma extensão de centenas de léguas, às vezes, perenemente navegável por embarcações de maior ou menor capacidade; em seguida, a descida do planalto com saltos e corredeiras, como os do Madeira, o Augusto no Tapajós, o Itaboca no Tocantins, o Paulo Afonso no S. Francisco, e tantos outros; finalmente, as águas se acalmam e aprofundam, e os embaraços de todo desaparecem quando lhes sobra força suficiente para impedir a formação de baixios na barra".

Neste recorte, a expressão rio São Francisco é reescrita por expansão em relação à história do Brasil. Assim aparece desenvolvida por grande importância histórica, grande importância essa que é ressaltada durante o livro, uma vez que o autor sempre se refere ao rio como mais um forte aliado, por ser perenemente navegável, na aplicação da lógica colonizadora em ocupar o litoral e seguir em direção ao povoamento do sertão. Além disso a metáfora imagem de quase todos os rios do Brasil reescreve rio São Francisco por sinonímia, na fusão da idéia de que o rio São Francisco é, por assim dizer, os rios do Brasil, porque todos têm importância histórica e são compostos de planaltos e descidas de planalto onde as águas se tornam calmas e profundas.
Neste acontecimento, a expressão rio São Francisco aparece determinada por imagem de quase todos os rios do Brasil e reescrita por expansão em de grande importância histórica.

2.4.2. Bloco 1 : segundo recorte ? Capítulo II : Franceses e espanhóis, p. 34.
" Em fins de 89, Cristóvão de Barros, governador interino por morte de Manuel Teles Barreto, repetiu de novo a tentativa, com melhor êxito. Parte da força seguiu por mar, parte por terra, e reunidos deram em várias cercas dos naturais, que foram derrotados. Acossando estes, penetraram alguns aventureiros até o rio S. Francisco. No território devoluto Cristóvão de Barros separou uma enorme sesmaria para o filho; esta serviu de craveira para outras, e dentro em pouco não havia mais o que distribuir. Com esta campanha os franceses perderam as antigas ligações no rio Real.Na capitania de Duarte Coelho continuou o movimento para o rio S. Francisco. Fazendas de gado ou canaviais avançaram pelo território das Alagoas. Entre os povoadores desta região avulta o alemão Lins, que deixou larga descendência, e João Pais, de quem já se falou. Também daqui os franceses tiveram de retirar-se.Nos primeiros anos do século 17, podia-se viajar e viajava-se efetivamente por terra da Bahia até Pernambuco sem encontrar resistência séria por parte dos naturais, vencidos ou afugentados da marinha. O único obstáculo ao livre trânsito apresentava a passagem dos rios maiores, direito real, como já vimos.Os rios menores eram passados nos vaus, e assim continuaram nos séculos seguintes; pelos vaus pode-se traçar a borda da primitiva ocupação litorânea".


A expressão rio São Francisco é reescrita por substituição e por expansão em relação a sua geografia. Assim, território devoluto determina que a região geográfica do rio é uma terra pública, terra não habitada, não aproveitada, terra preservada de fins particulares e a ser utilizada apenas pelo Estado e região avulta , que a terra é volumosa, exagerada, extensa . A expansão se dá no sentido em que o território devoluto e região avulta são desdobradas por Cristovão de Barros separou uma enorme sesmaria para o filho, e dentro em pouco não havia mais o que distribuir. Nesta designação, a região do rio São Francisco aparece como uma marca geográfica de um lugar bastante visado para ocupação e, ao mesmo, os rios maiores como obstáculo ao livre trânsito para esta ocupação.

Neste acontecimento, a expressão rio São Francisco aparece determinada por território devoluto e região avulta, no fim de 89 ( século XVII) e reescrita por substituição em rios maiores e por expansão em obstáculo ao livre trânsito.
Assim a designação significa rio São Francisco como lugar geográfico devoluto, terreno avulto, de grandes obstáculos para a ocupação realizada por meio de travessia em vaus e pelos vaus pode-se traçar a borda da primitiva ocupação litorânea.

