* Artigo escrito e publicado em 2012.

A proximidade das eleições presidenciais nos EUA, que ocorrerão em menos de uma semana, nos faz pensar, e, mais além, meditar sobre muitas e variadas questões. A mais relevante delas é, no meu entendimento, a espécie de comunicação entre o candidato republicano Mitt Romney e os eleitores que pretende conquistar. Uma relação baseada, sobretudo, na verdade. Sim, é o que você leu. Uma relação fundamentada na realidade objetiva dos fatos, pois Romney não é um político comum. Ele se caracteriza por ser extremamente fiel ao programa de governo do Partido Republicano e faz questão de mostrá-lo. O exemplo mais evidente ocorreu há cerca de um mês, durante um diálogo com ricos doadores de campanha. Em meio à conversa, além de dizer que 47% do eleitorado americano irá votar em Barack Obama “aconteça o que acontecer”, Romney afirmou que não se preocupa com ditas pessoas, eis que, segundo ele, não pagam imposto de renda e não querem assumir responsabilidade por suas vidas, ao mesmo tempo em que desejam indevidamente o fornecimento gratuito de casa, comida, saúde e educação por parte do Estado, que não deveria ter tal função. O diálogo foi gravado por um celular e acabou veiculado na internet, causando um enorme estrago na campanha republicana, mas, quando confrontado, o candidato não se desculpou e confirmou seu pensamento, dizendo apenas que usou as palavras erradas (não é idiota e sabia muito bem que a conversa poderia estar sendo gravada, uma vez que as campanhas nos EUA são sujas, mas ainda assim foi em frente), se mantendo fiel à plataforma de seu partido, mesmo que ela venha a lhe custar a eleição. Da mesma forma, impressiona o modo como ele não pretende esconder que é um multimilionário bem apegado ao seu sucesso material, e que quer continuar a exibir seu próprio estilo de vida, mesmo em época de crise. Ele é, de fato, um exibicionista, o que é confirmado por fotos em que passeia em sua lancha de milhões de dólares junto à família. Tais atitudes, num país que ainda conta com milhões de pessoas em estado de insegurança alimentar – elas também existem nos EUA – podem ser consideradas, no nível moral, um escândalo. Mas referidos fatos encontram eco na mentalidade descrita no segundo parágrafo: afinal, Romney está implicitamente afirmando que, ao revés dos 47% de eleitores que manifestamente desprezou, assumiu responsabilidade por sua vida. Dá o “exemplo” de que não se deve depender do Estado, e que, se ele chegou onde está agora, qualquer um pode chegar. Por fim, urge destacar a reação de Romney à crise ocasionada pela chegada do furação Sandy ao país. Ele e o Partido Republicano defendem que crises de tamanho porte não devem ser gerenciadas pelo governo federal, e sim pelos estados, o que fez com que viesse a se posicionar favoravelmente à extinção da Agência Federal de Combate a Desastres Naturais, a FEMA. Assim, cancelou a ida a alguns dos estados mais atingidos pela tragédia, dando sinais de que, com ele na Presidência, a Casa Branca não mais teria a responsabilidade pela reação a eventos similares. Mas, diante da rápida reação de Barack Obama e da FEMA à referida tempestade, optou pelo silêncio. Silenciou, mas não voltou atrás, ou seja, não se disse a favor da manutenção do órgão (até porque, diga-se, poderia favorecer Barack Obama na disputa eleitoral). A poucos dias da maior eleição do planeta, Romney pode ter cometido suicídio eleitoral ao defender posições tão polêmicas. Eu mesmo detesto as suas idéias e as de seu partido. São, muitas vezes, posicionamentos que considero bestiais, como o não controle de armas de fogo numa sociedade que tem quase 100 homicídios por dia, o apoio sem limites a um eventual ataque de Israel ao Irã e a diminuição máxima dos benefícios sociais com a argumentação de que, com o máximo esforço pessoal, qualquer um pode enriquecer (sabemos que não é assim, já que o sucesso de cada um depende muito mais de forças que vão além do controle individual, como toda uma conjuntura econômica mundial, do que somente do empenho próprio). No entanto, reconheço que ele é um político raro, que peca pela excesso de coerência e por defender a ideologia republicana até o fim, por mais perturbadora que ela seja. Ainda que, no fundo, eu não deseje nem um pouco que ele se eleja. P.S. Também não gosto de Barack Obama (independentemente de sua reação à chegada de Sandy). Apenas o considero menos pior.