A Crucifixão de Cristo: Um Assassinato Motivado por Ambição

Por Leôncio de Aguiar Vasconcellos Filho

*Artigo escrito e publicado em 2021

Quando se fala a respeito de um personagem religioso, pouco se tem a acrescentar. Afinal, a doutrina seguida por milhões (no caso, mais de 1,2 bilhões) nos é sugestionada desde cedo, pois foi ela a moldar nossas personalidades para interagir numa sociedade que, na sua própria etimologia, se autodefine: civilização judaico-cristã ocidental. Deste modo, nós, ocidentais, aceitamos como verdade última questões de fé que nos foram transmitidas, como se ela fosse a História em si.

Mas, aqui, pretendo falar do Cristo histórico, não do Cristo religioso, bem como das causas mundanas que levaram ao seu sacrifício na cruz. E falo tendo em mente que - também, mas não exclusivamente - os evangelhos podem ser fontes para o entendimento do Ocidente, tal como o conhecemos. Por isso, ao argumentar sobre aquela que, talvez, seja a maior personalidade da História, levarei em conta somente ela: a História, e não seu lado alegadamente divino.

É consenso entre os historiadores que Ele, de fato, existiu. E, segundo as fontes mais confiáveis, teria nascido entre 2 d.C. e 7 d.C. na Galileia, pertencente à província romana da Judeia. Era, portanto, Judeu por Jus Soli. De sua infância, sabe-se pouco: teria sido evacuado por seus pais e junto a eles ao Egito quando bem tenro, de modo a escapar do Massacre dos Inocentes, perpetrado por Herodes em face de crianças menores de uma certa idade (confesso que não lembro a faixa etária exata), com o intuito de, entre eles, assassinar quem, conforme as escrituras, seria o futuro Messias e libertador dos judeus, num ambiente dominado politica e militarmente pelo Império Romano.

O tempo passou e nada se sabe a respeito de sua adolescência mais remota. Há várias teorias, e a que considero mais crível afirma que Ele percorreu imensas distâncias em direção ao Oriente mais distante, particularmente a Índia, onde teria aprendido filosofias e práticas de cura das quais, ao reaparecer na Judeia por volta dos quase 30 anos de idade, fez uso diante da população local (esta é uma das hipóteses aventadas, não a única, mas, volto a dizer, para mim a mais crível - vide os 40 dias e 40 noites de dura meditação no deserto).

Se está, aqui, falando de um homem que se envolveu num extenso movimento de solidariedade aos mais despossuídos, com os quais a potência militar ocupante não se importava, vez que dava mais atenção à objetivada eliminação das violentas facções judaicas resistentes à sua dominação, como a Zelote. Cristo, portanto, não se envolvia com esses movimentos, mesmo sendo judeu, vez que repudiava a violência, ainda que contra os ocupantes. Dizia para seus seguidores, incluindo os apóstolos - e isso é muito importante - que respeitassem a lei. E a lei vigente era a romana (não é a toa que, aconselhando acerca do pagamento de tributos, disse “dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”). Não era, desta forma, uma ameaça ao Império Romano.

Seu objetivo era ajudar os que, como ele, nasceram nos extratos mais baixos da sociedade judaico-romana, já que estava intimamente convencido que, se seus pais o exilaram no Egito para escapar à fúria de Herodes, é porque sua pessoa teria uma importância, no mínimo, messiânica (aí, meus caros, cabe a cada um julgar intimamente, sem pressão de quem quer que seja, se José e Maria, bem como Ele próprio, estavam certos ou errados - não vou dar minha opinião, inclinando-me para qualquer das teorias, a fim de não ferir suscetibilidades, mas o fato é que, sendo homem mundano ou divino, Ele ajudou muita, mas muita gente num universo populacional numericamente bem menor se comparado ao Estado de Israel atual, o que aumentou exponencialmente seu percentual de sucesso).

Milagres são todos os acontecimentos que a ciência não pode, ou não podia, explicar. E era isso o que Ele fazia ao curar os enfermos. Ajudava tantos quantos podia, talvez utilizando as técnicas orientais que aprendera em sua peregrinação durante a não registrada juventude, e quem sabe no escopo de, em sua pátria judaica, fazer jus à sua autodeclarada condição. Sua fama se espalhava pela Judeia, incluindo a Galileia, e os mais vulneráveis imploravam por sua ajuda, que Ele prestava sem, jamais, pedir o que quer que fosse em troca.

Só que havia um porém: Ele fazia parte da seita dos essênios, que contestava muito os hábitos e atitudes do sumo sacerdote, Caifás, e de seus anciãos do Templo de Jerusalém.Homens que, simultaneamente ao fato de seguirem ritos e liturgias, ostentavam uma vida nababesca, bancada pelos mais baixos escalões sociais, e se acomodavam em tal sistema, dos quais somente eles se beneficiavam (os romanos, ao contrário de outras potências ocupantes ao longo da Antiguidade, davam liberdade de religião e culto aos povos conquistados, e muitas vezes até incorporavam os deuses dessas populações ao seu Panteão, vez que eram politeístas). Cristo, mais que seguir ritos, liturgias e hierarquias clericais, queria ação em favor do povo judeu, na época já tão sofrido, e isso incomodava Caifás e seus subordinados, ainda que Cristo nunca os houvesse afrontado (o único momento registrado em que Cristo usou de violência física foi quando expulsou os vendilhões do templo).