2.4.3 Bloco 2 ? primeiro recorte ? Capitulo IX ? O sertão, p.76:

" O recurso só podia partir da bacia do rio S. Francisco. Pelo dito rio ou pelo seu caminho, expõe um documento pouco posterior a 1705, " lhe entram os gados de que se sustenta o grande povo que está nas minas, de tal sorte que de nem uma outra parte lhe vão nem lhe podem ir os ditos gados, porque não os há nos sertões de São Paulo nem nos do Rio de Janeiro. Da mesma sorte se provêm pelo dito caminho de cavalos para suas viagens, de sal feito de terra no rio S. Francisco, de farinhas e outras cousas, todas precisas para o trato e sustento da vida.O rio S. Francisco, acrescenta, desde a sua barra que faz no mar junto à vila de Penedo, em igual distância de oitenta léguas da Bahia e Pernambuco, de uma e outra parte,assim do que pertence à jurisdição de Pernambuco como à da Bahia (para os quais serve de divisão o dito rio) tem às suas beiras várias povoações, umas mais chegadas, outras mais distantes do dito rio; e na mesma forma se vão continuando por ele acima, por espaço de mais de seiscentas léguas, até se ajuntarem na barra que nele faz o rio das Velhas, em cuja altura se acham hoje as últimas fazendas de gados de uma e outra banda do dito rio de S.Francisco, sem ter da dita barra até esta altura parte despovoada nem deserta em a qual seja necessário dormir ou alvergarem no campo os viandantes, querendo recolher-se na casa dos vaqueiros, como ordinàriamente fazem, pelo bom acolhimento que nelas acham".

A expressão rio S. Francisco é reescrita por substituição em dito rio e essa reescrituração se repete em vários momentos do trecho, sempre no sentido de atribuir ao rio sua importância como travessia condutora por onde lhe entram os gados de que se sustenta o grande povo que está nas minas, de tal sorte que de nem uma outra parte lhe vão nem lhe podem ir os ditos gados, porque não os há nos sertões de São Paulo nem nos do Rio de Janeiro. Além disso, a expressão aparece reescrita por expansão em suas beiras, para atribuir ao rio um caráter de região fertilizante para várias povoações, umas mais chegadas, outras mais distantes do dito rio; e na mesma forma se vão continuando por ele acima, por espaço de mais de seiscentas léguas, até se ajuntarem na barra que nele faz o rio das Velhas.

Neste acontecimento, uma referência do autor a um documento histórico, a expressão rio São Francisco aparece determinada por dito rio e reescrita por expansão por suas beiras, no sentido de atribuir à expressão o significado de região importante para a travessia e o para o transporte de gados e, ao mesmo tempo,fértil para a ocupação e para a povoação em suas beiras e em até regiões mais distantes dele.


2.4.4 ? Bloco 2 ? segundo recorte ? Capítulo XI ? Três séculos depois, p.p. 110-111:

" A zona criadeira começava um pouco acima da foz do São Francisco, acompanhava-lhe as margens a entestar com a fronteira de Minas Gerais, transpunha as vertentes do Tocantins e do Parnaíba, alcançava já enfraquecida o alto Itapicuru, compreendia as ribeiras de todos os rios de meia-água metidos entre a baía de Todos-os-Santos e a de Tutóia. A trechos se aproximava muito da beira-mar, de que em Ilhéus e Porto Seguro separavam-na a serra do Espinhaço e suas matas litorâneas. Em Pernambuco ocorria fato semelhante, porque como as ligações beiravam o rio de São Francisco, a maior ou menor distância, grande número de sertanejos achavam mais fácil e mais vantajoso
comunicar-se com a Bahia, deixando deserta uma região intermédia, variável em comprimento e largura; o caminho entre Pajeú e Capibaribe, que regulou esta anomalia, data dos primeiros anos do século XIX. Como vimos, pode-se chamar pernambucanos os sertões de fora, desde Paraíba até o Acaracu no Ceará; baianos os sertões de dentro, desde o rio S. Francisco até o sudoeste do Maranhão. Entre os sertanejos de um e outro grupo deve ter havido diferenças mais ou menos sensíveis. Talvez se venha a determiná-las um dia, quando forem divulgadas as relações dos missionários, corregedores, etc.; em todo caso as semelhanças entre os moradores de ambos os sertões avultam mais que entre quaisquer outros habitantes do Brasil. Nas margens do rio S. Francisco encontraram-se baianos e pernambucanos com os paulistas. Ao Sul e ao ocidente pode-se determinar até certo ponto os limites das duas correntes opostas, marcando os lugares em que os altos deixam de ser preferidos para a habitação, mesmo quando não há perigo de ser inundado o terreno, e entram a funcionar os monjolos".

.
A expressão rio S. Francisco é reescrita por repetição quatro vezes no trecho e essa reescrituação produz sentidos de que o rio e suas margens são regiões prósperas para a criação do gado, porque quanto mais a zona criadeira avança em direção ao sertão mais alcança já enfraquecida o alto Itapicuru, compreendia as ribeiras de todos os rios de meia-água metidos entre a baía de Todos-os-Santos e a de Tutóia. Assim, a reescritura por repetição se articula pelos sentidos expressos e desenvolvidos pela segunda repetição da expressão rio S. Francisco: os de que ele é também uma linha de comunicação eficaz entre os diferentes sertanejos ali existentes, quando o texto narra que em Pernambuco ocorria fato semelhante, porque como as ligações beiravam o rio de São Francisco, a maior ou menor distância, grande número de sertanejos achava mais fácil e mais vantajoso comunicar-se com a Bahia, deixando deserta uma região intermédia, variável em comprimento e largura; o caminho entre Pajeú e Capibaribe, que regulou esta anomalia, data dos primeiros anos do século XIX. E, finalmente, a expressão se repete e se desenvolve no sentido de atribuir ao rio e às suas margens o sentido que eram o lugar preferido desses sertanejos (paulistas, baianos, pernambucanos) para a ocupação e para o povoamento, mais preferido ainda do que as regiões mais altas, livres das enchentes : marcando os lugares em que os altos deixam de ser preferidos para a habitação, mesmo quando não há perigo de ser inundado o terreno, e entram a funcionar os monjolos.

Neste acontecimento, a expressão rio São Francisco aparece repetida quatro vezes e determinada por margens. Assim a designação significa rio São Francisco como um lugar onde a zona criadeira começa, onde se determinam espaços do sertão pernambucano e baiano, onde a comunicação entre os sertanejos ali existentes é eficaz e onde se misturam, por preferência de escolha da região, os povos baianos e pernambucanos com os paulistas.



3. Considerações finais: uma interpretação


O livro Capítulos de História Colonial, de João Capistrano Honório de Abreu tem grande importância histórica não só pela narrativa de parte dos fatos que compuseram a história colonial do Brasil, mas também por ser um texto que desenvolve uma compreensão da formação dos limites territoriais do Brasil, da ocupação litorânea e sertaneja e do povoamento dessas regiões na era do Brasil colônia;
O texto tem certo caráter interdisciplinar, passagens que citam a história, a sociologia, a geografia, a lingüística e a política da colonização brasileira e assim compõe uma forma de compreensão da formação do Brasil a partir da narração, da descrição e de uma certa reflexão sobre como a sociedade colonial se articulou durante os três primeiros séculos da história do Brasil.
A opção pela análise, neste trabalho, da expressão rio São Francisco se deu pelo fato de ela aparecer muitas vezes durante o livro. O autor se refere setenta e três vezes ao rio São Francisco, além, dos sinônimos que utiliza quando escreve sobre ele. Por isso mesmo, a análise foi dividida em dois blocos diferentes, como já foi dito.
A análise do primeiro bloco revelou que, no início do livro, (Capítulos I e II) a expressão assume sentidos ligados à geografia e a história.
Assim, as designações dela significam lugar histórico, geográfico e devoluto, lugar de posse do Estado, que foi, aos poucos, sendo transformado em ocupação privada e particular por meio de sesmarias e pela própria determinação do Estado. Além disso, significam região fértil, extensa, avulta, volumosa e, por isso mesmo, designada por meio da metáfora imagem de quase todos os rios do Brasil .
Nesta metáfora, a expressão funciona, do ponto de vista enunciativo, no sentido de atribuir ao rio São Francisco significados de sua importância histórica e geográfica para o Brasil, ora pelas suas características de fertilizante rio para a vegetação e para sua imagem de genuinamente brasileiro e ora por sua característica de perenemente navegável. Ainda no primeiro bloco, a expressão é reescrita por expansão em rios maiores e, no sentido de que o rio São Francisco era, apesar de tudo, um grande obstáculo, mas transponível, para a travessia do gado.










Já no segundo bloco, composto pelos capítulos IX e XI, a designação do nome rio São Francisco aparece já ligada à ocupação e ao povoamento do país, quando é reescrita por dito rio e passa a significar, além de região importante para a travessia e o para o transporte de gados, terreno fértil para a ocupação e para a povoação em suas beiras e em até regiões mais distantes dele.
Ainda na composição do segundo bloco, a expressão aparece repetida quatro vezes e determinada por margens. Assim a designação significa rio São Francisco como um lugar onde a zona criadeira começa, onde se determinam os espaços do sertão pernambucano e baiano, onde a comunicação entre os sertanejos do local é eficaz e onde se misturam, por preferência de escolha da região, os povos baianos e pernambucanos com os paulistas.
Nesse sentido, a expressão rio São Francisco reincide várias vezes no livro, organizando uma trajetória de compreensão da importância histórica, geográfica e política do rio na formação dos limites brasileiros e na dinâmica da ocupação e do povoamento do território litorâneo e sertanejo do Brasil.






























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