Caifás tinha autoridade não somente sobre as questões religiosas do Templo - eis que era o sumo sacerdote - mas também sobre violações dessas mesmas questões na vida mundana, independentemente de terem afrontado ou não a lei romana em si. E tinha poder para mandar prender quem violasse essas normas, incluindo a blasfêmia por se dizer “Filho de Deus” e “Rei dos Judeus”, algo que Cristo vinha repetidamente fazendo durante seu ministério.

Um dia, meditando no Jardim de Getsêmani, aparece a guarda do Templo de Jerusalém para prender Cristo e levá-lo ao Sinédrio, instância máxima de julgamento das violações da lei judaica na época (também não entrarei no mérito sobre se Ele previu ou não sua própria detenção, pois, como expresso, esta é uma análise mundana, e não religiosa, das razões que ocasionaram a crucifixão de Cristo). Levado à presença de Caifás, que presidia a sessão, este manda-lhe repetir se era, mesmo, o “Filho de Deus”. Cristo aquiesce, enfurecendo Caifás e os guardas do Templo, que o mandam ao julgamento do governador romano da Judeia, Pôncio Pilatos.

Na presença da suprema autoridade romana da Judeia, esta fez a Cristo os mesmos questionamentos sobre seu alegado messianismo, pelo que Ele respondeu afirmativamente. Pilatos disse que não via crime algum naquele homem, uma vez que, como relatado, ele não havia infringido nenhuma lei imperial e mandava os seus não infringirem. Pilatos alegou que o caso não seria de sua jurisdição, mas de Herodes Antipas, na Galileia, e para lá mandou Cristo - que foi, por aquele, devolvido a Pilatos. Tentando acalmar novamente a multidão que o pressionava, Pilatos mandou surrar Cristo de modo desumano, a fim de saciar os ânimos dos que estavam do lado de fora, para que tivessem piedade daquele homem. De nada adiantou.

Pilatos, que tinha o poder de libertar Cristo, se acovardou. Então, deixando o Direito Romano de lado, aplicou o Direito que hoje chamamos de Consuetudinário: como era a semana da Páscoa Judaica, havia o costume de a multidão libertar um prisioneiro, dentre opções dadas pela autoridade romana. Pilatos “lavou as mãos” e disse para os presentes escolherem entre libertar Cristo ou Barrabás, que era ladrão e assassino de um soldado romano, eis que fazia parte da citada facção resistente Zelote. Os presentes - dentre os quais, certamente, não estavam os que Cristo curou, ou, estando alguns, eram estes contra toda aquela covardia - escolheram libertar Barrabás, talvez pelo fato de ainda nutrirem ranço contra a ocupação romana, que a organização à qual pertencia combatia violentamente.

A filosofia de não violência de Cristo, portanto e infelizmente, se voltou contra Ele. Foi crucificado entre dois criminosos, o que evidencia que a crucifixão era comum no Império Romano (mostra-se, com isso, que Cristo não foi o primeiro, nem o último a ser crucificado nos domínios romanos: no século anterior, ainda durante a República, os seguidores do gladiador trácio Spartacus - num total de 6 mil - sofreram a mesma pena, já que este os liderou em uma rebelião de escravos que abalou a capital, Roma, e outros rincões republicanos. Cristo, desta forma, não foi o único, mas o mais eminente a ser crucificado).

O rumo dos acontecimentos deve ter abalado Pôncio Pilatos pelo resto de sua vida (sobre o qual pouco se sabe). Primeiro, por ter conseguido se abster, legalmente, da necessária intervenção na injusta condenação de um inocente utilizando-se dos costumes, ou seja, consuetudinariamente, e levando em consideração apenas os interesses do sumo sacerdote e sua casta de intocáveis - ainda mais quando se tem em conta que Cristo não possuía a cidadania romana, tendo sido, apenas, um habitante do Império.

Segundo, porque, desde que assumiu o cargo de governador da Judeia, em 26 d.C., foi chamado de volta a Roma pelo imperador Tibério, para dar explicações de algum ato administrativo, apenas dez anos depois, em 36 d.C. - isto é, após a morte de Cristo - por conta de um massacre de judeus resistentes no Monte Gerizim, hoje território Cisjordaniano, repercutindo a chamada negativamente em sua carreira depois de tantos anos ocupando o cargo. Tal banho de sangue, certamente, deve ter sido, se não de todo, parcialmente influenciado por algum antissemitismo decorrente dos atos da multidão perante Cristo, e diante da qual ele, Pilatos - digo novamente - se amedrontou (entretanto, Pôncio Pilatos é tido como santo e mártir pelas Igrejas Cristãs Etíope e Copta, justamente em razão de sua extrema relutância em permitir a execução de Cristo).

Obs: não se deve, de forma alguma, discriminar qualquer grupo nacional, étnico, racial, religioso ou de qualquer outra vertente pelo que quer que seja, eis que, embora a História da Humanidade seja marcada por rios de sangue, é sempre uma minoria que perpetra ditas barbaridades. Assim, e até mesmo por uma questão lógica de aritmética e demografia - pois nunca é a maior parte de uma população inteira que cabe num pátio anexo a um centro de decisões, e nunca são todos os presentes que incitam à barbárie - jamais podemos culpar os judeus pela morte de Cristo, nem a maioria da população romana residente em Jerusalém, na ocasião, pelo ocorrido. Devemos ter sempre a consciência de que toda generalização é uma forma de nazificação: algo que almejamos nunca mais ocorra, seja com judeus, ciganos, deficientes, negros ou quaisquer outros, de todos e quaisquer grupos sociais.